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UM ESTUDO SOBRE AS MÁQUINAS NA ANTIGUIDADE: ASPECTOS HISTORIOGRÁFICOS COMO FORMA DE CONTRIBUIR PARA O SEU ENSINO

Adriano Veloso Da Silva, Lúcio Campos Costa

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
21/07/2021
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## UM ESTUDO SOBRE AS MÁQUINAS NA ANTIGUIDADE: ASPECTOS HISTORIOGRÁFICOS COMO FORMA DE CONTRIBUIR PARA O SEU ENSINO

## Adriano Veloso da Silva 1 , Lúcio Campos Costa 2

1 Universidade Federal do ABC, Licenciando em Física, Santo André, adriano.veloso@aluno.ufabc.edu.br 2 Universidade Federal do ABC - Centro de Ciências Naturais e Humanas (CCNH), Santo André, lucio.costa@ufabc.edu.br

Palavras-chave:

História da Mecânica; Ensino de Ciências; Máquinas Simples.

## Resumo expandido

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ao tratar do Ensino de Ciências para o 7º ano da Educação Básica, indica o estudo das máquinas simples como um dos objetos de conhecimento a serem contemplados no âmbito da unidade temática Matéria e Energia. Entre as habilidades associadas a este objeto de estudo consta a discussão das máquinas simples e suas aplicações ao longo da história (Brasil, 2018, p. 342-343).

Nota-se que aqui, como em outras situações, a abordagem historiográfica é instada a um importante papel no ensino. No caso das máquinas simples, cabe destacar seu potencial em fomentar discussões historicamente contextualizadas sobre temas envolvendo a ciência, a tecnologia e a sociedade (Peduzzi, 2005, Martins, 2019).

Apesar deste potencial, é reconhecido que um dos grandes desafios para que este tipo de abordagem chegue às salas de aula reside na limitada quantidade de estudos e livros com os cuidados historiográficos necessários e que estejam em português, desta forma acessíveis aos professores e estudantes (Martins, 2006).

Visando contribuir para mitigar tal cenário, tomamos como objeto de investigação historiográfica o manuscrito 'aristotélico' intitulado Problemas de Mecânica, conhecido como a mais antiga síntese sobre o funcionamento das máquinas simples, conforme entendidas à época (van Leeuwen, 2016).

Contudo, salientamos desde já que o presente trabalho se refere a uma etapa inicial de um projeto mais amplo, que visa compreender de forma mais aprofundada o contexto de produção, o processo de transmissão e a recepção da referida obra nos séculos XVI e XVII, avaliando seu papel na elaboração da Mecânica nos termos que a ela foram atribuídos a partir dos trabalhos de Galileu, Descartes, Newton entre outros.

No que se refere ao trabalho realizado até o momento, pautados pelos preceitos da historiografia das ciências contemporânea (Kragh, 2001), buscamos situar os principais estudos produzidos sobre o tema e, a partir deles, delineamos os recortes, as fontes e os critérios de nossa investigação. Em particular, neste primeiro momento, optamos por explorar questões relacionadas à autoria, às fontes e à estrutura do manuscrito. No que se segue, apresentaremos alguns elementos ilustrativos do que temos encontrado.

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19 a 30 de julho de 2021 - Online

No que se refere à autoria, identificamos que apesar de hoje haver um reconhecimento majoritário de que o manuscrito seja atribuído a algum(uns) autor(res) ligado(s) à tradição aristotélica no período helenístico, durante muitos séculos ele foi tributado ao próprio Aristóteles (van Leeuwen, 2016).

De fato, questionamentos sobre a autoria do manuscrito podem ser encontrados já no Renascimento e, mesmo no século XIX, quando as principais edições canônicas foram elaboradas, não havia um entendimento consolidado de que o autor não seria Aristóteles. No âmbito deste debate, que perpassou o século XX e ainda hoje deve ser considerado em aberto, aspectos como o estilo literário, os conteúdos tratados e mesmo as formas como estes são abordados, constituíram os principais focos de discussão sobre a autoria. O mesmo pode ser dito sobre o período de produção, cujo entendimento hoje o localiza entre o final do século IV a.C. e meados do século II a. C. (van Leeuwen, 2016, Lefebvre, 2016).

Quanto às fontes que chegaram até nós, como mencionado, as principais edições do manuscrito foram elaboradas ao longo do século XIX. A primeira é devida a J. van Cappelle e foi publicada em 1812 (Cappelle, 1812). Em seguida, em 1831, foi elaborada a edição de A. I. Bekker (Bekker, 1831) e, em 1888, a de O. Apelt (Apelt, 1888). No século XX houve uma edição produzida por M. E. Bottecchia (Bottecchia, 1982).

Em relação a estas edições, não identificamos até o momento nenhum estudo mais detalhado sobre os pressupostos teóricos-metodológicos e as fontes que serviram de base para a elaboração de cada uma. Assim, nos restringimos aqui em reportar que as fontes que sobreviveram do manuscrito remontam à Idade Média, sendo as mais antigas do século XIII (Harlfinger, 1980). São manuscritos e fragmentos que foram transmitidos por diferentes tradições culturais (como a Bizantina e a Latina) e cujos contextos de produção exigem, da mesma forma que mencionado para as edições canônicas, cuidados analíticos e interpretativos específicos. Indicamos o trabalho de van Leeuwen (2013) para os interessados em detalhes a respeito do conjunto, localização e características das principais fontes sobreviventes dos séculos XIV a XVI.

Para analisarmos a estrutura do texto, consideramos duas traduções bem estabelecidas do grego para o inglês 1 , uma devido à W. S. Hett, pertencente à coleção Loeb Classical Library da Universidade de Harvard (Hett, 1936), e outra, de E. S. Foster, da edição organizada por J. Barnes para as Obras Completas de Aristóteles da Universidade de Oxford (Barnes, 1984). Cabe aqui mencionarmos que enquanto a primeira tradução acompanha a edição de Bekker, a segunda considera a de Apelt.

A partir de uma tradução nossa do manuscrito, cotejada por ambas edições acima mencionadas, identificamos que a estrutura do manuscrito é constituída de uma breve e provocadora introdução seguida de um conjunto de 35 problemas envolvendo máquinas simples, como a balança (problema 2) e a alavanca (problema 3). Os problemas abordam situações, em geral, práticas e as discussões que a eles se seguem são formuladas a partir de argumentos que relacionam causas a efeitos. Este tipo de estrutura assemelha-se a um gênero literário antigo conhecido como Problemata (Blair, 1999). Em geral, este gênero era utilizado para fins de ensino, como notas de aula, e sujeitos a atualizações frequentes (BERTI, 2012).

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Em conclusão, este trabalho identificou e sistematizou questões historiográficas relevantes associadas ao manuscrito Problemas de Mecânica. Há ainda outros pontos relacionados à autoria, às fontes e à estrutura do manuscrito cujas investigações estão em andamento por nosso grupo e serão objeto de trabalhos futuros mais detalhados. Ainda que preliminares, os aspectos aqui apresentados podem contribuir para o estímulo a ações relacionadas ao tema, como as demandadas na BNCC.

## Referências

APELT, Otto (Ed.). Aristotelis quae feruntur de Plantis, De Mirabilibus Auscultationibus, Mechanica, De Lineis Insecabilibus, Ventorum Situs et Nomia , De Melisso Xenophane Georgia , Leipzig: Teubner, 1888.

BARNES, Jonathan Barnes. (Ed.). The complete works of Aristotle: the revised Oxford Translation , Vol. 2, Princeton: Princeton University Press, 1995

BEKKER, August Immanuel. (Ed.). Aristotelis Opera II , Berlin: Reimer, 1831.

BERTI, Enrico. Vida, Ambiente Cultural e Obras. In: BERTI, Enrico. O Perfil de Aristóteles . Tradução: José Bertolini. São Paulo: Paulus, 2012. cap. 1, p. 7-34.

BLAIR, Ann. The Problemata as a Natural Philosophical Genre. In: GRAFTON, Anthony; SIRAISI, Nancy G. (org.). Natural Particulars : Nature and the Disciplines in Renaissance Europe. London, England: MIT Press, 1999. cap. 5, p. 171-204.

BOTTECCHIA, Maria Elisabetta (Ed.). Aristotele: MHXANIKA, Tradizione manoscritta, texto, crítico, scolli . Padua: Antenore, 1982

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Base Nacional Comum Curricular - Educação Básica. Brasil, 2018.

HARLFINGER, Dieter, Einge Grundzüge der Aristoteles-Überlieferung. In: HARLFINGER, Dieter (Ed.). Griechische Kodikologie und Textüberlieferung . Darmstadt, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1980.

HETT, Walter Stanley. (Ed.). Aristotle: Minor Works . Cambridge: Harvard University Press, 1936.

KRAGH, Helge, Introdução à Historiografia da Ciência , Porto, Porto Editora, 2001

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LEFEBVRE, David, Aristotle and the Helenistic Peripatos: From Theophrastus to Critolaus. In: FALCON, Andrea, Brill's Companion to the Reception of Aristotle in Antiquity . Bril, Leiden, 2016, cap. 1, p. 13-34.

MARTINS, Roberto de Andrade, A História das Ciências e seus usos na Educação, In: SILVA, Cibelle Celestino (org.). Estudos de História e Filosofia das Ciências: subsídios para a aplicação no ensino. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2006. Cap. 1, p. xxi-xxxiv.

MARTINS, André Ferrer Pinto. História, Filosofia e Sociologia da Ciência: mais do que nunca! In: MARTINS, André Ferrer Pinto (org.). Física, Cultura e Ensino de Ciências . São Paulo: Editora Livraria da Física, 2019. cap. 10, p. 245-271.

PEDUZZI, L.O.Q., Sobre a utilização didática da História da Ciência, in PIETROCOLA, M. (org.), Ensino de Física : Conteúdo, metodologia e epistemologia em uma concepção integradora, p. 151, Editora da UFSC, Florianópolis, 2005.

VAN CAPPELLE, Johannes Petrus (ed.). Aristotelis Questiones Mechanicae , Amsterdam: Den Hengst, 1812.

VAN LEEUWEN, Joyce. The Aristotelian Mechanics: Text and Diagrams. 1° ed. Springer, 2016.

VAN LEEUWEN, Joyce. The text of the Aristotelian Mechanics , Classical Quarterly 63, 1, p. 183-198.

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