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CONTRIBUIÇÕES DA PEDAGOGIA HISTÓRICO-CRÍTICA PARA A SELEÇÃO DE CONTEÚDOS CURRICULARES EM FÍSICA

Hanna Morilhas, Cristiano Mattos

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
20/07/2021
Linha de pesquisa
Questões Curriculares No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## CONTRIBUIÇÕES DA PEDAGOGIA HISTÓRICO-CRÍTICA PARA A SELEÇÃO DE CONTEÚDOS CURRICULARES EM FÍSICA

## Hanna Morilhas 1 , Cristiano Mattos 2

1 Instituto de Física da Universidade de São Paulo, hanna.morilhas@usp.br

2 Instituto de Física da Universidade de São Paulo, crmattos@usp.br

Palavras-chave : Currículo; Pedagogia Histórico-Crítica; Clássico.

## Resumo expandido

O presente trabalho tem como objetivo analisar as contribuições da Pedagogia Histórico-Crítica (PHC) para o Ensino de Física, especificamente em relação ao estabelecimento do conceito de 'clássico' como critério para seleção dos conteúdos curriculares. Nossa investigação demonstrou que para apreender o conceito de 'clássico' em sua totalidade, é preciso explicitar os fundamentos filosóficos sobre os quais é desenvolvida a Pedagogia Histórico-Crítica (PHC). Neste trabalho, apresentamos os princípios que acreditamos fundamentar o conceito de clássico e discutimos algumas implicações desse conceito para o Ensino de Física.

Para tanto, realizamos um levantamento bibliográfico na Biblioteca Brasileira de Teses e Dissertações de produções acadêmicas que apresentavam o termo 'Pedagogia Histórico-Crítica' no campo assunto . A busca indicou 106 resultados, dos quais foram excluídos aqueles que apresentavam propostas de sequências didáticas ou referiam-se à análise específica de problemáticas relacionadas às disciplinas que não a Física. A partir das leituras dos resumos dos trabalhos remanescentes, foram selecionados aqueles que empreendiam uma análise dos pressupostos teóricos que subsidiam o desenvolvimento da PHC. No total, foram selecionadas três dissertações e uma tese. A leitura desses trabalhos foi realizada com o objetivo de identificar as principais obras que representam o referencial teórico da Pedagogia Histórico-Crítica. Em particular, demos prioridade ao estudo direto desse conjunto de obras. Também foram selecionados para a nossa análise capítulos dos livros Cultura, Conhecimento e Currículo: contribuições da pedagogia histórica-crítica , de Julia Malanchen (2016), e Fundamentos da Didática Histórico-Crítica , de Ana Carolina Galvão, Tiago Nicola Lavoura e Lígia Márcia Martins (2019).

Como resultado da nossa investigação, identificamos que a PHC encontra seu fundamento filosófico no método materialista histórico e dialético. Dessa forma, a PHC constitui-se em uma teoria da educação que reconhece os condicionamentos histórico-sociais aos quais a escola encontra-se submetida. Ao mesmo tempo, não deixa de reconhecer que o trabalho efetivado nas escolas tem o potencial de influenciar os elementos condicionantes que a determinam (SAVIANI, 2018a).

Para o materialismo histórico-dialético, os seres-humanos são determinados pelo modo com que produzem sua existência. Assim, os seres-humanos caracterizam-se por buscarem a satisfação de suas necessidades sempre por meio de um processo que modifica a natureza, isto é, pelo trabalho (MARKUS, 1974). A atividade do trabalho, dialeticamente, expressa a transformação mútua do ser-

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19 a 30 de julho de 2021 - Online

humano e da natureza. O desenvolvimento dessa atividade implica na emergência de novas necessidades e, consequentemente, novos instrumentos mediadores do serhumano com a natureza são produzidos, determinando novos conhecimentos, tanto sobre o próprio ser-humano quanto sobre a natureza. Esse coletivo de riqueza material e intelectual decorrente da atividade dos seres humanos coincide com o desenvolvimento próprio da cultura humana (DUARTE, 2006; MALANCHEN, 2016; GALVÃO; LAVOURA; MARTINS, 2019).

Especificamente, de acordo com Saviani (2013), o trabalho educativo é 'o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens' (p. 13). Em outras palavras, a função social da escola é a de humanização dos indivíduos. Tendo em vista a concepção ontológica de humanidade, sobre a qual se apoia a PHC, esse processo de humanização não pode ocorrer de outra forma senão pela apropriação da cultura acumulada historicamente. Nesse sentido, os autores consultados defendem a estruturação do currículo escolar em torno do ensino dos conhecimentos científicos, artísticos e filosóficos considerados clássicos. Segundo Saviani e Duarte (2010, p. 431)

[...] clássico é aquilo que resistiu ao tempo, tendo uma validade que extrapola o momento em que foi formulado. Define-se, pois, pelas noções de permanência e referência. Uma vez que, mesmo nascendo em determinadas conjunturas históricas, capta questões nucleares que dizem respeito à própria identidade do homem como um ser que se desenvolve historicamente, o clássico permanece como referência para as gerações seguintes que se empenham em se apropriar das objetivações humanas produzidas ao longo do tempo.

Portanto, os clássicos são as produções humanas que melhor sintetizam o desenvolvimento histórico dos seres-humanos, estabelecendo-se como referência para as futuras gerações. Sobre o aspecto de permanência dos clássicos, Ferreira (2019) afirma que é preciso diferenciar as produções que resistiram ao tempo por motivos circunstanciais daquelas que resistiram por serem efetivamente enriquecedoras da cultura humana.

Saviani (2009) destaca ainda que aos educadores cabe a tarefa de historicizar os clássicos e realizar a transformação dos conteúdos fixos, reificados, em conteúdos concretos. Desse modo, o processo de ensino-aprendizagem dos conteúdos clássicos deve permitir aos alunos a compreensão da realidade social como síntese de múltiplas determinações (SAVIANI, 2018b). Assim, é no cumprimento do objetivo que lhe é específico, o de humanização dos indivíduos por meio da socialização dos conhecimentos clássicos, que a instituição escolar realiza a sua contribuição para o processo emancipatório dos indivíduos (FERREIRA, 2019).

Conforme exposto, podemos afirmar que um currículo de Física alinhado aos pressupostos da PHC deve centralizar o ensino-aprendizagem dos conteúdos sínteses do desenvolvimento científico ao longo da história. Essa determinação aponta em direção à necessidade de empreender um esforço coletivo na delineação de quais conhecimentos da Física podem ser classificados como clássicos. Isto é, devemos buscar nos conhecimentos científicos aquilo que há de mais rico e desenvolvido, de forma que sejam representativos dos grandes problemas humanos. Assim, seria um tipo de conhecimento que sustentaria uma atividade de ensinoaprendizagem que não poderia ser reduzida a transmissão mecânica dos saberes. Dessa forma, concordamos com Saviani (2018b) de que é preciso que os educadores

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compreendam como os conteúdos de sua disciplina relacionam-se com a totalidade das práticas sociais.

Na busca de quais conhecimentos podemos considerar clássicos na Física, e frente às relações necessárias com o mundo da vida, emerge a necessidade de avaliarmos também conhecimentos produzidos por povos cujo patrimônio cultural tem sido ignorado historicamente. Não se trata aqui de admitir uma postura relativista dos conhecimentos produzidos historicamente, mas de reconhecer as possibilidades de humanização contidas na apropriação daqueles conhecimentos que podem ser agregados ao conhecimento científico como forma de complexificação das expressões do conhecimento humano.

## Agradecimentos

Hanna Morilhas e Cristiano Mattos agradecem, respectivamente, aos apoios financeiros de Pró-Reitoria de Graduação da USP (bolsa PUB) e do CNPq (processo 302100/2019-9)

## Referências

DUARTE, N. A contradição entre a universalidade da cultura humana e o esvaziamento das relações sociais: por uma educação que supere a falsa escolha entre etnocentrismo ou relativismo cultural. Educação e Pesquisa , v.32, n.3, p. 607-618, 2006.

FERREIRA, C. G. Fundamentos histórico-filosóficos do conceito de clássico na pedagogia histórico crítica . 2019. Dissertação (Mestrado em Educação Escolar) - Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, Araraquara, 2019.

GALVÃO, A. C.; LAVOURA, T. N.; MARTINS, L. M. O materialismo históricodialético como fundamento filosófico da Pedagogia Histórico-Crítica. In: GALVÃO, A. C.; LAVOURA, T. N.; MARTINS, L. M. Fundamentos da didática históricocrítica . 1. Ed., p. 43-78. Campinas: Autores Associados, 2019.

MALANCHEN, J. A produção e a universalização da cultura na teoria marxista. In: MALANCHEN, J. Cultura, Conhecimento e Currículo : contribuições da pedagogia histórico-crítica. p. 97-152. Campinas: Autores Associados, 2016.

MARKUS, G. A Teoria do Conhecimento no Jovem Marx. In: MARKUS, G. Teoria do Conhecimento no Jovem Marx . p. 17-73. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

SAVIANI, D; DUARTE, N. A formação humana na perspectiva histórico-ontológica. Revista Brasileira de Educação , v. 15, n. 45, set./dez. 2010.

SAVIANI, D. As teorias da educação e o problema da marginalidade. In: SAVIANI, D. Escola e Democracia . 42. ed. p. 3-28. Campinas: Autores Associados, 2018a.

SAVIANI, D. Escola e Democracia II: Para além da teoria da curvatura da vara. In: SAVIANI, D. Escola e Democracia . p. 47-64. Campinas: Autores Assoc., 2018b.

SAVIANI, D. Modo de Produção e a Pedagogia Histórico-Crítica. Germinal : Marxismo e Educação em debate, Londrina, v.1, n.1, p.110-116, jun. 2009.

SAVIANI, D. Sobre a Natureza e Especificidade da Educação. In: SAVIANI, D. Pedagogia histórico-crítica : primeiras aproximações. 11. ed. Campinas: Autores Associados, 2013. Cap. 1. p. 11-20

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