ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA AUDITIVA NO ENSINO MÉDIO: ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA
Viviane Medeiros Tavares Mota, Lucia Da Cruz De Almeida
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 21/07/2021
- Linha de pesquisa
- Políticas Públicas E De Inclusão No Ensino De Ciência
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ESTUDANTES COM DEFICIÊNCIA AUDITIVA NO ENSINO MÉDIO: ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA
## Viviane Medeiros Tavares Mota 1 , Lucia da Cruz de Almeida 2
1 UFF/PPECN, vivianemedeiros@id.uff.br
2 UFF/Departamento de Física/PPECN, luciacruzalmeida@id.uff.br
Palavras-chave
: Ensino de Física; Inclusão; Identidades surdas.
## Resumo expandido
Os documentos oficiais que balizam a educação brasileira sofreram, nos últimos anos, modificações que promoveram avanços na inclusão de estudantes com necessidades educacionais especiais (NEE) nas classes comuns do sistema regular de ensino. Essas mudanças resultaram em um aumento expressivo da presença desses estudantes no ambiente escolar, mas apenas a garantia da presença não implica na inclusão desses sujeitos nos processos de ensino e de aprendizagem. Como explica Guijarro (2005), além de todo o suporte institucional, há a necessidade de
[...] desenvolver uma educação que valorize e respeite as diferenças, vendoas como uma oportunidade para otimizar o pensamento pessoal e social e para enriquecer os processos de aprendizagem (p. 10).
Nesse sentido, o professor não pode ser omisso na consolidação de um ambiente escolar que respeite, valorize e promova diversidade de seus discentes. Ele deve estar preparado para refletir, propor e implementar práticas educativas que permitam à plena participação de todos.
Para um aprofundamento teórico sobre os aspectos que devem ser levados em conta para que os professores possam se tornar inclusivistas, recorremos a uma revisão bibliográfica sobre as principais recomendações no âmbito do ensino de Física, e mais especificamente, sobre a inclusão de estudantes com deficiência auditiva para responder à pergunta que foi o cerne do nosso estudo: quais as principais barreiras para a inclusão de deficientes auditivos nas aulas de Física do Ensino Médio?
Essa revisão bibliográfica nos permitiu a apropriação de um melhor conhecimento sobre surdez, as múltiplas identidades dos indivíduos com deficiência auditiva e a influência dessas identidades nos processos de ensino e de aprendizagem desses sujeitos.
De uma maneira geral, o ensino de Física no nível Médio da Educação Básica deve ter significado para o estudante de modo que ele possa compreender e argumentar sobre os fenômenos naturais e tecnológicos com os quais ele se depara ou venha se deparar em seu cotidiano, relacionando a teoria aprendida em sala de aula com a sua vivência experiencial e permitindo-lhe compreender o conhecimento científico, ter autonomia e atuar colaborativamente em trabalhos em grupo. A intencionalidade nessa perspectiva de ensino é possibilitar a compreensão da Física como uma ciência que é construída coletivamente em concomitância com os avanços sociais e culturais de determinadas épocas e não como algo pronto e já determinado
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
(CACHAPUZ et al 2008; MENEZES, 2000; VILCHES; GIL-PÉREZ; PRAIA, 2011). Todavia, para a efetivação de um ensino de Física em prol da inclusão dos estudantes com deficiência auditiva nas classes comuns do ensino regular, essa prática, apesar de essencial, não se mostra suficiente. Nesse sentido, a percepção de Borges, Pereira e Aquino (2012) é bastante elucidativa quando traz como recomendação que
Devemos avançar de uma sociedade preconceituosa para uma sociedade humana e solidária com todos; de uma escola tradicional e fechada, a uma escola aberta e inovadora; de uma prática pedagógica homogeneizadora, a ações voltadas para atender, com qualidade, a toda diversidade de alunos presentes no sistema de ensino educacional. É preciso entender que existem ritmos de tempos de aprender, como também diversas maneiras de ensinar (p. 8).
Em relação à deficiência auditiva, quando em uma sociedade os indivíduos são majoritariamente ouvintes, ser surdo é sofrer permanentemente com estereótipos limitadores e discriminantes, como se a surdez fosse um rótulo que os definissem por completo. Nesse sentido, em oposição a essa óptica, atualmente, há um crescente movimento social para o reconhecimento da surdez, não mais como uma patologia, e sim como uma cultura que valoriza as identidades surdas que resultam de lutas e resistências, mediante uma hegemonia ouvinte. Assim, compreender as múltiplas identidades que o sujeito surdo possa ter é um importantíssimo passo para que possamos permitir a esses indivíduos integridade, propiciando um ambiente social que não os totalize ou que os discrimine somente pelo fato de serem surdos. Ao remeter essa constatação para o ambiente escolar, Donizart (2009) lembra que não fazer sua incorporação significa falta de atenção às novas exigências sociais, atitude que dificultará
[...] o desvendamento e a superação dos problemas existentes, em direção a uma sociedade mais justa, menos excludente (p. 11).
Ainda em relação à inclusão dos estudantes com deficiência auditiva, é fundamental que exista, tanto nas Universidades, instituição responsável pela formação do professor, quanto nas escolas, um ambiente propício ao diálogo entre os diferentes profissionais, dentre os quais, professores da educação de surdos, intérpretes em Libras e professores dos objetos de conhecimento específicos das áreas ou disciplinas do currículo do Ensino Médio. Nesse contexto, os cursos de formação inicial e continuada deveriam formar o professor inclusivista compreendido como
[...] aquele que se ajusta a seus alunos deficientes [...] e ajusta suas aulas às necessidades especiais deste aluno (BARBOSA LIMA; CANTARINO, 2013, p. 2).
Nossa familiaridade com estudantes com deficiência auditiva em processos de ensino e de aprendizagem dos objetos de conhecimento da Física no Ensino Médio associada às recomendações teóricas nos desafiou à produção de material didático acessível aos ouvintes e a multiplicidade de sujeitos surdos. Esse processo resultou na produção de um vídeo didático sobre a grandeza física calor, com base no texto 'Um interrogatório com o calor' (FIGUEIREDO; PIETROCOLA, 1998, p. 9 -12), em três formatos: imagem e áudio; imagem, áudio e legendas em Libras; imagem, áudio e legendas textuais em Língua Portuguesa.
Esclarecemos que esses três formatos do vídeo foram previstos visando atender aos ouvintes e à multiplicidade de perfis dos estudantes com deficiência auditiva, ou seja, aqueles que têm domínio da Libras e aqueles que se sentem mais à
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vontade como o uso da Língua Portuguesa escrita. Dito de outra forma, os formatos do vídeo visam contemplar surdo e ensurdecidos (sujeitos que perderam a audição ao longo da vida).
É inegável que a principal barreira à inclusão de estudantes com surdez se encontra na comunicação, entretanto, apenas o professor saber Libras não implica em rompê-la, já que o fortalecimento de um ambiente inclusivo, que possibilite a participação e, consequentemente, a aprendizagem com significado para os estudantes, demanda um processo de busca por inovações pedagógicas, tanto em relação às metodologias quantos aos recursos didáticos.
## Referências
BARBOSA-LIMA, Maria da Conceição de Almeida; CATARINO, Giselle Faur de Castro. Formação de professores de física inclusivistas: interdisciplinaridade por si ... In: ATAS DO IX ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS . Águas de Lindóia, SP, 2013.
BORGES, Maria Célia; PEREIRA, Helena Ornellas Sivieri; AQUINO, Orlando Fernandez. Inclusão x integração: a problemática das políticas e da formação docente. Revista Iberamericana de Educación , v. 59, n. 3, 2012, p. 1-11.
CACHAPUZ, António et al. Do estado da arte da pesquisa em educação em ciências: linhas de pesquisa e o caso 'Ciência -TecnologiaSociedade'. Alexandria: Revista de Educação em Ciência e Tecnologia , v. 1, n. 1, 2008, p. 27-49.
DORZIAT, Ana. O Outro Lado da Educação: pensando a surdez com base nos temas identidade/diferença, currículo e inclusão . Petrópolis, Editora Vozes, 2009, p. 9-33.
FIGUEIREDO, Aníbal; PIETROCOLA, Maurício. Calor e Temperatura . (Física um outro lado). São Paulo: FTD, 1998, p. 9-12.
GUIJARRO, Maria Rosa Blanco. Inclusão: um desafio para os sistemas educacionais. Ensaios Pedagógicos -construindo escolas inclusivas . Brasília: MEC, SEESP, p. 7-14.
MENEZES, Luis Carlos. Física para o Ensino Médio. Revista Física na Escola , v. 1, n. 1, 2000.
VILCHES, Amparo; GIL-PÉREZ, Daniel; PRAIA, João. De CTS a CTSA: educação por um futuro sustentável. SANTOS, Wildson Pereira dos; AULER, Décio (Orgs). CTS e Educação Científica: desafios, tendências e resultados de pesquisas . Brasília: Universidade de Brasília, 2011.
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