OS MOVIMENTOS EPISTÊMICOS EM AULAS COM ABORDAGEM HISTÓRICO-INVESTIGATIVA: UM ESTUDO DE CASO
Thiago Barbora Morais, Wellerson Da Silva Cruz, José Antonio F. Pinto, Cibelle Celestino Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 22/07/2021
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## OS MOVIMENTOS EPISTÊMICOS EM AULAS COM ABORDAGEM HISTÓRICO-INVESTIGATIVA: UM ESTUDO DE CASO
Thiago Barbosa Morais 1 , Wellerson da Silva Cruz 2 , José Antonio F. Pinto 3 Cibelle Celestino Silva 4
- 1 Universidade Estadual da Paraíba, thiago.bm73@gmail.com
- 2 Universidade Estadual da Paraíba, silvawellerson.02@gmail.com
- 3 Universidade Estadual da Paraíba/Departamento de Física/SEEDPB , pinto.jantoniof@gmail.com
- 4 Universidade de São Paulo/Instituto de Física de São Carlos, cibelle@ifsc.usp.br
Palavras-chave : Abordagem histórico-investigativa. Movimentos Epistêmicos. Quadro teórico-didático.
As contribuições que a presença da história e filosofia da ciência (HC) pode trazer para o ensino de ciências já formam um certo consenso entre os pesquisadores da área (ZANETIC, 1989; MARTINS, 1990; MATTHEWS, 1994; TEIXEIRA ET AL., 2001; SILVA; MARTINS, 2003; MARTINS, 2006). Não obstante, a tarefa envolvida na implementação da HC na educação básica é um trabalho complexo com diversas variáveis que partilham, entre outras coisas, a subjetividade dos sujeitos, corpo docente, estudantes e o conhecimento, que estão intrinsecamente envolvidos nesse processo. Por isso, é um campo profícuo para que cada vez mais pesquisas sejam desenvolvidas com diferentes enfoques que podem envolver a produção de materiais didáticos, a proposição de metodologias e/ou a avaliação do processo de ensino e aprendizagem.
Atualmente, diversas pesquisas defendem que uma abordagem de ensino envolvendo a interação entre história da ciência e a experimentação podem superar alguns obstáculos e limitações que isoladamente essas abordagens podem apresentar (HÖTTECKE; SILVA, 2011; HEERING; HÖTTECKE, 2014; BATISTA; SILVA, 2018). É o caso da abordagem históricoinvestigativa (AHI) em que o professor busca criar um ambiente investigativo no qual estudantes procuram uma solução para um dado problema, tendo suporte de materiais de cunho histórico e atividades práticas, geralmente experimentais. Segundo Batista e Silva (2018) o ensino investigativo visa, entre outras coisas, que o aluno assuma algumas atitudes típicas do fazer científico, como indagar, refletir, discutir, observar, trocar ideias, argumentar, explicar e relatar suas descobertas.
Na AHI o professor volta sua atenção às necessidades de mudanças de postura em relação às atividades a serem desenvolvidas em sala de aula, favorecendo que abordagens dialógicas sejam desenvolvidas proporcionando o livre debate de ideias na investigação de episódios históricos. O Quadro Teórico-didático (QTD) (PINTO; SILVA, 2017) surge como um instrumento para auxiliar no planejamento e desenvolvimento de aulas com abordagem histórico-investigativas.
- O Quadro Teórico Didático foi pensado a partir do referencial da ciência integral proposta por Allchin (2014) e nos referenciais da Design Based Research (DBR) para estruturar conteúdos e formas de discutir a história da ciência nas aulas de física. A ciência integral compõe o eixo responsável pelas discussões de natureza da ciência orientadas para as dimensões conceitual, observacional e sociocultural (ALLCHIN, 2013). A DBR busca delinear caminhos para análise e estruturação dos tipos de interação que podem ocorrer para que o
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
professor e a turma possam colaborar na construção de um ambiente investigativo. O QTD envolve três componentes distintos: a imersão teórica, responsável pela formação teórica acerca da HC e o estudo de episódios históricos; imersão prática, que pode ocorrer concomitantemente com a imersão teórica, e aprofunda a vivência investigativa dos experimentos presentes nos episódios históricos; e a imersão didática em que efetivamente é planejada a sequência de aulas investigativas a partir do que foi experienciado nas imersões teórica e prática.
Dessa maneira, nossa análise busca identificar como o planejamento, estruturado a partir do QTD, auxiliou nas ações realizadas em sala de aula na condução das atividades históricoinvestigativas. Essas ações, chamadas de movimentos epistêmicos, envolvem tudo aquilo que professores(as) realizam ao desenvolverem atividades investigativas no contexto do processo de aprendizagem de seus estudantes (LUNDQVIST; ÖSTMAN, 2005).
Este trabalho trata de um estudo de caso realizado durante a intervenção de dois licenciandos do curso de Licenciatura em Física, da Universidade Estadual de Paraíba, em uma turma de segundo ano de ensino médio do Instituto Federal da Paraíba. O recorte histórico utilizado teve como tema 'A história da eletrostática: de Gilbert à invenção da garrafa de Leyden''. Foi utilizada a observação participante com registros em fotos, gravação de áudio e anotações nos diários de campo.
Foram construídas categorias de análise para caracterização dos movimentos epistêmicos por parte dos licenciandos durante sua prática. As três categorias foram:
- I. Confirmação: concordância entre os elementos teóricos e práticos na introdução do problema com as ideias suscitadas pelos estudantes. Implementação das estratégias previstas;
- II. Adequação: adaptação das estratégias em relação às situações didáticas específicas;
- III. Conexão: acoplamento de novos conhecimentos ou reestruturação da ordem de instrução prevista.
Após o desenvolvimento, coleta e análise dos dados, os resultados apontaram diferentes situações que corroboram a efetividade do uso do QTD como ferramenta que ajuda na preparação do licenciando para lidar com situações novas e inesperadas em uma aula investigativa. Como exemplo, podemos citar uma situação que ocorreu no segundo encontro em que foi proposto um problema investigativo à turma que tratava da construção de um instrumento capaz de armazenar eletricidade a partir dos recortes históricos que discutiam o episódio da garrafa de Leyden:
- 'O grupo 02 se questionou quanto à produção da eletricidade necessária para o armazenamento, o que nos proporcionou uma nova ideia para a aula subsequente à da construção do aparato de armazenamento: trouxemos outros recortes históricos que discutiam os conhecimentos sobre eletrostática existentes no período e um problema investigativo complementar.' (retirado do diário de campo do licenciando A)
Caracterizamos a situação acima como um movimento epistêmico de adaptação. Ao explicá-lo, o licenciando apontou o fato de que o QTD já tratava daquelas questões, tanto no contexto da imersão teórica, quanto da imersão prática, o que facilitou o replanejamento.
Por fim, concluímos que ter a clareza de que o planejamento não consegue abordar todas as situações que ocorrem em uma aula voltada à investigação e discussão de episódios históricos, auxiliado por um olhar mais amplo acerca das questões teóricas e práticas que as imersões do QTD possibilitaram, auxiliou na tomada de ações conscientes e reflexivas para a adaptação e replanejamento das aulas seguintes quando se depararam com tais situações.
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## Referências
ALLCHIN, D. Teaching the Nature of Science: Perspectives & Resources . Saint Paul: SHiPS Education Press, 2013.
BATISTA, R. F.M.; SILVA, C. C. A abordagem histórico-investigativa no ensino de Ciências. Estudos avançados , v. 32, n. 94, p. 97-110, 2018.
HEERING, P.; HÖTTECKE, D. Historical-Investigative Approaches in Science Teaching. In: MATTHEWS, Michael R. (Ed.). International handbook of research in history, philosophy and science teaching . Springer, 2014. p. 1473-1502.
HÖTTECKE, D.; SILVA, C. C. Why implementing history and philosophy of science in school science education is a challenge: an analysis of obstacles. Science & Education , v. 20, n. 3-4, p. 293-316, 2011.
LIDAR, Malena; LUNDQVIST, Eva; ÖSTMAN, Leif. Teaching and learning in the science classroom: The interplay between teachers' epistemological moves and students' practical epistemology. Science education , v. 90, n. 1, p. 148-163, 2006.
MARTINS, R. A. Sobre o papel da história da ciência no ensino. Boletim da Sociedade Brasileira de História da Ciência , v. 9, p. 3-5, 1990.
MARTINS, R. A. Introdução: a História das Ciências e seus usos na educação. In: SILVA, C. C. (Org.). Estudos de História e Filosofia das Ciências: subsídios para aplicação no ensino . São Paulo: Livraria da Física, 2006.
MATTHEWS, M. R. Science teaching - the role of history and philosophy of science. New York: Routledge, 1994.
PINTO, J. A. F.; SILVA, A. P. B. da. Quadros teóricos-didáticos na perspectiva de design research: uma nova abordagem para o uso da histórica da ciência e experimentação no ensino de física. XII Simpósio Nacional de Ensino de Física . São Carlos-São Paulo, p. 1-8, 2017.
SILVA, C. C.; MARTINS, R. A. A teoria das cores de Newton: um exemplo do uso da história da ciência em sala de aula. Ciência & Educação , v.9, n.1, p.53-65, 2003.
TEIXEIRA, E. S.; EL-HANI, C. N.; FREIRE JUNIOR, O. Concepções de estudantes de física sobre a natureza da ciência e sua transformação por uma abordagem contextual do ensino de ciências. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , v.1, n.3, p.111-23, 2001.
ZANETIC, J. Física também é Cultura . São Paulo, 1989. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo. São Paulo, 1989.
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