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Por uma Abordagem Histórico-Cultural no Ensino de Física

Sofia Guilhem Basilio, Ivã Gurgel

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
22/07/2021
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Por uma Abordagem Histórico-Cultural no Ensino de Física

## Sofia Guilhem Basilo 1 , Ivã Gurgel 2

1 PIEC-USP (Programa Interunidades em Ensino de Ciências da Universidade de São Paulo), sofia.basilio@usp.br

2 Instituto de Física da Universidade de São Paulo, gurgel@usp.br

Palavras-chave : História Cultural da Ciência; Historiografia.

## Resumo expandido

Ao observarmos o desenvolvimento da área de Ensino de Ciências, é perceptível um consenso acerca da importância de levarmos discussões sobre o modo como a Ciência é construída, principalmente em sociedades altamente dependentes de produtos oriundos dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos. Nessa perspectiva, a utilização da História e Filosofia da Ciência se apresenta como um caminho fértil para que tais discussões possam ser inseridas dentro do âmbito escolar (MATTHEWS, 1994; MARTINS, 2007; IRZIK; NOLA, 2011). Porém, algo ainda discutido é como inserir tais aspectos e, mais fundamentalmente, qual foco historiográfico poderia potencializar uma educação crítica acerca dos conteúdos científicos.

Ao tentar responder tais perguntas, vemos autores que defendem que a História Cultural da Ciências poderia ser um caminho a ser trilhado para uma formação crítica. Em exemplo se dá quando Moura e Guerra (2016, p. 741), ao refletirem sobre abordagens que visem a discussão de práticas científicas no ensino, apontam que

A História Cultural da Ciência traz contribuições ao ensino de ciências, ao possibilitar a emergência de discussões sobre gênero, etnia, entre outras, na medida em que um estudo centrado nas práticas científicas pode facilitar a visibilidade de atores participantes do fazer científico e negligenciados na história das ciências das grandes ideias e, assim, suscitar discussões sobre estas perspectivas

A potência de temas possíveis a partir da História Cultural da Ciência vai além dos autores negligenciados, permitindo também a abordagem das instituições científicas, do contexto cultural, entre outros. Dada esta amplitude, pode-se perceber que a História Cultural das Ciências não é monolítica e, internamente a ela, há diferentes correntes de pensamento, que levam a diferentes formas de interpretação da história. Saber reconhecer estas perspectivas historiográficas é elemento fundamental não somente a historiadores, mas também a professores que tratam da História das Ciências em suas aulas. Conforme argumenta Gurgel (2020), saber reconhecer a historiografia por traz de um episódio é importante para que a ênfase curricular adotada seja coerente com o mesmo. Assim, o objetivo deste trabalho é apresentar um debate historiográfico que nos permite identificar duas formas de se trabalhar em História Cultural das Ciências.

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19 a 30 de julho de 2021 - Online

Desde os anos 1960, percebemos uma expansão dentro da História da Ciência de subáreas cujas posições filosóficas levam em consideração o contexto cultural no qual determinado conhecimento científico foi desenvolvido. A filosofia kuhniana, uma das originárias desse movimento após a publicação de Estrutura das Revoluções Científicas , possibilitou o surgimento de novas reflexões, como dos estudos do Sociology of Scientific Knowledge (SSK) nos anos 70, que por sua vez desembocaram no Programa Forte em Sociologia do Conhecimento. Atualmente, podemos entender esses trabalhos com os percursores do que hoje chamamos de Science Studies .

Dentro dos estudos do SSK e do Programa Forte de Sociologia do Conhecimento, um relevante trabalho é a primeira tese 1 do historiador Paul Forman, publicada em 1971. Em seu trabalho Weimar Culture, Causality, and Quantum Theory, between 1918 and 1927 , Forman (1971) argumenta como sentimentos de crise em relação à aspectos econômicos, sociais e políticos permearam todos os pontos da vida da população durante o período da república de Weimar. Graças a esse sentimento pessimista, Forman reivindica que os físicos e matemáticos se acomodaram (ou foram capitulados) ao ambiente intelectual hostil, onde a causalidade dentro do desenvolvimento físico ou era rejeitada ou então tinha sua validade fortemente questionada. O autor, assim, argumenta nesse trabalho que foi justamente esse ambiente intelectual hostil que possibilitou um desenvolvimento e interpretação acausal da mecânica quântica.

Desde sua publicação, a tese de Forman já foi amplamente discutida, expandida e criticada (HENDRY, 1980; KRAFT; KROES, 1984; KRAGH, 2001; SETH, 2008; BLOOR, 2009; CARSON; KOJEVNIKOV; TRISCHLER, 2011; MENZEL; KAISER, 2020). As críticas mais contundentes feitas à sua tese visam deslegitimar os argumentos culturais apresentados (HENDRY, 1980; KRAGH, 2001), questionando a localização e nacionalidade dos agentes que desenvolveram a mecânica quântica e as preocupações individuais que tais cientistas teriam, refletindo mais nos valores científicos da época ao invés do conteúdo produzido. Porém, para o nosso objetivo, vemos que a crítica e reformulação feita por Norton Wise seja, além de mais coerente, mais proveitosa.

Norton Wise (2011) visa balancear o quanto e como o ambiente cultural da República de Weimar influenciou os cientistas e, especificamente, reformular o pensamento de Forman acerca de capitulação de cientistas. No seu modelo alternativo há uma inversão na questão da influência cultural: ao invés de agente passivos, Norton Wise evidencia a necessidade de olhar de maneira individual para os cientistas, se questionando como o indivíduo participa da cultura e, assim, determinar como as influências culturais são aproveitadas ou não por ele. 'A história de influência se tornaria uma história de recursos e a história de capitulação uma história de participação' (NORTON WISE, 2011, p. 427-428, tradução nossa). O autor aponta para um desenvolvimento localista da história da ciência, esquivando da dicotomia intenalismo/externalismo, sendo possível o desenvolvimento de uma rede de interações, onde os agentes entrariam em nodos em momentos distintos e utilizariam (ou não) os recursos presentes nessa teia.

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Essas duas abordagens - a de Forman e de Norton Wise - buscam compreender as influências culturais durante o desenvolvimento da mecânica quântica, sendo ambas pertencentes à linha de História Cultural da Ciência, mas com abordagens e conclusões distintas: enquanto Forman (1971) utiliza um sistema de capitulação dos cientistas a partir de um ambiente cultural hostil, Norton Wise (2011) apresenta um sistema com cientistas ativos que podem ou não utilizar recursos presentes em uma teia de iterações. Essas diferenças refletem a maneira como a História Cultural possibilita a apresentação de alternativas historiográficas, cujo foco não se dá em prescrever o que deve ser a Ciência, mostrando assim uma evolução científica orgânica. A escolha de uma dessas alternativas depende do contexto no qual os estudantes estão inseridos e dos objetivos educacionais por trás dela, mas vemos que pensar numa História Cultural das Ciências possibilitaria aos estudantes não só uma compreensão histórica que englobe as complexidades do fazer científico, mas também uma consciência da multiplicidade de fatores que influenciam a Ciência atual e, assim, poder vislumbrar como ela pode se dar no futuro.

## Referências

BLOOR, D. Conhecimento e Imaginário Social. São Paulo: Editora UNESP, 2009.

CARSON, C; KOJEVNIKOV, A; TRISCHLER, H (Eds.). Weimar culture and quantum mechanics : Selected papers by Paul Forman and contemporary perspectives on the Forman Thesis. World Scientific, 2011.

FORMAN, P. Weimar culture, causality, and quantum theory, 1918-1927: Adaptation by German physicists and mathematicians to a hostile intellectual environment. Historical studies in the physical sciences , v. 3, p. 1-115, 1971.

GURGEL. I. Reflexões politico-curriculares sobre o papel da História das Ciências frente à crise da modernidade. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 37, n. 2, p. 333-350, 2020.

HENDRY, J. Weimar culture and quantum causality. History of science , v. 18, n. 3, p. 155-180, 1980.

IRZIK, G.; NOLA, R. A family resemblance approach to the nature of science for science education. Science & Education , v. 20, n. 7, p. 591-607, 2011.

KRAFT, P.; KROES, P. Adaptation of Scientific Knowledge to an Intellectual Environment. Paul Forman's 'Weimar Culture, Causality, and Quantum Theory, 1918-1927': Analysis and Criticism. Centaurus , v. 27, n. 1, p. 76-99, 1984.

KRAGH, H. Quantum Generations : A History of Physics in the Twentieth Century. Princeton University Press, 2001.

MARTINS, A. F. P. História e filosofia da ciência no ensino: há muitas pedras nesse caminho... Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 24, n. 1, p. 112-131, 2007.

MATTHEWS, M. R. Science Teaching: the Role of History and Philosophy of Science . Nova York: Routledge, 1994.

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MENZEL, J. H.; KAISER, D. Weimar, Cold War, and Historical Explanation: Re-reading Forman. Historical Studies in the Natural Sciences , v. 50, n. 1-2, p. 31-40, 2020.

MOURA, C. B.; GUERRA, A. História Cultural da Ciência: Um caminho possível para a discussão sobre as Práticas Científicas no Ensino de Ciências?. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , v. 16, n. 3, p. 725748, 2016.

NORTON WISE, M. Forman reformed, again. In: CARSON, C; KOJEVNIKOV, A; TRISCHLER, H (Eds.). Weimar Culture and Quantum Mechanics : Selected Papers by Paul Forman and Contemporary Perspectives on the Forman Thesis. World Scientific, 2011. p. 415-431.

SANKEY, H. Kuhn, Relativism and Realism. In: Saatsi, J. (ed.), The Routledge Handbook of Scientific Realism . Londres e Nova York: Routledge, p. 72-83, 2018.

SETH, S. Mystik and Technik: Arnold Sommerfeld and Early Weimar -Quantum Theory. Berichte zur Wissenschaftsgeschichte , v. 31, n. 4, p. 331-352, 2008.

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