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INÉRCIA EM UMA ABORDAGEM HISTÓRICO MATERIALISTA DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA

Victória Guimarães Portella, Marcos Moraes Calazans

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
22/07/2021
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## INÉRCIA EM UMA ABORDAGEM HISTÓRICO MATERIALISTA DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA

## Victória Guimarães Portella¹, Marcos Moraes Calazans²

¹ICEB/Departamento de Física/UFOP, guimaraesvictoria37@gmail.com ²1 ICEB/Departamento de Física/UFOP, calazans@edu.ufop.br

Palavras-chave: História e Filosofia das Ciências; Ensino de Ciências; abordagem marxista.

## Resumo expandido

Autores como Martins (2006) defendem a História e Filosofia da Ciência (HFC), como abordagem para o ensino de ciências, afirmando que ao estudar alguns episódios históricos é possível compreender a correlação entre ciência, tecnologia e sociedade, salientando que a ciência não está isolada do contexto, sendo influenciada por ele e influenciando-o.

Um exemplo de abordagem de ensino que faz uso da História da Ciência é a abordagem contextualista, desenvolvida por Matthews (1995), que procura acabar com o 'mar de falta de significação' que ocorre quando há separação entre ciência e a História e Filosofia da Ciência na sala de aula. Além da abordagem contextual, as abordagens em HFC são organizadas a partir das perspectivas historiográficas diacrônica e anacrônica (KRAGH, 1989).

A primeira diz respeito a uma análise feita de acordo com o período em que se está inserido o conceito científico tratado. Nessa perspectiva, o pesquisador deve agir como um observador no passado e não como um observador do passado (KRAGH, 1989). Já na perspectiva anacrônica, a ciência é estudada sob a luz do que se conhece atualmente. O historiador pode 'intervir' no passado com o conhecimento que ele possui devido ao tempo em que faz parte.

Existe um tipo de anacronismo tendencioso chamado whiggismo que é, segundo Butterfield (1951), 'o estudo do passado com um olho, por assim dizer, sobre o presente'. Butterfield, quem surgiu com o termo, o identifica como uma escrita a-histórica da história. O whiggismo interpreta a história visando enaltecer um ponto de vista ou pensador do passado (FORATO; PIETROCOLA; MARTINS, 2011). Narrar a história da ciência sob essa perspectiva é sobrevalorizar certos pontos de vista em detrimento de outros.

Outra perspectiva historiográfica na história da ciência é aquela com base no marxismo, que é apontada por críticos como ideológica, geral e economicista. Podese citar como marco histórico para o desenvolvimento desta abordagem a apresentação de pesquisadores de uma delegação soviética no segundo Congresso Internacional de História da Ciência de Londres em 1931. Dentre os trabalhos apresentados se destacou a apresentação do físico soviético Boris Hessen do artigo 'As raízes sócio-econômicas dos Principia de Newton'. Este é considerado um importante referencial acerca da abordagem marxista.

Segundo essa tendência historiográfica as ideias científicas estariam enraizadas, em última instância, nas relações econômico-sociais (YOUNG, 1996). Young (1996), classifica a historiografia marxista na história da ciência em três

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variantes, a economicista, baseada no determinismo econômico, aquela baseada no conceito de mediação e aquela baseada no conceito de totalidade.

Em seu trabalho Boris Hessen mostra como o modo de produção em uma determinada época afeta o desenvolvimento da ciência. No artigo, Hessen mostra isso ao tratar da forma como a física newtoniana é afetada pelas necessidades econômicas do período em que viveu o cientista. Analisando os estudos de Newton, encontra-se a relação entre sua ciência e problemas técnicos relacionados ao desenvolvimento da mineração, da indústria bélica e das vias de comunicação (HESSEN, 1931).

Entretanto, o autor deixava claro que não se deve reduzir a produção da ciência somente a sua relação com a economia. Fatores como teorias políticas, filosóficas, religiosas e ideologias também influenciaram no desenvolvimento da física newtoniana. É possível observar isso, por exemplo, quando o autor aponta que Newton atribui a explicação do movimento dos planetas a uma força divina. Essa atribuição é devido a uma influência do determinismo mecanicista, presente na Inglaterra daquele período que continha em suas concepções alguns dogmas, que influenciaram na física newtoniana (HESSEN, 1931).

. Com base nas leituras sobre as abordagens historiográficas para o ensino de ciências, iniciou-se o desenvolvimento de uma abordagem, baseada no marxismo, para o ensino do conceito de inércia. Mediante isso, chegou-se a alguns resultados. O primeiro deles é sobre a concepção de história do materialismo histórico, onde o modo de produção, em última instância, condiciona o desenvolvimento científico, como mostra o artigo de Boris Hessen(1931). O outro resultado é sobre o uso do conhecimento científico como meio para superar o senso comum. Aqui a abordagem segue as diretrizes da Pedagogia Histórico-Crítica(PHC), desenvolvida por Demerval Saviani(1983), que possui cinco momentos pedagógicos: a prática social inicial, problematização, instrumentalização, catarse e prática social. Seguindo esses momentos, a PHC busca apresentar a situação ainda sob uma perspectiva sincrética dos alunos(prática social inicial) para, então, apresentar os problemas envolvendo a prática social, que pela apreensão dos instrumentos necessários para resolvê-los, os alunos conseguirão incorporar o que já foi apresentado e utilizar disso para a transformação social. Por fim, ocorre o retorno para a prática social, porém desta vez com uma visão mais sintetizada dela, adquirida ao longo do processo. Assim, a PHC é considerada uma incorporação dos conhecimentos 'da síncrese à síntese' (SAVIANI, 2008).

Mediante ao que já foi analisado e aos resultados obtidos, o trabalho termina com uma sequência didática, para colocar em prática a abordagem desenvolvida. A sequência tem como tema 'Acidentes de trabalho na área da mineração' e busca ensinar o conceito de inércia relacionando-o com o tema, a partir da concepção do materialismo histórico. Ela conta com uma aula que apresenta os acidentes de trabalho da área da mineração. Seguido de uma problematização acerca do termo 'acidentes', debatendo se caberia ou não o uso deste. Além disso, é discutido o conceito de movimento sob uma perspectiva filosófica, mostrando como uma nova concepção de movimento surge mediante uma nova concepção de mundo. Ao tratar do conceito de inércia também são tratados de aspectos acerca do mundo, uma vez explicado o conceito, ele é relacionado com exemplos de acidentes de trabalho da mineração. Há uma aula para discutir a física e o contexto, salientando que a ciência não está isolada do modo de produção. Por fim, é discutido sobre a mineração em diferentes momentos históricos, visando analisar o seu desenvolvimento e relacionando-o ao tema.

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Assim, juntamente do estudo de um conceito científico há discussão e reflexão sobre o tema. Ao relacionar ciência com o tema da sequência, busca-se mostrar que é possível ensinar o princípio da inércia com base em uma abordagem materialista histórica da História da Ciência.

## Referências

COLTURATO, Andriel Rodrigo; MASSI, Luciana. Aportes teóricos e metodológicos para a história da ciência com base no materialismo histórico-dialético. Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 11, n. 3, p. 170-180, abr. 2020. ISSN 2175-5604. Disponível em: <https://periodicos.ufba.br/index.php/revistagerminal/article/view/33700>. Acesso em: 22Fev. 2021. doi:http://dx.doi.org/10.9771/gmed.v11i3.33700.

FABRÍCIO, C. M.; GUIMARÃES, L. M.; AIRES, J. A. Lavoisier e a combustão: uma proposta para o Ensino de Química baseada na História e Filosofia da Ciência. Encontro Nacional de Pesquisa em Educação e Ciência (ENPEC), p. 12, 2011.

FORATO, T. C. DE M.; PIETROCOLA, M.; MARTINS, R. D. A. Historiografia e natureza da ciência na sala de aula<br>DOI: 10.5007/2175-7941.2011v28n1p27. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v. 28, n. 1, p. 27-59, 2011.

HESSEN, B. As Raízes sociais e econômicas dos Principia de Newton. II Congresso Internacional de História da Ciência e da Tecnologia, p. 30-85, 1931.

KRAGH, H. Anachronical and diachronical history of science. In: An Introduction to the Historiography of Science. 1a ed. Cambridge: Cambridge University, 1989. p. 89-107.

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MATTHEWS, M. R. Tendência Atual De Reaproximação. Cad. Cat. Ens. Fís., v. 12, n. 1, p. 164-214, 1995.

OLIVEIRA SANTOS, R. E. Pedagogia histórico-crítica: que pedagogia é essa?. Horizontes, v. 36, n. 2, p. 45-56, 12 ago. 2018.

PERON, T.; GUERRA, A.; FORATO, T. C. Contextualizando Galileu: Um Possível Caminho para Abordar Natureza da Ciência em Sala de Aula. Encontro Nacional de Pesquisa em Educação e Ciência (ENPEC), p. 12, 2011.

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TONET, I. MÉTODO CIENTÍFICO Uma Abordagem Ontológica. 1a edição ed. São Paulo: Instituto Lukács, 2013.

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