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A RELEVÂNCIA DAS NARRATIVAS HISTÓRICAS PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS NO CONTEXTO DA PÓS-MODERNIDADE

Deyvid José Souza Santos, Thaís Cyrino De Mello Forato, José Alves Da Silva

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
22/07/2021
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A RELEVÂNCIA DAS NARRATIVAS HISTÓRICAS PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS NO CONTEXTO DA PÓS-MODERNIDADE

Deyvid José Souza Santos 1 , Thaís Cyrino de Mello Forato 2 , José Alves da Silva 3

- 1 Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática - UNIFESP, deyvid.jose@unifesp.br
- 2 Departamento de Ciências Exatas e da Terra - UNIFESP, thais.forato@unifesp.br

Palavras-chave : história e filosofia das ciências; pós-modernidade; hermenêutica filosófica de Gadamer.

## Resumo expandido

Nas últimas décadas, a literatura especializada tem apontado inúmeros benefícios advindos das abordagens históricas e filosóficas no ensino de ciências, as quais reconhecem, por exemplo, que as ciências são parte de uma produção cultural; a qual não segue um único método científico universal, mas que é construída historicamente e coletivamente (BAGDONAS, ZANETIC & GURGEL, 2018; MARTINS, R., 2006; MOURA & GUERRA, 2016; ROBILOTTA, 1988; SCHIMIEDECKE & PORTO, 2014; SILVEIRA & PEDUZZI, 2006; VASCONCELOS & FORATO, 2018). Paralelamente a isso, outros estudos têm se debruçado sobre a pósmodernidade, indicando, por exemplo, que se trata de um período marcado pelo reconhecimento de que a perspectiva iluminista de razão é limitada para resolver todos os problemas humanos, de modo que, por conta dela, outros problemas acabam sendo criados, tais como o consumismo, o individualismo exacerbado, a perda de tradições e do senso de pertencimento, a sensação de rapidez dos eventos, o culto à novidade, o relativismo de valores, a superficialidade das relações interpessoais e a vivência de identidades fragmentadas (BAUMAN, 1998; CRUZ, 2018; LIPOVETSKY, 2005; NOVAIS, 2016). Essas características, por sua vez, afetam os processos educativos, inclusive o ensino de ciências 1 .

Nessa perspectiva, este trabalho pretende contribuir com as discussões envolvendo a abordagem em História e Filosofia das Ciências (HFC) no ensino de ciências, buscando promover um diálogo com algumas ideias presentes em estudos de pós-modernidade. Em vista disso, indagamos: a inserção de abordagens históricas e filosóficas no ensino de ciências pode ajudar no trabalho pedagógico de docentes frente às características da pós-modernidade?

Aqui argumentamos que, além dos inúmeros benefícios que a HFC propicia ao ensino de ciências (MATTHEWS, 1995; MOURA, 2014; PEDUZZI, 2001), essa abordagem também pode ajudar a lidar com dois aspectos intrínsecos ao contexto da

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19 a 30 de julho de 2021 - Online

pós-modernidade: o culto à novidade e o individualismo exacerbado. Para tanto, utilizamos o referencial epistemológico da hermenêutica filosófica de Gadamer com vistas a fundamentar esses argumentos e, ao longo da pesquisa, ressaltamos a importância de valorizarmos diferentes tradições culturais e de considerarmos o sentimento de pertencimento nos processos de ensino-aprendizagem, tal como é defendido nos trabalhos de Silva (2008) e Cortina & Martinez (2015).

Nesse sentido, assim como Gurgel (2020), ao refletirmos sobre os impactos do contexto atual no ensino de ciências, levamos em consideração as discussões no campo das contemporâneas historiografias das ciências acerca da legitimidade das interpretações do passado (p.336), as quais mostram que não existe uma única forma de analisar um episódio histórico e escrever narrativas sobre um evento ou personagem que contribuiu para o desenvolvimento das ciências. Além disso, conforme apontam Forato (2009) e Martins, A. (2007), reconhecemos que existem diversas dificuldades para realizar uma efetiva incorporação de aspectos da HFC no ensino de ciências, tais como o currículo escolar direcionado aos vestibulares, a seleção do conteúdo histórico, o risco de fomentar relativismo e a falta de formação de docentes para lidar com essa temática.

Assim, ao considerarmos a relevância do uso de episódios históricos para trabalharmos diferentes aspectos da natureza das ciências (SILVA & MOURA, 2008; BATISTA & SILVA, 2018), buscamos nos apoiar na proposta de Forato e colaboradores (2017), quando argumentam que a abordagem de vários episódios históricos diferentes, com o mesmo grupo de estudantes, pode auxiliar docentes a mostrarem a pluralidade metodológica inerente à natureza das ciências, contribuindo para a problematização de supostas ou eventuais visões consensuais.

À luz dessas perspectivas, nos apoiamos no trabalho de Gadamer ([1960] 2015) para argumentarmos sobre a relevância do uso de narrativas históricas no ensino de ciências, aqui entendidas como a criação de um resumo compreensível de uma história mais complexa que podemos estudar e criar conexões a partir da seleção de algumas fontes (MARTINS, 2010). Com efeito, neste trabalho destacamos a potencialidade dessas narrativas para auxiliar docentes a lidarem com aspectos intrínsecos ao contexto escolar pós-moderno. Portanto, apresentamos elementos que fazem parte da proposta gadameriana de hermenêutica filosófica e desenvolvemos nosso argumento, principalmente, a partir do seu conceito de experiência hermenêutica (p.467) e do princípio da história efeitual (p.397), os quais enfatizam a necessidade de abertura ao novo e o reconhecimento da historicidade da compreensão humana em nosso processo de interpretação da história, o que nos permite assumir nossa finitude como seres históricos em vez de pretender atingir ou defender a ideia de uma razão absoluta.

## Referências

BAGDONAS, A.; ZANETIC, J.; GURGEL, I. O maior erro de Einstein? Debatendo o papel dos erros na ciência através de um jogo didático sobre cosmologia. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, v.35, n.1, p.97-117, 2018.

BATISTA, R. F. M.; SILVA, C. C. A abordagem histórico-investigativa o ensino de ciências, Estudos Avançados , v. 32, n. 94, p. 97-110, 2018.

BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, 276p.

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CORTINA, A; MARTÍNEZ, E. Ética. Trad. Silvana Cobucci Leite. São Paulo: Ed.6 Loyola, 2015. 176p.

CRUZ, D. N. Pós-modernidade ou hipermodernidade? O sujeito contemporâneo sob a ótica de Lipovetsky e Bauman. Sapere aude. v. 9, n. 18, p. 351-371, 2018.

FORATO, T. C. M. A Natureza da Ciência como Saber Escolar: Um Estudo de Caso a Partir da História da Luz. 2009. 220 f. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, USP, São Paulo.

FORATO, T. C. M.; BAGDONAS, A.; TESTONI, L. Episódios históricos e natureza das ciências na formação de professores. Enseñanza de las ciencias - Digital, v. extra, p. 3511-3516, 2017.

GADAMER, H. G. Verdade e Método I - Traços Fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 2015. 631p.

GURGEL, I. Reflexões político-curriculares sobre a importância da história das ciências no contexto da crise da modernidade. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 37, n. 2, p. 333-350, 2020.

LIPOVETSKY, G . A era do vazio : ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri: Manole, 2005.

MARTINS, A. F. P. História e Filosofia da Ciência no Ensino: Há muitas pedras nesse caminho... Caderno Brasileiro de Ensino de Física . v. 24, n. 1, p. 112-131, abr., 2007.

MARTINS, R. A. Introdução: a história da ciência e seus usos na educação. In: SILVA, C. C. (Org.). Estudos de história e filosofia das ciências . Subsídios para aplicação no Ensino. São Paulo: Ed. Livraria da Física, 2006a, p. 3-21.

MARTINS, Roberto de Andrade. Seria possível uma história da ciência totalmente neutra, sem qualquer aspecto whig? Boletim de História e Filosofia da Biologia 4 (3): 4-7, set. 2010. Versão online disponível em: <http://www.abfhib.org/Boletim/ Boletim-HFB-04-n3-Set-2009.pdf >. Acesso em 09/03/2021.

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MOURA, C. B.; GUERRA, A. Reflexões sobre o processo de construção da ciência na disciplina de química: um estudo de caso a partir da história dos modelos atômicos. Revista Electrónica de Investigación em educación em ciencias , v. 11, n. 2, p. 64-77, dez. 2016.

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PEDUZZI, L. O. Q. Sobre a utilização didática da História da Ciência . In: PIETROCOLA, M. (Org.). Ensino de Física: conteúdo, metodologia e epistemologia numa concepção integradora. Florianópolis: Editora da UFSC, 2001.

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ROBILOTTA, M. (1988). O Cinza, O Branco e o Preto - da Relevância da História da Ciência no Ensino da Física. Caderno Catarinense de Ensino de Física , v. 5, n. especial, p. 7 - 22, 1987.

SCHMIEDECKE, W. G.; PORTO, P. A. Uma abordagem da história da energia nuclear para a formação de professores de física. Revista Brasileira de História da Ciência , v. 7, n. 2, p. 232-241, 2014.

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Ensino Fundamental II e para a tarefa de alfabetizar. Ciência & educação. (Bauru) [online]. 2013, v.19, n.4, p.811-821.

SILVEIRA, F. L.; PEDUZZI, L. O. Q. Três episódios de descoberta científica: da caricatura empirista a uma outra história. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 23, n. 1, p. 26-52, abr. 2006.

VASCONCELOS, S. S.; FORATO, T. M. Niels Bohr, espectroscopia e alguns modelos atômicos no começo do século XX: um episódio histórico para a formação de professores. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , Florianópolis, v. 35, n. 3, p. 851-887, 2018.

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