A TEXTUALIZAÇÃO DA FÍSICA NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS: A WEBCOMIC CIENTIRINHAS
Vinicius Jacques, Henrique César Da Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 21/07/2021
- Linha de pesquisa
- Mídias Digitais, Divulgação E Comunicação Científica No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A TEXTUALIZAÇÃO DA FÍSICA NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS: A WEBCOMIC CIENTIRINHAS
## Vinicius Jacques 1 , Henrique César da Silva 2
- 1 Instituto Federal de Santa Catarina/Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica/vinicius.jacques@ifsc.edu.br
- 2 Universidade Federal de Santa Catarina/Centro de Ciências da Educação/Departamento de Metodologia de Ensino/Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica/ henriquecsilva@gmail.com
Palavras-chave : Histórias em Quadrinhos; Tirinhas de Física; Textualização
## Resumo expandido
As Histórias em Quadrinhos (HQs) são um dos produtos culturais mais influentes (DA SILVA, 2001). Com uma linguagem própria, as HQs são acessíveis, divertidas, instigam a imaginação, promovem uma forte ligação cognoscitiva com o leitor e têm uma grande penetração popular.
Diversos autores (MARTINS & STLADER, 2011; VERGUEIRO, 2018; ASSIS & MARINHO, 2016) vêm destacando o potencial da utilização das HQs no ensino, uma vez que possuem uma relação semiótica do icônico e do verbal - uma linguagem que favorece a compreensão e identificação do leitor com o enredo proposto - podendo ser utilizadas em estratégias de ensino-aprendizagem.
Atualmente, há inúmeras HQs disponíveis que abordam temáticas científicas (LAVARDA, 2017). Pizarro (2009) aponta a necessidade de avaliar estas HQs, a fim de trabalhá-las como ferramentas educacionais.
Neste contexto, este trabalho tem como objetivo analisar a textualização da Física nas HQs, no gênero tirinhas, publicadas na internet . A opção pela internet se deu, pois muitas HQs migraram para esta nova mídia (PESSOA, 2006), além de terem consolidado um meio para a divulgação de trabalhos independentes, com diversidade de formatos, temáticas e discursos (NICOLAU & MAGALHÃES, 2011).
Como recorte deste trabalho, analisamos as tirinhas do Cientirinhas 1 , criado em 2016. A escolha se deu por estas abordarem temáticas científicas, objetivarem fazer divulgação científica, terem especialistas envolvidos na sua cocriação, além de grande repercussão nas mídias sociais.
- 1 Disponíveis em: https://dragoesdegaragem.com/cientirinhas/ e https://www.quadrinhorama.com.br/
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Nossa perspectiva não se limita a analisar separadamente o texto (vários elementos que se articulam na linguagem dos quadrinhos) dos conhecimentos relacionados à Física, mas a sua textualização - 'o texto, com seus conteúdos e sua forma (…).' (SILVA, 2014, p. 82).
Como procedimento analítico, realizamos a leitura das 219 tirinhas 2 publicizadas. Selecionamos as que comunicavam noções de Física. Estas tiveram inúmeros elementos textuais (verbais e imagéticos) identificados e analisados, como os tipos de personagens, cenários, layout , balões de fala/pensamento/recordatórios, além das noções físicas textualizadas.
Dentre as 219 tirinhas analisadas, 59 comunicaram noções de Física. O ano de 2020 concentrou o maior número de publicações. As temáticas físicas quadrinizadas foram bastante diversas, mas duas áreas predominaram - noções de Física Moderna e Contemporânea (FMC) e de Astrofísica. A identificação nestas e outras áreas não foram excludentes, já que houve sobreposição.
Figura 01: Tirinha que aborda noções de FMC e Astrofísica.Fonte: Marco Merlin
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Pessoas comuns 3 foram os personagens mais utilizados, seguidos de personagens que eram objetos astronômicos - Terra e Lua foram os mais recorrentes. Entretanto, poucas tirinhas retrataram cientistas famosos.
- 2 Número total de publicações até o dia 22/01/2021.
- 3 Não são celebridades midiáticas ou cientistas famosos.
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Figura 02: Tirinha que utiliza personagens astronômicos.Fonte: Marco Merlin
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Os cenários mais utilizados foram do espaço sideral e aqueles que chamamos de 'não definidos'. Estes últimos corroboram com Postema (2018, p. 29): 'As imagens dos quadrinhos geram um significado ao estabelecer um código de economia em que certos detalhes são deixados de lado para que outros se tornem mais importantes.'
Figura 03: Exemplo de cenário não definido (nos três primeiros quadros).Fonte: Marco Merlin
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Esta ausência de detalhes cria as condições para que os signos presentes tragam significado - para que o leitor foque nos detalhes que são fornecidos (POSTEMA, 2018). Na figura 03, os detalhes no fundo dos três primeiros quadros são suprimidos, para aqueles que interessam se destaquem, como: abertura/fechamento de braços/pernas para alterar a distribuição de massa, consequentemente o momento de inércia; número/dimensões das linhas de movimento que remetem à variação da velocidade angular; repetição dos olhos/boca/cabelo/nariz para remeter à tontura devido a rotação.
A tirinha anterior utiliza predominantemente recordatórios, com exceção da onomatopeia. Contudo, nas tirinhas analisadas a representação verbal se deu predominantemente com balões de fala. Em relação à aparência das palavras, espessura e tamanho são manipulados para somá-la ao sentido linguístico (POSTEMA, 2018). Na figura 01, o negrito e ampliação em 'gravidade' e 'muito nebulosa' remetem a morte da 'supernova' e 'imensa nuvem de poeira e gás'
- O texto verbal também foi utilizado para 'suavizar as frestas, criar as conexões que a representação visual, sozinha, não consegue deixar claras.' (POSTEMA, 2018, p. 115). Na figura 02, o texto verbal e a imagem formam juntas 'um significado e uma ironia que não estão presentes em nenhum deles, separadamente.' (ibidem, p. 116). As 'luzinhas perto da linha do Equador' serem 'cortesia de humanos cabeça de vento' comparadas as 'auroras' serem 'cortesia do vento solar' criam a conexão com as imagens e são imprescindíveis para a ironia.
Em relação ao layout , as tirinhas analisadas utilizam quadros com molduras, separados por um pequeno espaço em branco (sarjeta). Nas publicações disponibilizadas nos sítios eletrônicos o layout predominante é de quatro quadros, com mesmas dimensões. Acreditamos que este layout favoreça a publicação nas redes sociais e leitura em dispositivos móveis. No entanto, quando publicadas na rede social instagram o leitor visualiza os quadros individualmente. Apenas no final os quadros são agrupados, e reexibidos em tamanho reduzido, no mesmo layout da web .
A análise evidenciou as principais temáticas textualizadas nas tirinhas, como os tópicos de FMC (superposição quântica, ondas gravitacionais, buracos de minhoca, vida/morte de estrelas) o que constitui um material alternativo aos professores de Física, favorecendo a inserção destes tópicos na educação básica, necessidade há anos apontada por Ostermann & Moreira (2000).
Chamamos a atenção para os personagens utilizados serem comuns, ampliando narrativas já consagradas a partir de físicos famosos.
Entendemos que a publicação em redes sociais, a partir de dispositivos móveis, ampliou o número de leitores. No entanto, favoreceu ao uso de um layout mais estruturado e com menos variações. Postema (2018, p. 58) afirma que:
Juntos, os quadros, as molduras e as sarjetas significam que os quadros precisam ser considerados um em relação aos outros, e não apenas por si mesmos. A forma como essas conexões precisam ser feitas é regida pela maneira como os quadros
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são dispostos na página, pela forma dos quadros e das molduras, e pela aparência das sarjetas. Todos esses elementos juntos criam o layout da página dos quadrinhos, em outras palavras, o layout institui as condições para a leitura.
Com isso novos questionamentos surgem: já que nos dispositivos móveis os quadros são mostrados individualmente, este suporte altera as condições de leitura?
## Referências
ASSIS, L. M.; MARINHO, E. S. História em quadrinhos: um gênero para sala de aula, Linguagem e Ensino do Texto: Teoria e Prática, Volume 1, 2016.
DA SILVA, N. M. Elementos para a análise das Histórias em Quadrinhos. INTERCOM - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação , 2001.
LAVARDA, T.C.F. Sugestões do uso de Histórias em Quadrinhos como Recurso Didático. Anais do XIII Congresso Nacional de Educação . Curitiba, PR, 2017.
MARTINS, E. K.; STADLER, R. de C. da L. O Ensino de Ciências e a utilização dos gêneros textuais: A Transformação da fábula do Trypanosoma cruzi em Histórias em Quadrinhos. In: Anais do VIII ENPEC , Campinas, SP, 2011.
NICOLAU, V.; MAGALHÃES, H. As tirinhas e a cultura da convergência: adaptação do gênero dos quadrinhos às novas mídias. Anais do V Simpósio Nacional da ABCiber , Florianópolis/SC, 2011.
OSTERMANN, F.; MOREIRA, M.A. Uma revisão bibliográfica sobre a área de pesquisa 'Física Moderna e Contemporânea no Ensino Médio'. Investigações em Ensino de Ciências , v. 05, n. 1, p. 23-48, 2000.
PESSOA, A. R. Quadrinhos na educação: uma proposta didática na educação básica . 2006. 183f. 2006. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais)-Universidade Estadual Paulista, São Paulo. 2006.
PIZARRO, M.V. As histórias em quadrinhos como linguagem e recurso didático no ensino de ciências. In: Anais do VII ENPEC , Florianópolis, SC, 2009.
POSTEMA, B. Estrutura narrativa nos quadrinhos: construindo sentido a partir de fragmentos . Editora Peirópolis LTDA, 2018.
SILVA, H. C. Ciência, política, discurso e texto: circulação e textualização: possibilidades no campo da educação científica e tecnológica. Ciência & Ensino , v. 3, n. 1, p. 71-94, 2014.
VERGUEIRO, W. Uso das HQs no ensino . Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula, v. 4, p. 7-29, 2018.
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