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O CINEMA DE FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA COMO FONTE HISTÓRICA DA CIÊNCIA - UMA ANÁLISE DO FILME O QUINTO PODER (1962)

Renan Siqueira Da Silva, Breno Arsioli Moura

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
22/07/2021
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O CINEMA DE FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA COMO FONTE HISTÓRICA DA CIÊNCIA - UMA ANÁLISE DO FILME O QUINTO PODER (1962)

## Renan Silva 1 e Breno Arsioli Moura 2

- 1 Pós-Graduação em Ensino e História das Ciências e da Matemática, Universidade Federal do ABC, Santo André, Brasil - renan.siqueira@ufabc.edu.br

2 Centro de Ciências Naturais e Humanas, Universidade Federal do ABC, Santo André, Brasil breno.moura@ufabc.edu.br

Palavras-chave : História das ciências, Cinema, O quinto poder (1962).

## Resumo expandido

O número de trabalhos que investigam como se deu o desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Brasil vem crescendo nas últimas décadas. Contudo diversos autores argumentam que existem lacunas na historiografia brasileira e encorajam outros pesquisadores a se debruçarem sobre essa temática, pois acreditam que somente por meio de um esforço coletivo do campo, será possível, paulatinamente, compreender melhor nossa própria história (MOTOYAMA, 2004; VIDEIRA e VIEIRA, 2010; CLEMENTE, 2020). Consultando a literatura do campo, encontramos trabalhos com abordagens diversificadas que possuem como elemento comum o fato de utilizarem fontes históricas escritas ou orais. Dessa forma, visando contribuir para o debate da área, propomos utilizar filmes de ficção científica produzidos no Brasil entre as décadas de 30 e 80 do século XX como documentos históricos. Buscamos compreender em que medida essas obras repercutiram a conjuntura científica de seus períodos de produção. Para tanto, utilizamos o acervo da Cinemateca Nacional, que possui a maior documentação fílmica da América do Sul, contando com mais de 1,2 milhões de documentos relacionados com o cinema. A instituição ainda possui uma base de dados digitalizados com informações sobre 50570 produções que abarcam tanto longas como propagandas governamentais e registros de eventos históricos. Após analisarmos as sinopses dessa base, encontramos 280 filmes de FC produzidos entre as décadas de 30 e 80 do século XX, os quais versam sobre temas diversificados, como viagem no tempo, futurismo e catástrofes ambientais. Portanto, nossa escolha decorre do fato de que há um vasto material fílmico ainda não explorado sob a ótica da história das ciências. Além disso, optamos por trabalhar com o cinema por entendermos que toda obra fílmica, seja documental ou ficcional, pode ser compreendida como um testemunho relevante de seu próprio tempo. Nessa perspectiva, Ferro (1992) defende que obras fílmicas são fontes históricas privilegiadas pois dizem mais do que se pretende dizer, uma vez que seus idealizadores, ainda que de maneira inconsciente, projetam em suas produções valores e percepções próprias de seu tempo. Em uma perspectiva complementar Burke (2017) chama a atenção para a intencionalidade presente no processo de elaboração das obras fílmicas, uma vez que os diretores de cinema editam seu 'texto' da mesma forma que jornalistas e historiadores. Para o autor, essa edição pode ocorrer por diversos fatores como interesses artísticos, ou por pressões externas de caráter político ou econômico. Portanto, os filmes, quando analisados de forma contextual, nos fornecem vestígios que demarcam sua historicidade, a qual pode ser

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19 a 30 de julho de 2021 - Online

manifestada tanto por meio das edições intencionais (BURKE, 2017) como por possíveis lapsos de seus realizadores (FERRO, 1992). Norteados por esses referênciais teóricos, nessa comunicação analisaremos o filme O quinto Poder (1962), dirigido pelo italiano Alberto Pieralisi (1911-2001) e produzido pelo espanhol Carlos Pedregal (1926-2016). A obra foi agraciada com diferentes premiações: melhor edição para Ismar Porto (1931-) (Prêmio Saci, SP, 1964) e melhor roteiro para Carlos Pedregal (Prêmio Governador do Estado, SP, 1964). A trama narra uma tentativa de uma nação estrangeira de dominar o Brasil. Essa invasão faz parte de um complexo plano internacional que tem como objetivo controlar os recursos minerais do subsolo brasileiro, tido como o mais rico do mundo. Para tanto, o grupo invasor pretende propagar clandestinamente mensagens subliminares por meio das antenas de rádio e televisão. Essas mensagens alterarão o comportamento natural dos telespectadores, fazendo com que eles passem a agir de acordo com os interesses dos invasores Vale ressaltar que o receio do poder de convencimento das mensagens subliminares era uma questão presente na época. Dessa forma, o filme utilizou como novum (SUVIN,1988), isto é, como elemento ficcional, um dispositivo que compunha o imaginário do período. Na obra, após a inicialização das transmissões, as pessoas passam, paulatinamente a alterar seus comportamentos, tornando-se cada vez mais agressivas, de modo que os números de tumultos, brigas e assassinatos crescem exponencialmente. Após a instauração do caos, é iniciada a segunda fase do plano. As mensagens continuam sendo emitidas, fazendo com que a população passe a suplicar por uma intervenção federal em prol de uma suposta revolução para controlar os ânimos e restabelecer a ordem. A produção foi filmada durante o mandato de Juscelino Kubitschek (1902-1976), mas lançada durante o governo de João Goulart (1955-1976) em uma conjuntura política conturbada que desembocou no golpe militar de 1964. No âmbito internacional, o mundo experimentava a Guerra Fria, período marcado pela disputa travada entre os Estados Unidos (EUA), líder do bloco capitalista e a União das Repúblicas Soviéticas (URSS) líder do bloco socialista. Portanto, o filme repercute a atmosfera de tensão política presente nos contextos nacionais e internacionais ao abordar a temática de espionagem, o medo de uma invasão estrangeira, além de tangenciar temática de revolução popular versus golpes institucionais e intervenções estrangeiras. Diante do exposto, buscamos desenvolver um estudo contextual do filme com o objetivo de compreender em que medidas a obra repercutiu a conjuntura científica de seu período. Para tanto, dividimos nosso estudo em quatro partes, a saber: 1. Investigação sobre o percurso formativo e profissional dos realizadores da produção.; 2. Análise de recepção da obra pelos críticos e pela sociedade do período; 3. Revisão historiográfica sobre a conjuntura científica do período; 4. Análise de algumas cenas do filme a partir dos pressupostos teóricos de Vanoye e Goliot-Lété (2013). Verificamos que a ciência é representada como instrumento de dominação, capaz de alterar o jogo de disputa de poder internacional, o que se alinha com a percepção própria da época decorrente da disputa travada entre os soviéticos e os estadunidenses que buscavam demonstrar força através do avanço científico. Além disso, a obra fornece elementos que podem subsidiar discussões sobre as relações entre ciência e sociedade, apontando para necessidade de regulação da prática científica. Ao passo que as ciências podem trazer soluções, podem também gerar novos problemas, uma vez que são produzidas por humanos e são, portanto, passível de falhas. Dessa maneira, reconhecer o caráter humano do processo de construção do conhecimento científico pode representar o passo inicial para construção de uma ciência mais plural e democrática que preze pelo bem-estar social.

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## Referências

BURKE, P. Testemunha ocular: o uso de imagens como evidência histórica. São Paulo: UNESP, 2017.

CLEMENTE, J. E. F. Ciência e política durante a ditadura militar: o casado da comunidade brasileira de físicos (1964-1979). Salvador: Sagga, 2020.

FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

MOTOYAMNA, S. (org.). Prelúdio para uma História: Ciência e Tecnologia no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.

SUVIN, D. Positions and suppositions in Science Fiction. Londres: Macmillan, 1988.

VANOYE, F.; GOLLIOT-LÉTÉ, A. Ensaio sobre a Análise Fílmica. Campinas: Papirus, 2013.

VIDEIRA, A. A. P.; VIEIRA, C. L. Reflexões sobre historiografia e história da física no Brasil. São Paulo: Livraria da Física, 2010

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