PERCEPÇÃO DE PROFESSORAS E PROFESSORES QUE ENSINAM FÍSICA SOBRE A DIFERENÇA DE GÊNERO QUE OBSERVAM EM SUAS AULAS
Camila Manni Dias Do Amaral
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 21/07/2021
- Linha de pesquisa
- Políticas Públicas E De Inclusão No Ensino De Ciência
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## PERCEPÇÃO DE PROFESSORAS E PROFESSORES QUE ENSINAM FÍSICA SOBRE A DIFERENÇA DE GÊNERO QUE OBSERVAM EM SUAS AULAS
## Camila Manni Dias do Amaral 1
1 Universidade Federal do Rio de Janeiro/PEMAT,
Palavras-chave
: Ensino de física; Gênero.
## Resumo expandido
Pesquisas anteriores e estudos em grande escala indicam a existência de uma lacuna de gênero no desempenho, interesses, e participação em aulas de ciências, bem como na participação em cursos Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) no nível universitário (Scantlebury & Baker, 2007; UNESCO, 2017). Essa lacuna está relacionada a vários fatores, como socialização, a falta de modelos femininos de cientistas, diferenças nas expectativas de pais e professores para meninas e meninos, interações em sala de aula e a própria forma de instrução (Zohar & Bronshtein, 2005; Scantlebury & Baker, 2007).
Neste estudo, as crenças dos professores sobre os fatores que contribuem para essa lacuna de gênero são analisadas, e as possíveis implicações para o ensino de física são discutidas. Esses fatores estão relacionados a discursos que constituem -e são constituídos por -formas normativas de fazer física, associada a comportamentos e valores historicamente imputados a uma determinada forma de masculinidade, como lógica, objetividade e racionalidade (Golsalves, 2012). Portanto, é mais difícil para meninas e mulheres se reconhecerem e serem reconhecidas como "pessoas da ciência" (Carlone, Johnson & Scott, 2007), o que contribui para uma lacuna de gênero em STEM.
- O instrumento utilizado neste estudo é um questionário composto por 10 perguntas fechadas e 2 perguntas abertas, sendo a resposta a uma das perguntas abertas o objeto da análise apresentada. A pergunta em questão era: Na sua opinião, qual a origem ou causa dessas diferenças entre meninos e meninas nas aulas de física? O processo de análise foi realizado simultaneamente à aplicação dos questionários, com as respostas sendo categorizadas conforme eram recebidas.
Os questionários foram respondidos por 72 professores, de ambos os sexos, atuantes nas redes pública e privada de ensino, e que ensinam física no ensino médio ou fundamental. Dos 72 professores participantes, 65 observam diferenças de gênero nas aulas de física, com os alunos tendo uma performance melhor que a de suas colegas do sexo feminino. Destes, 10 não percebem essa diferença como um problema, enquanto 54 percebem essa diferença como um problema, mas 46 acreditam que não há medidas que possam ser tomadas para solucioná-lo. As respostas discutidas neste estudo são as desses 46 professores.
- A questão de interesse desse estudo é: a que fatores os professores que percebem diferença de gênero em aulas de física, e consideram isso um problema que não podem resolver, atribuem essa diferença? O interesse em responder essa questão se deve à percepção de que, compreendendo quais são esses fatores,
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
podem ser sugeridas iniciativas para o incremento do engajamento de professores que ensinam física com a equidade de gênero em sala de aula.
A partir das respostas obtidas, as diferenças entre alunos e alunas foram agrupadas em duas categorias principais: causas naturais e causas sociais. O quadro 1 apresenta características, dessas categorias, fatores que contribuem para cada uma delas e trechos de respostas que foram classificadas como 'causas naturais' e 'causas sociais'.
Quadro 1: Diferença no desempenho de meninos e meninas em física.
Quanto às razões pelas quais não há medidas que possam ser tomadas para reduzir as diferenças entre os meninos e meninas nas aulas de física, parece haver uma distinção entre os professores que atribuem essas diferenças a causas sociais e os que as atribuem a causas naturais. Professores do primeiro grupo acreditam que, quando os alunos começam a aprender física na escola, a socialização já ocorreu e os danos promovidos por ela são irreversíveis. Por outro lado, o segundo grupo acredita que não há nada que eles possam fazer porque as diferenças de gênero são apriorísticas, originárias no processo de criação do ser humano ou definidas a partir da genética e de diferenças nas estruturas cerebrais de homens e mulheres. Dito isto, é relevante discutir formas que promover uma mudança nessas perspectivas.
Para abordar professores que atribuem diferenças de desempenho a causas naturais, o primeiro passo é discutir os aspectos biopsicossociais relacionados
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(Halpern, 2000). Ainda, como a argumentação da maior parte desses professores baseia-se nas relações entre sexo e cognição, discussões sobre o que as pesquisas indicam sobre essas relações podem ser favoráveis (Spelke, 2005). Diferentes abordagens poderiam ser mais eficazes com professores que atribuem diferenças de gênero a causas sociais. Uma dessas abordagens envolveria professores que desenvolveram e implementaram estratégias de inclusão de gênero em suas salas de aula, o que pode ser uma oportunidade de troca de experiências e aprendizado, que apoie mudanças na prática dos professores.
## Referências
Carlone, H. B.; Johnson, A. (2007). Understanding the science experiences of successful women of color: Science identity as an analytic lens. Journal of Research in Science Teaching, 44(8), 1187-1218.
Gonsalves, A. (2012) Physics and the girly girl-there is a contradiction somewhere: Doctoral students' positioning around discourses of gender and competence in physics. Cultural Studies in Science Education, 9, 503-521. doi:10.1007/s11422 0129447-6.
Halpern, D.F. (2000). Sex differences in cognitive abilities (3rd ed.). Mahwah, NJ: Erlbaum.
Scantlebury, K., & Baker, D. (2007). Gender issues in science education research: Remembering where the difference lies. In, S. Abell & N. Lederman(Eds.), Handbook of research on science education (pp. 257-286). Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum.
Spelke, E. S. (2005). Sex differences in intrinsic aptitude for mathematics and science?: A critical review. Am Psychol 60:950-958
UNESCO (2017). Cracking the code: girls' and women's education in science, technology, engineering and mathematics (STEM). Paris: United National Educational, Scientific and Cultural Organization.
Zohar, A.; Bronshtein, B. (2005). Physics teachers' knowledge and beliefs regarding girls' low participation rates in advanced physics classes, International Journal of Science Education. 27 (1), 61-77.
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