EXPERIÊNCIAS DE VIDA E SUPERAÇÃO DE OBSTÁCULOS DE UMA DOCENTE NEGRA NAS CIÊNCIAS EXATAS
Juliana Coutinho, Antonio Fontes, Viviane Morcelle
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 23/07/2021
- Linha de pesquisa
- Políticas Públicas E De Inclusão No Ensino De
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## EXPERIÊNCIAS DE VIDA E SUPERAÇÃO DE OBSTÁCULOS DE UMA DOCENTE NEGRA NAS CIÊNCIAS EXATAS
## Juliana Coutinho 1 , Viviane Morcelle 2 , Antonio Fontes 3
1 UFRJ/PEMAT,julianasmendonca@gmail.com 2 UFRRJ/Departamento de Física/PPGEduCiMat, vivianemorcelle@gmail.com 3 UFRJ/Instituto de Física, toni@if.ufrj.br
Palavras - chave: mulheres negras; ciências exatas; questões raciais e de gênero
## Resumo
A carreira docente nas universidades, assim como outras profissões de prestígio social, representa um espaço em que a participação de mulheres negras e homens negros ainda é muito pequena, principalmente no que tange o campo das Ciências Exatas como a Matemática e a Física. Diante da constatação da ínfima presença de pessoas negras em cargos de docência no ensino superior, assim como na maioria das instituições de ensino e pesquisa públicas do país, procuramos compreender como uma mulher negra conseguiu superar obstáculos impostos, como opressões de raça, de gênero e de classe e se tornar uma professora universitária e pesquisadora. Para alcançarmos tal objetivo, entrevistamos uma docente negra do campo das ciências exatas, visando compreender sua trajetória profissional e de vida.
A motivação para investigar tal tema surgiu de constatações feitas acerca da mínima presença de pessoas negras atuantes como docentes durante minha graduação. Ao longo de meu curso de graduação identifiquei apenas uma docente negra, que por sua vez foi minha professora, e nenhum professor negro lecionando naquele local. A partir de então, a experiência por mim percebida se consolidou como objeto de pesquisa através de um aporte teórico intitulado por Teoria Crítica da Raça (TCR) (DELGADO E STEFANIC,2001), tendo em vista que a mesma discute a estrutura racialmente hierarquizada da sociedade e das instituições, como por exemplo, o fato da ausência de negras e negros em cargos considerados socialmente de prestígio como médicos, juízes, professores universitários ou o fato de negros e negras constituírem a maior parte da população pobre e favelada no nosso país (LISBOA, 2015). Nesta pesquisa, a TCR é apresentada através de uma abordagem interseccional, ou seja, o racismo é investigado a partir de sua conexão com outros sistemas de opressão como por exemplo: questões de gênero e de classe. Entendemos que a utilização de algum desses sistemas discriminatórios de forma isolada, acaba apresentando um quadro reducionista das opressões enfrentadas por pessoas que estão sujeitas a uma variedade desses sistemas devido à sua condição, como por exemplo uma mulher que é negra e pobre. A Teoria Crítica da Raça e estudos pautados no Feminismo Negro (HOOKS,2019) buscam entender como mulheres negras constroem uma identidade científica, como cientista ou pesquisadora, o que por sua vez é um dos objetivos da pesquisa. Diante disto, num âmbito mais geral buscamos obter meios para superar a sub representatividade de pessoas negras, mais especificamente mulheres negras nas ciências exatas.
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
A inserção ao cargo de docente no ensino superior requer um investimento de muitos anos de estudo em diversos estágios educacionais, como cursos de graduação e pós graduação, em níveis de mestrado e doutorado e o estágio de pósdoutorado, especialmente no campo das ciências exatas. Sobretudo nas instituições públicas, este acesso se dá por meio de concurso. Portanto, para se tornar uma docente do ensino superior, é fundamental enfrentar uma laboriosa formação profissional de anos de estudos superiores, além de incluir atividades como publicação de artigos, participação em grupos de pesquisa, produção científica, apresentação de trabalhos em congressos ou eventos acadêmicos, projetos de extensão dentre outros.
A pouca representatividade de mulheres nas ciências exatas está relacionada a predominante ideologia de um ciência caracterizada pela neutralidade e racionalidade. Além disso, existem alguns estereótipos como, cientista ser homem, branco, heterossexual, ocidental, de classe média para alta, não detentor de necessidades especiais, deste modo, aqueles que não correspondem a este modelo idealizado acabam não se reconhecendo no ofício. Quando destacamos a mulher negra, entendemos que há uma desconexão entre a imagem de pesquisador/cientista e da imagem da mulher negra construída socialmente como não apta ao 'fazer ciência', o que constitui um meio de privação destas de disfrutarem de oportunidades na construção de uma carreira acadêmica.
A metodologia de pesquisa utilizada é de caráter qualitativo. Foi realizada uma entrevista semiestruturada com a docente, de modo a percorrer seu caminho desde a educação básica até o acesso ao cargo de professora numa universidade federal. Além disso, foram consideradas como parte da trajetória tanto as relações profissionais cotidianas como todas as atividades desenvolvidas na área acadêmica, ainda que não exclusivamente como docente. A entrevista foi conduzida em agosto de 2020, através de ambiente virtual, devido ao cenário de pandemia. Utilizamos a Análise de Conteúdo segundo Laurence Bardin (2011) como técnica metodológica, pois esta pode ser aplicada a um dos pontos presentes no referencial teórico utilizado, a saber a Contra história, que se apresenta como a possibilidade de que a história de sujeitos marginalizados em determinada sociedade seja contada.
A partir da análise da entrevista visamos entender como se deu a construção da identidade cientifica de uma mulher negra, quais os principais obstáculos enfrentados por ela ao longo de sua carreira e como ela os superou. Através deste estudo, temos por objetivo compreender como racismo, machismo e condições classistas influenciam na construção acadêmica e profissional de uma mulher na área das Ciências Exatas. E entender como a intersecção desses sistemas de opressão contribui para a pouca presença de mulheres negras em posições de prestígio social como professoras universitárias, por exemplo. Espera-se que a partir dos resultados oriundos deste trabalho possa contribuir para a elaboração de políticas públicas e no campo da universidade, para inclusão de mulheres e pessoas negras nas carreiras de Ciências Exatas.
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## Referências
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo . São Paulo: Edições 70, 2011.
DELGADO, Richard; STEFANCIC, Jean. Critical race theory: An introduction . New York :
New York University Press, 2001.
HOOKS, bell. (2019) E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismos ; tradução Bhuvi Libanio. 1 ed. Rosa dos Tempos.
LISBOA, Vinícius. Mesmo com maior participação, negros ainda são 17,4 % no grupo dos mais ricos. Agência Brasil , 2015. Disponível em:
https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2015-12/negros-aumentamparticipacao-entre-os-1-mais-ricos-no-brasil . Acesso em: 15 de março de 2021.
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