Regime político civil-militar e a ciência (1965 - 1973): os Físicos no Pará
Diego Ramon Silva Machado, Nycollas Rodrigues Ferreira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 22/07/2021
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## REGIME POLÍTICO CIVIL-MILITAR E A CIÊNCIA (1965 - 1973): OS FÍSICOS NO PARÁ
## Nycollas Rodrigues Ferreira 1 , Diego Ramon Silva Machado 2
1 Universidade do Estado do Pará - UEPA/Departamento de Ciências Naturais/nycollas.ferreira@aluno.uepa.br
2 Universidade do Estado do Pará - UEPA/Departamento de Ciências Naturais/diego.machado@uepa.br
Palavras-chave : História da Física; Ditadura Militar; Físicos no Pará.
## Introdução
O período de regime-militar é marcado pela ausência de direitos políticos fundamentais, como a liberdade de expressão, e consequentemente gerando perseguições a muitos intelectuais da época. De acordo com Ildeu de Castro Moreira (2014), ainda em 1964, inícios do regime militar, foram presos vários cientistas por suspeita de se opor ao governo. Docentes, discentes e pesquisadores da área de física se incluem no grupo de cientistas afetados diretamente pela ditadura. Ao trazer a história da Física dentro do regime civil militar entre físicos paraenses, em especial na UFPA, busca-se também retratar a história da ciência e da educação científica em regimes autoritários, sem a pretensão, contudo, de entendê-la somente pelas resistências contidas, mas pelas concessões e legitimações que possam ocorrer mesmo diante do monitoramento existente.
## Justificativa
Observa-se que a carência de materiais sobre o assunto, sobretudo no Pará, reflete no grande valor das pesquisas que falam sobre como cientistas paraenses, mesmo individualmente, sentiram a presença da ditadura na história formativa desta área de conhecimento.
## Objetivo
Dimensionar as resistências e legitimações da ditadura entre pessoas que atuavam profissionalmente na área da física na região, em especial, na Universidade Federal do Pará. É objetivo desta pesquisa, portanto, analisar a relação entre o regime civil militar e os físicos paraenses, no período de 1965 a 1973, durante a institucionalização do curso de Física na UFPA.
## Referencial Teórico
Das fontes analisadas, destacamos entrevistas de professores sobre a ditadura em bases de dados já existentes do acervo documental digital 'Memorial Cesar Moraes Leite', onde também tivemos acesso aos documentos do Serviço Nacional de Inteligência (SNI) relacionados aos servidores da instituição; utilizamos também relatos pessoais do já citado professor Bassalo, a exemplo de textos dos textos 'cassação branca e cassação patrulhada', '40 anos de invasão da CRUSP'; somam-se ainda relatos presentes em outros trabalhos que citaram situações relacionadas ao regime civil militar por parte de professores de física no estado.
Anteriormente ao início do curso era disciplina fazia parte da grade curricular de algumas faculdades, como a Escola de Engenharia, Faculdade de Filosofia,
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
Ciência e Letras e a Faculdade de Farmácia. Por iniciativa dessas faculdades, e do reitor Silveira Netto, foi criado o Núcleo de Física e Matemática em 1961, reflexo da busca de melhores condições para o trabalho com Ciência e Tecnologia.
A Gênese do ensino de Física na região paraense ocorreu enquanto a política no país estava em um período conturbado. Porém, houve poucos concluintes no primeiro ano do curso, turma de 1965, Ana Emília Coelho de Souza Bastos, Carmelina Nobuko Kobayashi e José Maria Costa de Souza (1965-1968), este último teve intensa atuação política contra a ditadura e por consequência não foi convidado a lecionar no núcleo depois de formado, sendo a única exceção da sua turma.
## Resultados
- O NFM se desenvolveu no exato período do regime militar, consequentemente o Curso de Física e, segundo Almeida (2006), seus dirigentes ao longo do período de 1961- 1970 assumiram posturas que oscilavam entre a obediência à administração superior da Universidade e atitudes de autonomia sob Núcleo. Em contrapartida, Silveira Neto apesar de propor um progresso significativo a Universidade possuía um posicionamento avesso em relação a docentes e alunos que fossem contra o regime militar.
- O vice coordenador, Fernando Medeiros Vieira, do NFM distribui cópias do decreto imposto por Castelo Branco para comunidade docente e discente, em busca de evitar qualquer ato subversivo, a fim de tornar o Núcleo alinhado com a proposta do reitor Silveira (ALMEIDA 2006).
Fato importante a se ressaltar é o caso do professor paraense Bassalo que vai para Universidade de São Paulo (USP) realizar sua pós-graduação , em 1968, onde passa pelo marcante episódio da invasão do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP). Bassalo descreve que morava no conjunto com mais estudantes, entre eles o físico também paraense Marcelo Gomes, ambos vivenciaram momentos de aflição pois antes do dia da invasão os militares 'metralharam' o CRUSP por duas noites seguidas (BASSALO, 2012).
No dia 17 de Dezembro ainda de madrugada o Conjunto é invadido, seus materiais são confiscados e os militares obrigam todos a descer apenas com a roupa do corpo, Bassalo é preso por suspeita de subversão, passando um dia inteiro preso mas é resgatado por seu orientador Jayme Tiomno, ele e Marcelo foram para casa do professor. Futuramente este momento o impediria de sair do país para dar continuidade ao estudo sobre 'Forma de Linhas Espectrais' na França devido a cassação de seu nome pelo Sistema Nacional de Informação(SNI) .
Segundo Almeida (2006), o Núcleo de Física e Matemática foi extinto, em 1969 e em contrapartida foi criado o Centro de Ciências Exatas e Naturais (CCEN), formado através de Departamentos dos Cursos de Física e Matemática. Em 1971 o CCEN começou a montagem do laboratório de Física da UFPA que foi entregue em 1973 (CRISPINO 2019).
- O jornal 'Folha do Norte" emitiu uma matéria sobre a chegada do laboratório na região:
- '[...] segundo o Reitor Clóvis Malcher [o Laboratório]'permite a formação profissional do professor, por ser um dos melhores do mundo' o que lhe dava a oportunidade de afirmar 'que doravante nossos mestres não precisam mais ir ao Sul em busca de aprimoramento'. O laboratório doado
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pela Alemanha veio para a UFPA, em decorrência de um convênio com o Governo Brasileiro para ajuda mútua técnico-científica. [...]'.
## Conclusão
A construção historiográfica mostra um período ambíguo de avanço tecnológico e, em contrapartida, constante vigilância imposta pelo governo brasileiro. O estado do Pará viveu uma época de modernização tecnológica, a ascensão do ensino superior de Física é consequência desse desejo de progresso, o investimento no laboratório de Física é prova disso. A formação dos docentes é uma preocupação neste momento e por isso muitos são enviados para estudar fora do estado. A nível nacional há a inserção no contexto de regime militar e consequentemente a cassação daqueles que sejam contra a politica vigente.
## Referências
ALMEIDA, Ruy Guilherme Castro de. O papel dos engenheiros e matemáticos na história do ensino de Física no Pará (1931-1970). 2006. 243 f. Tese (Doutorado) Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de História. Programa de Pós-Graduação em História Social, 2006. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-10072007100501/pt-br.php. Acesso em: 15 Ago. 2020.
BASSALO, J. M. F. Cassação Branca e Cassação Patrulhada. Crônicas da Física, Tomo 6, EDUFPA, 2001. Disponível em:
BRASIL. Lei n. 5.540, de 28 de novembro de 1968. Fixa normas de organização e funcionamento do ensino superior e sua articulação com a escola média, e dá outras providências. Diário Oficial da República Federativa do Brasil , Poder Executivo, Brasília, DF, 28 nov. 1968
BRASIL. Decreto-lei n. 477, de 26 de fevereiro de 1969. Define infrações disciplinares praticadas por professôres, alunos, funcionários ou empregados de estabelecimentos de ensino público ou particulares, e dá outras providências. Diário Oficial da União , Brasília, DF, 26 fev. 1969.
CLEMENTE, J. E. F. 'Ciência e política durante a ditadura militar (1964-1979): o caso da comunidade brasileira de físicos'. Dissertação de Mestrado Instituto de Física, Universidade Federal da Bahia (UFBA). Salvador, 2005.
CLEMENTE, J. E. F. 'Perseguições, espionagem e resistência: o Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia durante a ditadura militar (1964 a 1979)'. Revista da SBHC , vol.4, no.2, pp.129-145, 2006.
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CLEMENTE, José Eduardo Ferraz (2006). Perseguições, espionagem e resistência: o Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia durante a ditadura militar (1964 a 1979). Revista da Sociedade Brasileira de História da Ciência, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 129-145, jul | dez 2006.
CRISPINO, Luís Paulo Bassalo; SERRA, Victor Façanha. Gênese do Laboratório de Física da Universidade Federal do Pará . Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 40, nº 4. Belém, 2018. Disponível em: http://www.facfis.ufpa.br/node/41. Acesso em: 16 Ago. 2020.
CUNHA, Raquel; SILVEIRA, Flávio Leonel Abreu da. Um olhar à cidade de Belém sob o Golpe de 1964: paisagens e memórias de estudantes e artistas. Iluminuras (Porto Alegre), v. 10, p. 1-25, 2009. Disponível em http://migre.me/qJgJo - acesso em 04.08.2020.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ. Assessoria de Educação a Distância. Faculdade de História.Universidade Multicampi -25 anos de ensino superior regionalizado no Pará: entrevista com José Maria Firlardo Bassalo. Belém: UFPA, 2012. 1vídeo. (1h). Disponível em: http://multimidia.ufpa.br/jspui/handle/321654/1053 . Acesso em: 15 mar. 2021.
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