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O uso de jargões na Divulgação Científica de Física

Mateus Zeferino Rennó, Marcelo M. Guzzo, Dayane Machado, Eduardo Akio Sato

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
21/07/2021
Linha de pesquisa
Mídias Digitais, Divulgação E Comunicação Científica No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## O USO DE JARGÕES NA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DE FÍSICA

Mateus Z. Rennó 1 , Marcelo M. Guzzo 2 , Dayane Machado 3 , Eduardo Akio Sato 4

- 1 Instituto de Física 'Gleb Wataghin' - Unicamp, mateuszrenno@gmail.com
- 2 Instituto de Física 'Gleb Wataghin' - Unicamp, guzzo@unicamp.br
- 3 Instituto de Geociências - Unicamp, dayane.machado@igdore.org
- 4 Instituto de Física 'Gleb Wataghin' - Unicamp, easato@ifi.unicamp.br

Palavras-chave : Jargão; Divulgação Científica; Física.

## Resumo expandido

Em pleno século XXI, uma comunicação mais efetiva entre a comunidade científica e o público não acadêmico mostra-se cada vez mais vital. É essencial que os cientistas aprendam a se comunicar adequadamente com o público (HINKO; SENECA; FINKELSTEIN, 2015), visto que uma divulgação científica insatisfatória pode prejudicar os investimentos na ciência, afetar os níveis de confiança nas instituições científicas (BULLOCK et al. , 2019) e prejudicar o exercício da cidadania por parte da população (MARANDINO et al. , 2018). Com base nisso, discutimos ao longo deste resumo o uso e as implicações de 'jargões científicos' na divulgação de ciências.

Poderíamos definir jargões científicos como palavras ou expressões usadas primeiramente por cientistas quando se comunicam entre pares, o que estaria de acordo com a definição de Sharon e Baram-Tsabari (2014). Entretanto, para expandirmos esse significado, podemos definir que o jargão científico é uma palavra ou expressão que carrega consigo um significado implícito quando utilizado em um meio científico.

Hinko, Seneca e Finkelstein (2015) dividem os jargões em dois grupos: frases científicas específicas de uma disciplina 1 e frases científicas híbridas 2 . No primeiro grupo, estão as frases que normalmente não são utilizadas fora do meio científico, como 'fóton', 'molécula', 'quarks' e 'léptons'. Esses jargões podem diminuir significativamente o entendimento do texto e gerar uma menor confiança das pessoas na ciência, além de dificultar a persuasão (BULLOCK et al. , 2019).

Já as frases científicas híbridas são expressões utilizadas tanto no meio científico quanto no cotidiano, como 'trabalho', 'energia' e 'dinâmica'. Ademais, os termos híbridos são vistos como potencialmente mais perigosos, pois seus sentidos científicos são facilmente confundidos com suas definições cotidianas e podem fazer com que um público não acadêmico entenda o oposto do que o divulgador quis dizer (HINKO; SENECA; FINKELSTEIN, 2015).

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Um exemplo claro do mau uso de jargões científicos híbridos é a palavra 'teoria'. No meio acadêmico, ela é utilizada para se referir a um conjunto de ideias experimentalmente embasadas, que passou por várias tentativas de falseamento. Contudo, no cotidiano, essa palavra pode significar uma ideia ainda sem fundamento bibliográfico ou experimental, uma simples hipótese ou um 'achismo' e dessa forma, , poderia confundir o público (HINKO; SENECA; FINKELSTEIN, 2015).

Os jargões são utilizados por diversos motivos. Nesse resumo, apresentaremos três deles: as razões ingênuas, a demonstração de expertise e a comunicação entre pares. O termo 'razões ingênuas', na verdade, refere-se a três razões agrupadas por falta de um termo específico para denominá-las e, frequentemente, têm sua origem em uma ingenuidade do pesquisador. A primeira ocorre quando o divulgador está acostumado com um termo científico e não percebe que ele pode ser desconhecido ou ter um significado diferente para o público não acadêmico, como é o caso das palavras 'peso' e 'força'. A segunda razão ingênua se dá quando o divulgador faz um mau julgamento do nível de conhecimento da audiência sobre o assunto. Já a terceira razão ingênua acontece quando falta um termo alternativo para substituir o jargão, como ocorre, por exemplo, quando é necessário explicar a estrutura de um átomo sem utilizar os termos 'elétron' e 'núcleo' (HINKO; SENECA; FINKELSTEIN, 2015).

Outro motivo para o uso dos jargões é a demonstração de expertise. Essa razão aparece quando o comunicador busca mostrar sua autoridade no assunto e, para isso, utiliza jargões específicos da literatura. Contudo, ao mesmo tempo que o jargão pode trazer a autoridade, ele pode atrapalhar a compreensão do conteúdo, podendo também dificultar a persuasão do público (BULLOCK et al. , 2019; WILLOUGHBY; JOHNSON; STERMAN, 2020).

Ademais, o jargão pode (e deve) ocorrer na comunicação entre pares. Uma comunicação entre pares acontece quando especialistas de uma mesma área conversam entre si. Nesse contexto, o jargão é uma ferramenta mental necessária e importante (HINKO; SENECA; FINKELSTEIN, 2015; SHARON; BARAM-TSABARI, 2014).

Muitas são as estratégias para evitar o mau uso de jargões e melhorar a comunicação. Alguns exemplos apresentados por Hinko, Seneca e Finkelstein (2015) são Analogia, Ilustração, Coloquialismo e Explicação 3 . A Analogia e a Ilustração são técnicas que oferecem à audiência exemplos de cenários semelhantes aos do termo técnico (HINKO; SENECA; FINKELSTEIN, 2015). Um exemplo na Mecânica Newtoniana é comparar um campo gravitacional e uma luz emitida por uma lâmpada.

- O Coloquialismo, por sua vez, é uma técnica que utiliza termos informais e cotidianos em vez de termos técnicos para tratar de conteúdos científicos (HINKO; SENECA; FINKELSTEIN, 2015). Contudo, o Coloquialismo deve ser utilizado com cautela para que a menor precisão do termo não dificulte a compreensão do conteúdo como um todo.
- Já a Explicação é uma técnica que fornece ao público uma descrição ou conceituação do jargão (HINKO; SENECA; FINKELSTEIN, 2015). Entretanto, é importante salientar que, em alguns contextos, a Explicação por si só pode não melhorar a compreensão do texto, como mostra o experimento de Bullock et al . (2019).

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Dessa forma, é importante utilizar mais de uma estratégia para planejar uma atividade de divulgação científica.

Um exemplo de solução aplicada ao ensino de Física pode ser encontrado no livro de Mazur et al . (2015). Os autores analisam a definição cotidiana da palavra 'peso', diferenciando-a da definição científica. A partir daí, eles substituem esse termo pelo jargão 'força gravitacional', evidenciando assim a relevância do uso de jargões em contextos específicos.

Estudos sobre os jargões têm auxiliado no desenvolvimento de novas estratégias de ensino e divulgação de ciências em diferentes áreas. Nosso trabalho propõe a compreensão desse tema com foco específico na divulgação de Física. Esperamos que essa pesquisa contribua para o reconhecimento desse fenômeno e para a realização de cada vez mais atividades de divulgação científica baseadas em evidências.

## Referências

BULLOCK, Olivia M. et al. Jargon as a barrier to effective science communication: Evidence from metacognition. Public Understanding of Science , [ s. l. ], v. 28, n. 7, p. 845-853, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0963662519865687

HINKO, Kathleen; SENECA, Jordan; FINKELSTEIN, Noah D. Use of Scientific Language by University Physics Students Communicating to the Public. Physics Education Research Conference , [ s. l. ], p. 115-118, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.1119/perc.2014.pr.025

MARANDINO, Martha et al. Ferramenta teórico-metodológica para o estudo dos processos de alfabetização científica em ações de educação não formal e comunicação pública da ciência: resultados e discussões. Journal of Science Communication, América Latina , [ s. l. ], v. 01, n. 01, p. 1-24, 2018.

MAZUR, E. et al . Principles & practice of physics . [S.l.]: Pearson, 2015.

SHARON, Aviv J.; BARAM-TSABARI, Ayelet. Measuring mumbo jumbo: A preliminary quantification of the use of jargon in science communication. Public Understanding of Science , [ s. l. ], v. 23, n. 5, p. 528-546, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0963662512469916

WILLOUGHBY, Shannon D.; JOHNSON, Keith; STERMAN, Leila. Quantifying scientific jargon. Public Understanding of Science , [ s. l. ], v. 29, n. 6, p. 634-643, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0963662520937436

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