DIFERENTES PERCEPÇÕES DE ALUNOS E PROFESSORES SOBRE ENSINO DE FÍSICA NO CONTEXTO DE CURSOS DE ENGENHARIA
Eliana Fernandes Borragini, Sônia Elisa Marchi Gonzatti
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XIII
- Ano
- 2011
- Data
- 07/06/2011
- Linha de pesquisa
- Diferentes Percepções De Alunos E Professores Sobre Ensino De Física No Contexto De Cursos De Engenharia
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## DIFERENTES PERCEPÇÕES DE ALUNOS E PROFESSORES SOBRE ENSINO DE FÍSICA NO CONTEXTO DE CURSOS DE ENGENHARIA
## DIFFERENT PERCEPTIONS OF STUDENTS AND TEACHERS ON TEACHING OF PHYSICS IN THE CONTEXT OF ENGINEERING COURSES
Eliana Fernandes Borragini , Sônia Elisa Marchi Gonzatti 1 2
- 1 Centro Universitário Univates/Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas, eliana@univates.br
## Introdução
Neste trabalho são relatados resultados preliminares de uma pesquisa que nasceu das reflexões compartilhadas por um grupo de professores da área de ciências exatas (física, química, matemática, informática, algoritmos e programação), que atuam nos cursos de engenharia. O estímulo inicial para a formação do grupo consistiu na preocupação em obter um melhor índice de aprovação dos alunos, bem como o de auxiliá-los a compreender os conteúdos de forma mais significativa e duradoura.
É possível enquadrar o grupo constituído como um grupo de trabalho colaborativo , nos termos concebidos por FIORENTINI (2006), pelas características de que os integrantes são voluntários, desejam compartilhar saberes e experiências, negociam metas e objetivos comuns, dentre outras.
Como as reflexões foram construtivas, passaram a gerar problemas de pesquisa. O principal foco destacado no espaço de formação continuada foi discutir qual é a perspectiva dos alunos sobre aspectos que se constituem em problemas práticos relevantes para o trabalho docente, quanto ao processo de ensino e aprendizagem das ciências exatas. Para viabilizar esta demanda reflexiva, a segunda fase das reuniões consistiu na elaboração de um questionário piloto para detectar tais concepções. Aqui serão apresentados os primeiros resultados.
## Metodologia da pesquisa
A primeira fase do trabalho consistiu na realização de leituras que auxiliassem o grupo a compreender alguns dos motivos que levam os alunos a apresentarem as dificuldades relatadas durante as discussões. MASETTO et al. (2007) explicita trabalhos que descrevem o desenvolvimento de experiências didáticas nas quais disciplinas tradicionais dos currículos dos cursos de engenharia foram reorganizadas, em busca de práticas de ensino mais interativas e mais focadas nas necessidades profissionais dos estudantes. Este autor propõe a diversificação do uso de técnicas de ensino, as quais devem ser planejadas em consonância com os objetivos de aprendizagem. Sobre isso, destaca:
Toda técnica se coloca como um instrumento e, como tal, só tem sentido e valor se preencher duas condições: relacionar-se a um objetivo e ser eficiente. (ib. p.19).
Ao longo das discussões provenientes das leituras e das reflexões realizadas, ficaram evidentes divergências entre os significados atribuídos às palavras pelos integrantes do grupo. Estas divergências levaram o grupo a perceber a necessidade de um levantamento das expectativas e compreensões dos alunos para confrontar com as que o grupo em reflexão apontava.
Em vista deste problema, foi construído um instrumento, na forma de questionário, para levantar os interesses e necessidades apontados pelos alunos quanto aos aspectos relevantes indicados na primeira fase. Foi aplicado o questionário piloto em amostras de turmas das disciplinas básicas dos cursos de interesse, durante o semestre 2010B. A amostra envolveu 150 alunos. O instrumento foi aplicado em três turmas, sendo uma delas de alunos iniciantes, com grande maioria de alunos de primeiro a terceiro semestre, a segunda de alunos de meio de curso, e, finalmente, o terceiro grupo com alunos de final de curso.
A terceira fase da pesquisa, que se iniciou em março do corrente ano, envolve a análise das respostas dos alunos ao questionário piloto, a elaboração do questionário definitivo, sua aplicação em uma amostra fidedigna de cada um dos cursos envolvidos, e a categorização final, com o objetivo de avaliar se a concepção dos professores sobre a melhoria do ensino aprendizagem é convergente com as concepções dos estudantes sobre o mesmo tema.
## Resultados preliminares
O questionário piloto foi elaborado a fim de avaliar quais são as concepções dos estudantes sobre como se aprende. Neste trabalho foram destacadas interpretações relacionadas às disciplinas de física. As questões versaram sobre motivação, conexão teoria-prática, papel do professor e conhecimentos prévios.
A partir da análise dos questionários respondidos, foi possível constatar que a visão dos alunos sobre aspectos metacognitivos, que envolvem o ensinoaprendizagem, é diferente das concepções dos professores que, de alguma forma, atuam na área de ensino, geralmente apoiadas em pesquisas desenvolvidas sobre o tema. Por outro lado, a visão daqueles muitas vezes se aproxima das concepções de colegas professores que trabalham no ensino superior, mas não são ligados diretamente à pesquisa em ensino.
Um dos pontos interessantes a destacar é que, durante as discussões da primeira fase, todo o grupo apontou a parceria entre teoria e prática como um dos fatores mais importantes para auxiliar o aluno a atribuir significado aos conceitos trabalhados. Porém o significado atribuído pelos alunos para prática não é unânime, como se pode perceber nas citações a seguir:
Alunos iniciantes: Práticas aquelas que exercitamos a teoria em laboratório, experiências, maquetes, enfim (I); Não há teoria sem prática. Na teoria aprendemos, tiramos dúvidas, na prática vemos como funciona (II);
Alunos de meio de curso: Teoria é quando o professor passa o conteúdo e fala sobre ele. Prática é a resolução de questões problemas, em laboratório ou sala de aula (I); Teoria: explicação do conteúdo, o seu desenvolvimento; Prática: aplicabilidade desde conteúdo (II).
Alunos concluintes: Teoria seria uma exposição sobre o assunto. Prática é trabalhar com situações reais a partir do assunto (I); Teoria é no papel e é o que se espera. Prática é pegar a teoria e tentar implementar (II).
Nessas reflexões, percebe-se que os alunos atribuem um papel importante à prática para compreender a teoria, inclusive supervalorizando-a. Porém nota-se que, principalmente entre os alunos iniciantes, sua visão de prática restringe-se à manipulação de materiais ou à realização de experiências. Aparentemente apenas por volta da metade do curso é que os alunos passam a compreender a prática como algo mais abrangente, sendo capazes de reconhecer que problemas relacionados à aplicação tecnológica dos modelos teóricos, expostos, por exemplo, na forma de estudos de caso ou atividades de papel e lápis, constituem também um aspecto da prática conectada à teoria, que é mais convergente com o levantamento das reflexões dos professores.
Da mesma forma, os alunos atribuem significados ao conhecimento prévio diferentes daqueles usualmente adotados no ensino de física. Esta análise precisa ser aprofundada, mas constatou-se que a maioria dos estudantes entende conhecimento prévio como o conhecimento dos níveis de escolaridade anteriores ou de disciplinas anteriores, isto é, identificam-no mais como pré-requisitos para as disciplinas, e menos com o conhecimento construído pela percepção pessoal e contextual do mundo. Apresentamos alguns exemplos, representativos:
Alunos iniciantes: Conhecimento anterior ao novo conhecimento que se relacionam e se faz necessário para a continuidade da aprendizagem ( ); I Conhecimento que já trazemos de outra disciplina ou do Ensino Médio (II);
Alunos de meio de curso: Conhecimento prévio é o conhecimento que o aluno/estudante deve ter para cursar tal disciplina ou conteúdo abordado em aula (I); O conhecimento que você tem de um determinado assunto, antes de conhecê-lo melhor (II);
Alunos concluintes: É o conhecimento que o aluno já possui. Muitos alunos ja trabalham na área e possuem conhecimento sobre certas tecnologias de trabalho (I); Requisitos necessários para que a disciplina possa ocorrer normalmente (III).
Ao refletir sobre a conexão entre teoria e prática, percebe-se que a escolha das estratégias de ensino, focadas nos objetivos que se pretende alcançar, na metodologia e no papel do professor, são fundamentais para que o conhecimento científico adquira significado e faça sentido no contexto em que o estudante está inserido. Espera-se que os resultados obtidos a partir do questionário reformulado forneçam indícios de como interagir com os estudantes de forma a minimizar dificuldades de aprendizagem, promover aprendizagens mais contextualizadas e significativas e, por fim, propor práticas pedagógicas mais eficientes e qualificadas, tanto para o ensino de física, quanto para o das ciências exatas em geral.
## Referências
FIORENTINI, Dario. Pesquisar práticas colaborativas ou pesquisar colaborativamente? In: BORBA, Marcelo de Carvalho; Araujo, Jussara de Loiola (orgs.). Pesquisa Qualitativa em Educação Matemática. 2.ed. - Belo Horizonte: Autêntica, 2006. p. 61-62.
Masetto. M. T. (org). Ensino de Engenharia: técnicas para otimização das aulas. São Paulo: Avercamp, 2007. Cap. 1, p. 17-36.
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