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CONTROVÉRSIAS EPISTEMOLÓGICAS NA HISTÓRIA DO ELETROMAGNETISMO: UM ESTUDO SOBRE O ENCONTRO DE BATH NO FINAL DO SÉCULO XIX

Leonardo Valadão, Ivã Gurgel

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
21/07/2021
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CONTROVÉRSIAS EPISTEMOLÓGICAS NA HISTÓRIA DO ELETROMAGNETISMO: UM ESTUDO SOBRE O ENCONTRO DE BATH NO FINAL DO SÉCULO XIX

## Leonardo Valadão 1 , Ivã Gurgel 2

1 Instituto de Física/FEP/Universidade de São Paulo, leonardo.valadao@usp.br

- 2 Instituto de Física/FEP/Universidade de São Paulo, gurgel@usp.br

Palavras-chave : história da ciência; eletromagnetismo; epistemologia.

## Resumo expandido

Tornou-se consenso na área de Ensino de Ciências o reconhecimento da relevância do ensino de tópicos de Natureza das Ciências para uma formação científica plena. Contudo, ainda há muitos debates sobre quais temáticas em História, Epistemologia ou Estudos Sociais das Ciências abordar em sala. Neste contexto, tem se tornado crescente a defesa do ensino de episódios controversos no ensino, sendo um dos desafios atuais reconhecer na História da Física 'capítulos' que representem este olhar para as ciências (BAGDONAS, ZANETIC, GURGEL, 2014).

Este trabalho de pesquisa tem por objetivo estudar as visões epistemológicas de participantes de um episódio bastante singular da História da Física, o Encontro de Bath, ocorrido na Inglaterra, em 1888. A investigação destas visões epistemológicas se deu analisando fontes secundárias da história da ciência, bem como alguns documentos primários como diários de personagens envolvidos no Encontro e relatórios oficiais da Associação Britânica do Encontro de Bath.

O Encontro de Bath de 1888 ocorreu entre os dias 6 e 11 de setembro daquele ano, pouco após a descoberta das ondas eletromagnéticas por Heinrich Hertz (1857 - 1854), que daria um novo rumo aos estudos de eletromagnetismo. O encontro veio a se tornar um marco na história do eletromagnetismo, ao reunir diversos cientistas, entre eles físicos e engenheiros. Inicialmente em seções separadas, físicos e engenheiros se juntaram em uma seção conjunta no último dia do evento, após diversas acusações do presidente da seção de engenharia, W. H. Preece (1834 1913), aos físicos estudantes do eletromagnetismo. O debate que viria a ocorrer nesta seção conjunta trouxe uma nova visão dos físicos que seguiam a teoria de James Clerk Maxwell (1831 - 1879), famoso físico teórico que trouxe novas perspectivas à física dos campos elétrico e magnético.

É importante destacar que, apesar de Maxwell ter sido um dos físicos mais importantes na história da ciência do século XIX, seu legado não se deu de forma completa em seu tempo de vida. Após sua morte, poucos cientistas acreditaram em sua teoria eletromagnética, que colocava o éter como principal responsável pelos efeitos do eletromagnetismo. O paradigma vigente até então considerava a eletricidade como uma ação à distância, e até a maior autoridade científica em eletricidade, Lorde Kelvin (1824 - 1904), rejeitou a teoria de Maxwell (DARRIGOL,

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19 a 30 de julho de 2021 - Online

2002). Foi apenas após décadas e trabalhos contínuos de cientistas seguidores de Maxwell que sua teoria pôde ganhar relevância na academia científica.

Nesta pesquisa, dois dos seguidores de Maxwell ganham destaque. G. F. Fitzgerald (1851 - 1901) presidiu a seção de física no Encontro de Bath, e foi também escolhido para presidir a seção conjunta entre físicos e engenheiros que possibilitaria o debate entre estes. O. Lodge (1851 - 1940) foi escolhido para representar os físicos na seção conjunta, enquanto o já mencionado Preece representava os engenheiros. Ambos os físicos haviam trabalhado extensivamente para aprimorar a teoria de Maxwell, construindo suas próprias versões da teoria com leves modificações, mas mantendo a estrutura do éter como responsável pelos efeitos eletromagnéticos.

O debate principal se deu após Preece acusar físicos de incompetência ao estudar os efeitos eletromagnéticos, afirmando que estes seriam incapazes de responder até o que seria eletricidade. Preece ainda afirmava que os engenheiros, em contrapartida, são homens práticos, não cegados pela complexidade da teoria enfadonha, mas com uma visão clara proporcionada pela experiência prática com a eletricidade ao construir aplicações tecnológicas com esta. O debate se estendeu para além do Encontro, repercutindo para a academia como um todo e com respostas sendo dadas em revistas como The Electrician, principal fonte de descobertas elétricas do período. Após o debate, os seguidores de Maxwell provaram ter domínio sobre o tema, e autoridades afirmaram que 'afinal, Clerk Maxwell pode ter estado, em algum grau, não completamente errado' (HUNT, 2015, p. 225), além de notícias afirmarem que Lodge 'saiu-se melhor' (Ibid., p. 234) no debate.

Analisando as falas contidas no debate, nota-se uma diferença não apenas ideológica sobre a forma que a eletricidade teria, mas também uma diferença epistemológica entre os dois lados do debate. Por um lado, os físicos abordados demonstravam um profundo senso de indutivismo, i. e., adotavam uma postura onde a observação da realidade poderia trazer conhecimento desta, se guiada pelo processo indutivo. Preece, por outro lado, parecia rejeitar esta ideia, afirmando que apenas a prática leva ao conhecimento e domínio da realidade. Nota-se, em Preece, uma postura diferente dos físicos, caracterizada pelo pragmatismo, ideia que afirma que o conhecimento se dá apenas pela aplicação prática deste. Pode-se verificar que o debate em Bath não foi apenas sobre questões conceituais da eletricidade, mas de certa forma se discutia ali a própria filosofia da Ciência, mesmo que em entrelinhas.

As diferenças epistemológicas entre os dois lados não são fruto de mero acaso, mas revelam uma profunda diferença cultural dentro de diferentes meios. Por um lado, ideias pragmáticas dominavam o meio dos engenheiros, que rejeitavam a teorização extrema e até mesmo a matematização desnecessária (Ibid., p. 234) com a qual os físicos estudavam a eletricidade. Por outro lado, o indutivismo reinava entre os físicos, apesar de estes terem um profundo senso de empirismo em seu meio. O impacto da descoberta de Hertz sobre ondas eletromagnéticas demonstra como os físicos da época consideravam a comprovação experimental. Estas diferenças culturais podem ser entendidas através da óptica kuhniana. Não apenas a cultura paradigmática se mostra no entendimento da realidade, como também estrutura as ideias que serão criadas na teoria (KUHN, 2003, p.30).

Muito ainda precisa ser estudado acerca do impacto epistemológico no progresso científico. Se por um lado a Ciência avança com novas descobertas e novas ideias, por outro também as ideias epistemológicas avançam conforme época e lugar. Para que uma Ciência madura exista e progrida é necessário que haja uma madura

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postura epistemológica acerca da mesma e de seus avanços. O estudo da Ciência através da lente epistemológica pode também ser utilizado em sala de aula (OSTERMANN, 1996), sendo um importante método para desmistificar o progresso científico e elucidar os alunos sobre como os cientistas desenvolvem suas teorias.

## Referências

BAGDONAS, Alexandre; ZANETIC, João; GURGEL, Ivã. Controvérsias sobre a natureza da ciência como enfoque curricular para o ensino da física: o ensino de história da cosmologia por meio de um jogo didático. Revista Brasileira de História da Ciência , Rio de Janeiro, v. 7, n. 2, p. 242-260, 2014.

DARRIGOL, Olivier. Electrodynamics from ampere to Einstein . New York: Oxford University Press, 2002.

HUNT, Bruce J. Os Seguidores de Maxwell. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015.

KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas . 8ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2003.

OSTERMANN, Fernanda. A epistemologia de Kuhn. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 13, n. 3, p. 184-196, dez. 1996.

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