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Jocelyn Bell Burnell e os pulsares: trajetória e contribuições para a astronomia moderna

Larissa Do Nascimento Pires, Luiz O. Q. Peduzzi

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
22/07/2021
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## JOCELYN BELL BURNELL E OS PULSARES: TRAJETÓRIA E CONTRIBUIÇÕES PARA A ASTRONOMIA MODERNA

## Larissa do Nascimento Pires , Luiz O. Q. Peduzzi 1 2

Palavras-chave : História da Ciência; História da Astronomia; Mulheres na Ciência.

## Resumo Expandido

A necessidade de discussões sobre a visibilidade das mulheres na ciência, em especial no âmbito da educação científica, é de suma relevância, pela ainda existente baixa representatividade feminina e outros grupos nas áreas das ciências. Por exemplo, 'apenas cerca de 20% das graduações em Física nos Estados Unidos são de mulheres, um número que estagnou durante um tempo em que biologia, química, e a matemática obtiveram grandes ganhos' (BLUE; TRAXLER; COCHRAN, 2019, p. 616). No Brasil, embora '[...] algum esforço tenha sido feito [...] para aumentar o número de pessoas sub-representadas no meio acadêmico nos últimos 15 anos' (ANTENEODO et al., 2020, p. 010136-9), a diversidade ainda não se apresenta com a progressão na carreira acadêmica.

É importante problematizar esta realidade mediante ações no campo da educação científica, que concedam visibilidade e incentivem a participação científica das mulheres (LIMA, 2015; MAIA FILHO; SILVA, 2019). Uma destas ações consiste na escrita e na divulgação da história de mulheres cientistas para a comunidade escolar, oportunizando que professoras/es e alunas/os reconheçam a importância e a necessidade da diversidade de pessoas envolvidas no empreendimento científico. É preciso não somente elencar suas contribuições à ciência, mas também evidenciar elementos que demonstrem os percalços encontrados pelas mulheres no ingresso e na permanência na vida acadêmica e científica (LARSEN, 1994).

Nessa perspectiva, objetivamos discorrer sobre a trajetória acadêmica da astrofísica Jocelyn Bell Burnell (1943-), cujo trabalho de doutorado propiciou a 1 detecção dos primeiros pulsares. Justificamos a escolha desta cientista, por não encontrarmos artigos em educação em ciências que discutam a sua importância na detecção desses objetos celestes. A discussão é baseada no estudo de relatos elaborados pela cientista (BELL BURNELL, 1983; 2004) e de publicações sobre a história dos pulsares (WADE, 1975; MCGRAYNE, 1998; MCNAMARA, 2008).

Susan Jocelyn Bell (Figura 01) nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 15 de julho de 1943. Aos onze anos, participou de um exame britânico existente na época, que separava as crianças entre 'aquelas com direito a uma educação

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secundária preparatória para a faculdade e aquelas destinadas a vários graus de treinamento vocacional' (MCGRAYNE, 1998, p. 358). No entanto, Jocelyn veio a reprovar neste exame. Assim, sua família decidiu que ela aperfeiçoaria seus estudos para o exame na Mount School , um internato de meninas em York, Inglaterra.

Figura 01: Jocelyn Bell em 1967. Fonte 2 : University of Cambridge.

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Durante esta época, Jocelyn conheceu a Astronomia: parte do interesse surgiu pelo fato de um dos projetos de arquitetura de seu pai consistir em mudanças arquitetônicas no Armagh Observatory. Ao visitar o observatório, 'Jocelyn [...] conheceu sua equipe, que a encorajou a se tornar uma astrônoma profissional. Logo ela leu todos os livros populares de astronomia na biblioteca de seu pai' (MCGRAYNE, 1998, p. 361). Estes elementos iniciais da trajetória de Jocelyn Bell oportunizam demonstrar a relevância da influência e do apoio familiar.

Ingressou no curso de Física na Universidade de Glasgow, na Escócia, no ano de 1961. Vivenciou alguns desafios relacionados à sua permanência na graduação, como o fato de que 'no final do primeiro ano, ela era a única mulher em sua classe de física' (MCGRAYNE, 1998, p. 362). Em 1965, ingressou no doutorado em Astronomia na Universidade de Cambridge. Após contribuir na construção de um radiotelescópio projetado por Antony Hewish, seu orientador, Jocelyn Bell trabalhou na detecção de quasares mediante este instrumento.

Meses após o início de sua pesquisa, ela identificou, de maneira casual, sinais no radiotelescópio que não correspondiam ao comportamento de quasares. Ela relata que, em seus registros '[...] havia um pouco do que eu chamo de "scruff", que não se parecia exatamente com interferência e nem com cintilação' (BELL BURNELL, 1983, p. 164). Ressaltando o valor da imersão das/os cientistas na ocorrência de descobertas acidentais, Wade (1975, p. 359) argumenta que, 'embora ainda houvesse muito a ser feito, o cerne da descoberta estava naquele único instante de reconhecimento'. Após a publicação destes achados na revista Nature , estudos subsequentes evidenciaram que estes sinais consistiam em estrelas de nêutrons em rápida rotação, sendo denominadas de pulsares. Apesar do importante papel da cientista, enquanto perguntavam a seu orientador, em entrevistas, sobre a

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importância científica da descoberta, dirigiam a Bell perguntas de cunho pessoal (BELL BURNELL, 2004). Este aspecto permite refletir sobre a histórica falta de autoridade epistêmica atribuída às mulheres.

A relevância científica deste achado foi reconhecida no Prêmio Nobel de Física, em 1974. Nestas ocasiões, é válido considerar '[...] que a concessão de crédito por descobertas científicas às vezes não é claramente definida' (MCNAMARA, 2008, p. 50). Apesar disso, na premiação, apenas Antony Hewish foi reconhecido por 'seu papel decisivo na descoberta dos pulsares'. A omissão de Bell gerou polêmicas na comunidade científica: nomes influentes defenderam o papel decisivo da cientista, como Fred Hoyle e Thomas Gold. Por outro lado, à época, Jocelyn compreendia sua omissão pelo fato de que o Comitê Nobel não costumava reconhecer estudantes de pós-graduação. Posteriormente, ao se engajar em discussões sobre a invisibilidade das mulheres na ciência, considerou, em outros relatos, a possibilidade de sua ausência estar associada a um fator de gênero. A cientista veio a ser reconhecida em outras ocasiões, como o Breakthrough de Física, destinando o prêmio em dinheiro à geração de bolsas para grupos minoritários. Atualmente, ela é professora na Universidade de Oxford.

Em síntese, os elementos apontados na trajetória de Jocelyn Bell Burnell permitem reforçar o argumento de que identificar '[...] o contexto das conquistas das mulheres [...] fornece uma visão sobre como as situações ocorreram no passado e como a mudança precisa ocorrer no futuro' (LARSEN, 1994, p. 127). Sua trajetória evidencia a relevância de uma estrutura familiar de incentivo à ciência, de uma contínua construção de um espaço científico no qual os conhecimentos produzidos por mulheres sejam reconhecidos, bem como a valorização da diversidade na produção acadêmica.

## Referências

ANTENEODO, C. et al. Brazilian physicists community diversity, equity, and inclusion: A first diagnostic. Physical Review Physics Education Research , v. 16, 010136, 2020.

BELL BURNELL, J. The Discovery of Pulsars. In: KELLERMANN, K.; SHEETS, B. (Ed.). Serendipitous Discoveries in Radio Astronomy . Green Bank: National Radio Astronomy Observatory, 1983.

BELL BURNELL, J. Pliers, pulsars and extreme physics. Astronomy and Geophysics , v. 45, n. 1, p. 1.07-1.11, 2004.

BLUE, J.; TRAXLER, A.; COCHRAN, G. Resource Letter: GP-1: Gender and Physics. American Journal of Physics , v. 87, n. 616, p. 616-626, 2019.

LIMA, I. P. C. Lise Meitner e a fissão nuclear: uma visão não eurocêntrica da ciência. Revista Gênero , v. 16, n. 1, p. 51-65, 2015.

MAIA FILHO, A. M.; SILVA, I. L. A trajetória de Chien Shiung Wu e a sua contribuição à Física. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 36, n. 1, p. 135157, 2019.

MCGRAYNE, S. B. Nobel Prize Women in Science : Their Lives, Struggles and Momentous Discoveries. 2. ed. Washington: Joseph Henry Press, 1998.

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MCNAMARA, G. Clocks in the Sky : The Story of Pulsars. New York: Praxis, 2008.

LARSEN, K. M. Women in astronomy: inclusion in introductory textbooks. American Journal of Physics , v. 63, n. 126, p. 126-131, 1994.

WADE, N. Discovery of Pulsars: A Graduate Student's Story. Science , v. 189, n. 4200, p. 358-364, 1975.

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