Investigação da mitologia do gênio científico. Einstein em obras de divulgação científica de grande impacto: Criando subsídios contra concepções distorcidas de cientistas no Ensino de Física.
Igor Gavioli De Oliveira, André Batista Noronha Moreira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 21/07/2021
- Linha de pesquisa
- Mídias Digitais, Divulgação E Comunicação Científica No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
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## INVESTIGAÇÕES DA 'MITOLOGIA DO GÊNIO CIENTÍFICO'. EINSTEIN EM OBRAS DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DE GRANDE IMPACTO: CRIANDO SUBSÍDIOS CONTRA CONCEPÇÕES DISTORCIDAS DE CIENTISTAS NO ENSINO DE FÍSICA
## Igor Gavioli de Oliveira 1 , André Batista Noronha 2
1 Instituto Federal de São Paulo, e-mail: o.gavioli@aluno.ifsp.edu.br
2 Instituto Federal de São Paulo/ Departamento Ciências e Matemática, e-mail: noronha@ifsp.edu.br
Palavras-chave : Einstein; Ensino de Física; Jornada do Herói
## Resumo expandido
Diferentes pesquisas apontam que as visões distorcidas sobre a ciência por parte de estudantes, professores e o público em geral constituem um dos principais obstáculos a uma educação científica plena (LEDERMAN, 2007). No entanto, ainda prevalece uma forte presença de visões inadequadas sobre ciência e cientistas entre estes grupos, veiculadas muitas vezes por meios de divulgação de grande impacto como desenhos animados, filmes, séries, livros e documentários. Entre estas concepções, ou mitos da ciência segundo McComas (1998), está a ideia, por exemplo, de que a ciência é construída sempre por mentes brilhantes e solitárias que o fazer científico é neutro e imparcial.
Neste trabalho propomos uma conceitualização da imagem distorcida de Albert Einstein em obras cinematográficas de divulgação científica com base no conceito de monomito de Joseph Campbell. Como metodologia, analisamos cenas de uma obra relativamente bem avaliada pela crítica (primeira temporada da série Genius ), e sugerimos uma adaptação do conceito de Campbell para o contexto de história da ciência: a noção de 'narrativa do gênio científico'. Propomos discutir algumas das consequências educacionais da presença forte desta narrativa e outras visões distorcidas e compará-las a estudos críticos e cuidados de historiadores sobre o tema.
A escolha da metodologia (comparação da obra com a narrativa campbeliana) foi motivada pelo fato de que essa estrutura é amplamente conhecida por escritores, diretores de cinema e roteiristas, possui um caráter de alta aceitação do público geral (e por consequência, uma alta aceitação de mercado) além de ter bases tipicamente psicológicas relacionadas ao inconsciente coletivo (CAMPBELL, 2004).
Durante o trabalho de pesquisa foi possível observar diversas cenas na série analisada na qual sua narrativa mostrou-se compatível com a estrutura monomítica. Em outras palavras, é criada sobre o físico alemão uma personalidade de gênio excêntrico e todo um contexto em que agentes externos se mostram como auxiliadores para combater o autoritarismo político e a não-liberdade de pensamento. Pode-se inclusive comparar visualmente as similaridades entre a proposta de Campbell para o ciclo do herói ( Figura 1 ) e a forma como a trajetória do físico alemão é retratada ( Figura 2 ).
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
Figura 1: Síntese gráfica dos passos que constituem a jornada monomítica conforme ilustrado por Campbell em sua obra
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Figura 2: Nossa proposta de jornada 'científico-heroica' de Einstein na série Genius
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Dentre os possíveis paralelos entre a obra, a estrutura analisada e a biografia do cientista utilizada no enredo da série (ISAACSON, 2007) foi possível perceber de forma bastante nítida a presença do físico Max Planck no papel de um 'auxiliador sobrenatural' (I.3.). Um personagem mais velho e experiente, de aparência pouco chamativa mas capaz de transitar entre os 'dois mundos' (no caso, o 'mundo comum' e o 'mundo acadêmico'), auxiliando o herói em sua jornada por meio de aconselhamentos e abrindo caminhos de diferentes naturezas.
Outra figura importante se mostra na pele de Mileva Maric, primeira esposa de Einstein e colega de classe durante a graduação. Uma das etapas do ciclo do herói é chamado 'O encontro com a deusa' (II.2.), na qual a 'deusa' é uma personagem tipicamente feminina, de aparência discreta e inofensiva, mas que possui o 'poder da vida' e da 'morte'. Somente o verdadeiro herói pode enxergar seu valor de forma
não-distorcida, cativando-a e tornando-a uma grande aliada. O poder no contexto da série se manifesta na forma de conhecimento científico e influência no meio acadêmico. Ela o ajuda com as análises e discussões sobre artigos, livros e na produção de seus próprios trabalhos.
A retratação do pai durante a obra também se mostrou compatível com a etapa 'Sintonia com o pai' (II.4.). Em Campbell, o pai é uma figura de poder e autoridade, oferecendo resistência à aceitação do filho e impondo-lhe testes. Uma vez que o filho-herói passa por estes testes ele é reconhecido e passa a ser aceito e respeitado, transformando a psique do herói e fazendo com que ele se pareça com o pai, ou eventualmente se tornando o pai (tanto no sentido literal quanto figurado). Na obra, Einstein é duramente criticado pelo pai por querer cursar Física e não Engenharia (o que auxiliaria com os negócios da família), com o passar dos episódios seu pai adoece e passa por um momento de reconciliação, logo em seguida Albert se torna pai de seu primeiro filho.
No que diz respeito aos diversos possíveis impactos educacionais acerca da propagação de uma imagem distorcida acerca do trabalho científico e dos cientistas, diversas hipóteses foram levantadas. Dentre elas a romantização da figura do 'gênio-excêntrico' por meio da superidentificação com figuras ' sheldonistas ' 1 , flertando inclusive com patologias como a Síndrome de Asperger e a Esquizotipia (WINSTON, 2016). Acreditamos que isso pode fazer com que estudantes se encantem por uma falsa ideia do trabalho como físico e que este pode ser um dos motivos da alta evasão em cursos superiores. Se por um lado pode haver um processo de superidentificação por parte de um grupo específico, por outro pode haver um processo de repulsão por conta da falta de representatividade de diferentes grupos, tanto do meio científico quanto nas representações da própria divulgação. Em outras palavras, quando ocorrem repetidas manifestações de 'gênio-excêntrico' científico, a mensagem pode ser de que somente aquele tipo de pessoa tem condições de pertencer e ascender no meio de produção de conhecimento.
Este trabalho tem o potencial de contribuir no já duradouro problema das concepções inadequadas sobre a ciência e cientistas presentes dentro e fora do Ensino de Física. Em particular, a obra e conceitos de Campbell, conforme foram interpretados neste trabalho, permitem contemplar uma outra faceta do problema supramencionado: os diferentes 'mitos científicos', suficientemente abordados na literatura especializada (p.e. LEDERMAN, 2007; McCOMAS 1998), podem ser articulados em uma 'narrativa mito-científica', que pode e se manifesta em séries e filmes televisivos, documentários, livros didáticos e paradidáticos, retóricas em sala de aula, etc. Em outras palavras, tão importante quanto combatermos imagens distorcidas sobre a ciência de forma isolada, é indispensável também combatermos narrativas distorcidas sobre a ciência, na qual em geral articulam-se várias destas imagens.
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## Referências
CAMPBELL, J. Herói de Mil Faces, O
. Cholsamaj Fundacion. 2004.
ISAACSON, W. Einstein: Sua Vida, Seu Universo . Nova Yorque: Simon & Schuster, 2007.
LEDERMAN, N. Nature of science: past, present and future. In : ABELL, S.K. & LEDERMAN, N.G. (eds.) Handbook of Research on Science Education . Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, p.831-880, 2007.
McCOMAS, W. Teaching the Nature of Science: What Illustrations and Examples Exist in Popular Books on the Subject? Atas do International History, Philosophy and Science Teaching Conference (IHPST). Leeds (UK), 2005.
WINSTON, Christine N. Evaluating media's portrayal of an eccentric-genius: Dr. Sheldon Cooper. Psychology of Popular Media Culture , v. 5, n. 3, p. 290, 2016.
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