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Estudo Acerca do Peso de Fatores Socioculturais na Análise de Desempenho do Projeto de Raios Cósmicos

Amanda Cecilia Silva, Marco Aurelio Lisboa Leite

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
23/07/2021
Linha de pesquisa
Questões Curriculares No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ESTUDO ACERCA DO PESO DE FATORES SOCIOCULTURAIS NA ANÁLISE DE DESEMPENHO DO PROJETO DE RAIOS CÓSMICOS

## Amanda Cecilia Silva 1 , Marco Aurelio Lisboa Leite 2

1 Universidade de São Paulo, amanda.cecilia.silva@usp.br

2 Universidade de São Paulo, leite@usp.br

Palavras-chave : Avaliação; Raios Cósmicos; Fatores Socioculturais

## Resumo expandido

No cenário atual da pesquisa em ensino de física é notável a preocupação com a inserção da física moderna e contemporânea (FMC) no ensino médio brasileiro, durante as últimas décadas muitas pesquisas foram desenvolvidas acerca das justificativas e objetivos do ensino dessa frente da física, além de propostas didáticas que sugerem maior preocupação em como trazer esse conteúdo, de modo prático, às salas de aula.

Nesse contexto o projeto de extensão de Raios Cósmicos 1 busca, partindo da proposta de criação de uma rede de detectores de raios cósmicos em escolas por todo país, apresentar a possibilidade de tornar tanto o manuseio e manutenção dos detectores, quanto os fenômenos por ele detectados, em temas-foco para a inclusão da física de partículas nas escolas. O projeto, em fase de desenvolvimento, conta com dimensões técnicas, responsáveis pelo estudo e desenvolvimento dos detectores, e as dimensões ensino, responsáveis pela construção de propostas metodológicas e pelo processo avaliativo do projeto. Nesse sentido, o presente trabalho trata-se de um estudo destinado ao estabelecimento de categorias avaliativas que levem em conta fatores presentes nos contextos das escolas parceiras 2 .

Além das justificativas enunciadas de modo mais frequente quanto a inserção da FMC no ensino básico, como aquelas relacionadas ao seu caráter atual, seu potencial em despertar interesse tanto nos alunos quanto nos professores, proximidade com o fazer científico potencializando o interesse do aluno em compô-lo, promover esclarecimento quanto as pseudociências, etc (OSTERMANN e MOREIRA, 2000); discute-se nesse trabalho a relevância, numa rede de colaboração entre escolas e universidade, tal qual proposto, da possibilidade de difusão do conhecimento técnico-científico produzido na universidade para além dela, à sociedade. Reconhece-se, ainda, que um grande problema presente em instituições de pesquisa traduz-se exatamente no enclausuramento do conhecimento, acabando por contribuir com a ampliação do acesso desigual ao mesmo e, entendendo o conhecimento técnico-científico como um recurso gerador de desigualdade, uma vez que equipa quem o detém de vantagens nas mais diferentes dimensões, esse

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19 a 30 de julho de 2021 - Online

enclausuramento acaba afetando, de certa forma, o bem estar dos indivíduos que não os detém (TILLY, 2006).

Tendo a questão da desigualdade de conhecimento científico em mente e a ampla cartela de contextos envolvidos no projeto, entende-se que a avaliação deve ser pautada no estudo da influência de fatores socioculturais na implementação do projeto. Nesse sentido adotou-se como referencial teórico o sociólogo Pierre Bourdieu, em especial o recorte de sua obra que se refere à influência do capital cultural no êxito e fracasso escolar, como crítica à noção meritocrática e inatista do 'Dom' (BOURDIEU, 1966; BOURDIEU, 1979). A adoção de fatores socioculturais na avaliação é interessante na medida em que não se restringe ao desempenho dos estudantes e propõe um mapeamento do contexto em que esse desempenho foi construído, fugindo do sedutor caminho de considerar apenas notas que nada, ou pouco, informam acerca das relações entre indivíduos, contextos social e cultural e o conhecimento.

- O caminho então traçado para a avaliação do projeto foi pautado no desenvolvimento do mapeamento dos contextos escolares, divididos em contexto amplo e específico, onde o primeiro relaciona-se com as condições sociopolíticas características ao entorno das escolas (índices municipais e desempenho geral da escola em exames nacionais), e o último relaciona-se com fatores socioculturais das turmas que efetivamente participarão do projeto.

No que diz respeito ao contexto amplo, buscou-se obter informações relacionadas à dimensão educação relacionada às condições gerais presentes nos municípios das escolas parceiras. O levantamento das condições gerais deu-se por meio do índice de desenvolvimento humano municipal brasileiro (IDHM) 3 , visto que essa ferramenta estatística fornece informações dentro das dimensões saúde, educação e renda, não as tendo como objetivos a serem alcançados, ou itens de acumulação, mas sim como meio de potencializar capacidades humanas, estando relacionada diretamente ao bem estar humano (PNUD, 2013). Tal indicador por si só não dá conta de fornecer informações suficientes para compor o mapeamento do contexto amplo buscado, sendo necessário correlacionar tais dados com uma outra ferramenta que contemple, mais explicitamente, a dimensão ensino. Pautando-se na alta adesão, em nível nacional, ao ENEM 4 , o desempenho de participantes em ciências da natureza 5 foi correlacionado com informação do IDHM para os anos de 2017, 2018 e 2019 (Vide Gráficos 01, 02 e 03).

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## Quadro 01: IDHM dos municípios das escolas parceiras do projeto

Gráfico 01: Distribuição da proporção de alunos por range de nota na prova de ciências da natureza (CN) por município das escolas parceiras, para ENEM 2017.

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Gráfico 02: Distribuição da proporção de alunos por range de nota na prova de ciências da natureza (CN) por município das escolas parceiras, para ENEM 2018.

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Gráfico 03: Distribuição da proporção de alunos por range de nota na prova de ciências da natureza (CN) por município das escolas parceiras, para ENEM 2018.

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De modo geral, uma breve análise dos dados presentes nos três gráficos possibilita identificar uma distribuição de estudantes por ranges de nota, para a prova de ciências da natureza, semelhante para todos os municípios listados no Quadro 01, valendo destacar que esses municípios apresentam IDHM nas faixas tidas como 'Alta' e 'Muito Alta'. Num primeiro momento, parece factível afirmar que municípios cujos desenvolvimentos sejam semelhantes tendem a ter desempenho escolar semelhantes, no entanto vale ressaltar que tais dados não capazes de apresentar respostas exatas acerca do comportamento dos fatores em questão, mas sim possibilita uma abertura para problematizar tais fatores, agindo como ferramenta norteadora para o mapeamento do contexto específico.

Com relação ao mapeamento dos contextos específicos, tem-se que a busca por respostas às problematizações sugeridas pela análise do contexto amplo foi iniciada por meio do desenvolvimento de um questionário, cuja aplicação será destinada tanto às turmas que irão participar das atividades experimentais, quanto o restante dos estudantes das escolas parceiras, tendo como objetivo o levantamento de informações relacionadas à fatores sociais e culturais que permeiam tanto o contexto escolar, quanto o familiar desses estudantes, além de indícios acerca de suas relações com as ciências da natureza, bem como seus conhecimentos prévios no que se refere ao tema a ser trabalhado.

## Referências

BOURDIEU, Pierre. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura In: . Escritos de educação , NOGUEIRA, M. A.; CATANI, A. (org.). 16. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_. Os três estados do capital cultural. In: Escritos de educação , NOGUEIRA, M. A.; CATANI, A. (org.). 16. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

OSTERMANN, Fernanda; MOREIRA, Marco. Uma revisão bibliográfica sobre a área de pesquisa 'Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio'. Investigação em Ensino de Ciências . v.5, n.1, março de 2000.

PNUD, Ipea, FJP. Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Brasileiro . 2. ed. Brasília, DF: PNUD brasil, 2013.

TILLY, Charles. O acesso desigual ao conhecimento científico. Tempo Social . v.18, n.2, novembro de 2006.

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