A Ciência como Salvação da Lavoura
Felipe Lopez, Cristiano Mattos, José Luis Ortega
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 21/07/2021
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A Ciência como Salvação da Lavoura
## Felipe Lopez 1 , José Luis Ortega 2 , Cristiano Mattos 3
1 Instituto de Física da Universidade de São Paulo/felipe.sanches.lopez@usp.br
2 Colégio Bandeirantes/jose.ortega@colband.com.br 3 Instituto de Física da Universidade de São Paulo/crmattos@usp.br
Palavras-chave : Dogmatismo; Terra plana; Divulgação Científica
## Resumo expandido
A visão de que a ciência é neutra , imparcial e autônoma pode ser traçada ao que se considera como início do desenvolvimento científico com Galileu (LACEY, 2005). Tal visão leva ao entendimento de que a ciência é formada por conhecimentos objetivos (CUPANI, 1989), que representam uma realidade independente do ser humano e das formas de se conhecer.
Ao entender a ciência como neutra e imparcial, o cientista passa a ser indiferente aos resultados de suas 'descobertas' (AULER, 2002), os usos da ciência para destruição ou para progresso não poderiam ser atribuídos aos cientistas que realizaram suas pesquisas. Neste trabalho, seguimos o entendimento de Marcuse (2009, p. 159) de que 'a ciência (isto é, o cientista) é responsável pelo uso que a sociedade faz da ciência; o cientista é responsável pelas consequências sociais da ciência.'
Para Gramsci (2019), os cientistas e defensores da ciência acabam utilizando argumentos tão fundamentalistas quanto aqueles dos religiosos. O autor classifica como esperantistas pessoas que acreditam que a ciência seja universal e neutra, que apenas pode trazer benefícios à sociedade de forma independente à agência humana.
Esperantistas, sejam os cientistas fundamentalistas, sejam as pessoas que têm crença e confiança absoluta na ciência, acabam fazendo uso de um discurso autoritário para expor suas posições, em parte por entender que sua forma de pensar o mundo é qualitativamente superior às outras (NICHOLS; PETZOLD, 2021). Estes mesmo autores afirma que:
Para os não-cientistas [...] a linguagem científica é 'estrangeira', opaca, alienante, tudo isso pode fomentar desconfiança para com a comunidade científica, especialmente quando as complexidades do discurso científico parecem ser desnecessárias ou uma barreira deliberadamente construída para a comunicação (id., p. 6)
A educação científica (em seu sentido mais amplo, incluindo a divulgação científica) é impactada pelo uso autoritário e neutro da ciência, que o torna impessoal e retira dos processos científicos toda a complexidade da atividade coletiva humana e, até mesmo, características individuais valorizadas pela atividade científica, como a criatividade (LACEY, 2005; NICHOLS; PETZOLD, 2021).
Recentemente foi realizado um levantamento sobre as atitudes públicas em relação à ciência e à saúde, com uma amostra de 140 mil pessoas com 15 anos ou mais, em 140 países (GALLUP, 2019). Um dos principais resultados obtidos foi de que 18% das pessoas têm um nível de confiança 'alto' em cientistas, 54% têm um nível
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
de confiança 'médio', 14% têm confiança 'baixa' e 13% 'não sabem'. Esse resultado varia conforme a região: na Austrália e Nova Zelândia, norte da Europa e Ásia Central, uma em cada três pessoas relata a confiança na ciência como 'alta'. Enquanto nas Américas Central e do Sul essa proporção cai para um em cada dez (GALLUP, 2019). Por outro lado, na totalidade da amostra, 70% das pessoas acham que a ciência os beneficia, enquanto apenas 40% acha que o benefício se estende à maioria da população de seu país. O que está de acordo com o resultado de que 1/3 dos entrevistados na África e nas Américas Central e Sul se sentem excluídos dos benefícios da ciência. Nós, brasileiros, estamos no grupo dos sul-americanos que têm a maior proporção de sujeitos (25%) que acreditam que a ciência não os beneficia pessoalmente, nem à sociedade como um todo. O resultado que mais interessa à discussão proposta é o de que 64% da amostra global, que têm uma afiliação religiosa e afirmam que a religião é uma parte importante de sua vida cotidiana, dizem que, quando há um desacordo, acreditam mais na religião do que na ciência (GALLUP, 2019).
Neste trabalho, compuseram a análise os nove vídeos mais vistos do YouTube que tinham como tema o terraplanismo; os nove seminários realizados na 1ª FlatCon Brasil 1 e disponibilizados também no YouTube; e oito entrevistas conduzidas durante a Conferência, sendo uma com um astrofísico e sete com terraplanistas. Todos os vídeos foram submetidos ao YouTube entre março de 2019 e fevereiro de 2020. A amostra foi selecionada com o objetivo de comparar os discursos utilizados por negacionistas da ciência, afirmacionistas 2 e esperantistas e entender a lógica usada por eles para convencer sua audiência e fazê-los aderir aos seus discursos. Para isso, focamos a análise, principalmente, na estrutura dos discursos, ou seja, na forma com que eles foram construídos, seus intuitos etc. ao invés de nos debruçarmos sobre seus conteúdos (como por exemplo, comparações entre os entendimentos de negacionistas e afirmacionistas).
Os resultados nos mostraram, surpreendentemente, que os discursos negacionistas e esperantistas são de mesma natureza, classificados como discursos do tipo epidítico . A principal caraterística dos discursos epidíticos é a intenção reforçar a aderência de pessoas que já acreditam no conteúdo enunciado, buscar enaltecer suas crenças e depreciar o discurso contrário (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 1973).
Por fim, identificamos que a ciência tem sido apresentada como neutra e dogmática por esperantistas, fazendo com que seja vista como um produto acabado e não um processo em andamento. Como o discurso de afirmacionistas e negacionistas estão baseados na mesma perspectiva discursiva - epidítica, teorias não científicas, como a da Terra plana, acabam sendo tomadas, pela população geral, como equivalente às científicas.
Concluímos, afirmando que é necessário que o ensino de ciências (incluindo a divulgação científica) deve ser repensado como um processo dialógico para que sejam reaproximadas as análises críticas das posições científicas e não científicas. Superar o discurso epidítico é central para que se consiga esse objetivo, introduzindo os aspectos do desenvolvimento histórico do conhecimento como forma de
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estabelecer, novamente, a confiança na ciência como um bem cultural coletivo, e cuja distribuição deve ser equitativa.
## Agradecimentos
Felipe Lopez agradece à FAPESP pelo auxílio financeiro por meio do projeto de número 2019/27054-0
## Referências
AULER, D. Interações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade no Contexto da Formação de Professores de Ciências . Tese (Doutorado em Educação) Florianópolis: UFSC, 2002
CUPANI, A. A Objetividade Científica como Problema Filosófico. Cad. Cat. Ens. Fís. n. 6. p 18-29. 1989.
GALLUP Wellcome Global Monitor - First Wave Findings . Disponível em: <https://wellcome.org/reports/wellcome-global-monitor/2018>. Acesso em: 20 jan. 2020
GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere . 11. ed. v. 1. Tradução: Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019
LACEY, H. Is Science Value Free?: Values and Scientific Understanding . Routledge, 2005
MARCUSE, H. A responsabilidade da ciência. Scientiae Studia . v. 7. n. 1. p 159164. 2009.
NICHOLS, M. D.; PETZOLD, A. M. A Crisis of Authority in Scientific Discourse. Cultural Studies of Science Education . 2021. doi: 10.1007/s11422-020-09989-1
PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. The New Rhetoric: A Treatise on Argumentation . Tradução: John Wilkinson; Purcell Weaver. University of Notre Dame Press, 1973
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