A física é também uma obra poética: para ler, aprender e gostar de física e de literatura.
Fernanda Diniz Marinho, Maria Beatriz Fagundes
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 22/07/2021
- Linha de pesquisa
- Interdisciplinaridade No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A física é também uma obra poética: para ler, aprender e gostar de física e de literatura
## *Fernanda Diniz Marinho , Maria Beatriz Fagundes ¹ ²
- ¹ Universidade Federal do ABC, Fernandadiniztrabalho@gmail.com ² Universidade Federal do ABC, mbeatriz.fagundes@ufabc.edu.br
Palavras-chave:
Física, Literatura, Educação.
## Resumo Expandido:
Aproximações entre física e literatura (ZANETIC, 2006) para pensar a educação científica na chave de uma "leitura crítica do mundo ao lado da leitura crítica da palavra' (FREIRE, 2015, p. 184) estão em pauta em textos e contextos de pesquisa na área de ensino de ciências já há algumas décadas. Todavia, no ideário de uma parcela significativa de estudantes (e de professores) do Ensino Médio, as duas culturas: a científica e a literária, permanecem como sendo distintas e antagônicas.
Assumindo essa premissa como o fio condutor de nossas reflexões sobre caminhos possíveis para fomentar a aprendizagem de ciências; e partindo, sobretudo, da vontade genuína de uma estudante da educação básica buscando reconciliar a física e a literatura para construir um diálogo inteligente com o mundo, desenvolvemos uma pesquisa de iniciação científica (Programa de Iniciação Científica Júnior) no âmbito da qual a física e a literatura são integradas em situações envolvendo estudos de conteúdos conceituais de física e, simultaneamente, leituras de textos literários e produções textuais autorais inspiradas nesses conteúdos e leituras.
Na sequência, para ilustrar o que foi exposto acima, reproduzimos um excerto de um dos textos criados pela estudante do ensino médio, que é também uma das autoras da pesquisa de iniciação científica apresentada no presente trabalho.
## Uma conversa calorosa
[….] Entrou com os pensamentos pelo ar abafado da biblioteca, colocou a máscara e começou a tirar os livros e empilhá-los sobre o chão.
- -Aconteceu alguma coisa? Você tava falando tanto e agora parece que o gato comeu sua língua.
- - Vó, é que...
- - Já sei, você vai me contar que tá gostando de alguém.
- -Que? Não? De onde você tirou isso? Eu queria te perguntar se para mudar de temperatura as coisas precisam de ajuda… Ou se naturalmente elas fazem isso, mesmo sem ajuda de ninguém? Tipo, ao misturar o chá e o suco eu 'ajudei" tanto o chá como o suco a mudarem de temperatura. Mas… E se eu não tivesse feito nada, o chá e o suco poderiam ainda assim sofrer essas mudanças? O chá sozinho iria esfriar e o suco esquentar ?
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- -Ah… é sobre isso que você estava pensando! Não deixa de ser um tema quente. Bem, essa 'coisa' sobre a qual você tá falando tem a ver com a ideia de calor.
- -Ue, calor não é a mesma coisa que… estar quente ou … ter temperatura alta?
- -Não, são coisas bem diferentes, mas é bem comum confundirmos as coisas… calor com temperatura e vice-versa. Mas então, quando você colocou o chá em contato com o suco, alguma energia saiu do chá e foi para o suco certo?! E isso fez o suco esquentar, porém, o inverso não aconteceu, na verdade, nunca acontece! O suco não esfriou mais e deixou o chá cada vez mais quente. Aconteceu que o chá sendo o mais quente, transferiu energia para o suco, e fez ele esquentar enquanto o próprio chá esfriava. Percebe que há um sentido espontâneo de transferência de energia? É sempre do mais quente para o mais frio!
- -Oh, realmente, nunca vi algo quente começar a esquentar mais quando fica do lado de algo frio…
- - Faz assim, pega aquele livro ali.
- - Qual?
- - Aquele lá, ó… o maior da pilha grande!
- -Puxa… justo esse? Você está querendo me fazer trabalhar duro mesmo,
né!?
- -Sim … esse mesmo!… E sobre o conceito correto de trabalho na física, conversaremos num outro dia…
- - Ai, ai, ai… Mas, que página eu abro desse livro?
- - Na 287, lê a parte grifada pra mim.
- - Certo, lá vai…
- "O sentido da transferência espontânea de energia é sempre do corpo que está mais quente para um vizinho mais frio. A energia transferida de uma coisa para outra por causa de uma diferença de temperatura entre elas é chamada de calor.' […] a matéria contém energia cinética molecular e possivelmente energia potencial, não calor. Calor é a energia em trânsito de um corpo a uma temperatura mais alta para outro a uma temperatura mais baixa. Uma vez transferida, a energia deixa de ser calor. […] (texto extraído de Física Conceitual, p. 287)
- […] - Agora, nós sabemos que calor é energia, mas nem sempre foi assim… houve um tempo em que se pensava que o calor era uma substância; o tal do calórico!
## […]
- - Ah, que daora… […] se não tivesse misturado o suco e o chá, a temperatura do ar na sala não teria mudado, certo?
Bem… sim, […] mas lembra que o Sol aquece a Terra? E entre eles não existe praticamente nada, ou seja, eles não estão em contato, então… Já sei, vamos fazer um experimento e você vai ver que 'Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia'.
- -Ah… Como a gente vai fazer um experimento dentro da biblioteca? Tem alguma passagem secreta atrás da estante de livros que leva para um covil cheio de experimentos?
Eu ainda continuo achando que você
- -tá vendo muita coisa de ficção científica, mas infelizmente não tenho um covil de experimentos… Por isso, vamos fazer um experimento mental! […]
- -Vamo sim! Mas… Ordem? Desordem? E eu achando que calor ia ser algo simples...
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- -Olha… Tenho que concordar, porque esse assunto não é tão simples como a gente pensa. Mas antes do experimento mental, vamo limpar e organizar logo esses livros no chão antes de colocar na prateleira.
- - Aff, achei que o trabalho ia ser só imaginar…
Buscamos, assim, mostrar o texto autoral cumpre uma função didática. É, portanto, na conjunção da leitura e da escritura - que culmina num ato criativo de produção de um texto literário autoral - que vislumbramos os indícios de uma aprendizagem expressiva de conteúdos de ciência e o desenvolvimento da leitura, interpretação e escrita ativas e criativas. Aprender, na perspectiva da transcriação do texto lido em texto escrito é, portanto, colocar-se num movimento de aproximação e distanciamento com o mundo para, assim, perceber esse movimento na ciência, na literatura, na leitura, na escrita e nas muitas relações que podem ser estabelecidas entre elas.
## Referências
HEWITT, Paul G. Fundamentos de física conceitual . Bookman, 2000.
ZANETIC, João. Física e literatura: construindo uma ponte entre as duas culturas . Hist. cienc. saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro , v. 13, supl. p. 55-70, Oct. 2006.
FREIRE, Paulo. ' À sombra desta mangueira ' [recurso eletrônico] / Paulo Freire; Ana Maria de Araújo Freire. - 11. ed. - Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.
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