DIMENSÕES DE ANÁLISE DISCURSIVA BASEADAS NA TEORIA SOCIOCULTURAL DE JAMES V. WERTSCH
Alexsandro Pereira De Pereira, Fernanda Ostermann, Josiane De Souza
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 27/10/2010
- Linha de pesquisa
- - Física E Comunicação Em Práticas Educativas Formais, Informais E Não-Formais; Tecnologia Da Informação E Comunicação; Didática, Currículo E Inovação Educacional; Linguagem E Cognição; Ciências, Tecnologia, Sociedade E Ambiente; Políticas Públicas Em
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## DIMENSÕES DE ANÁLISE DISCURSIVA BASEADAS NA TEORIA SOCIOCULTURAL DE JAMES V. WERTSCH
## DIMENSIONS OF DISCOURSIVE ANALYSIS BASED ON JAMES V. WERTSCH'S SOCIOCULTURAL THEORY
## Alexsandro P. Pereira 1 , Fernanda Ostermann 2 , Josiane de Souza 3
1 PPG em Ensino de Física/Departamento de Física/UFRGS, alexsandro.pereira@ufrgs.br
2 Instituto de Física/Departamento de Física/UFRGS, fernanda.ostermann@ufrgs.br r 3
Graduação em Física/Departamento de Física/UFRGS, j josiane.souza@ufrgs.br
## Resumo
O presente trabalho apresenta oito dimensões de análise discursiva baseadas na teoria sociocultural de James V. Wertsch. O objetivo é propor uma nova ferramenta analítica, fundamentada em um aporte teórico que tem sido pouco explorado na área de Ensino de Física. As oito dimensões de análise foram elaboradas a partir da leitura detalhada das obras "Mind as Action" e "Voices of Mind: A Sociocultural Approroach to Mediated Action". Essa ferramenta analítica tem sido utilizada pelo nosso grupo de pesquisa e está sendo incorporada na formação de nossos alunos de iniciação científica, no qual a terceira autora desse trabalho faz parte. As dimensões apresentadas no presente trabalho têm como pressuposto a afirmação de que a memória, o raciocínio e outras funções mentais humanas podem ser concebidos como formas de ação mediada. Elas se estruturam nas seguintes afirmações: (1) a ação mediada tipicamente tem múltiplos objetivos simultâneos que podem estar em conflito um com o outro; (2) os modos de mediação restringem assim como possibilitam a ação; (3) novos modos de mediação transformam a ação mediada; (4) a relação dos agentes frente aos modos de mediação pode ser caracterizada em termos da noção de domínio; (5) a apropriação dos modos de mediação sempre implica resistência de alguma natureza; (6) os modos de mediação estão associados ao poder e à autoridade; (7) o processo de domínio dos modos de mediação pode ser descrito em termos da transição genética desde a regulação de outros até a autorregulação; (8) a seleção de um modo de mediação específico em um contexto sociocultural particular pode ser descrito em termos da noção de privilegiação.
Palavras-chave: dimensões de análise discursiva, teoria sociocultural de Wertsch, ensino de física.
## Abstract
In this paper, we present eight dimensions of discourse analysis based on James V. Wertsch's sociocultural analysis. Our goal is to propose a new analytical tool, based on a theoretical framework which has been rarely used in the field of Physics Education. These eight dimensions of analysis have emerged from the readings of the following books: Mind as Action; and Voices of Mind: A Sociocultural Approach to Mediated Action. This analytical tool has been used by our research group and it has been included in the training of under graduation students working
with scientific initiation, which is the case of the third author of this paper. The dimensions of discourse analysis presented in this paper are based on the assumption that memory, reasoning and others human mental functioning can be viewed under the heading of mediated action. The dimensions of analysis used in our studies are based on the fallowing claims: (1) mediated action has typically multiples simultaneous goals and they may conflict one each other; (2) mediational means constrains as well as enable action; (3) new mediational means transform mediated action; (4) The relationship of agents toward mediational means can be characterized in terms of mastering; (5) The appropriation of mediational means always involves resistance of some sort; (6) mediational means are associated with power and authority; (7) the process of f mastering mediational means can be characterized in terms of genetic transition from others-regulation to self-regulation; (8) the selection of a specific mediational mean in a particular sociocultural context can be characterized in terms of privileging.
Keywords: Dimensions of discourse analysis, Wertsch's sociocultural theory, Physics Education.
## Introdução
Este artigo apresenta oito dimensões de análise discursiva baseada na aproximação sociocultural de James V. Wertsch (1991, 1998). Este aporte teórico que tem sido pouco explorado no ensino de física. O objetivo do presente trabalho é propor uma nova ferramenta analítica que possa orientar o estudo de transcrições no âmbito da pesquisa em ensino de física. Essa ferramenta de análise tem sido usada pelo nosso grupo de pesquisa e está sendo incorporada na formação de nossos alunos de iniciação científica, no qual a terceira autora desse trabalho faz parte.
Embora o termo "sociocultural" esteja vinculado a uma ampla perspectiva em educação, a aproximação sociocultural de Wertsch difere substancialmente de outras abordagens, especialmente com relação à ênfase dada à noção de ação mediada. As dimensões de análise utilizadas em nossos estudos baseiam-se nas seguintes afirmações: (1) a ação mediada tipicamente tem múltiplos objetivos simultâneos que podem estar em conflito um com o outro; (2) os modos de mediação restringem assim como possibilitam a ação; (3) novos modos de mediação transformam a ação mediada; (4) a relação dos agentes frente aos modos de mediação pode ser caracterizada em termos da noção de domínio; (5) a apropriação dos modos de mediação sempre implica resistência de alguma natureza; (6) os modos de mediação estão associados ao poder e à autoridade; (7) o processo de domínio dos modos de mediação pode ser descrito em termos da transição genética desde a regulação de outros até a autorregulação; (8) a seleção de um modo de mediação específico em um contexto sociocultural particular pode ser descrito em termos da noção de privilegiação.
## Referencial Teórico
- O quadro teórico geral utilizado em nosso trabalho é a teoria de James V. Wertsch, denominada "análise sociocultural" (WERTSCH, 1998) ou "aproximação sociocultural à mente" (WERTSCH, 1991a). Um primeiro pressuposto da análise sociocultural é a noção de que ela adota a ação mediada como unidade de análise.
De acordo com Wertsch, a ação humana tipicamente emprega ferramentas culturais, ou modos de mediação, que configuram a ação humana de maneira essencial. Pelo fato das ferramentas culturais serem fornecidas por um cenário sociocultural particular, a ação mediada é inerentemente "situada" em um contexto cultural, histórico e institucional. Essa unidade de análise estabelece um vínculo natural entre os processos mentais humanos, de um lado, e os cenários socioculturais, de outro. A partir da perspectiva da análise sociocultural, a ação mediada pode ser externa ou interna e pode ser conduzida tanto por grupos (pequenos ou grandes) como por indivíduos.
Segundo Wertsch (1998), a ação mediada é caracterizada por uma tensão irredutível entre os agentes e os modos de mediação. Essa formulação está no núcleo da análise sociocultural e nos obriga ir além do agente individual para compreender as forças que configuram a ação humana. Isto não significa que as ferramentas culturais determinam mecanicamente o modo como os agentes atuam, mas sim que sua influência é poderosa e precisa ser reconhecida e examinada (WERTSCH, 2002). Ainda que uma distinção analítica entre agentes e modos de mediação seja possível e até útil, a tensão existente entre eles resulta tão fundamental que é mais adequado falar de "indivíduos-atuando-com-ferramentasculturais" do que simplesmente falar de indivíduos. Uma questão fundamental, nessa perspectiva, é: quem está realizando a ação? No caso específico da linguagem, a questão fundamental é: quem está falando?
Para ilustrar a afirmação acima, consideremos o seguinte exemplo relativo ao ensino de matemática básica (WERTSCH, 1998). Um professor solicita a um aluno que realize a seguinte operação matemática: 484 x 22. Após realizar o cálculo, o aluno encontra corretamente o resultado 10648. Para justificar sua resposta, o aluno apresenta ao professor o desenvolvimento da multiplicação, realizado da seguinte maneira:
484
x 22
968
+ 968-
10648
Uma questão pertinente, nesse caso, é: quem multiplicou? Para esclarecer esse ponto, considere que o mesmo estudante seja solicitado a multiplicar 484 por 22 sem utilizar o formato gráfico vertical (um número sobre o outro). Tal operação seria muito mais difícil - e dependendo dos números envolvidos, até impossível - de se realizar. Isso porque ela permite reduzir r um problema complexo (multiplicar 484 por 22) em uma série de operações concretas das quais os agentes sabem lidar (multiplicar 2 por 4, 2 por 8, e assim por diante). Desse modo:
a organização espacial - ou sintaxe - dos números é, nesse caso, parte essencial de uma ferramenta cultural sem a qual não podemos resolver esse problema. Em um importante sentido, portanto, esta sintaxe realiza parte do pensamento" (WERTSCH, 1998, p. 29, nossa tradução).
Por outro lado, a disposição espacial dos números, por si só, não fornece o resultado da multiplicação. Assim, ambos os lados da tensão (o estudante e a
disposição vertical dos números) estavam envolvidos em um sistema de cognição distribuída, de modo que a resposta mais adequada à questão formulada acima deve ser algo como: o estudante operando junto com o formato gráfico vertical.
A partir da perspectiva da ação mediada, qualquer forma de ação resulta muito difícil, senão impossível, de se realizar se nela não estiver envolvidos uma poderosa ferramenta cultural e um usuário habilidoso no seu manuseio. A natureza da ferramenta cultural e o uso específico que os agentes fazem dela podem variar consideravelmente. Ainda assim, ambas as partes são necessárias para a compreensão da ação humana.
## Linguagem e interação social
Uma forma de ação mediada de particular interesse para a análise sociocultural é o uso da linguagem. Ao contrário de outros modos de mediação, a linguagem molda a ação humana de maneiras que nem sempre são perceptíveis aos agentes. Na terminologia adotada por Wertsch (1998), a linguagem é uma ferramenta cultural e o discurso é uma forma de ação mediada. O primeiro passo para apreciar o modo peculiar com que a linguagem conforma a ação humana é considerar a existência de diferentes linguagens. Cada tipo de linguagem deve ser entendido não como a criação livre de um agente isolado, mas sim como um item de um "kit de ferramentas" (WERTSCH, 1991a) fornecido por um cenário sociocultural particular.
Um segundo passo para compreender r o modo com que a linguagem configura a ação humana é focar a atenção no discurso. Os casos reais de discurso se dão na forma de enunciados concretos que expressam sempre o ponto de vista adotada pelo agente. A partir dessa perspectiva, cada enunciado é único porque se origina de uma situação específica e é produzido por um indivíduo com uma determinada intenção. Por outro lado, existem aspectos do enunciado que podem ser reproduzidos; aspectos que estão vinculados à visão de mundo de um grupo específico de indivíduos. Essa pluralidade de vozes no discurso gera formas de enunciado que podem ser classificados segundo seu grau de univocidade. Em alguns casos, a voz do agente individual predomina sobre a perspectiva geral que ele adota. Em outros casos, são as vozes por trás de sua fala que prevalecem.
## As dimensões de análise discursiva
As dimensões de análise apresentadas neste trabalho derivam da teoria sociocultural de Wertsch. Elas foram elaboradas a partir da leitura detalhada das obras "Mind as Action" e "Voices of Mind: A Sociocultural Approach to Mediated Action". Essas dimensões analíticas estruturam-se nas afirmações apresentadas a seguir.
## A ação mediada tem tipicamente múltiplos objetivos simultâneos
De acordo com a afirmação acima (WERTSCH, 1998), a ação mediada dificilmente se organiza em torno de um objetivo único e facilmente identificável. Pelo contrário, ela costuma servir a vários propósitos, muitos dos quais estão em conflito um com o outro. Isso se deve ao fato de que as ferramentas culturais servem a determinados propósitos. Na perspectiva da análise sociocultural, a ação mediada
costuma ter múltiplos objetivos simultâneos porque os objetivos do agente não se ajustam com precisão aos objetivos associados aos diferentes modos de mediação.
## Os modos de mediação restringem assim como possibilitam a ação
De acordo com Wertsch (1991b), as teorias sobre desenvolvimento cognitivo têm formulado seus estudos em termos de como sofisticadas formas de mediação - frequentemente descritas em termo de "representações" - possibilitam formas de operações mais complexas. Apesar da relevância desses estudos, uma análise centrada somente nos recursos que as ferramentas culturais oferecem fornece apenas uma imagem parcial. A idéia geral é que mesmo quando um novo modo de mediação liberta os agentes de determinadas limitações prévias, ele introduz outras novas que lhe são próprias.
## Novos modos de mediação transformam a ação mediada
Segundo Wertsch (1998), a introdução de um novo modo de mediação não facilita simplesmente uma ação já existente, mas causa uma transformação fundamental nessa ação. Isto não significa que a única forma de introduzir mudanças seja através de novas ferramentas culturais. Em muitos casos, as mudanças são causadas pela melhoria na habilidade ou outros aspectos relacionados aos agentes. Ainda assim, a dinâmica de mudança causada pela introdução de uma nova ferramenta cultural é, com frequência, muito poderosa e costuma passar despercebida.
## A relação dos agentes frente aos modos de mediação pode ser caracterizada em termos da noção de domínio
- O termo domínio refere-se ao saber como utilizar uma ferramenta cultural com facilidade. A partir dessa perspectiva, a ênfase está em "saber como" ao invés de "saber o que" (WERTSCH, 2002). A noção de domínio se opõe à noção de internalização, que evoca uma imagem na qual processos realizados em um plano externo passam a ser realizados em uma espécie de plano interno. De acordo com Wertsch (1998), muitas formas de ação mediada são (e devem ser) realizadas no plano externo. A noção de domínio é mais adequada porque se aplica a todas as formas de ação mediada.
## A relação dos agentes frente aos modos de mediação pode ser caracterizada em termos da noção de apropriação
Um segundo significado possível para o termo internalização é a noção de apropriação. A apropriação refere-se ao processo pelo qual se toma algo emprestado de outros e o torna-se próprio (BAKHTIN, 1981). De acordo com Wertsch (1998), a apropriação sempre implica resistência de alguma natureza. É importante destacar que o domínio de uma ferramenta cultural não implica necessariamente a apropriação da mesma. Esses processos são distintos e podem ser separados empiricamente.
## Os modos de mediação estão associados ao poder e à autoridade
A partir da perspectiva da ação mediada, o poder e a autoridade não podem ser atribuídos apenas ao agente da ação, considerado em isolamento. "Poder" e "autoridade" são termos que também se associam às ferramentas culturais. Essa formulação contrasta com a concepção na qual a linguagem e outros modos de mediação são utilizados como instrumentos neutros de pensamento e comunicação. A questão fundamental a ser formulada nesses casos refere-se à origem do poder e da autoridade exercidos em determinados contextos.
## O processo de domínio dos modos de mediação pode ser descrito em termos da transição genética desde a regulação de outros até a autorregulação
Essa afirmação baseia-se na lei genética geral do desenvolvimento cultural desenvolvida por Vygotsky (1994, 1995), segundo o qual as funções mentais humanas aparecem primeiramente no plano intermental (isto é, social) para só mais tarde aparecer no plano intramental (isto é, individual). De acordo com Wertsch (1979), esse processo pode ser descrito em termos de transições genéticas desde a regulação de outros até a autorregulação.
## A seleção de um modo de mediação específico em um contexto sociocultural particular pode ser descrito to em termos da noção de privilegiação.
De acordo com Wertsch (1991), a privilegiação refere-se ao fato de uma ferramenta cultural ser considerada como mais eficaz ou adequada (ou inclusive a única possível) em um contexto sociocultural particular mesmo quando, em princípio, existem outras igualmente disponíveis. No processo de domínio desses modelos de privilegiação, a escolha de uma ferramenta cultural, por parte dos agentes, pode basear-se fortemente na orientação de outros, proporcionada através da interação social.
## Um exemplo da aplicação das dimensões de análise no ensino de física
A seguir, apresentaremos um exemplo de aplicação de algumas das dimensões analíticas apresentadas na seção anterior a partir da análise de uma transcrição retirada de um artigo, ainda em fase de elaboração, escrito pelo primeiro autor do presente trabalho. Essa transcrição refere-se aos enunciados de duas estudantes de Licenciatura em Física durante a realização de uma tarefa de resolução de problemas sobre física quântica. A tarefa foi realizada em duplas e com consulta e o objetivo era analisar o papel da mediação textual nas explicações de futuros professores de física sobre mecânica quântica. As frases entre aspas e em itálico representam leituras em voz alta do material de apoio utilizado pelas estudantes 1 . Seus nomes foram alterados para resguardar suas identidades. Eventuais ocorrências de linguagem coloquial foram mantidas para não alterar o contexto e a autenticidade dos enunciados.
As estudantes tiveram de responder a seguinte questão: "Considere, no contexto da mecânica quântica, os seguintes conceitos: estado; representação de
estado; operadores; autovalor e autovetor (ou autofunção). Em que estes conceitos se diferenciam quando consideramos a mecânica quântica e a mecânica clássica? Exemplifique". Essa questão resultou no seguinte no seguinte diálogo:
- 01. Paula: Putz!
- 02. Ana: Do 11 ao 76. É aquelas primeiras lá.
- 03. Paula: Não, eu acho que é aquela primeira de mecânica quântica. Pacotes de onda. 04. Tratamento formal, eu acho, dos sistemas físicos.
- 05. Ana: É a 9?
06. Paula: 9!
07. Ana: Ah, tem aqui. "Um estado é uma forma abstrata de representação das propriedades 08. físicas de um sistema em função do tempo. Às leis da física compete 'regular' como o 09. sistema evolui de um estado a outro, com o passar do tempo. Por outro lado, 10. variáveis que são bem determinadas na mecânica clássica, são substituídas, na 11. mecânica quântica, por grandezas cuja determinação está associada a uma 12. interpretação probabilística da natureza. Isto porque, no mundo quântico nos 13. deparamos com aspectos que são essencialmente distintos daqueles encontrados no 14. mundo clássico".
15. Ana: Eu acho, pelo que eu tô vendo aqui, que a diferença é que, tipo, a mecânica clássica ela 16. te dá as informações, tipo, direta, assim, tá tudo bem definido. Enquanto que 17. mecânica quântica, ela te dá uma interpretação probabilística disso. Porque tu não 18. tem mais, enfim, tudo bem definido.
19. Paula: Mas a gente precisa, será, comparar cada um assim ou fazemos tudo geral?
20. Ana: Acho que a gente pode fazer geral porque se a diferença de todos for essa...
21. Paula: Vê se a representação de estados... Tá, tá aqui. Operadores, autovalor e autovetor.
- 22. Ana: Aqui, ó. "Grandezas observáveveis e operadores [...] na mecânica quântica não é possível 23. determinar com precisão absoluta a posição de uma partícula devido à presença de 24. efeitos ondulatórios". Então, tipo, tudo, tudo é mais ou menos isso.
25. Paula: Hum hu. É, também tem aqui, ó. "Operadores [...] na mecânica quântica, tratamos 26. de fato com operadores matemáticos, pois é através da aplicação de um operador 27. matemático à função de onda que é possível gerarmos um autovalor 28. correspondente". Hum... "Alguns exemplos. [...] valores esperados...". Não tem, não é 29. bem isso que ele quer, né? Acho que é só pra dizer, então, isso né, que a gente tem 30. que falar. Que devido a... tu vê!
O início do diálogo é caracterizado pela busca de uma ferramenta cultural adequada para a resolução do problema. A presença de termos não-familiares à mecânica ondulatória de Schrödinger como estado, representação de estado e autovetor, no enunciado da questão, serviu como base para a escolha da lista de problemas 9 (linhas 3-6). Essa lista traz uma síntese do tratamento formal da mecânica quântica, apresentando de forma sucinta os conceitos de estado, representação de estado, superposição de estados, notação bra-ket, evolução temporal, observáveis, operadores, valores esperados e o operador hamiltoniano. Esse trecho escolhido por Ana (linhas 7-14) serviu para moldar o discurso das estudantes durante quase toda a atividade.
É possível observar, na fala de Ana (linhas 15-18), o emprego da dicotomia "determinismo-probabilismo" para estabelecer a diferença entre as visões de mundo clássica e quântica. De um lado, a estudante coloca a idéia de que, em física clássica, todas as variáveis podem, em princípio, ser simultaneamente determinadas com precisão absoluta, ou seja, "tá tudo bem definido" (linha 16). De outro lado, a estudante destaca o fato de que a mecânica quântica "te dá uma interpretação probabilística" (linha 17) da natureza. Embora esta seja uma forma consistente de estabelecer uma demarcação entre a física clássica e a mecânica quântica, ela não inclui os conceitos de estado, representação de estado, operadores, autovalor e autovetor (ou autofunção). Essa restrição, associada à fonte textual utilizada, levou a estudante a abordar o problema em termos de aspectos gerais, sem se ater aos
conceitos específicos descritos no enunciado; afinal, "tudo é mais ou menos isso" (linha 24).
Paula, por outro lado, resiste à explicação de Ana, partindo em busca de uma definição para os conceitos de representação de estados, operadores, autovalor e autovetor (linha 21). O problema é que o objetivo associado à lista 9 consiste em introduzir sucintamente os conceitos associados ao formalismo matemático e não em estabelecer uma distinção rigorosa entre os significados desses conceitos no contexto da física clássica e da mecânica quântica. Esse conflito entre os objetivos de Paula e os propósitos associado à fonte textual utilizada impossibilitou a resolução adequada do problema (linhas 25-30), levando-a a uma resposta que não corresponde exatamente à explicação esperada pelo professor, ou seja, "não é bem isso que ele quer" (linha 29).
## Considerações finais
No presente trabalho, apresentamos oito dimensões de análise discursiva utilizada por nosso grupo de pesquisa, fundamentada na teoria sociocultural de Wertsch. Inicialmente, apresentamos sucintamente os principais fundamentos da teoria sociocultural e examinamos oito afirmações básicas que derivam dessa teoria, no intuito de estabelecer algumas dimensões de análise que possam orientar o estudo de transcrições no âmbito da pesquisa em ensino de física. A seguir, apresentamos um exemplo de aplicação de algumas dessas dimensões de análise a partir de uma análise dos enunciados de duas estudantes de Licenciatura em Física em uma tarefa de resolução de problemas sobre mecânica quântica.
- O objetivo de nosso trabalho foi apresentar os aportes teóricos e metodológicos que estão sendo apropriados por nossos estudantes de iniciação científica, em especial a terceira autora do presente trabalho. A ideia geral é submeter nossas dimensões de análise à revisão dos pares e promover um debate sobre aspectos metodológicos da análise discursiva no ensino de física.
## Referências
BAKHTIN, M. M. The dialogic imagination: Four r essays by M. M. Bakhtin. Austin: University of Texas Press, 1981.
VYGOTSKY, L. S. A A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 5. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
VYGOTSKY, L. S. Historia del desarrollo de las funciones psíquicas superiores. In: VYGOTSKY, L. S. Obras Escogidas. Madrid: Visor Distribuciones, 1995.
WERTSCH, J. V. Voices of collective remembering. New York: Cambridge University Press, 2002.
WERTSCH, J. V. Mind as action. New York: Oxford University Press, 1998.
WERTSCH, J. V. Voices of mind: a sociocultural approach to mediated action . Cambridge: Harvard University Press, 1991a.
WERTSCH, J. V. A sociocultural approach to socially shared cognition. In: RESNICK, L. B.; LEVINE, J. M.; TEASLEY, S. D. (org.). Perspectives on socially shared cognition. Washington: American Psychological Association, 1991b. p. 85100.
WERTSCH, J. V. From social interaction to higher psychological processes: A clarification and application of Vygotsky's theory. Human Development, Berkeley, v. 22, n.1, p. 1-22, 1979.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.