O QUE SENTEM OS ESTUDANTES NAS AULAS DE FÍSICA? A IMPORTÂNCIA DAS PESQUISAS EM EMOÇÕES ENSINO DE FÍSICA
Bruna Almeida, Juliana Kaori Ido, Helen Gomes, Rafaela Farina, Francisco Rodrigues, Janethe Patricia Acuña, Nínive Silva, Ana Paula Moreira, Guilherme Brockington
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 23/07/2021
- Linha de pesquisa
- Tecnológica E Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O QUE SENTEM OS ESTUDANTES NAS AULAS DE FÍSICA? A IMPORTÂNCIA DAS PESQUISAS EM EMOÇÕES ENSINO DE FÍSICA
Bruna Almeida dos Santos 1 , Juliana Kaori Ido , Helen Gomes , Rafaela Farina , 2 3 4 Francisco Rodrigues 5 , Janethe Patricia Acuña , Nínive Silva , Ana Paula 6 7 Moreira 8 , Guilherme Brockington 9
- 1 Universidade Federal do ABC /CCNH/a.bruna@aluno.ufabc.edu.br
- 2 Universidade Federal do ABC/CCNH - juliana.kaori@ufabc.edu.br
- 3 Universidade Federal do ABC - indalencio.h@aluno.ufabc.edu.br
- 4 Universidade Federal do ABC - rafaela.farina@aluno.ufabc.edu.br
- 7 Universidade Federal do ABC/CCNH - ninive.silva@ufabc.edu.br
- 8 Universidade Mogi das Cruzes - anapaulaa.moreira@gmail.com
Palavras-chave : Ensino de Física, Emoções
## Resumo expandido
As Ciências Naturais e Exatas, ainda hoje, são vistas pelo senso comum sob a luz de modelo exemplar da racionalidade. Tal concepção, muitas vezes, acaba por levar as pessoas a associarem disciplinas dessas áreas, especialmente a Física, a um árduo conhecimento, à dificuldade em aprendê-las e, principalmente, como se elas estivessem no campo exclusivo da razão. Para muitos estudantes a Física é considerada uma matéria muito difícil, fato que se acentua conforme as práticas docentes adotadas: falta da demonstração experimental, matematização excessiva e desconexa com a realidade; resultando no desinteresse e afastamento dos alunos (VEIT, 2002; KRUMMENAUER, 2014). O cenário que se traça é que para o bom desempenho e domínio dos conhecimentos específicos de disciplinas como a Física deve-se centrar exclusivamente nas habilidades cognitivas e lógico-matemática, aliadas à adoção do pensamento racional, isento de qualquer aspecto emocional (ZYMBALAS, 2005; SINATRA, et al., 2014). Entretanto, atualmente sabe-se que emoção e razão atuam juntas. Segundo António Damásio (2019) emocionar-se, inclusive, faz parte do cotidiano, auxilia na tomada de decisões, influencia na manutenção da homeostase.
Neste trabalho consideramos as emoções como reações automáticas do corpo humano, que visam à sobrevivência e à manutenção da vida; e os sentimentos são reações de processos mais complexos, passando por processos mentais e interpretação da própria situação do sujeito (DAMÁSIO, 2004). A partir de um evento ou um ocorrido, reage-se através de uma emoção ou sentimento, que possibilita a liberação de hormônios, alterações dos batimentos cardíacos,
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
temperatura corpórea, modificação no comportamento, entre outros (DAMÁSIO, 2019). Uma vez que as emoções são muito presentes nas relações sociais, o convívio em ambiente escolar gera reações emocionais que impactam o processo de ensino e aprendizagem, seja nas expectativas do professor e colegas de classe, assim como na satisfação própria do cumprimento das tarefas. Pelo ponto de vista neurofisiológico, emoções e aprendizagem compartilham redes neurais do sistema límbico (FONSECA, 2016).
O jornal digital PODER 360 (2019) levantou dados de 2018 mostrando que Física é o sétimo entre os cursos com maior desistência das universidades federais brasileiras. A análise de Arruda e Ueno (2003) denomina o 'efeito do primeiro ano', a maior taxa de abandono no início da graduação de Física, entre 36% e 42%. Diante dessa realidade nos questionamos: Como os estudantes de Física se sentem? Assim, o objetivo deste trabalho é investigar quais serão as emoções que mais percorrem os estudantes durante o curso de Física, a fim de capturar aspectos emocionais do contexto no qual estão inseridos, de acordo com os valores e vivências de cada indivíduo. Para isso, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com estudantes do curso de Física do ensino superior de diferentes universidades públicas brasileiras. A partir de suas falas, buscamos evidenciar aspectos emocionais da vida acadêmica desses alunos. Para o presente trabalho iremos utilizar um recorte das entrevistas de apenas duas perguntas, analisando um total de 77 estudantes, homens 37 e mulheres 40, de 18 a 39 anos.
## Quadro 01: Perguntas
- 1. Como você se sente nas aulas de Física na universidade?
- 2. Quais emoções você sente ao cursar as disciplinas de Física?
Para isso, fizemos uso do LIWC (sigla em inglês para Linguistic Inquiry and Word Count), que é um programa de análise textual amplamente utilizado para processar e analisar a linguagem natural (Tausczik e Pennebaker, 2010). LIWC conta palavras relacionadas a várias categorias psicolinguísticas como dimensões linguísticas (pronomes, preposições etc..), processos psicológicos (emoção negativa, emoção positiva, ansiedade etc..), preocupações pessoais (casa, dinheiro, religião, família etc..). O objetivo foi analisar o conteúdo emocional dos relatos e, em função disso, discutir como o estudante de física tem se sentido durante algumas aulas.
Gráfico 1: Comparação de palavras ligadas às emoções positivas e negativas
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No Gráfico 1 observamos que a ocorrência das emoções positivas foram superiores às negativas, praticamente 8 em cada 10 palavras são relacionadas às emoções positivas. Assim, quando os alunos relatam sobre suas vivências no curso, em sua maioria, trazem aspectos positivos. Fica então o questionamento, por que existe um grande número de desistências frente a relatos positivos? Será que há algum impacto dos aspectos emocionais dos estudantes na sua permanência no curso? majoritariamente
Para responder a essas e outras perguntas é preciso considerar que os aspectos emocionais vão muito além da diferenciação entre emoções negativas e positivas. Como apresentado por Arruda e Ueno (2003) nos primeiros anos de graduação a desistência é maior e isso pode ser consequência da mudança brusca entre o ensino médio e superior, como mudança de relações sociais, estresse do curso, etc. Levando novamente a uma análise emocional desses estudantes, Furtado, Falcone e Clark (2003) avaliam o estresse em alunos do primeiro ano e mostra que o período de ingresso na universidade, uma fase de transição, necessita de muita adaptação, indicando uma alta ocorrência de estresse nos alunos, mas que durante os anos do curso as preocupações vão se ressignificando. É possível que após esse período as relações socioemocionais podem estar mais estabelecidas levando os alunos a terem experiências mais positivas e proveitosas com o curso. De todo modo, buscamos trazer um primeiro levantamento sobre o perfil emocional dos alunos de física de modo que isso influencie mais estudos a serem desenvolvidos na temática.
Por isso, consideramos que investigar aspectos emocionais na relação do aluno com seu curso é de suma importância para o ensino de ciências, em especial a Física. Compreender os condicionantes do desempenho e permanência dos estudantes em um curso de Física precisa ir além da dicotomia razão-emoção. Maturana (2009) afirma que por trás de uma ação sempre existe uma emoção. Dessa forma, ainda que diversos outros fatores influenciam a desistência de um curso universitário, é surpreendente que se tenha tão poucas pesquisas na área de ensino que investiguem os aspectos emocionais dos estudantes. É preciso compreender a importância das emoções como papel de destaque nos estudos educacionais e, cada vez mais, trabalhar o papel das emoções e sentimentos no processo de ensino e aprendizagem. Somente assim será possível entender como se dão tais aspectos socioemocionais e desconstruir a cisão entre aspectos racionais e emocionais.
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## Referências
ARRUDA, S. M.; UENO, M. H.; Sobre o ingresso, desistência e permanência no curso de Física da universidade estadual de Londrina: Algumas reflexões. Ciência & Educação , v. 9, n. 2, p. 159-175, 2003.
DAMÁSIO, A. R.; O Erro de Descartes. 6ª reimpressão. São Paulo. Companhia das Letras , 2019.
DAMÁSIO, A. R.; Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras , 2004.
FONSECA, V.; A importância das emoções na aprendizagem: uma abordagem neuropsicopedagógica. Revista Psicopedagogia , v. 33, n. 102, p. 365-384, 2016.
FURTADO, E. S.; FALCONE, E. M. O.;CLARK C. Avaliação do estresse e das habilidades sociais na experiência acadêmica de estudantes de medicina de uma universidade do Rio de Janeiro. Interação em Psicologia , 7(2), p. 43-51, 2003.
KRUMMENAUER, W.L.; WANNMACHER, C. M. D.; Possíveis causas para o desinteresse pela Física na educação de jovens e adultos na região do Vale do Rio dos Sinos. Revista de Educação, Ciências e Matemática , v.4, n.1, jan/abr 2014
MATURANA, H.; Emoções e linguagem na Educação e na Política. Belo Horizonte. Editora UFMG . 2009.
MOREIRA, M. A.; Uma análise crítica do ensino de Física. Estud. av., São Paulo , v. 32, n. 94, p. 73-80, 2018. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci\_arttext&pid=S0103-
40142018000300073&lng=en&nrm=iso >. Acesso em 20 de março de 2021.
PODER 360. Universidades federais têm evasão de 15% em 2018. 2019 .Disponível em:<https://www.poder360.com.br/governo/universidades-federais-tem-evasao-de15-em-2018/ > Acesso em 20 de março 2021.
SINATRA, G. M., et al.; Emotions in Science Education. In: PEKRUN, L.; LINNENBRINK-GARCIA, L.; International handbook of emotions in education . New York, Routledge, 2014.
TAUSCZIK, Y. R.; PENNEBAKER, J.W.; The psychological meaning of words: LIWC and computerized text analysis methods. Journal of language and social psychology , v. 29, n.1, p. 24-54, 2010.
VEIT, E. A.; TEODORO, V. D.; Modelagem no ensino: aprendizagem de Física e os novos parâmetros curriculares nacionais para o ensino médio. Revista brasileira de ensino de Física , v. 24, n. 2, p. 87-96, 2002.
ZEMBYLAS, M.; Emotions and Science Teaching: Present Research and Future Agendas. In: Cobern W..W. et Al. Beyond Cartesian Dualism . Science & Technology Education, v. 29, Springer, Dordrecht, 2005
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