O horror cósmico como meio de uma aproximação transdisciplinar entre as disciplinas: contemplando os limites do conhecimento pela ficção
Lucas Bizarria Freitas
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 21/07/2021
- Linha de pesquisa
- Interdisciplinaridade No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O horror cósmico como meio de uma aproximação transdisciplinar entre as disciplinas: contemplando os limites do conhecimento pela ficção
## Lucas Bizarria Freitas 1
1 Faculdade de Ciências da UNESP Bauru/Departamento de Educação/ETEC Profa. Dra. Doroti Quiomi Kanashiro Toyohara, lucas.bizarria@unesp.br
Palavras-chave : transdisciplinaridade; horror cósmico; limites do conhecimento.
## Resumo expandido
O cruzamento entre diferentes áreas de conhecimento é uma característica marcante da sociedade contemporânea. Seguindo as sugestões de Morin (2013) e as propostas de aproximação entre as disciplinas da BNCC (BRASIL, 2018), propomos uma interligação entre duas áreas do conhecimento escolares: a física e a literatura. Em geral, há uma contraposição e um afastamento entre tais campos - as exatas e sua visão objetiva e fria do mundo, por um lado; as artes, sensíveis, contemplativas e criativas, por outro. Nossa pesquisa não apenas contorna esse pressuposto, como explora as possibilidades da aproximação das duas áreas. Nessa medida, usamos o conceito de complexidade de Morin (2013) para um encontro transdisciplinar entre física e literatura, com a finalidade de tornar clara a gama de possibilidades de um ensino que efetivamente atravessa as fronteiras dos campos de conhecimento humano. Assim, relatamos os resultados de uma pesquisa em andamento que tem como objetivo aproximar física e literatura pela ficção científica de Lovecraft (2017). Entretanto, a ficção desse autor se diferencia de obras de grandes nomes desse nicho da literatura, como Asimov (2013, 2014, 2015). Percebemos em autores de um alinhamento mais clássico da ficção científica a discussão sobre o método científico implícita na narrativa. Asimov ( ibid ), em sua narrativa, encarna, na figura de Baley um investigador nascido na Terra chamado para investigar crimes fora do planeta - a aplicação do método científico. Extrapolações de temas científicos, como a ocupação de outros planetas pela humanidade, uso de robôs para o trabalho, a tensão entre seres humanos e robôs, o racismo contra os terráqueos consequente do isolamento da Terra dos outros planetas, são recorrentes na obra do mestre da ficção científica. Trata-se de uma especulação bem educada de temas científicos ou de derivações de tecnologias desenvolvidas a partir das ciências. O uso desse tipo de ficção científica é rico, por apresentar não apenas temas, mas o próprio método científico implicitamente na narrativa, característica que gera inúmeras oportunidades para a um ensino de ciências rico e interdisciplinar. Porém, nossa pesquisa está focada na obra de Lovecraft (2017). Esse autor criou um nicho da ficção científica - o horror cósmico. As influências de sua obra reverberam hoje em inúmeras manifestações da cultura popular, dos videogames, do cinema, de jogos de RPG de mesa, dos mangás (ARRABAL, 2019; GARCIA, 2018). Tal sucesso pode ser explicado pelo encanto gerado pela mitologia criada em sua obra e continuada por seus amigos próximos, muito próximo do movimento das fanfictions atuais (GARCIA, 2018). O que diferencia Lovecraft de autores clássicos como Asimov é seu trânsito pelos temas científicos. O autor de Providence cria seu estilo do encontro entre a ciência - Lovecraft era um amante da astronomia (HOUELLEBECQ, 2020) - e seus pressupostos filosóficos
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
pessimistas. Em seu horror, os seres humanos seriam insignificantes. Em sua pequenez, encontram seres cósmicos - extraterrestres, capazes de enxergar além do espaço tempo - que são cultuados como deuses. Seus nomes são alienígenas - Yog Sothoth, Shub Niggurath, Cthulhu - e tais seres desprezam ou ignoram a humanidade. Os humanos que entram em contato com essas entidades enlouquecem ou morrem pela mera incapacidade de lidar com a existência superior e infinita dos deuses lovecraftianos. Nessa medida, a narrativa de Lovecraft não tem como foco o narrador, o protagonista cientista ou investigador, mas a própria condição ontológica do ser humano - insignificância diante da grandeza do cosmos. O mero vislumbre da grandeza desses seres fora da realidade como conhecemos destrói nossas cognição e consciência. Essa expressão negativa da condição humana vem do interesse do autor pela ciência e uma dedicação em criar um ambiente de horror a partir de uma filosofia materialista sobre o mundo (ZELLER, 2020). Lovecraft criava ficções nas quais a grandeza explosiva dos cosmos nos consome, encarnada em horrores materialistas, que fazem parte de um vasto e enorme universo. Tendo em vista esse panorama, pode-se perceber o horror cósmico como um novo ramo da literatura, filiado à ficção científica, mas consequência de uma trama de disciplinas entrelaçadas - um bom exemplo de transdisciplinaridade entre física e literatura. Notada a riqueza dessa forma de literatura, propomos uma leitura da obra de Lovecraft a partir de uma concepção de conhecimento complexa (MORIN, 2013). Essa leitura permite uma discussão mais aprofundada sobre os limites do conhecimento humano, a partir de nossa própria condição de seres dentro de um universo maior. Podemos, como pesquisadores da educação em ciências, provocar o questionamento dos limites do conhecimento a partir desse encontro entre literatura e física. Pesquisas mostram como os videogames (RUIZ; BIENVENIDO, 2015; ZERMENO VARGAS, 2014) se apropriam e criam narrativas de horror com a temática do limite da linguagem, do conhecimento e da sanidade, uma apropriação apoiada na insignificância cósmica de Lovecraft. Por outro lado, o cinema explora os limites da própria noção de tempo e causalidade, a partir da linguagem de seres extraterrestres no filme Arrival (FLEMING; BROWN, 2018) que permite viagens temporais e provoca complexos questionamentos sobre a ordem de causa e efeito. Com essas ricas discussões sobre os limites do funcionamento do mundo - da física -, propomos explorar o radical questionamento de Lovecraft em sala de aula a partir de reflexões e aulas voltadas para mídias diversas - cinema, videogame. Explorar os limites do conhecimento a partir de um encontro transdisciplinar.
## Referências
ARRABAL, A. P. El influjo de H. P. Lovecraft en la obra de Junji Ito. Brumal- Revista de Investigación sobre lo Fantástico, v. 7, n. 1, p. 135-163, 2019.
ASIMOV, I. As cavernas de aço. 1a ed. São Paulo: Aleph, 2013.
\_\_\_\_\_\_. O sol desvelado. 1a ed. São Paulo: Aleph, 2014.
\_\_\_\_\_\_. Os robôs da Alvorada. 1a ed. São Paulo: Aleph, 2015.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum CurricularBrasília, 2018.
FLEMING, D. H.; BROWN, W. Through a (First) Contact Lens Darkly: Arrival, Unreal Time and Chthulucinema. Film-Philosophy, v. 22, n. 3, p. 340-363, 2018.
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GARCIA, Y. Monstros Sagrados e Ciberculturais: H. P. Lovecraft e sua mitologia na cultura contemporânea. Galáxia (São Paulo, online), n. 39, p. 203-214, 2018.
HOUELLEBECQ, M. H.P. Lovecraft: contra o mundo, contra a vida. 1a edição ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2020.
LOVECRAFT, H. P. Cthulhu Mythos Tales. 1a ed. San Diego: Word Cloud Classics, 2017.
MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 1a ed. São Paulo: Cortez, 2013.
RUIZ, M. F.; BIENVENIDO, H. P. Universos Fantásticos de Inspiración Lovecraftiana en Videojuegos Survivor Horror. Un estudio de caso de P.T. (Silent Hills). Brumal Revista de Investigación sobre lo Fantástico, v. 3, n. 1, p. 95-118, 2015.
ZELLER, B. E. Altar Call of Cthulhu: Religion and Millennialism in HP Lovecraft's Cthulhu Mythos. Religions, v. 11, n. 1, p. 1-17, jan. 2020.
ZERMENO VARGAS, C. G. Fronteras inestables: lo fantástico en Eternal Darkness. Brumal- Revista de Investigación sobre lo Fantástico, v. 3, n. 1, p. 119-138, 2014.
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