Reflexões sobre Física e Arte
João Eduardo Fernandes Ramos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 21/07/2021
- Linha de pesquisa
- Interdisciplinaridade No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## REFLEXÕES SOBRE FÍSICA E ARTE
## João Eduardo Fernandes Ramos 1
1 UFPE/NFD, joao.framos@ufpe.br
Palavras-chave
: Interdisciplinaridade; Experiência;
## Resumo expandido
O objetivo deste trabalho é trazer algumas reflexões sobre a aproximação entre Física e Arte no ensino como forma de possibilitar experiências, mais do que ensinar conceitos científicos. Experiência aqui entendida como é apresentada por Larrosa (2003, p. 167) 'En portugués se diría que la experiencia es 'aquilo que nos acontece''. E essa experiência tem se tornado algo cada vez mais raro, não só na escola, mas, na vida como um todo. O excesso de informação, de opinião, de trabalho e a falta de tempo, são exemplos de fatores que têm limitado as possibilidades de experiência.
A relação entre Arte e Física já vem sendo estudada partindo de diversos referenciais que defendem a aproximação entre estas duas culturas. Mas qual seria a finalidade da Arte e da Ciência e seu ensino? Ou seja, tentar responder questões como, 'o que é arte?', 'para que serve a arte?', 'o que é ciência/física?' e 'para que serve a ciência/física?', levou a ideia de que defender essa aproximação para sala de aula é permitir vivências/experiências que, talvez, boa parte dos alunos nunca tenham tido. O que precisamos é pensar a escola e o papel do professor(a) de Física/Ciências não só como aquele que vai ensinar física (e que Física vai ensinar?), mas o que pode ensinar e possibilitar experiências/vivências (artísticas ou não)!
E que vivências seriam estas? Várias. Podemos pensar tanto em vivências artísticas quanto científicas. Quantos alunos, da educação básica e superior, responderia afirmativamente para perguntas do tipo: Quem já foi ao teatro? Quem já foi ao cinema? Quem já leu um romance? Quem já leu uma história em quadrinhos? Quem já ouviu música? Quem já ouviu algo novo? Quem já foi numa exposição de arte? Quem já foi ao circo? Quem já viu o pôr do Sol? Quem já meditou? Quem já viu Saturno? Quem já mediu a gravidade? São vivências que vão além de uma nota. São vivências que não tem um objetivo ou uma meta clara. Elas são por si só, devem se bastar por si só. E isso é algo que vem da Arte, e porque não da Ciência também. Permitir vivências que possam ir além do 'para que preciso fazer isso?', do utilitarismo. Vivências que possam servir para o nada . Brecht na peça A vida de Galileu traz uma reflexão sobre a utilidade da ciência: 'Eu sustento que a única finalidade da ciência está em aliviar a canseira da existência humana' (BRECHT, 1999, p.133), será que não poderíamos pensar em um Ensino de Física que pudesse aliviar essa canseira também?
Pensando em Arte e Física, qual seria objetivo de levar isso para sala de aula? Ilustrar um tópico? Contextualizar uma questão de matemática? Ensinar um conteúdo? Trazer diferentes olhares para um tema? Aproximar contextos históricos? Discutir temas transversais como direitos humanos, gênero? São todas possibilidades válidas e que tem gerado resultados interessantes e criativos para a área de Ensino de Física. O ponto é que, ao levar a Arte para a aula de Física, podemos ter em mente
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
também a possibilidade de uma experiência artística. Muitas vezes essa Arte é levada para ser tornada inferior sob a ótica da ciência. Ou seja, para mostrar que ela está errada e que a Física não permite aquilo. Acredito que isso é muito limitante para essa aproximação, algo que já foi criticado por Piassi (2009). Imaginem resumir obras inteiras, filmes ou desenhos, pelo simples fato de estarem errados. Mas e a vivência/experiência de ver o filme ou o desenho? O que nos passam? Qual o lado nostálgico de falar de desenhos animados? São coisas que acabam se perdendo quando essa aproximação é pensada com os fins didáticos.
Retomando Larrosa, ele indica o que é necessário para que possamos vivenciar uma experiência. Precisamos de um gesto de interrupção,
'requiere pararse a pensar, pararse a mirar, pararse a escuchar, pensar más despacio (...) suspender el automatismo de la acción, cultivar la atención y la delicadeza, abrir los ojos y los oídos, charlar sobre lo que nos pasa, aprender la lentitud, escuchar a los demás, cultivar el arte del encuentro, calar mucho, tener paciencia, darse tempo y espacio' (LARROSA, 2003, p. 174).
Será que no Ensino de Física, estamos passando por essa interrupção? Vemos que o diálogo com a arte é um caminho para esta interrupção, mesmo não sendo o objetivo de uma obra de Arte, ela acaba convidando a esse 'parar'. Mas, ao mesmo, tempo, outras ações ligadas a área da física são igualmente possíveis de permitir essa experiência. Quase como resgatar o que há de arte na própria física.
Não temos uma conclusão fechada sobre essas reflexões. São mais inquietações que podem levar a novos estudos. Vemos que, em particular nos cursos de formação para professores, estas vivências, mesmo as da física, tem se tornado automáticas e raras. Notamos uma necessidade de permitir vivências variadas que vão ajudar na formação desse sujeito. E o mesmo acontece na educação básica. É complicado, mas, precisamos resistir e ir além de vivenciar uma ciência/conteúdo, só porque ele será cobrado no vestibular. Tentar trazer maneiras de estar presente e experienciar a Física.
## Referências
BRECHT, Bertolt. La vie de Galilée . Paris, France: l'Arche, 1990.
LARROSA, Jorge. Entre las lenguas : lenguaje y educación después de Babel. Barcelona: Laertes S. A. de Ediciones, 2003.
PIASSI, Luís Paulo; PIETROCOLA, Maurício. Ficção científica e ensino de ciências: para além do método de 'encontrar erros em filmes'. Educação e pesquisa , v. 35, n. 3, p. 525-540, 2009.
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