Estereótipos de Gênero no campo da Ciências e Tecnológica: o que as infâncias podem contribuir a esse debate.
Joao Paulo Ramos De Moraes, Carolina Rodrigues Souza,
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 23/07/2021
- Linha de pesquisa
- Políticas Públicas E De Inclusão No Ensino De
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## Estereótipos de Gênero no campo da Ciências e Tecnológica: o que as infâncias podem contribuir a esse debate.
## João Paulo Ramos de Moraes² , Carolina Rodrigues Souza²;
1 Universidade Federal de São Carlos /Departamento de Física, jmoraes@estudante.ufscar.br
2 Universidade Federal de São Carlos /Departamento Metodologia de Ensino, rs.carol.souza@gmail.com
Palavras-chave:
Ciência, Infância, Gênero
## Resumo expandido
O presente trabalho qualifica-se como um ensaio teórico, com o objetivo de estudar o(s) estereótipo(s) de gênero no campo da Ciência e Tecnologia e a possível contribuição dos estudos da infância ao campo. A pesquisa, envolveu revisões da literatura que discutem ao menos dois dos temas norteadores da pesquisa: ciência, gênero e infância, visando entender como são reproduzidos, assimilados e subvertidos os estereótipos na infância e possibilidades de diálogo com cultura científica.
- O debate sobre a questão de gênero nas ciências exatas tem sido amplamente explorado na literatura. Chassot (2003) nos fornece uma análise histórica da relação das mulheres com as ciências naturais de como esse cenário desigual foi moldado dentro de nossa sociedade, seguindo as tradições judaicocristãs. Aguero (2017) apresenta uma análise contemporânea do cenário atual das mulheres na física e aponta sobre como o processo de identificação de si em contraposição ao estereótipo do cientista e da cultura científica se mostra como um empecilho para as mulheres nessa área, além do machismo estrutural presente nesses grupos. De forma que foi possível concluir que o desinteresse feminino pelo campo das ciências e tecnologias, desde os primeiros anos, como apontado por Cheryan (2015), é decorrente da forma como apresentamos os estereótipos e solidificamos o pensamento das crianças, seguindo uma estrutura binária.
Pensamento que converge com o desenvolvido por Saboya (2013) em sua revisão teórica sobre a ciência e gênero. A autora afirma como as ciências e tecnologias (C & T) enfatizam o lado masculino de um conjunto de dualismos generificados: objetividade versus subjetividade, racionalidade versus irracionalidade/emocionalidade, mente versus matéria ou corpo. Na extensa revisão teórica apresentada por Saboya (2013), às infâncias e os processos vivenciados na experiência de ser criança, não aparecem nos artigos analisados, como categorias de interesse analítico.
Na revisão realizada, encontramos Fagionato-Ruffino (2013), que apresenta em seu trabalho a concepção de cientista das crianças. É possível perceber que elas compreendem e incorporam alguns elementos que fazem parte da cultura científica, inclusive reproduzem certos estereótipos, como se questionar se uma mulher poderia ser cientista. Contudo a lógica infantil, permite a subversão às normas, trazendo elementos da cultura infantil para sua forma de ser e estar no
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
mundo. Segundo Sarmento (2003), as crianças constroem modos de significação do mundo que são distintos daqueles dos adultos, mas são próprios do mundo infantil, tomando como base sua forma de experimentar e viver este mundo, em interações com outras crianças e com os adultos. Foucault (1977) se pergunta se infância não constituiria justamente a liberdade de não ser adulto, de não depender da lei e de poder estabelecer relações polimorfas com as coisas, com as pessoas e com os corpos.
Finco (2003) afirma que a menina pode brincar com seu amigo de boneca e depois de carrinho não por que há uma busca de 'ser justo', mas por que ela não vê essa delimitação que existe do mundo adulto de meninos e de meninas. A transgressão em relação à utilização dos brinquedos considerados "certos" e "errados" para cada sexo é corriqueiro nas infâncias. Os meninos e meninas brincam de tudo que dá prazer. Esse exercício de transmutação da realidade feito pelas crianças nos fornece pistas de como trabalhar com elas atividades que potencializam essa transfiguração desejada na cultura científica.
Tais pesquisas foram nos levando a questionar a ideia de estereótipos de gênero para as crianças, já que o ato de pensar gênero na infância se trata de abrir mão do raciocínio lógico e causal, usual na lógica adultocêntrica. As crianças recriam o mundo e suas possibilidades a todo momento e isso é fenomenal. Elas pensam de inúmeras maneiras e em múltiplas experiências. Enquanto brincam, produzem diferentes formas de si, transformam seus corpos em fadas, borboletas, super heróis, bruxas etc. Criam novas formas de subjetividades, sem que nós saibamos muito sobre elas. Todo movimento de uma criança apresenta uma nova possibilidade de descoberta. O movimento de sua língua a fim de possibilitar novas palavras, o movimento do corpo para descobrir as cambalhotas e o movimento de que e quem elas são também faz esse exercício de busca de novas descobertas. Meninas e Meninos percebem a arbitrariedade das regras e revelam a todo momento que não as aceitam. As crianças brincam do que desejam, e não do que é de menino ou de menina. Brincam com o que lhes são impostos, mas transbordam. Elas criam, inventam, experimentam, buscando outros sentidos e possibilidades. De forma que não cabe tratá-las como criaturas da cultura adulta, mas sim de criadores de sua própria cultura
O panorama conclusivo dessa pesquisa, vai ao encontro das discussões sobre a existência da produção de cultura e corpos em uma sociedade em que historicamente, grande parte das mulheres tem se ocupado das funções relacionadas aos cuidados e os homens das carreiras C&T. A falta de problematização e pesquisa desses estereótipos, faz vazar para a educação das crianças, formas de ser e estar no mundo. São forças biopolíticas. Mapear essas forças binárias, pode ser fonte de pistas para o debate dos estereótipos de gênero nas C & T, já que esses não nascem com as crianças. Aliás, elas tentam o tempo todo fugir das classificações e regras que possam limitar suas múltiplas formas de existência. No entanto, vivemos em uma sociedade em que as possibilidades de rompimento das fronteiras de gênero são associadas ao campo da patologia, da anormalidade.
Segundo Souza (2020), a infância carrega a possibilidade de mudança, do mundo ser outra coisa. Aqui compartilhamos do esforço posto por Deleuze e Guattari, que concebem 'a ideia de um adulto modulado pela criança, a ideia de que o homem precisa do devir criança para conseguir desfazer os modelos consensuais
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anteriores ao seu próprio pensamento (SCHÉRER, 2012, pg. 66)'. O que nos leva a concluir, que os estudos das infâncias podem contribuir no debate dos estereótipos de gênero nas C & T. Os estudos sobre as crianças e as infâncias precisam sair do lugar de desprestígio no campo da Educação Científica e, em particular, do debate de gênero nas C & T.
## Referências
AGUERO, Natasha F., DENARDO, Thandryus A. G. B., NANCLARES, Dimy. Análise da dinâmica identitária acerca das questões de sexo, gênero e LGBT em dois Institutos de Ciências Exatas. In: XXII Simpósio Nacional de Ensino de Física - SNEF 2017 - São Paulo, SP. Atas do Evento
CHASSOT, Attico, A CIÊNCIA É MASCULINA? É, sim senhora!..., Contexto e Educação -Editora UNIJUÍ Ano19 - no 71/72 -Jan./ Dez. 2004 P. 9 - 28 Disponível em: <
https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/contextoeducacao/article/view/1130 >. Acesso em: 15 agosto de 2018
CHERYAN, Sapna. Cultural stereotypes as gatekeepers: increasing girls' interest in computer science and engineering by diversifying stereotypes. Frontiers in Psychology , [s. l.], v. 6, 11 fev. 2015. DOI https://doi.org/10.3389/fpsyg.2015.00049. Disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2015.00049/full. Acesso em: 18 mar. 2021.
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FINCO, Daniela. Relações de gênero nas brincadeiras de meninos e meninas na educação infantil. Pro-Posiçães, Campinas, v. 14, n. 42, p. 89-101, 2003.
FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1977.
SABOYA, Maria Clara Lopes. RELAÇÕES DE GÊNERO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA: UMA REVISÃO DA BIBLIOGRAFIA NACIONAL E INTERNACIONAL. Educação, Gestão e Sociedade : Revista da Faculdade Eça de Queirós, [s. l.], n. 12, 2013.
SARMENTO, M. J. Imaginário e culturas da infância. Cadernos de Educação , Pelotas, v. 12, n. 21, p. 51-69, 2003.
SCHÉRER, R. Devir-criança : devir-maior ou devir-menor. Conversa com René Schérer. Imprópria. Política e pensamento crítico. N. 2, 2012.
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