APONTAMENTOS SOBRE O PAR FÍSICA-ARTE NA EDUCAÇÃO BÁSICA E UM ESBOÇO DE PROPOSTA PEDAGÓGICA COM LITERATURA DE FOLHETOS
Diego Martiniano Da Silva Rodrigues, Caio Ferreira Ramos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 21/07/2021
- Linha de pesquisa
- Interdisciplinaridade No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## APONTAMENTOS SOBRE O PAR FÍSICA-ARTE NA EDUCAÇÃO BÁSICA E UM ESBOÇO DE PROPOSTA PEDAGÓGICA COM LITERATURA DE FOLHETOS
## Diego Martiniano da Silva Rodrigues 1 , Caio Ferreira Ramos 2
1 Universidade Federal Rural de Pernambuco/Departamento de Física, martiniano.diego@gmail.com
- 2 Universidade Federal Rural de Pernambuco/Departamento de Física, rcaio026@gmail.com
Palavras-chave : Arte; Ensino interdisciplinar; Literatura de folhetos.
## Resumo expandido
O trabalho é uma análise crítica do ensino interdisciplinar envolvendo física e arte na educação básica. Ele emerge da necessidade de se repensar a prática do ensino de ciências no atual modelo educacional, e para tal finalidade, ocupamo-nos do papel do letramento científico e literário na formação do cidadão contemporâneo. Por fim, é apresentada uma proposta de intervenção em aulas de física do ensino regular, com vistas a unir ambos os conhecimentos a partir da literatura de folhetos.
- O modelo tradicional de uma aula de física reduz o vasto campo do saber científico a uma sucessão de fórmulas matemáticas descoladas do seu contexto histórico e ontológico, proporcionando ao estudante uma manipulação prática muito precária do seu objeto de estudo. Soma-se a isto o desapego de muitos jovens pela leitura, e o cenário é um sistema de ensino que não abarca as necessidades dos nossos alunos. Segundo Zanetic (2006, p. 46), 'para estabelecer um diálogo inteligente com o mundo, é preciso que o leitor domine de forma competente a leitura e a escrita; portanto, a literatura deve ter um papel de destaque na educação'. Além da conceituação teórica e da experimentação, o ensino da física imprescinde da história da física, da filosofia da ciência e de sua ligação com outras áreas da cultura, como a literatura (ZANETIC, 2005, 2006).
Fenômenos da natureza sempre serviram de inspiração e temas para poemas, canções, peças teatrais etc., ao passo que nomes como Dostoiévski, Edgar Allan Poe, Machado de Assis e Graciliano Ramos já nos brindaram com grandes questões humanas em suas obras. Logo, trata-se de explicitar, no âmbito da sala de aula, a relação de interpenetração destes universos, reconhecendo que eles se complementam produtivamente, embora não se confundam. Uma ótica interdisciplinar que contemple o diálogo e a interação entre os domínios das duas culturas, ciência e arte, é concretamente capaz de nos fornecer, por um lado, a atenuação da crise na leitura e, por outro, uma alfabetização científica como parte integrante da formação cultural do sujeito.
Para o trabalho, destacamos o folheto como um gênero literário de ampla expressão popular no Nordeste brasileiro. Ele surge como registro escrito e prática editorial no final do século XIX, e figura como uma produção tipicamente regional.
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
Conquanto ainda seja recorrente o uso do termo 'literatura de cordel' para designar este tipo de produção, Abreu (1999) aponta para a imprecisão de se definir uma produção literária com base em elementos extrínsecos à obra, optando, desta forma, por chamá-la de 'literatura de folhetos' ou, simplesmente, 'folhetos'.
Para embasar uma proposta pedagógica, fizemos um levantamento, a princípio, de 30 folhetos de diferentes décadas, dos quais 29 estão sob a guarda do Acervo de Literatura Popular em Versos da Fundação Casa de Rui Barbosa. Todos têm como mote histórias e fatos ligados à física e à astronomia, com temas relacionados a mecânica clássica, eletromagnetismo, teoria da relatividade, filosofia da natureza, viagem ao espaço etc. Gonçalo Ferreira da Silva, atual presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), é autor de 20 dos 30 folhetos selecionados, dentre eles, Santos-Dumont - Asas para o mundo , Senhor dos Anéis e Sir Isaac Newton .
- O professor de física pode propor em sala a leitura de folhetos que abordem temáticas pertinentes ao conteúdo que se deseja explorar. Com apoio do professor de artes (ou literatura), ele pode introduzir sua classe ao universo da literatura de folhetos, fomentando uma discussão acerca da organização das rimas nas estrofes - e como isto diferencia o folheto dos demais gêneros literários. Tomemos como exemplo Senhor dos Anéis , de Gonçalo: conforme as modalidades observadas por Viana (2006), sua métrica é a sextilha (6 versos de 7 sílabas por estrofe), com um total de 31 estrofes, rimando entre si os versos pares enquanto os ímpares são livres; cada verso par depende do seu antecessor ímpar para fazer sentido.
Em seguida, o professor deve mediar a apreensão do conteúdo ontológico dos folhetos pelos alunos, mas, para isso, é necessário que ele se aproprie do repertório cultural de cada estudante como ponto de partida para se conhecer o objeto de estudo. Essa conexão entre o que se sabe e aquilo que se quer descobrir não pode ter uma abordagem epistemológica apartada do contexto histórico no qual o conhecimento vigente sobre o objeto se consolidou. Para Camillo (2011, 2015), a física é uma manifestação da atividade do sujeito no mundo, logo, não há como ser compreendida fora da práxis humana. O professor deve ter em mente que o conhecimento científico é, pois, uma reprodução ideal do movimento real do objeto, que jamais é algo estático, absoluto, imutável, mas dinâmico - tudo o que apreendemos dele o fazemos em sua processualidade (NETTO, 2011).
Quanto ao método avaliativo, parece-nos razoável sugerir que cada aluno deva ficar encarregado de elaborar um novo folheto. Ele determinaria livremente sua forma: métrica de organização do poema (sextilha, septilha, oitava etc.), número de estrofes, título e ilustração da capa. Seu conteúdo, porém, deve não só dialogar com o do folheto anterior, mas ir além no tratamento científico, expondo o movimento real do objeto de estudo com uma riqueza maior de detalhes. Vale salientar que um único tema pode dar margem à investigação de distintos fenômenos, logo, o aluno tem certa autonomia para demarcar seu objeto. O resultado final do trabalho levado a cabo pelo aluno é, portanto, uma 'síntese poética' do objeto investigado em aula.
Não esperamos que o folheto seja o principal recurso. Ele constitui uma via concreta para que ciência e arte possam ser vistas como dimensões complementares do conhecimento humano. Através dele, o aluno poderá exercitar
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a leitura e a imaginação; com a mediação do professor, ele entrará em contato com a historicidade do conhecimento e a filosofia da ciência e, à medida que investiga e se aprofunda nos conceitos e categorias do seu objeto, o aluno desenvolve seu senso crítico-racional e, por consequência, seu letramento científico. Por fim, a produção literária o exigirá estímulo de sua criatividade, sensibilidade e de seu pensamento lógico.
## Referências
ABREU, M. Histórias de cordéis e folhetos . Campinas: Mercado de Letras, 1999. 152 p. Coleção Histórias de Leitura.
CAMILLO, J. Contribuições iniciais para uma filosofia da educação em ciências . 2015. 229 f. Tese (Doutorado em Ensino de Ciências - Ensino de Física) - Instituto de Física, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
CAMILLO, J. Experiências em contexto : A experimentação numa perspectiva sócio-cultural-histórica. 2011. 175 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências - Ensino de Física) - Instituto de Física, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA. Cordel - Literatura popular em verso, 2021. Acervo. Disponível em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/acervo.html>. Acesso em: 08 fev. 2021.
NETTO, J. P. Introdução ao estudo do método de Marx . 1. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011. 64 p.
VIANA, A. Acorda Cordel na Sala de Aula : a Literatura Popular como ferramenta auxiliar na Educação. 1. ed. Fortaleza: Tupynanquim, 2006. 112 p.
ZANETIC, J. Física e Arte: uma ponte entre duas culturas. Pro-Posições , São Paulo, v. 17, n. 1, p. 39-57, jan./abr., 2006.
ZANETIC, J. Física e Cultura. Ciência e Cultura , São Paulo, v. 57, n. 3, p. 21-24, jul./set., 2005.
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