HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA NO ENSINO: reflexões e ações voltadas para a formação dos professores de física
Andreia Guerra, Marco Braga, José Claudio Reis, Alexandre Bagdonas Henrique, Cibelle Celestino Silva, Thaís Cyrino De Mello Forato
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 07/06/2011
- Linha de pesquisa
- História E Filosofia Da Ciência No Ensino: Reflexões E Ações Voltadas Para A Formação Dos Professores De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2011
Texto completo
## TRAB 1: HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: REFLEXÕES SOBRE POSSIBILIDADES DE AÇÃO.
## HISTORY AND PHILOSOPHY OF SCIENCE IN TEACHER TRAINING
## *Andréia Guerra , José Cláudio Reis , Marco Braga 1 2 3
1
CEFET-RJ/DIPPG, aguerra@tekne.pro.br 2 UERJ/Departameto de Física Aplicada e Termodinâmica, guerrareis@tekne.pro.br 3 CEFET-RJ/DIPPG, braga@tekne.pro.br
Palavras chave: História e Filosofia da Ciência, Formação de Professores
## Justificativa, marco teórico e objetivos
Pesquisadores defendem que o ensino de ciências deve ser desenvolvido a partir de uma abordagem histórico-filosófica. Argumenta-se que através da História e Filosofia da Ciência (HFC) é possível trazer às aulas de ciências a dimensão sócio-cultural do conhecimento científico, de forma a permitir aos alunos compreender limites e possibilidades desse saber. (Matthews, 1994, McComas, 2008). Apesar de bem mapeado os argumentos a favor da HFC na educação básica, muitos obstáculos precisam ser ultrapassados para que as aulas de ciências tornem-se espaços efetivos de reflexão do conhecimento científico. Um dos obstáculos prementes é a formação dos professores; seja porque esses não se sentem preparados para a discussão histórico-filosófica, seja porque possuem visões distorcidas do conhecimento científico, que diretamente afetam sua prática docente. (MARTINS, 2007; GIL PEREZ,2001 et al).
Essas considerações levaram-nos a desenvolver pesquisas com licenciandos de uma Universidade pública com a perspectiva de responder à questão: quais caminhos na licenciatura contribuem para que o futuro professor sinta-se capaz de construir cursos de Física numa abordagem histórico-filosófica? Na execução do trabalho, considerou-se que respostas a essa questão já foram apontadas, como por exemplo, a que a inserção de disciplinas específicas de HFC na grade curricular da licenciatura não é suficiente. (MARTINS, 2007)
A primeira etapa da pesquisa (REIS, GUERRA, BRAGA, 2010) permitiu concluir que aqueles licenciandos defendiam o uso de HFC no ensino de ciências. Porém eles pouco ou nada sabiam sobre HFC. Além disso, eles declaravam que trabalhar com HFC era um problema, porque o currículo de Física no Ensino Médio era muito extenso e nada poderia ser a ele acrescentado.
Os dados dessa pesquisa vão ao encontro das considerações de Hottecke e Silva (2010) de que os professores de educação básica possuem uma 'cultura de sua disciplina', apreendida ao longo de sua formação que resistem romper. Com a perspectiva de continuar o trabalho e visando interferir no processo de formação de futuros professores, foi realizada no segundo semestre de 2010 outro trabalho, com um grupo de oito novos alunos, na disciplina Prática de Ensino de Física I.
Nesse momento, foi ofertada aos alunos a possibilidade de realizar o estágio com uma professora de física de nível médio, que desenvolve seus cursos a partir de um enfoque histórico-filosófico. O trabalho dessa professora foi discutido com os pesquisadores que desenvolveram a pesquisa.
## Metodologia e Análise da pesquisa
Na segunda etapa, foi realizada uma pesquisa qualitativa (LUDKE, 1986). O professor da disciplina foi um dos pesquisadores do grupo que desenvolveu o trabalho. Assim, os dados para análise foram obtidos a partir da construção de um diário de anotações, da filmagem e do registro em áudio das discussões em sala de aula. Os dados obtidos analisados por todo o grupo de pesquisa semanalmente serviram de base para reorientação das atividades previamente planejadas para a pesquisa e para o curso. Esse aspecto mostrou-se de vital importância por tratar-se de uma pesquisa intervenção, cujo objetivo não era apenas a coleta de dados para a pesquisa, mas principalmente a intervenção na formação daqueles licenciandos.
Na primeira aula, os alunos responderam às seguintes questões: Para que ensinar Física? O que é importante ensinar em Física na escola básica? Os alunos reproduziram discursos de apresentação de propostas de ensino, enfatizando que o ensino de Física era fundamental para que o aluno pudesse compreender o mundo à sua volta. Porém nenhum aluno, conseguiu descrever o que entendia por isso.
Para obter mais dados, solicitou-se aos alunos, a elaboração individual de um plano de aula de um tema pré-determinado. Nenhum aluno apresentou uma abordagem diferenciada. As aulas foram planejadas com a exclusiva preocupação de ordenar os conteúdos didaticamente. Quando foram questionados sobre a possibilidade de se tratar o tema selecionado a partir de uma abordagem históricofilosófica, eles argumentaram que não havia tempo disponível para tal na escola. A HFC poderia no máximo servir de motivação para iniciar um conteúdo. .
Com o propósito de interferir no posicionamento deses alunos perante a HFC, o professor/pesquisador apresentou planos de aula, que ele próprio havia construído, a partir de uma abordagem histórico-filosófica. Durante as discussões desses novos planos de aula, os dois alunos que estavam fazendo estágio com a referida professora de Ensino Médio destacaram que aquela apresentação era muito semelhante ao que estavam acompanhando na escola em que faziam estágio. Esse confronto proporcionou uma discussão intensa, pois alguns alunos insistiam que não era possível aquela abordagem, argumentando, a seu favor, que a escola em que os alunos faziam estágio era da rede federal e, portanto, muito distinta da realidade brasileira.
Com o intuito de interferir nessa situação e visando nova coleta de dados, os alunos realizaram atividades como: discussão dos documentos oficiais, construção de atividades experimentais, roteiros de estudo, lista de exercícios. Com exceção da primeira atividade, todas as outras visavam a elaboração de materiais didáticos que pudessem ser usados no estágio que realizavam.
O resultado positivo da atividade dos planos de aula fez com que em alguns momentos do curso o professor/pesquisador ministrasse aulas de conteúdos de física de nível médio, a partir de uma abordagem histórico-filosófica. Nessas aulas, em que o professor/pesquisador se utilizava da HFC para problematizar questões de
NdC, havia a preocupação de se utilizar materiais didáticos (narrativas históricas, atividades experimentais, filmes) que fossem ao encontro da abordagem escolhida. Ao final de cada uma dessas intervenções, discutia-se a pertinência e viabilidade daquela ação em uma sala de aula de Ensino Médio.
## Conclusões
Os registros das discussões ocorridas ao longo de todo o semestre mostrou uma mudança no posicionamento dos alunos, seja em suas falas, seja no teor das atividades por eles construídas. Reconhece-se que isso não garante que esses alunos, quando na posição de professor, irão desenvolver cursos a partir de uma abordagem histórico-filosófica. Os caminhos para isso são extensos e complexos. Porém a análise dos dados da pesquisa mostrou uma problematização por parte desses alunos nas certezas que apresentavam nas primeiras aulas em relação ao ensino de Física. Fora isso, os resultados apontam que é preciso ultrapassar o discurso sobre o ensino de Física na licenciatura É fundamental que durante sua formação os licenciandos tenham aulas de Física que coloquem em prática as propostas pedagógicas que encontram nos textos sobre ensino. No caso específico da HFC, é importante que essa abordagem não fique restrita a disciplinas específicas de Filosofia da Ciência ou História da Ciência. É preciso que os licenciandos, nas disciplinas de conteúdo específico de Física, sejam confrontados com uma abordagem histórico-filosófica. Isso possibilitará discussões capazes de mostrar que a abordagem histórico-filosófica não é dicotômica dos conteúdos a serem trabalhados no ensino de Física de nível médio.
## Referências
Gil-PÉREZ, D. et al. Para uma Imagem Não-deformada do Trabalho Científico. Ciência & Educação , v. 7, n. 2, p. 125-153, 2001.
HOTTECKE, D. e SILVA, C Why Implementing History and Philosophy in School Science Education is a Challenge: An Analysis of Obstacles. Science&Education Published Onlinefirst, 2010.
LUDCKE, M e ANDRÉ, M. E. D. Pesquisa em Educação: abordagem qualitativa . São Paulo, EPU, 1986. 99p
McCOMAS, W. Seeking historical examples to illustrate key aspects of nature of science. Science&Education , v. 17, p. 249-263, 2008.
MARTINS, A. História e filosofia da ciência no ensino: há muitas pedras nesse caminho... Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 24, n. 1, p. 112-131, 2007.
MATTHEWS, M. Science Teaching - the role of History and Philosophy of Science, Routledge, New York, 1994.
REIS, J. C., GUERRA, A, BRAGA, M. Da necessidade de valorizar a história e a filosofia da ciência na formação de professores. In Atas do XII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física -EPEF Águas de Lindóia, 2010.
## TRABALHO 2:CIÊNCIA E RELIGIÃO NA FORMAÇÃO DE
## PROFESSORES: UMA ABORDAGEM HISTÓRICA E FILÓSOFICA SCIENCE AND RELIGION IN PRE-SERVICE TEACHER TRAINING COURSE: AN HISTORICAL AND PHILOSOPHICAL APPROACH
## Alexandre Bagdonas Henrique 1 , *Cibelle Celestino Silva 2
1
Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, USP alebagdonas@gmail.com 2 Instituto de Física de São Carlos, USP cibelle@ifsc.usp.br
## Introdução
Apesar da quase unanimidade acerca da importância da história e filosofia da ciência (HFC) para uma educação científica de qualidade, há várias questões que dificultam sua implementação em salas de aula. Há uma série de obstáculos que podem ser enfrentados com a ajuda da pesquisa em ensino de ciências, entre eles estão (Hoettecke & Silva online first):
- 1. A cultura do ensino de física tradicional evita a negociação dos conteúdos, normalmente considerados com uma coleção de fatos prontos. Isso contrasta fortemente com a cultura necessária para um ensino efetivo da HFC, que mostra a física como um processo historicamente desenvolvido, influenciado pelo contexto sócio-histórico em que estão presentes investigações empíricas, discursos e a negociação entre cientistas, resultando em um conhecimento que muda com o passar do tempo e deve continuar mudando no futuro.
- 2. Geralmente professores de física crêem que questões epistemológicas e sobre a natureza da ciência não sejam parte do conteúdo a ser ensinado. Costumam ver a história da ciência apenas como um chamariz para a introdução de um novo tópico. Além das crenças, é importante considerarmos o domínio do conteúdo pedagógico necessário para o ensino de conteúdos históricos, tais como contar histórias, escrever roteiros e dirigir a performance dos estudantes em peças de teatro ou moderar discussões abertas entre os estudantes.
- 3. Do ponto de vista curricular, a HFC costuma ser vista como um objetivo geral, sem detalhamento de como este conteúdo se encaixa nos outros tópicos a serem ensinados. Na prática os professores acabam guiados pelas listas de conteúdos dos currículos que raramente incluem mensagens explícitas sobre o ensino de HFC. Como faltam exemplos concretos de atividades para estudantes fazendo uso da HFC acaba-se gerando uma mensagem oculta para que esta seja ignorada.
- 4. Nos livros didáticos de física, as narrativas históricas costumam reforçar visões ingênuas sobre a natureza da ciência (Pagliarini 2007). A HFC se resume a datas, nomes e linhas do tempo, em boxes que não são necessários para o aprendizado dos conceitos.
Tendo em vista a existência destes obstáculos, neste trabalho apresentamos os resultados de uma pesquisa que buscou contribuir para a superação de alguns deles na formação inicial de professores de ciências. Elaboramos um curso sobre história
da cosmologia ministrado para alunos do último ano da Licenciatura em Ciências Exatas da USP São Carlos, cujo objetivo foi contextualizar discussões sobre a natureza da ciência, apresentando episódios da história da cosmologia. O episódio escolhido foi a controvérsia entre a teoria do Big Bang e a teoria do Estado Estacionário, por sua potencialidade para gerar discussões sobre a influência de aspectos filosóficos e religiosos na criação de modelos cosmológicos. Os dados foram coletados utilizando instrumentos típicos de pesquisa qualitativa, como resposta a questionários do tipo Likert, análise dos textos produzidos pelos alunos e de suas falas durante as aulas.
## Discussões sobre ciência e religião em um curso de história da cosmologia para professores de ciências
O curso foi de cinco aulas, com duas horas de duração cada uma. Durante as aulas os alunos realizaram diversas atividades, analisadas para sondar suas concepções sobre a natureza da ciência, particularmente sobre relações entre ciência e religião: 1) Respostas a um questionário pessoal, incluindo questões sobre formação pessoal, religiosidade e conhecimentos prévios de cosmologia. 2) Respostas a um questionário sobre relação entre ciência e religião, antes e após as aulas (pré-teste e pós-teste). 3) Interpretações de tirinhas sobre o método científico, comparando ciência e religião. 4) Construção de diagramas sobre semelhanças e diferença entre ciência e religião. 5) Redação de um ensaio final, sintetizando todas as discussões realizadas nas aulas.
Na primeira parte do curso os alunos encenaram uma peça de teatro e realizaram seminários curtos sobre a história da cosmologia no século XX, a partir da leitura de um texto elaborado por nós (Henrique e Silva 2011). Na segunda parte do curso realizamos discussões sobre relações entre ciência e religião presentes no episódio, partindo da interpretação de tirinhas sobre o método científico e debatendo a questão de como lidar com eventuais conflitos entre a visão de mundo científica e outras visões de mundo no ensino de ciências.
Estas atividades foram preparadas com base em um estudo prévio realizado sobre como discutir relações entre ciência e religião nas aulas de física, utilizando episódios da história da cosmologia como tema motivador. Apresentamos quatro categorias de posicionamentos típicos sobre relações entre ciência e religião: conflito, integração, independência e diálogo, exemplificando-as com os discursos de três personagens envolvidos nesta controvérsia cosmológica da década de 1950: o Papa Pio XII, que em 1951 fez um discurso sobre provas da existência de Deus a partir dos resultados da cosmologia contemporânea; Fred Hoyle, autor da teoria do Estado Estacionário, que se tornou uma figura pública polêmica após comentar sobre sua visão antirreligiosa em uma série de palestras no canal de televisão britânico BBC; e Lemaître, um padre cosmólogo, considerado um dos criadores da teoria do Big Bang (Henrique e Silva 2010).
Notamos que a postura predominante entre os estudantes foi a ênfase nas diferenças entre ciência e religião, sendo as categorias da independência e do conflito as mais escolhidas. O engajamento na discussão predominou em relação à busca de respostas únicas para as questões levantadas. Ainda que nenhuma postura específica tenha sido defendida, problematizamos as posturas mais radicais quando levadas para o ensino. Consideramos que este conjunto de atividade uma
boa forma de discutir sobre a natureza da ciência, já que os alunos puderam não só aprender conteúdos de cosmologia, mas também refletir sobre diferenças e semelhanças entre a ciência e outras formas de ver o mundo, assim como aprender mais sobre os objetivos e métodos das ciências e das religiões. Com isso foi possível discutir sobre o que são e quais os papéis de evidências, fontes de confiabilidade, e sobre a existência de diversos métodos utilizados pelos cientistas. O conjunto de atividade desenvolvidas nesta pesquisa pode contribuir para o aumento de uma posição crítica dos alunos sobre assuntos controversos, sem que o professor precise defender explicitamente uma determinada posição, nem agir violentamente contra as tradições culturais de certos alunos.
Tendo em vista os obstáculos apresentados para a inserção da HFC nas aulas de física, apresentamos os conteúdos de forma articulada com estratégias didáticas que respondam ao desafio de como inseri-los. Nossa pesquisa traz uma contribuição que alia conteúdos históricos com estratégias didáticas visando o ensino de história da cosmologia e também o aprendizado de conteúdos metacientíficos. Os licenciandos tiveram contato com diferentes estratégias de ensino e oportunidades para refletirem explicitamente sobre o conhecimento pedagógico necessário para uma efetiva implementação da história e filosofia da ciência em sala de aula. Algumas crenças profissionais sobre a relevância e desafios envolvidos na discussão de questões relacionadas à religião em aulas de disciplinas científicas foram trabalhadas durante o mini-curso. O tema cosmologia aparece é enfatizado nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, mas este não entra em detalhes de como questões acerca da origem do universo possam ser discutidas. O presente trabalho apresenta uma proposta clara que alia conteúdos científicos, históricos, epistemológicos e didáticos na formação de professores.
## Referências
FORATO, Thaís C. M. A natureza da ciência como saber escolar: um estudo de caso a partir da história da luz . Tese de Doutorado, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 2009.
HENRIQUE, Alexandre B. e SILVA, Cibelle C. Relações entre ciência e religião na formação de professores: estudo de caso acerca de uma controvérsia cosmológica. In: Atas do XII Encontro de Pesquisa em Ensino de Física EPEF. Águas de Lindóia, SP, 2010.
HENRIQUE, Alexandre B. e SILVA, Cibelle C. Um curso sobre história da cosmologia na formação incial de professores. In: Atas do XIX Simppósio Nacional de Ensino de Física -SNEF. Manaus, 2011.
HÖTTECKE, Dietmar. & SILVA, Cibelle. C. Why implementing history and philosophy in school science education is a challenge. An analysis of obstacles. Science & Education . 2010. Online first
http://www.springerlink.com/content/h06378hh54814700/ , v.24, n.1, p.112-
MARTINS, André F. P. História e filosofia da ciência no ensino: há muitas pedras nesse caminho... Caderno Brasileiro de Ensino de Física 131, 2007.
## TRABALHO 3: HISTÓRIA E NATUREZA DA CIÊNCIA NO ENSINO DE FÍSICA: ANÁLISE DA PREPARAÇÃO DO PROFESSOR HISTORY AND NATURE OF SCIENCE IN THE PHYSICS TEACHING: LOOKING AT THE TEACHER'S EDUCATION
*Thaís Cyrino de Mello Forato 1
1
UNIFESP-DIADEMA/ DEPTO DE CIÊNCIAS EXATAS E DA TERRA / thais.unifesp@gmail.com
Palavras-chave : História da Óptica, Natureza da Ciência, Escola Básica
A inclusão de conteúdos da história e filosofia da ciência (HFC) na formação de professores tem ocupado espaço relevante na pesquisa em ensino de ciências. Advogam-se benefícios de se abordar a dimensão socio-histórica da construção da ciência para a compreensão contextualizada de saberes científicos. A inserção da HFC na formação de professores auxilia sua preparação para empreender discussões postas pelo ambiente socio-político-cultural, além de atuar para transformar, em uma perspectiva de educação para a cidadania (ALLCHIN, 2004; ARDURIZ-BRAVO, IZQUIERDO-AYMERICH, 2009; CARVALHO, GIL-PEREZ, 2001; CLOGH, OLSON, 2008; GIL PEREZ et al ., 2001; LEDERMAN, 2007; MARTINS, 2007; MATTHEWS, 1992).
A despeito da extensa literatura defendendo tal abordagem, muito trabalho resta a ser feito (CLOGH & OLSON, 2008). A simples inclusão de HFC na formação do professor não é suficiente para resolver todos os problemas, por exemplo, o de lidar com o 'como fazer', mediante a ausência de orientações metodológicas especificas em materiais que possam amparar a prática escolar (ALLCHIN, 2004; GIL-PEREZ et al ., 2001; MARTINS, 2007; MEDEIROS & BEZERRA, 2000; MELLADO, 1999). Ações concretas têm ocorrido em diferentes perspectivas. Especialistas empreendem pesquisas diagnósticas sobre as concepções de natureza da ciência (NDC) de professores e revelam visões diferentes daquela recomendada pela literatura especializada (GIL PEREZ et aL . 2001; LEDERMAN, 2007; MARTINS, 2007; MEDEIROS; BEZERRA, 2000); outros analisam propostas de formação inicial ou continuada (ARDURIZ-BRAVO & IZQUIERDO-AYMERICH, 2009); há também análises empíricas voltadas aos usos da HFC na escola básica (FORATO, 2009; VANUCCHI, 1996), e a produção de textos históricos destinados ao professor (SILVA, 2006). A despeito de bons resultados, defende-se a necessidade de reflexões capazes de subsidiar orientações na formação do professor voltadas para discussões históricoepistemológicas.
## Objetivos e metodologia
Esta pesquisa buscou contribuir para esse quadro teórico por meio de um estudo de caso (ERICKSON,1998). Um curso piloto foi desenvolvido e aplicado em uma escola pública da periferia da cidade de São Paulo (FORATO, 2009). A etapa da
pesquisa, aqui discutida, enfoca a preparação e desempenho da professora que ministrou o curso. O objetivo da pesquisa foi avaliar aspectos da preparação da professora que podem contribuir para propor inovações conceituais e metodológicas na formação de professores, possibilitando auxiliar no desenvolvimento de novos modelos de formação (FREITAS & VILLANI, 2002). Buscou-se identificar requisitos na preparação da professora para lidar com inovações conceituais e metodológicas relacionadas ao uso da história e epistemologia da ciência em ambiente escolar.
Um curso piloto de 20 horas-aula foi desenvolvido para o terceiro ano do ensino médio. Buscou-se articular a realidade prática e os conteúdos físicos e metacientíficos, além de permitir ao professor vivenciar a aproximação entre tais conteúdos, mediante uma proposta metodológica inovadora (ZIMMERMANN E BERTANI, 2003). Tal curso utilizava a HFC para discutir, implícita e explicitamente, aspectos selecionados da NDC, visando criticar uma concepção puramente empíricoindutivista de ciência. Enfatizou-se a construção socio-histórica da ciência, por meio de uma abordagem diacrônica dos episódios históricos envolvendo controvérsias sobre a natureza da luz. O curso materializou-se em uma seqüência com cerca de dezessete atividades didáticas diferentes, por exemplo, demonstração de experimentos, debate, teatro, festival cultural, quebra-cabeça com textos etc. O conteúdo foi sistematizado em oito textos e um roteiro para o teatro.
A metodologia qualitativa para um estudo de caso cuidou da tomada e análise de dados, além dos aspectos éticos do processo. As reuniões entre a pesquisadora e a professora, bem como a atuação desta em sala de aula, promoveram o contato do pesquisador com a questão investigada nos ambientes de coleta de dados. Utilizou-se dados descritivos enfocando tanto os processos de preparação da professora, quanto o produto obtido, ou seja, sua atuação em sala de aula (CARVALHO, 2006; ERICKSON, 1998). A primeira parte da coleta de dados consistiu na preparação da professora, ao longo de 14 reuniões semanais (abriljulho/2007). A segunda etapa ocorreu na implementação das 20 horas-aula do curso piloto (agosto-setembro/ 2007). Para a análise de dados foram confrontadas as atas das reuniões realizadas com a professora; as notas de campo da pesquisadora durante todo o processo e a transcrição e imagens de aulas gravadas em vídeo.
## Alguns Resultados
Os resultados identificaram aspectos relevantes da preparação da professora que contribuíram para os bons resultados do curso piloto, por exemplo, a importância de se explicitar uma metodologia de trabalho envolvendo a HFC. O fato do conteúdo vir inscrito em uma proposta metodológica, incluindo atividades didáticas e planejamento das ações, foi fundamental para o trabalho. Além disso, a professora ter se sentido co-participe no desenvolvimento de algumas atividades favoreceu sua atuação durante as aulas. Certos aspectos que não estavam diretamente vinculados à proposta metodológica interferiram na análise. Por exemplo, como avaliar a contribuição para a motivação da professora e dos alunos o fato da proposta estar vinculada a uma prestigiada universidade pública e a professora receber uma bolsa da FAPESP (nº 2003/00146-3) para sua dedicação semanal? A análise revelou também aspectos que deveriam ser mais enfatizados na preparação da professora, como desenvolver estratégias que motivassem maior número de momentos dialógicos e redução no tempo das falas expositivas. Embora a maioria dos estudantes mantinha-se atento durante tais exposições. A omissão de
algumas informações históricas ocasionou uma interpretação equivocada de um detalhe histórico, e o diálogo durante a preparação da professora não foi suficiente para sanar tal ausência nos textos e slides produzidos.
Essa etapa da pesquisa aponta como desdobramento imediato a possibilidade de sistematizar esses resultados na elaboração de estratégias para a sua incorporação na formação inicial e continuada de professores.
## Referências
ARDURÍZ-BRAVO, A; IZQUIERDO-AYMERICH, M. A research-informed instructional unit to teach the nature of science to pre-service science teachers. Sci & Education 18: 1177-1192, 2009.
CARVALHO, A.M.P. Uma metodologia de pesquisa para estudar os processos de ensino e aprendizagem em salas de aula. In: F. SANTOS; I. GRECA (Orgs.) A pesquisa em ensino de ciências no Brasil e suas metodologias . Unijuí: Ed. Unijuí, 2006, p.13-48.
CARVALHO, A.M.P.; GIL-PÉREZ, D. Formação de Professores de Ciências Tendências e Inovações , São Paulo, Cortez, 2001.
- CLOGH, M. & OLSON, J. Teaching and assessing the nature of science: An introduction. Science & Education 17:143-145, 2008.
ERICSON, F. Qualitative research methods for science education. In : FRASER, B.J. e TOBIN, K.G. (Orgs.), International Handbook of Science Education , Part One, Kluwer Academic Publishers, 1998.
FORATO, T.C.M. A Natureza da Ciência como Saber Escolar: um estudo de caso a partir da história da luz. Tese de Doutorado. São Paulo: FEUSP, 2009. 2vols.
FREITAS, D.; VILLANI, A. Formação de Professores de Ciências: um desafio sem limites. Investigações em Ensino de Ciências 7 (3): 215-230, 2002.
- GIL PÉREZ, D; MONTORO, I; ALIS, J; CACHAPUZ, A; PRAIA, J. Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Ciência & Educação 7(2): 125-53, 2001.
LEDERMAN, N. Nature of science: past, present, and future. In: ABELL, S; LEDERMAN, N. (Eds.), Handbook of research on science education . Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 2007, p. 831-880.
MARTINS, A. F. P. História e filosofia da ciência no ensino: há muitas pedras nesse caminho. Caderno Brasileiro de Ensino de Física 24 (1): 112-131, 2007.
MATTHEWS, M. History, philosophy and science education: the present reapproachment. Science & Education 1 (1): 11-47, 1992.
MELLADO, V. La formacion didactica del profesorado universitário de ciencias experimentales. Rev Interuniv de Form del Profes . 34: 231-241, Enero/Abril, 1999.
- SILVA, C.C. (Org.) Estudos de história e filosofia das ciências. Subsídios para aplicação no Ensino . São Paulo, Ed. Livraria da Física, 2006.
- ZIMMERMAN, E., BERTANI, J. Um novo olhar sobre os cursos de formação de professores. Caderno Brasileiro de Ensino de Física 20 (1). 2003
## HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA NO ENSINO: reflexões e ações voltadas para a formação dos professores de física
Andréia Guerra, José C. Reis, Marco Braga - CEFET-RJ, aguerra@tekne.pro.br Alexandre B. Henrique, Cibelle C. Silva Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências, USP IF de São Carlos, USP cibelle@ifsc.usp.br 2 Thaís C. Forato - UNIFESP/DIADEMA - thais.unifesp@gmail.com
A discussão sobre o hiato existente entre os resultados da pesquisa em Ensino de Física e a inserção de seus resultados em salas de aula de nível fundamental e médio é recorrente nos encontros de pesquisadores da área. Essa preocupação que se manifestou em palestras, mesas redondas, comunicações orais dos últimos Encontros de Pesquisadores em Ensino de Física (EPEF) não se restringe a nenhuma das áreas de pesquisa.
Apesar da área de História e Filosofia da Ciência e Ensino de Física estar estabelecida, a distância entre pesquisa e sala de aula não é menor do que o encontrado em outras áreas. Um dos motivos levantados para essa situação são os programas de educação de professores de ciências. Seja na formação básica, seja na formação continuada, os professores são, em geral, muito pouco confrontados com conteúdos de HFC ou discussões em torno ao assunto. Considerando essa e outras questões, alguns trabalhos (Höttecke & Silva onlinefirst; Martins 2007) sugerem que pesquisas devem ser realizadas com o intuito de examinar o papel e o tipo de abordagem de HFC a ser implementada na formação de professores. Segundo esses autores, pouco tem sido feito para determinar o grau de inserção da HFC na formação de professores e quais técnicas poderiam ser úteis para implementar esse trabalho. Procurando contribuir para o debate em torno ao tema, propomos uma sessão coordenada com o título: História e Filosofia da Ciência no Ensino de Física: reflexões voltadas para a formação de professores de Física . Nessa sessão, serão apresentados trabalhos de três grupos de pesquisa distintos. Dois grupos apresentarão resultados de pesquisas realizadas com Licenciaturas em Física ou Ciências Exatas, com o objetivo de subsidiar discussões sobre quais elementos de HFC seriam relevantes à formação inicial de professores e quais metodologias possíveis de serem trabalhadas nessa etapa da formação do professor. O terceiro trabalho apresenta resultados de uma pesquisa em torno da preparação de uma professora de uma escola para aplicar um curso de Óptica, a partir de uma abordagem histórico-filsoófica.
## Referências
HÖTTECKE, Dietmar. & SILVA, Cibelle. C. Why implementing history and philosophy in school science education is a challenge. An analysis of obstacles. Science & Education . Online first.
MARTINS, André F. P. História e filosofia da ciência no ensino: há muitas pedras nesse caminho... Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v.24, n.1, p.112-131, 2007.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.