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ASPECTOS RELATIVOS À NATUREZA DA CIÊNCIA E O LIVRO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA ''O SONHO DE MENDELEIEV": ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Cristina Spolti Lorenzetti, Felipe Damasio, Anabel Raicik

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
20/07/2021
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ASPECTOS RELATIVOS À NATUREZA DA CIÊNCIA E O LIVRO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA 'O SONHO DE MENDELEIEV': ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

## Cristina Spolti Lorenzetti , Anabel Raicik , Felipe Damasio 1 2 3

- 1 Instituto Federal de Santa Catarina (Araranguá, Licenciatura em Física), cspolti55@gmail.com
- 2 Universidade Federal de Santa Catarina (Florianópolis, Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica [egressa]), anabelraicik@gmail.com
- 3 Instituto Federal de Santa Catarina (Araranguá), felipedamasioifsc@gmail.com

Palavras-chave : Divulgação Científica; Natureza da Ciência; História da Ciência.

## Resumo expandido

A Divulgação Científica (DC) ocupa um espaço importante na educação científica, tanto para a população em geral, quanto e principalmente para aqueles que ainda estão em idade escolar - tendo em vista a quantidade significativa de trabalhos que associam a DC e o ensino (MAGALHÃES; SILVA; GONÇALVEZ, 2012).

Assim como a compreensão e o funcionamento do empreendimento científico se modificam ao longo dos séculos, a maneira como se faz e se interpreta a DC também tem se transformado. Cada época encontra em suas necessidades, ideológicas e educacionais, a sua própria maneira de divulgar a ciência (SILVA, 2007). A educação científica nos seus diversos níveis e a DC, mesmo sendo modalidades diferentes de exteriorização dos saberes, modificam umas às outras de forma dinâmica (VOGT, 2012). Essa dinâmica pode ser visualizada, por exemplo, na construção da espiral da cultura científica , exposta em Vogt (2012), na qual em um plano cartesiano, é possível contemplar como as diferentes esferas da cultura científica comunicam-se, partindo da produção de saber científico, perpassando a educação em ciências no ensino formal, em espaços não formais e informais e, por fim, a DC. Ao longo desse processo, o próprio saber científico e a sociedade transformam-se mutuamente.

Considerando a relevância da DC, passa a ser indispensável refletir e analisar como a ciência é retratada em materiais dessa natureza, independente do público a que foram destinados, pois eles carregam narrativas epistemológicas, e por vezes históricas, em suas entrelinhas; ainda que o autor não tenha consciência disso. Damasio e Peduzzi (2018) apontam que narrativas sobre ciência são capazes de moldar a compreensão que se tem do empreendimento científico, suas relações internas e externas e o próprio agir do sujeito na sociedade. Nesse sentido, torna-se relevante e profícuo pensar a DC sob lentes de reflexões contemporâneas da historiografia e de aspectos relativos à Natureza da Ciência (NdC). Isso, pois, esses materiais são comumente utilizados em sala de aula e por aqueles que não fazem parte da educação formal.

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Olhando-se em retrospectiva é possível perceber nuances, epistêmicas e não epistêmicas, envolvidas no processo dinâmico de construção de conhecimento; elementos que integram o processo de fazer ciência. Por isso, a História e Filosofia da Ciência (HFC) pode auxiliar na desconstrução de estereótipos arraigados no imaginário da população; e ainda, não menos frequente, no de estudantes e professores. Entretanto, utilizar qualquer narrativa histórica, também não resolve o problema. Histórias lineares de progresso científico são perniciosas para esse processo de desconstrução; a ideia de que a ciência trata apenas de teorias que deram certo e que as demais não foram científicas, explicita uma ciência solitária e a-histórica (PEDUZZI, 2001).

A história da Tabela Periódica (TP), por exemplo, propicia discutir aspectos relacionados a sua construção, a partir de sua publicação por Dmitri Mendeleev (1834-1907), considerando, inclusive, tabelas construídas anteriormente. Cita-se aqui alguns pontos de debate, sem a pretensão de tê-los esgotado: discussões filosóficas sobre a composição da matéria; consequências sofridas a partir das teorias atômicas do século XX; modificações que vem passando com a sintetização de novos elementos químicos; disputas teóricas envolvendo países que possuíam interpretações diferentes das propriedades químicas dos elementos; o título de descobridor da TP conferido frequentemente a Mendeleev.

Levando em consideração a importância e pluralidade da TP, e pensando-se em implicações ao ensino de ciências, a partir da interlocução entre aspectos relativos à NdC juntamente a HFC e a DC, buscou-se analisar, em um primeiro momento, o livro de DC O Sonho de Mendeleiev: a verdadeira história da química (STRATHERN, 2002). A análise foi desenvolvida a partir de exemplificações ou contra exemplificações de aspectos relativos à NdC - sobretudo nos capítulos que tratam especificamente da TP - alicerçada nas asserções discutidas por Peduzzi e Raicik (2020). Os autores apresentam um conjunto de proposições comentadas e fundamentadas acerca da NdC, explicitando sobreposições, convergências e divergências entre elas, a partir de uma filosofia contemporânea, como uma abordagem profícua e potencialmente útil ao ensino, em seus distintos níveis.

Em termos gerais , Strathern (2002) aposta em uma narrativa que busca resgatar introdutoriamente a história da química . Alguns pontos merecem a atenção e uma discussão guiada -principalmente se o leitor não for familiarizado com os estudos contemporâneos de epistemologia e historiografia - como a demarcação exata do início do estudo da química. Além disso, há o enfoque ao episódio do sonho de Mendeleev, como se uma mente livre de pressupostos pudesse, meramente a partir de um sonho, 'descobrir' a TP. A lista não se esgota aqui, mas também é relevante citar alguns pontos adequados e positivos da obra que, quando vinculados a discussões explícitas de NdC, podem favorecer seu uso no ensino, como a abordagem da alquimia - mesmo que no livro apareça como uma química pré-científica, mostra-se um vantajoso campo para discussões envolvendo a NdC; os episódios históricos de sintetização de elementos químicos no século XVIII e a apresentação de outros estudiosos que construíram sistematizações antes do Mendeleev.

Em síntese, a ideia de análises desse tipo é a de salientar a relevância de vigilâncias epistemológicas e históricas em materiais dessa natureza. Como frisado, mesmo possuindo visões limitadas e equivocadas de ciência, o livro pode representar um material relevante para educação científica, quando realizada uma

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reflexão explícita sobre a NdC e, consequentemente, acerca de sua narrativa histórica. Ainda que seja importante pensar na produção de materiais de DC adequados perante a historiografia e epistemologia contemporâneas, um olhar direcionado aos materiais já existentes, uma vez observado as suas vantagens e desvantagens, podem se mostrar relevantes. Análises como essas podem apresentar a potencialidade de, inclusive, auxiliar estudantes e professores na identificação de futuras narrativas simplificadas quando se depararem com materiais semelhantes.

## Referências

DAMASIO, F.; PEDUZZI, L. O. Q. Para que ensinar ciência no século XXI? Reflexões a partir da filosofia de Feyerabend e do ensino subversivo para uma aprendizagem significativa crítica. Revista Ensaio , v. 20, 2018.

MAGALHÃES, C. E. R.; SILVA, E. F. G.; GONÇALVES, C. B. A interface entre a alfabetização científica e a divulgação científica. Revista Amazônica de Ensino de Ciências , v. 5, n. 9, 2012.

PEDUZZI, L. O. Q. Sobre a utilização didática da História da Ciência. In: PIETROCOLA, M. (Org.). Ensino de física: conteúdo, metodologia e epistemologia numa concepção integradora . Florianópolis: Editora da UFSC, 2001.

PEDUZZI, L. O. Q.; RAICIK, A. C. Sobre a natureza da ciência: asserções comentadas para uma articulação com a história da ciência. Investigações em Ensino de Ciências , v. 25, n. 2, 2020.

SILVA, H. C. O que é Divulgação Científica? Ciência & Ensino , v. 1, n. 1, 2006.

STRATHERN, P. O sonho de Mendeleiev : a verdadeira história da química, 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 264 p., 2002.

VOGT, C. The spiral of scientific culture and cultural well-being: Brazil and Ibero-America. Public Understanding of Science , v. 21, n. 1, 2012.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.