TRABALHANDO QUESTÕES DE CIÊNCIAS DA NATUREZA DO ENEM COM ESTUDANTES SURDOS UMA EXPERIÊNCIA BILÍNGUE
Jair Neto, Lucas Lopes, Mariana Odashima, Ricardo Kagimura
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 21/07/2021
- Linha de pesquisa
- Políticas Públicas E De Inclusão No Ensino De Ciência
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## TRABALHANDO QUESTÕES DE CIÊNCIAS DA NATUREZA DO ENEM COM ESTUDANTES SURDOS: UMA EXPERIÊNCIA BILÍNGUE
Jair de Oliveira Pereira Neto 1 , Lucas da Silva Lopes 2 , Mariana M. Odashima 3 , Ricardo Kagimura 4
1 Instituto de Física/Universidade Federal de Uberlândia, jairneto55@gmail.com
- 2 Instituto de Física/Universidade Federal de Uberlândia, lucas.lopes@ufu.br
- 3 Instituto de Física/Universidade Federal de Uberlândia, mmodashima@ufu.br
- 4 Instituto de Física/Universidade Federal de Uberlândia, kagimura@ufu.br
Palavras-chave : Ensino Inclusivo, ENEM, LIBRAS
## Resumo expandido
Apesar da educação inclusiva ser um direito garantido por lei, há largos passos a serem percorridos pelas instituições, pelas políticas educativas, e na própria formação docente, inicial e continuada. Na perspectiva de um estudante surdo, cujo canal de comunicação principal é visual e gestual, a predominância de metodologias de ensino expositivas pautadas unicamente na língua portuguesa e no canal oral-auditivo, acarreta em um grande prejuízo na formação deste indivíduo (LIMA e SILVA, 2019). No caso do Ensino de Física, onde há, de forma geral, uma forte influência do método tradicional expositivo, quando as aulas se caracterizam pela escrita de fórmulas no quadro negro, o aluno pode não adquirir um entendimento plena do problema físico e das conexões daquele tema no seu dia a dia. Este problema é severamente agravado quando há uma barreira linguística entre o professor e seu estudante, quando ele não conhece nada sobre sua realidade e suas vivências, ou quando o professor não apresenta formas diferentes de ensinar. O processo educativo, segundo Paulo Freire, é uma atividade dialógica onde o educador se forma na prática e refletindo sobre suas práticas (FREIRE, 1996), e nesse sentido temos que pensar sobre formas de incluir os alunos surdos nas aulas de Física segundo sua perspectiva.
Este trabalho apresenta uma discussão sobre uma experiência didática bilíngue no ensino de conteúdos da área de Ciência da Natureza para estudantes surdos. Os temas trabalhados foram escolhidos a partir da análise de questões do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de edições anteriores, disponibilizadas na língua brasileira de sinais (LIBRAS). A ação foi realizada dentro de um projeto de extensão da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que objetivava desenvolver materiais didáticos e práticas educativas inclusivas em Física, para estudantes surdos de escolas públicas. Através de uma parceria com uma pedagoga do Atendimento Educacional Especializado (AEE) e de um intérprete de LIBRAS, foram convidados diversos alunos para o projeto, e dois jovens se interessaram, uma aluna do Ensino Médio e um aluno de Engenharia da UFU do primeiro ano de curso. A equipe do projeto foi formada por dois graduandos, um bacharelando em Física de Materiais, intérprete de LIBRAS, e um licenciando em Física, e dois professores orientadores. Inicialmente a equipe pensou usar um sinalário já existente em termos
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XX a XX de julho de 2021 - Online
de mecânica, baseado na troca com os estudantes surdos. Ao decorrer do projeto, e nos encontros com os alunos, surgiu a proposta de fazer encontros para discutir questões do ENEM de Ciências da Natureza, tema deste relato.
Esse projeto foi dividido em duas partes: a primeira foi a seleção de questões do ENEM e materiais de apoio que consideramos interessantes para os alunos surdos, tais como imagens e vídeos. A discussão de cada questão era planejada previamente aos encontros, realizando revisões do assunto abordado. Essa primeira parte foi elaborada a partir da premissa que os conteúdos visuais são muito importantes para os discentes surdos, reforçada pela experiência do intérprete de LIBRAS. Diversas imagens e vídeos foram escolhidos para auxiliar na explicação de questões do ENEM, junto a seus conceitos.
Depois desse planejamento inicial levamos nossa proposta para dentro da sala de aula para compartilhá-la com os discentes. Entretanto, percebemos que somente vídeos e imagens não pareciam ser suficientes para esclarecer os fenômenos. Diante desta situação, decidiu-se tentar utilizar experimentos de baixo custo ou vídeos de pessoas realizando experimentos. Na sua apresentação, não deixamos os discentes assistirem os vídeos de forma passiva: os trechos dos vídeos eram apresentados pausadamente, com comentários de ambos professores de maneira investigativa e dialogada. Com essa nova metodologia foi percebida uma evolução significativa na compreensão dos estudantes, através do aumento da sua participação nas atividades. Para exemplificar, em um certo encontro, levamos um painel solar para discussão. Rapidamente os alunos conseguiram entender como funcionava e o que ele realizava, apesar de um dos participantes nunca ter estudado fundamentos de eletrodinâmica, como circuitos ou o conceito de corrente elétrica.
Figura 01: Registro de um dos encontros, onde foi discutido sobre a diferença de potencial em pilhas (fonte: os autores).
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Ao final de quase um mês e meio de atividades, período onde nos reunimos duas vezes por semana, percebemos que os alunos tiveram uma grande mudança
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na participação das aulas e no seu próprio conhecimento em geral sobre a física. Podemos atribuir este resultado ao uso da LIBRAS como língua, e não o Português, tornando a comunicação muito mais eficaz, e ao uso de diferentes recursos didáticos para explorar os temas, com vídeos, fotos, imagens e experimentos em sala de aula. Nossa experiência também nos mostrou que é interessante trabalhar conteúdos específicos de Física, Química, Biologia e Matemática, através de discussões de questões do ENEM. Após o término das atividades, o participante A nos relatou: 'gostei me ajudou na parte física e matemática, eu senti mais dificuldade na parte de física, na matemática foi tranquilo, mas ajudou a evoluir para entender melhor conceitos para fazer Enem'.
Com essa experiência notou-se ainda que é extremamente importante conhecer as necessidades dos discentes surdos, através do diálogo e da troca de experiências entre docentes e discentes. À primeira vista, imaginamos que o uso de conteúdos visuais seriam suficientes, mas na prática percebemos que a forma como esses conteúdos imagéticos são trabalhados e a presença de um professor bilíngue, são de fundamental importância. Assim, acreditamos que aulas bilíngues e materiais didáticos que atendam as demandas desses estudantes podem contribuir para sua aprendizagem e para o aumento da participação e interesse destes alunos em aulas de Ciências.
## Referências
BRASIL, Lei nº10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 25 abr. 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil\_03/leis/2002/l10436.htm. Acesso em: 5 jul. 2020.
\_\_\_\_\_\_. Decreto no 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei no 10.436, de24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais -Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Diário Oficial da União, Brasília, 23 dez.2005. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil\_03/\_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm. Acesso em: 5 jul. 2020.
CAPOVILLA. F.C.; RAPHAEL, W.D.; MAURICIO, A.C.L. NOVO DEIT-LIBRAS : Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Libras).3 vol. Editora EDUSP, 2017.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia : saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1996. 165 p.
LIMA, Marisa Dias; SILVA, Lázara Cristina da. Bilinguismo na educação dos e para os surdos: uma discussão reflexiva sobre a política educacional e linguística. The Especialist , v. 40, n. 3, 2019.
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SILVA, J.F.C. O ensino de física com as mãos: Libras, bilinguismo e inclusão. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-graduação em ensino de ciências - Universidade de São Paulo - USP, 2013.
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