JALECOS BRANCOS? A REPRESENTAÇÃO DE CIENTISTAS E PRODUTOS CULTURAIS E A POSSIBILIDADE DA QUEBRA DE ESTEREÓTIPOS NA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Camily Luiza Vilela, Emerson Ferreira Gomes
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 22/07/2021
- Linha de pesquisa
- Interdisciplinaridade No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## JALECO BRANCOS? A REPRESENTAÇÃO DE CIENTISTAS EM PRODUTOS CULTURAIS E A POSSIBILIDADE DA QUEBRA DE ESTEREÓTIPOS NA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
## Camily Luiza Vilela¹, Emerson Ferreira Gomes²
- 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo/ Campus Boituva, camilyvilela13@gmail.com
- 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo/ Campus Boituva, emersonfg@ifsp.edu.br
Palavras-chave
: Cultura Pop; Divulgação Científica; Semiótica
## Resumo expandido
A presença da ciência e de cientistas em produtos culturais como filmes, séries de televisão, nas plataformas de streaming tem sido analisada em diversos estudos da área de educação em ciências. Neste trabalho, analisamos a representação de cientistas em filmes e em séries de TV. Essas análises permitirão a produção de sequências didáticas que visam romper com estereótipos acerca do papel de cientistas na sociedade, numa perspectiva sociocultural, que leve em consideração os aspectos sociais, econômicos, de gênero e de raça. Para isto, nos valamos da pedagogia de Georges Snyders, que reflete sobre a satisfação cultural na escola. Para a análise dos produtos culturais, utlizamos a semiótica greimasiana, que analisa os aspectos discursivos internos e as narrativas dos produtos culturais.
Diversos estudos apontam a influência de presença de produtos culturais midiáticos na sociedade (KELLNER, 2001), na escola (SETTON, 2004) e na educação em ciências (PIASSI, 2013). No que tange à representação de cientistas, temos identificado pesquisas que: analisam a visão de estudantes, de diferentes níveis de formação, sobre quem faz ciência (KOMINSKY; GIORDAN, 2002; GOLDSCHMIDT; JÚNIOR; LORETO, 2014; RIBEIRO et al, 2019); refletem sobre a importância da igualdade de gêneros na divulgação científica para romper padrões acerca da imagem de cientistas (CRUZ, 2007; ALMEIDA; LIMA, 2016; CRUZ; GOMES, 2019); e discutem sobre os estereótipos apresentados em produtos audiovisuais na televisão e no cinema (BARCA, 2005; SIQUEIRA, 2006; PEDREIRA, 2014; REZNIK; MASSARANI; MOREIRA, 2019).
Entendemos que a divulgação científica é um caminho para debater questões acerca da imagem da ciência e de cientistas. Temos identificado diversos estudos discutem a importância da divulgação científica na educação não-formal em ciências: compreendendo o papel de profissionais da comunicação e da educação na mídia e em espaços informais (ALBAGLI, 1996; GASPAR, 2002; MARANDINO et al, 2004); analisando a percepção pública da ciência na cultura da mídia e na comunicação da ciência (VAN DJICK, 2003; GRILLO; DOBRANSZKY; LAPLANE, 2004); investigando espaços como museus e centros de ciências (ISZLAJI; MARANDINO, 2013); refletindo sobre o papel de projetos de divulgação científica na promoção da igualdade de gêneros na ciência (FROSCHL et al, 2003; HOLMES et al, 2012; PUPO et al, 2017).
No caso desta pesquisa, buscamos a partir de referenciais da educação da semiótica (FIORIN, 2009), analisar a representação de cientistas em obras
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
cinematográficas e televisivas recentes e, como resultado, propor e analisar sequências didáticas em atividades de divulgação científica numa perspectiva sociocultural (SNYDERS, 1988).
A semiótica, em seu nível fundamental, abriga as bases da construção de um texto, apresentando os elementos da narrativa possuem categorias semânticas de qualificação opostas: euforia e disforia - representando respectivamente os valores positivo e negativo (FIORIN, 2009, p.23). No que tange a representação de cientistas em produções cinematográficas e de televisão identificamos a seguinte tabela:
Tabela 01: Representação de Cientistas
A representação de cientistas em obras ficcionais apresenta estereótipos de cientistas como o exemplo citado do 'De Volta Para o Futuro' (1985), em que o cientista é um homem branco, em sua maturidade, portando jalecos brancos e de personalidade excêntrica. Isso pode ser identificado em 'The Big Bang Theory' (20072019), especialmente nas primeiras temporadas. Por conta de um processo de transformação no discurso das mídias, a série, no decorrer do seu desenvolvimento, apresenta uma visão menos estereotipada acerca das personagens cientistas. Observamos em obras mais recentes, uma certa preocupação quanto à representação de cientistas, desvinculada a esses estereótipos, especialmente quanto a gênero e raça, como observado na adaptação cinematográfica dos quadrinhos do Pantera Negra (2018).
No que tange ao ensino, e à divulgação científica, esses produtos culturais permitem estabelecer reflexões acerca do fazer científico e estão no cotidiano dos estudantes. Para isto, podemos utilizar referenciais socioculturais que se valem da cultura primeira dos estudantes, conforme defende Georges Snyders. O pensador francês associa a cultura primeira à denominada 'alegria simples' (1988, p. 24), que são aquelas satisfações decorrentes das atividades cotidianas dos estudantes, sejam suas brincadeiras, seus jogos, e os seus interesses culturais como a música, o cinema e, particularmente em nossos tempos, suas séries de televisão e os jogos de videogame. Essa alegria, num primeiro momento, permite ao jovem ambicionar e se aprofundar em suas satisfações culturais e num processo de educação em ciências, permite refletir sobre a ciência com os jovens em atividades de divulgação científica. No caso de atividades de divulgação científica, temos identificado, com público adolescente em escolas públicas, que podemos construir um espaço dialógico, em que os sujeitos possam exprimir suas percepções acerca de quem faz ciência e superar esses estereótipos. Essa superação entra em consonância com a possibilidade das 'alegrias ambiciosas' que Snyders (1988, p. 25) apresenta, que são resultados de reflexões mais profundas acerca do conhecimento humano.
Conforme nos aponta Snyders, ao refletirmos sobre a possibilidade de integrar a cultura primeira do estudante - evidenciada pelo seu senso comum e suas
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concepções derivadas da cultura de massa - com a cultura elaborada - que permite ampliar a visão de mundo do estudante, representada pela arte, ciência e filosofia encontramos na comunicação crítica da ciência, através de produtos culturais como o cinema e séries de TV, um meio de intermediar a cultura enraizada na subjetividade do estudante com o conhecimento científico e atingir aspectos de satisfação cultural.
## Referências
ALBAGLI, Sarita. Divulgação científica: informação científica para cidadania. Ciência da informação , v. 25, n. 3, 1996.
ALMEIDA, Sheila Alves de; LIMA, Maria Emília Caixeta de Castro. Cientistas em revista: Einstein, Darwin e Marie Curie na ciência hoje das crianças. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências (Belo Horizonte) , v. 18, n. 2, p. 29-47, 2016.
BARCA, Lacy. As múltiplas imagens do cientista no cinema. Comunicação & Educação , v. 10, n. 1, p. 31-39, 2005.
CRUZ, Joliane Olschowsky da. Mulher na Ciência: representação ou ficção. 2007. Tese (Doutorado em Estudo dos Meios e da Produção Mediática) Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.
CRUZ, Lívia Delgado L. da; GOMES, Emerson. F. Estrelas Além do Tempo: debatendo gênero, raça e ciência em espaços educativos. Revista de Estudos Universitários - REU , v. 44, n. 2, 29 jan. 2019.
FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso . São Paulo: Contexto, 2009.
FROSCHL, Merle et al. Science, Gender, and Afterschool: A ResearchAction Agenda. Academy for Educational Development , 2003.
GASPAR, Alberto. A educação formal e a educação informal em ciências. In: MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro; BRITO, Fátima. Ciência e público. p. 171-183. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2002.
GOLDSCHMIDT, Andrea Inês; JÚNIOR, José Luiz Goldschmidt; LORETO, Élgion Lúcio. Concepções referentes à ciência e aos cientistas entre alunos de anos iniciais e alunos em formação docente. Revista Contexto & Educação , v. 29, n. 92, p. 132-164, 2014.
GRILLO, Sheila Vieira de Camargo; DOBRANSZKY, Enid Abreu; LAPLANE, Adriana Lia Friszman. Mídia impressa e educação científica: uma análise das marcas do funcionamento discursivo em três publicações. Cadernos Cedes , v. 24, n. 63, p. 215-236, 2004.
HOLMES, Stephanie et al. Girls helping girls: Assessing the influence of college student mentors in an afterschool engineering program. Mentoring & Tutoring: Partnership in Learning , v. 20, n. 1, p. 137-150, 2012.
ISZLAJI, Cynthia; MARANDINO, Martha. A criança e os museus: análise da exposição 'Mundo da Criança' do Museu de Ciência e Tecnologia da PUCRS. Atas do IX Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências. Águas de Lindoia , p. 1-8, 2013.
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KELLNER, Douglas. A cultura da mídia: estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno . Bauru: Edusc, 2001.
KOSMINSKY, Luis; GIORDAN, Marcelo. Visões de ciências e sobre cientista entre estudantes do ensino médio. Química nova na escola , v. 15, n. 1, p. 11-18, 2002.
MARANDINO, Martha et al. A educação não formal e a divulgação científica: o que pensa quem faz. Atas do IV Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Ciências , 2004. Disponível em <http://www.abrapecnet.org.br/enpec/ivenpec/Arquivos/Orais/ORAL009.pdf> Acesso em 20 nov. 2020.
PEDREIRA, Anna Elise F. Gênero, Ciência e TV: Representações dos Cientistas no Jornal Nacional e no Fantástico. 2014. 158 f. Dissertação (Mestrado em Ensino em Biociências e Saúde) - Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Oswaldo Cruz, Rio de janeiro, RJ, 2014
PIASSI, Luís Paulo de Carvalho. Interfaces didáticas entre cinema e ciência: um estudo a partir de 2001 uma odisseia no espaço . São Paulo: Editora Livraria da Física, 2013.
PUPO, Stella Cêntola et al. Ciência, tecnologia, mídia e igualdade de gênero: estratégias de comunicação científica. e-Com , v. 10, n. 1, p. 42-62, 2017.
REZNIK, Gabriela; MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro. Como a imagem de cientista aparece em curtas de animação?. História, Ciências, SaúdeManguinhos , v. 26, n. 3, p. 753-777, 2019.
RIBEIRO, Gabriel et al. A imagem do cientista: Impacto de uma intervenção pedagógica focalizada na História da Ciência. Investigações em Ensino de Ciências , v. 23, n. 2, p. 130-158, 2018.
SETTON, Maria da Graça J. A cultura da mídia na escola: ensaios sobre cinema e educação . São Paulo: Annablume. USP, 2004.
SIQUEIRA, Denise da Costa Oliveira. O cientista na animação televisiva: discurso, poder e representações sociais. Em questão , v. 12, n. 1, p. 131-148, 2006.
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VAN DIJCK, José. After the 'Two Cultures' toward a '(multi) cultural' practice of science communication. Science Communication , v. 25, n. 2, p. 177-190, 2003.
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