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O SABER DA FÍSICA EM TERRITÓRIOS DESIGUAIS: UM OLHAR PARA A CIDADE DE SÃO PAULO

Felipe Muneratto, Graciella Watanabe

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
22/07/2021
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O SABER DA FÍSICA EM TERRITÓRIOS DESIGUAIS: UM OLHAR PARA A CIDADE DE SÃO PAULO

## Felipe Muneratto 1 , Graciella Watanabe 2

- 1 Universidade Federal do ABC/Centro de Ciências Naturais e Humanas, felipe.muneratto@aluno.ufabc.edu.br
- 2 Universidade Federal do ABC/Centro de Ciências Naturais e Humanas, graciella.watanabe@ufabc.edu.br

Palavras-chave

: Desigualdade, Fronteira

## Resumo expandido

As desigualdades categóricas, são, como aponta Tilly (2006), aquelas que apresentam vantagens diferenciadas, conforme determinado sistema classificatório, e que podem ser compreendidas como formas de benefícios desiguais em que há distinção de um grupo em relação a outro. Neste sentido, o conhecimento como "bem simbólico" também acaba por ser um dos elementos que distingue quem sabe (ou não) determinada área do saber, como por exemplo, o saber da Física. A elucidação dessas desigualdades, também como promotora de outras, pode ser verificada nas diferenças de capitais culturais, econômicos, gênero e raça dos candidatos no desempenho em Ciências no Enem ou em questões de Física (MARCON, KLEINKE, 2017; MARCON, 2019; NASCIMENTO, 2019; SPAZZIANI, 2019; MUNERATTO, WATANABE, 2020). Ademais, ressalta-se que está no conhecimento científico a possibilidade de 'vantagens políticas, financeiras e existenciais aos que o detêm' (TILLY, 2006, p. 57), e, portanto, também justificando o interesse de estudos entre as desigualdades e o conhecimento científico.

E se a sistemática teórica conceitual de Tilly sobre a dinâmica de uma fronteira (do campo das ideias) entre os detentores e destituídos, com recursos e benefícios desiguais, pudesse ser percebida numa fronteira de representação geográfica? Esta apropriação de fronteira no sentido territorial torna-se mais uma possibilidade de análise no caso brasileiro, em uma sociedade desigual (OXFAM, 2017; PNUD, 2019) em que as relações educacionais são postas e inerentemente contextualizadas para e pelos agentes sociais (alunos) e as instituições educacionais. Nesta perspectiva além de uma fronteira no campo conceitual, haveria na sua representação urbana, uma outra fronteira percebida e resultante das classificações objetivas e estruturantes a qual possuiria dinâmica (social, econômica e cultural) distinta conforme áreas do território urbano.

Nesta direção, é compreendido que os processos de urbanização das cidades brasileiras tenderam a ser de expansão urbana capitalista periférica pautadas em uma desigualdade socioespacial (RODRIGUES, 2007; VILLAÇA, 2011). Disto posto, a cidade de São Paulo torna-se um exemplo deste processo segregacionista resultando, numa concepção macro, em áreas periféricas com deficiência em oportunidades educacionais, culturais, bens e serviços (MARICATO, 2003; REDE NOSSA SÃO PAULO, 2019) e que implica nos destinos educacionais e sociais daqueles que experienciam essas regiões (PEROSA, LEBARON, LEITE, 2015).

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19 a 30 de julho de 2021 - Online

Este estudo, portanto, busca compreender como os conhecimentos das Ciências da Natureza, estão (ou não) sendo apropriados pelos diversos grupos de alunos no espaço urbano, dando ênfase para à Física. Sendo assim, a partir dos microdados do Enem 2019, buscou-se: 1. realizar a espacialização da taxa média de acertos, por área do saber (Física, Química, Biologia), referente às Ciências da Natureza e suas Tecnologias na cidade de São Paulo; 2. Verificar a taxa média de acertos por tipo de disciplina e dependência administrativa da escola de origem do candidato; e 3. analisar os conteúdos chaves, das questões de Física que obtiveram maior taxa média de erro.

Para tanto, as modelagens estatísticas foram feitas a partir do software Alteryx e as espacializações com o QGIS. A base de dados foi constituída a partir do microdados e das provas do Enem 2019 e do Catálogo de Escolas, ambos disponibilizados pelo INEP 1 . As condições de contorno deste estudo foram aqueles que estavam presentes nos dois dias de provas, estavam no terceiro ano do Ensino Médio cuja a escola de origem fosse de São Paulo e havia informações georreferenciadas. Desta forma, tem-se como corpus desta pesquisa 43.719 agentes sociais 2 .

A partir da análise das 45 questões 3 , buscou-se conceitos chaves para articulação e resposta adequada para cada pergunta de modo, a posteriori, categorizar entre itens de Física (15), Química (14) e Biologia (16). Conforme observase na figura 1, com clusterização com algoritmo Jenks, a distribuição da taxa média de acertos na cidade de São Paulo tende a ser maior nos distritos mais centrais, ao passo que as menores sejam nos mais periféricos, o que parece consoar com a constituição desigual da cidade (MARICATO, 2003). Tal comportamento é observado nos três eixos disciplinares, no entanto deve-se salientar uma maior taxa de acerto por itens de Biologia.

Figura 1 : Geoespacialização das taxas médias de acertos na cidade de São Paulo

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No que tange a distinção por tipo de escola de origem 4 , tem-se situação semelhante a observada na geoespacialização. Independentemente do tipo de dependência escolar, tem-se a Biologia com uma das maiores taxas médias de acertos se comparado com a Física e Química. A interpretação das porcentagens da figura 2, no entanto deve ser ponderada com a quantidade de agentes sociais, sendo a Estadual a maior representatividade seguido da Particular. Neste sentido, destaquese como para as três áreas do saber, agentes sociais da escola particular possuem uma melhor taxa média de acertos, inclusive ao compararmos entre os itens de Física

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Figura 2 : Taxas médias de acertos por disciplina e tipo de dependência administrativa da escola de origem

Quanto as perguntas com as menores taxas de acertos em Física, conforme tabela 1, foram às com arcabouço conceitual de corrente elétrica induzida (F1) com 14,7% de acerto, diagrama de forças associando peso e tensão (F5) com apenas 12,5% e a de cinemática e dinâmica (F7) com 14,19%

Tabela 01: Taxa de acerto nos itens de Física

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Tais análises trazem questionamentos que visam melhor aprofundamento nas respostas, no entanto deve-se sinalizar que as taxas de acertos, por itens, podem refletir a própria dinâmica espacial da cidade, de modo que agentes sociais em escolas nos distritos mais periféricos tendem a obter uma menor taxa de acerto, o que pode propor novas pesquisas à nível microssocial para compreensão. A Física, enquanto saber, também possui baixos índices de acertos se comparado à Biologia, mas tende a ter certa proximidade com a Química. O que faz-se questionar o que justificaria essa diferença. No entanto, a nível escolar, deve-se salientar como os agentes de escolas particulares tendem a 'performarem' melhor que os da estadual, indicando como esses conhecimentos (aqui mensurados pelo microdados do Enem 2019) podem estar melhor difundidos neste espaço social.

## Referências

MARCOM, G. S.; KLEINKE, M. U. Gênero e status socioeconômico: reflexões sobre o desempenho dos candidatos na prova de Ciências da Natureza do Enem 2014. Perspectiva Sociológica, v. 19, p. 44-52, 2017.

MARCOM, G. S. O ENEM, indicadores formativos e o Ensino de Física. 2019. 139f..Tese (Doutorado em Ensino de Ciências e Matemática) - Instituto de Física Gleb Wataghin, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2019.

MUNERATTO, F.; WATANABE, G. As notas em Ciências Naturais e a desigualdade socioespacial na cidade de São Paulo: Estudo introdutório. In: Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, XVII, 2020, Florianópolis.

NASCIMENTO, M. M. O acesso ao ensino superior público brasileiro: um estudo quantitativo a partir dos microdados do Exame Nacional do Ensino Médio. 2019. 292f..Tese (Doutorado em Ensino de Física) - Instituto de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2019.

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OXFAM. A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras. São Paulo, 2017. p. 34-35.

PEROSA, G. S.; LEBARON, F.; LEITE, C. K. S. O espaço das desigualdades educativas no município de São Paulo. Pro-Posições: Campinas, v. 26, n. 2 (77), p. 99-118, mai./ago. 2015.

REDE NOSSA SÃO PAULO. Mapa da desigualdade 2019. São Paulo: RNSP, 2019. Disponível em: https://www.nossasaopaulo.org.br/wpcontent/uploads/2019/11/Mapa\_Desigualdade\_2019\_tabelas.pdf. Acesso em: 20 fev. 2021.

RODRIGUES, A. M. Desigualdades socioespaciais: a luta pelo direito à cidade.Revista Cidades - UNESP: Bauru, v. 4, n. 6, p. 73-88, 2007. Disponível em: http://revista.fct.unesp.br/index.php/revistacidades/article/viewFile/571/602. Acesso em: 23 fev. 2021.

SPAZZIANI, G. R. Devolutivas pedagógicas construídas a partir das escolhas das alternativas pelos candidatos nos itens de Física do ENEM. 2019. 203f..Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática) - Instituto de Física Gleb Wataghin, Universidade de Campinas, Campinas, 2019.

TILLY, C. O acesso desigual ao conhecimento científico. Tempo social. São Paulo, v. 18, n.2, 47-63. nov. 2006.

UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME (PNUD). Human Development Report 2019: Beyond income, beyond averages, beyond today Inequalities in human development in the 21st century. New York: PNUD, 2019

VILLAÇA, F. São Paulo: segregação urbana e desigualdade. Estudos Avançados, São Paulo, v. 25, n.71, jan./out. 2011. Doi: https://doi.org/10.1590/S0103-40142011000100004

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.