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COLONIZAÇÃO CULTURAL E COLONIALISMO: UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA AO ENSINO DE FÍSICA

Francisco Nascimento

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
21/07/2021
Linha de pesquisa
Políticas Públicas E De Inclusão No Ensino De Ciência
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A COLONIZAÇÃO CULTURAL E COLONIALISMO: UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA AO ENSINO DE FÍSICA

## Francisco Nascimento 1

1 Universidade Federal do Sul da Bahia / Instituto de Humanidades, Artes e Ciências do Campus Sosígenes Costa / francisco.nascimento@ufsb.edu.br

Palavras-chave : Ensino de Física, Colonização, Cultura

## Resumo expandido

Este trabalho deseja contribuir para a discussão acerca dos processos de colonização cultural e colonialismo no Ensino de Física, uma reflexão justificada pelo processo histórico do Ensino de Física e suas relações de poder, uma discussão necessária para que se proporcionem mudanças dentro das práticas da educação em Física. Trata-se de um convite para que educadores olhem para a instituição escolar com empatia, com o compromisso de analisar suas estruturas e a base de sua formação.

No Brasil, o processo de colonização cultural é historicamente agressivo, o que acentuou as desigualdades raciais. Heringer (2002) apresenta números a esse respeito e os desafios no campo das políticas públicas em seu artigo Desigualdades raciais no Brasil: síntese de indicadores e desafios no campo das políticas públicas :

As informações apresentadas praticamente falam por si mesmas. As desigualdades são graves e, ao afetarem a capacidade de inserção dos negros na sociedade brasileira, comprometem o projeto de construção de um país democrático e com oportunidades iguais para todos. Apresentam-se em diferentes momentos do ciclo de vida do indivíduo, desde a saúde na infância, passando pelo acesso à educação e cristalizando-se no mercado de trabalho e, por consequência, no valor dos rendimentos obtidos e nas condições de vida como um todo. (HERINGER, 2002, p. 2).

Esse comportamento se repete desde a colonização, onde os negros foram excluídos de espaços da educação e condenados a não valorização de seus saberes e fazeres. A negação à saúde e educação de qualidade e diferenciada colocaram os negros numa situação cada vez mais precária. Dessa forma, as dificuldades de manutenção da vida do povo negro vêm sendo mantida desde o período da colonização.

Em Os condenados da Terra , Frantz Fanon (1968) descreve os efeitos assoladores do processo de colonização sobre o colonizado e o desenvolvimento histórico que envolveu a descolonização. Ele faz diversas observações que retrata a violência imposta pelos colonizadores, e a mudança de perspectiva dos povos colonizados, sujeitos de resistência que o autor denomina de 'homens novos'.

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19 a 30 de julho de 2021 - Online

O povo colonizado não está só. A despeito dos esforços do colonialismo, suas fronteiras permanecem permeáveis às novidades, aos ecos. Ele descobre que a violência é atmosférica, escala aqui e ali, e aqui e ali derrota o regime colonial. Essa violência triunfante desempenha um papel não somente informador como também operativo para o colonizado. (FANON, 1968, p. 53).

Nossa nação se tornou independente de Portugal há praticamente dois séculos, mas nossas mentes ainda continuam aprisionadas. Mesmo com o fim do colonialismo europeu, a presença viva e constante da colonialidade permanece em nossas bases e estruturas, sobrevivendo no comportamento e atitudes da nossa sociedade. Segundo Candau (2010), Aníbal Quijano (2009), Walter Mignolo (2005) e outros autores decoloniais, a colonialidade destrói aquilo que o colonizado possui em seu imaginário ancestral, apagando traços de sua cultura e identidade, forjando uma subjetividade a partir do que é imposto pelo colonizador.

Pinheiro (2018) mostra como algumas das referências mais importantes fizeram nome no campo da filosofia e ciências, através de pesquisas e estudos no continente africano, como por exemplo, Arquimedes (287-212 a.C.), Pitágoras (570490 a.C.), Sócrates (469-399 a.C.), Aristóteles (384-322 a.C.) e Platão (427-347 a. C.) entre outros que estudaram e moraram no Egito, onde se apropriaram de conhecimentos africanos, mas que no entanto voltaram para Europa onde escreveram livros e textos matemáticos sem considerar, ou mesmo dar crédito ao aprendizado oportunizado na África.

Todos eles estudaram no Egito. Entretanto, hierarquizações culturais, silenciamento sobre as contribuições africanas para as ciências, roubos de criações africanas e as ideologias racistas que desqualificam os africanos considerando-os povos primitivos, sem história e desumanizados (FORDE, 2017) dificultam e impedem a valorização da cultura e das tradições africanas em nosso currículo escolar. (PINHEIRO, 2018, p. 58).

A autora explica como os europeus se apropriaram de conhecimentos africanos com o objetivo de manter a branquitude no controle do poder político e se destacaram no campo das ciências. Pinheiro (2018) fala da necessidade de construção de mecanismos que contribuam para pesquisas e incentivos à divulgação de estudos africanos nas ciências, o que inclui a Física, algo que pode favorecer o aprendizado de estudantes negros e de periferias nas relações de ensino/aprendizagem de Física. É importante o compartilhamento de referências negras no campo das ciências, para que as pessoas educandas sintam-se representadas. Pode parecer uma atitude simples, porém eficaz para uma transformação no espaço escolar que sempre foi conduzido por saberes e construções que não valorizaram a cultura e ancestralidade africanas.

Desse modo, a normalização é tão eficiente que por meio de um processo histórico, político e social consegue naturalizar as desigualdades forjadas pelo próprio processo normativo. Por isso se faz necessário o desenvolvimento de ações, no âmbito educacional, que possibilitem o convívio com respeito às diferenças. (PINHEIRO, 2018, p. 60).

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Como destaca Pinheiro (2018), é preciso também descolonizar o conhecimento hoje, refletindo como o processo de colonização invisibilizou a cultura e os saberes dos povos africanos e indígenas, analisando a construção cultural a que estão sujeitos educadores, educadoras e educandos, e seus reflexos nas práticas de ensino-aprendizagem de Física, dentro e fora da escola.

## Referências

FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Editora Civilização Brasileira S.A, Rio de Janeiro, 1968.

HERINGER, Rosana. Desigualdades Raciais no Brasil: Síntese de indicadores e desafios no campo das Políticas Públicas . Cadernos de Saúde pública, v. 18, p. S57-S65, 2002.

PINHEIRO, Bárbara Carine Soares; ROSA, Katemari. Descolonizando Saberes A lei 10.639/2003 no Ensino de Ciências, Editora Livraria da Física, São Paulo, 2018.

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