Um ensaio sobre evasão na Física: dentre possibilidades metodológicas e uma necessária contextualização
Kaluti Rossi De Martini Moraes, Luiz Felipe De Moura Da Rosa
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 23/07/2021
- Linha de pesquisa
- Formação Inicial E Continuada Do Professor Em Todos Os Níveis De Escolaridade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## UM ENSAIO SOBRE EVASÃO NA FÍSICA: DENTRE POSSIBILIDADES METODOLÓGICAS E UMA NECESSÁRIA CONTEXTUALIZAÇÃO
Kaluti Rossi De Martini Moraes , Luiz Felipe de Moura da Rosa 1 2
- 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física, kaluti.moraes@acad.pucrs.br
Palavras-chave : Evasão universitária, Licenciatura em Física, Escassez de professores.
## Resumo expandido
A escassez de professores de Física na educação básica brasileira demanda atenção, especialmente na rede pública (NASCIMENTO, 2020). Essa preocupação legitima-se diante da assunção de que a disponibilidade de professores com formação adequada é essencial na construção de uma educação básica de qualidade (RABELO; CAVENAGHI, 2016). Investigações anteriores indicaram a baixa atratividade às carreiras docentes aliada aos baixos índices de conclusão nos cursos de licenciatura como as principais causas para manutenção do cenário de escassez (BRASIL, 2007).
A evasão na Licenciatura em Física (LF) se torna uma preocupação institucional diante das usuais baixas quantidades de formandos. No Brasil, as investigações que se dedicam aos próprios contextos formativos frequentemente não investem no enquadramento conceitual do fenômeno da evasão (SANTOS JUNIOR; REAL, 2017). Nesse cenário, a adoção de indicadores de evasão universitária pode ser problematizada diante da pluralidade metodológica nesse tema (VITELLI; FRITSCH, 2016). Portanto, exploramos a emergência dos indicadores de evasão, problematizando os pressupostos teóricos pertinentes às adoções metodológicas a partir de duas visões: evasão total e anual (SILVA FILHO et al., 2007). Assim, pretendemos com o presente trabalho contribuir na reflexão das pessoas preocupadas com as taxas de evasão nos seus cursos de graduação.
Os indicadores de evasão universitária foram propostos no Brasil nas primeiras discussões acerca dos processos de avaliação da Educação Superior. O marco histórico dessas políticas públicas é retratado através do Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras (BRASIL, 1994). Nessa conjuntura de busca por indicadores capazes de traduzir a qualidade nas universidades, há a proposição da Taxa de Sucesso na Graduação (TSG) (BRASIL, 1994). A TSG permanece como indicador de desempenho de gestão revisado pelo Tribunal de Contas da União (BRASIL, 2002). Ela representa a razão entre a quantidade de concluintes (Nc) e de ingressantes de determinado curso (Ni) (Figura 01).
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
Figura 01 : Taxa de Sucesso na Graduação (adaptado de Brasil, 2002, p. 4)
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Tomemos a LF, para fins de exemplo, como um curso com tempo esperado de conclusão de quatro anos. Assim, caso quisermos estimar a TSG em 2020, precisamos da razão entre a quantidade de concluintes nesse ano e de ingressantes em 2017. A lógica subjacente a esta estimativa reside em considerar que 2017 é o ano do suposto ingresso daqueles que concluem seus estudos em 2020. Assim, a evasão é tomada de forma complementar à TSG, onde a totalidade dos casos que não concluem seus cursos no tempo estimado são tratados enquanto evasão do curso. Entretanto, não são raros os casos de trajetórias prolongadas nos cursos de LF, por exemplo, em virtude das reprovações vividas no começo da graduação. Justamente pela sua natureza em representar os casos totais (tempo completo de curso), os indicadores que compartilham a natureza da TSG são enquadrados como cálculos de evasão total (SILVA FILHO et al., 2007).
Além de insensível à retenção estudantil, um índice de evasão total encerra um importante desvio na representação do fenômeno de interesse, por exemplo: caso um curso de LF amplie a quantidade de vagas para o ingresso a partir de determinado ano, ainda que não se alterem absolutamente as chances de diplomação, observaremos uma queda na TSG nos próximos anos. Como forma de contornar esses problemas, destacamos a mobilização de índices embasados pela ideia de recorrência, cuja proposição enseja um olhar comparativo entre períodos subsequentes de matrícula, onde usualmente retrata casos em que o ingresso é anual (VITELLI; FRITSCH, 2016). Na Figura 02, retomamos o nosso exemplo anterior, mas através do cálculo da Taxa de Evasão Anual (TEA) para o ano de 2020.
Figura 02 : Taxa de Evasão Anual - exemplo no ano de 2020 (autores)
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A lógica subjacente à estimativa da TEA reside na ideia de expressar uma proporção de estudantes matriculados em determinado ano em relação aos que poderiam estar realizando a matrícula nesse momento. No exemplo (Figura 02), balizamos a quantidade de pessoas esperadas para matrícula em 2020, para tal, desconsideramos: i) os ingressantes em 2020; e ii) os concluintes em 2019. Em linhas gerais, uma metodologia de cálculo dessa natureza permite dar conta do fenômeno de retenção estudantil de forma mais adequada, pois se preocupa com a recorrência de matrículas sem considerar o tempo de curso total planejado.
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Entretanto, ambas metodologias (i.e., total e anual) compartilham uma visão de que qualquer trajetória de desligamento do curso que não culmine em diplomação representa um fracasso. Essa visão que limita a representação da trajetória estudantil dentre permanência, sucesso ou desistência assume tacitamente que a universidade, enquanto instituição, só é capaz de prover qualquer forma de desenvolvimento humano através da diplomação. Todavia, há casos onde é notável o desenvolvimento pessoal, intelectual e social dos sujeitos que evadem. Em especial, naqueles casos em que há transferência para outros cursos ou instituições. Portanto, faz-se fundamental o investimento nos significados atribuídos às saídas para dirigir o olhar das métricas adotadas pela instituição (LIMA JUNIOR, 2013).
A evasão deve ser definida contextualmente, uma vez que a interação entre a pessoa e a instituição é determinante na decisão de evadir (TINTO, 2012). Por exemplo, no caso da LF é bastante razoável endossar que as instituições devem priorizar o caso de estudantes que querem vir a ser professores, entretanto acabam se desligando do curso por acreditarem não serem capazes de levar o curso adiante em função de dificuldades formativas antecedentes.
Deste modo, entendemos que qualquer metodologia de cálculo empregada não é condição suficiente para a compreensão do processo da evasão universitária. Ainda, assumimos que o sucesso de uma proposta de avaliação está diretamente relacionado com a natureza de consistência teórica dessa tarefa. Nesse sentido, não podemos coadunar com uma visão onde seja possível encaixar uma métrica para representação da evasão nos nossos cursos sem carregar nesse processo uma série de asserções sobre o fenômeno. Assim, argumentamos em favor das seguintes balizas: i) precisamos explicitar os fundamentos teóricos subjacentes às metodologias; e ii) a evasão não deve ser reduzida ao índice, mas também entendida contextualmente.
## Referências
BRASIL. Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras Brasília: Secretária de Educação Superior - Ministério da Educação, 1994.
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BRASIL. Decisão TCU nº 408/2002: Orientações para o cálculo dos indicadores de gestão. Brasília: Tribunal de Contas da União; Ministério da Educação, 2002.
BRASIL. Escassez de professores no ensino médio: propostas estruturais e emergenciais . Brasília: Ministério da Educação, 2007.
LIMA JUNIOR, P. R. M. Evasão do ensino superior de Física segundo a tradição disposicionalista em sociologia da educação . Tese (Doutorado em Ensino de Física), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013
NASCIMENTO, M. M. O professor de Física na escola pública estadual brasileira: desigualdades reveladas pelo Censo escolar de 2018. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 42, n.e20200187, 2020, p. 1-4.
RABELO, R. P.; CAVENAGHI, S. M. Indicadores educacionais para formação de docentes: uso de dados longitudinais. Estudos em Avaliação Educacional , v. 27, n. 66, p. 816-850, 2016.
SANTOS JUNIOR, J. S.; REAL, G. C. M. A evasão na educação superior: o estado da arte das pesquisas no Brasil a partir de 1990. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior , v. 22, n. 2, p. 385-402, 2017.
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SILVA FILHO, R. L. L.; MONTEJUNAS, P. R.; HIPÓLITO, O.; LOBO, M. B. D. C. M. A evasão no ensino superior brasileiro. Cadernos de pesquisa , v. 37, n. 132, p. 641-659, 2007.
TINTO, Vincent. Completing college: Rethinking institutional action . University of Chicago Press, 2012.
VITELLI, R. F.; FRITSCH, R. Evasão escolar na educação superior: de que indicador estamos falando?. Estudos em Avaliação Educacional , v. 27, n. 66, p. 908-937, 2016.
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