A PARTICIPAÇÃO PÚBLICA NO CONTEXTO DA AGENDA DE PESQUISA EM NANOTECNOLOGIA
Andiara Pereira Dos Santos Cardoso, João José Caluzi, Paulo Noronha Lisboa Filho
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 21/07/2021
- Linha de pesquisa
- Alfabetização Científica E Tecnológica E Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A PARTICIPAÇÃO PÚBLICA NO CONTEXTO DA AGENDA DE PESQUISA EM NANOTECNOLOGIA
## Andiara Pereira dos Santos Cardoso 1 , João José Caluzi 2 , Paulo Noronha Lisboa Filho 3
1 Unesp-Bauru/Programa de Pós-Graduação em Educação para Ciência, andiara.fis@gmail.com
2 Unesp/Departamento de Física, joao.caluzi@unesp.br
3 Unesp/Departamento de Física, paulo.lisboa@unesp.br
Palavras-chave : Educação CTS, Nanotecnologia.
## Resumo expandido
Uma das críticas, tanto do movimento quanto da educação em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) é sobre a concepção linear de desenvolvimento, que pode ser equacionada como + ciência = + tecnologia = + riqueza = + bem-estar social (GARCÍA et al , 1996). Esse modelo tem trazido, para a sociedade, concepções equivocadas, tais como a visão tecnocrática (AULER, 2002), crença esta de que a sociedade não tem condições cognitivas de participar e decidir sobre questões relacionadas à tecnociência.
No cenário educacional brasileiro, pesquisas recentes apontam que, nas aplicações educacionais com enfoque CTS, o incentivo à participação democrática está circunscrito à discussão quanto aos benefícios e malefícios da tecnociência (ROSA; AULER, 2016), o que é de suma importância para a formação da cidadania. Contudo, discussões que se restringem a esses aspectos podem enfatizar uma visão tecnocrática (ROSA; AULER, 2016), de modo que a população participa apenas após a produção do conhecimento e da aplicação.
Para contribuir com a postura cívica de levar a participação pública em discussões, ainda no interior da agenda de pesquisa (AP), principalmente de países em desenvolvimento, como o Brasil, o filósofo Hugh Lacey chama desenvolvimento autêntico (LACEY, 2008a, 2005) aquele que utiliza o valor do controle para a produção tecnocientífica, subordinada ao valor do bem-estar social de povos em um determinado contexto. Para tanto, a participação pública deve permear a atividade tecnocientífica, desde a escolha das estratégias que direcionará o conhecimento científico (LACEY, 2008b), até o contexto de pós-produção. A sociedade precisa participar e decidir, até mesmo em relação a estratégias científicas concorrentes, tendo em vista o atendimento de tecnologia apropriada para atender às demandas locais. Escolher estratégias implica em definir prioridades e delineamentos da AP.
A Nanotecnologia, mesmo sem estudos definitivos quanto à sua toxicidade, já é consumida pela população mundial. Assim, importa trazer a temática para o Ensino de Ciências, pelas suas possibilidades de problematização com vistas a formar cidadãos críticos, responsáveis e, sobretudo, engajados. Essa temática foi trabalhada em uma pesquisa mais ampla sobre textos da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), que foram submetidos a uma Análise Textual
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
Discursiva (ATD) (MORAES, GALIAZZI, 2007). Para o presente recorte buscamos responder: Como a participação pública está estruturada na AP sobre nanotecnologia?
Desde 2008 já existe uma AP para o desenvolvimento da nanotecnologia e seu prazo vai até 2025. Segundo a Agência, as ações da agenda estão voltadas para seis dimensões: Recursos Humanos (RH), infraestrutura física (IE), investimentos (INV), aspectos de mercado (AM), marco regulatório (MR), aspectos éticos e de aceitação da sociedade (AE). São consideradas, também, seis grandes áreas de atuação: nanomateriais, nanoeletrônica, nanofotônica, nanobiotecnologia, nanoenergia, nanoambiente.
Para nanomateriais, a prioridade máxima foi investimento em RH para formação de técnicos capacitados para manipulação em nanoescala. Logo em seguida, na ordem de prioridades, estavam IE, INV e por último AE. Contudo, AEestá diretamente ligada aos aspectos do mercado:
Dentre as ações propostas (...), destacam-se aquelas voltadas para a educação científica em todos os níveis, visando conscientizar a sociedade quanto aos benefícios e riscos associados à oferta de novos produtos ou processos baseados em nanotecnologias. (ABDI, 2010b, p. 306)
No excerto acima, a educação científica é proposta; contudo, a sociedade ainda está no final da equação de desenvolvimento linear, na concepção CTS, e não faz parte do que Lacey chama de desenvolvimento autêntico, pois a população não tem voz no processo de produção da nanotecnologia.
Para a nanofotônica, a ordem de prioridades continua sendo o RH e IE. A estratégia quanto a AE se destina à divulgação da nanofotônica em veículos de massa, enfatizando suas potencialidades para o desenvolvimento do país. Nesse quesito, há uma perspectiva de se divulgar somente os aspectos positivos dessa tecnologia, o que seriam informações não condizentes com o espírito crítico e as responsabilidades sociais, sugerindo a crença de que a sociedade deve ser educada apenas para consumir.
Sobre a nanobiotecnologia, de 2016 a 2025 o foco gira em torno de AE, o que parece promissor. Ainda assim, os esclarecimentos à população estão ligados ao mercado, embora haja preocupação quanto aos riscos e à criação de uma cultura em nanotecnologia na sociedade.
Dentre as prioridades de longo prazo (2016-2025), destacam-se os aspectos éticos (AE), considerando-se desde estudos das implicações da nanobiotecnologia até o esclarecimento e informação para a sociedade (...), tendo como foco a entrada no mercado das aplicações de nanobiotecnologia (...). Para médio e longo prazos, propõe-se o incentivo a pesquisas para avaliação de riscos e implicações de produtos e resíduos nanotecnológicos à saúde humana e ao meio ambiente; e o incentivo à difusão de avanços científicos e tecnológicos, visando a criação de uma cultura em nanotecnologia na sociedade. (ABDI, 2010b, p. 306).
Em nanoenergia e em nanoambiente as prioridades são as mesmas da nanofotônica. Com respeito a AE, o foco é o incentivo de pesquisas para avaliação de riscos e implicações dos resíduos como estratégia para incorporação da nanotecnologia no mercado.
A ABDI (2010a) inclui a participação pública mais ampla e deseja que a população se aproprie dos aspectos positivos da nanotecnologia para consumir seus
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produtos. Os riscos e a regulação (LACEY, 2006) são preocupações para a ABDI, principalmente, para que a sociedade se sinta segura para consumir. A participação pública continua na ponta do modelo linear de desenvolvimento, em que o bem-estar está circunscrito apenas para quem consumirá os produtos provenientes da tecnociência. O desenvolvimento da nanotecnologia pela ABDI não é autêntico, pois a participação democrática não está no contexto da AP. Ainda com inspiração no desenvolvimento autêntico, o presente recorte nos convida a questionar: os altos investimentos em nanotecnologia no Brasil são realmente relevantes para melhorar o bem-estar da nossa população? Ou temos assuntos mais urgentes? Levar temáticas contemporâneas para a sala-de-aula, com textos da própria política brasileira como a dessa agência, que contém dados reais para serem problematizados, pode contribuir para os estudantes ampliarem suas visões de ciência, transporem crenças distorcidas e compreenderem os valores que a direcionam. Esses aspectos são importantes para dar condições formativas à população, com a finalidade de mudar o cenário brasileiro com respeito à tecnociência.
## Referências
ABDI. Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial. Nanotecnologia: Panorama . Série Cadernos da Indústria ABDI. Volume XIX. 2010. Disponível em: http://www.abdi.com.br/Paginas/estudo.aspx?f=Nanotecnologia
ABDI. Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial . Estudo Prospectivo de nanotecnologia. Série Cadernos da Indústria ABDI. Volume XX. Brasília. 2010. Disponível em: http://www.abdi.com.br/Paginas/estudo.aspx?f=Nanotecnologia
AULER, Décio. Interações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade no contexto da formação de professores de ciências . 2002. 257f. Tese (Doutorado em educação) Centro de ciências Naturais. Florianópolis. 2002.
GARCÍA, Marta Isabel González; CEREZO, José AntonioLópez; LÓPEZ, José LuisLuján. Ciencia, Tecnologia Y Sociedad: : una introducción al estudio social de la Ciência y latecnología . Madrid: Tecnos, 1996.
LACEY, Hugh. Is Science valuefree? Values and scientific understanding . Routledge. London and New York. 2005
\_\_\_\_\_\_, Hugh. O princípio da precaução e a autonomia da ciência. ScientiaeStudia . São Paulo. V.4, n.3 pp. 373-92, 2006.
\_\_\_\_\_\_, Hugh. Valores e atividade Científica 1 . Associação Filosófica ScientiaeStudia. São Paulo. 2008a
\_\_\_\_\_\_, Hugh . Ciência, respeito à natureza e bem-estar humano. ScientiaeStudia . São Paulo. V.6, n.3 pp. 297-327, 2008b
MORAES, Roque; GALIAZZI, Maria do Carmo. Análise textual discursiva . Ed. Unijuí, 2007.
ROSA, SuianeEwerling, AULER, Décio. Não Neutralidade da Ciência-Tecnologia: Problematizando Silenciamentos em Práticas Educativas CTS. ALEXANDRIA , v.9, n.2, p.203-231, novembro 2016
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