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A PARTICIPAÇÃO DE UM ASTRÔNOMO BRASILEIRO NA MISSÃO CIENTÍFICA FRANCESA PARA OBSERVAÇÃO DO TRÂNSITO DE VÊNUS EM 1874

Maria Romênia Da Silva, André Ferrer Pinto Martins

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIV
Ano
2021
Data
20/07/2021
Linha de pesquisa
História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A PARTICIPAÇÃO DE UM ASTRÔNOMO BRASILEIRO NA MISSÃO CIENTÍFICA FRANCESA PARA OBSERVAÇÃO DO TRÂNSITO DE VÊNUS EM 1874

## Maria Romênia da Silva 1 , André Ferrer Pinto Martins 2

1 Universidade Federal do Rio Grande do Norte/Centro de Ciências Exatas e da Terra, romeniadsilva@gmail.com

Palavras-chave : Astronomia; Trânsito de Vênus; revólver fotográfico.

O presente trabalho tem por objetivo abordar a participação do astrônomo brasileiro, Francisco Antônio de Almeida Júnior 1 , na missão francesa chefiada pelo astrônomo Pierre Jules César Janssen (1824-1907), para observar o trânsito de Vênus em 9 de dezembro 1874 em Nagasaki, no Japão. Na ocasião do trânsito, o astrônomo brasileiro foi o operador de um instrumento científico inovador: o revólver astronômico ou revólver fotográfico. Essa viagem colocou Almeida em interação com diferentes sociedades, sendo considerada pela historiografia como o primeiro contato direto de um brasileiro no Japão (FUNDAÇÃO ALEXANDRE GUSMÃO, 2012, p. 9). Em 2020, a Embaixada do Brasil no Japão reconheceu a importância científica do trabalho de Almeida e seu ineditismo por ser o primeiro brasileiro a visitar o Japão. Conforme Pinto (2017, p.2),

Ainda que o objetivo da missão científica composta por Almeida fosse realizar a observação astronômica da passagem do planeta Vênus diante do Sol no sentido de produzir estudos sobre a paralaxe, como já mencionado, é importante salientar que enquanto viajante e narrador, o cientista brasileiro também tinha por fundamental objetivo observar países e povos da Europa e, principalmente, da África e Ásia, os quais para muitos leitores brasileiros, eram totalmente desconhecidos.

Francisco Antônio de Almeida Junior (d'Almeida, como ficou conhecido na França), doutor em Física e Matemática, era engenheiro, astrônomo e professor na Escola Politécnica da Universidade do Brasil (agora vinculada à UFRJ), durante o Segundo Reinado e a República Velha.

Figura 01: Francisco Antônio de Almeida Júnior.

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Em 1872, d'Almeida foi enviado por Conde Prados, diretor do Observatório Imperial do Rio de Janeiro, para estudar Astronomia na França. Enquanto estava lá foi convidado para participar da comissão da Missão científica francesa para observação da passagem de Vênus pelo Sol no Japão em 1874, em um evento durante o qual foi responsável pelo uso do revólver fotográfico de Jules Janssen. Com este dispositivo, foram obtidas imagens que permitiram visualizar em detalhes a passagem de Vênus em frente ao Sol (MOURÃO, 2004). Na figura 02 podemos ver a equipe reunida em Paris, em 1874. Almeida é o segundo da direita para a esquerda, e Janssen está ao centro, sentado. Ao fundo, o revólver fotográfico.

Figura 02: Missão científica francesa para observação da passagem de Vênus pelo Sol no Japão em 1874. Fotografia tirada em Paris. Coleção Anne Guigan-Lèautè. Fonte: Launay (2011).

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Um trânsito planetário é um fenômeno astronômico que acontece quando um planeta passa na frente do Sol, conforme avistado da Terra. Para o nosso referencial topocêntrico 2 é possível observar o trânsito dos planetas interiores (Mercúrio ou Vênus). Como as órbitas não estão todas no mesmo plano, o fenômeno torna-se raro. Especialmente para Vênus, podemos observá-lo duas vezes a cada século. A importância científica da observação desse fenômeno em 1874 estava associada à necessidade de se medir a distância Terra-Sol (a paralaxe do Sol 3 ). De acordo com Silva e Camino (2020),

Naquela época, o propósito de Janssen não era apenas capturar o movimento, mas o que era de particular interesse para os astrônomos: capturar o próprio ponto de contato entre o planeta e o Sol, que era necessário para determinar posteriormente a distância astronômica entre a Terra e o Sol (a unidade astronômica). Como o momento exato do contato não pode ser previsto com precisão, registrar uma única fotografia pode ser arriscado, dada a raridade do fenômeno. Assim, Janssen procurou obter uma sequência rápida de fotografias (ou pelo menos tão rápida quanto permitia a tecnologia de 1874), de forma automática, sem depender de um observador

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humano para registrar o processo, e com a possibilidade de, no futuro, replicar os estudos por meio da análise das imagens obtidas. O revólver fotográfico cumpriu sua busca (SILVA e CAMINO, 2020, p.60-61, tradução nossa).

Na figura 03 podemos ver d'Almeida operando o "revólver fotográfico" de Janssen que foi utilizado para fotografar o trânsito de Vênus em 09 de dezembro de 1874 em Nagasaki. O instrumento científico era um dispositivo que tirava fotos (daguerreótipo), sobrepostas em uma placa de vidro, em sequência, a intervalos de aproximadamente um segundo. O dispositivo de Janssen, fixado ao solo, é apontado para um "heliostato", um espelho movido por um mecanismo de relógio para seguir o Sol (SILVA e CAMINO, 2020). Segundo Launay e Hingley (2005), o dispositivo inventado por Janssen para registrar o trânsito de Vênus é o primeiro dispositivo prático utilizado para capturar fotografias sequenciais (técnica conhecida atualmente como cronofotografia), que posteriormente foi reconhecido como o precursor da câmera cinematográfica.

Figura 03: Desenho mostrando Francisco Antônio de Almeida utilizando o revólver fotográfico durante a missão de 1874 em Nagasaki (imagem publicada na revista La Nature, em 1875).

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Durante o período que esteve estudando na França, Almeida teve a concessão de uma espécie de bolsa de custeio com duração de 3 anos. Retornou ao Brasil em 1876 diplomado enquanto Doutor em Filosofia pelo Imperial Observatório no Rio de Janeiro. Em 1875, havia sido condecorado como cavaleiro da Ordem da Rosa por sua participação como delegado do Governo Imperial na comissão francesa. Por fim, recebeu do governo francês uma medalha comemorativa por sua participação na missão científica destinada ao Japão (NADER, 2015).

Ao retornar para o Brasil, d'Almeida publicou duas obras que estavam diretamente associadas com as experiências vivenciadas durante a expedição realizada para a observação do trânsito, um relatório científico e um relato de viagem. As obras se diferenciam pela natureza dos conteúdos abordados, sendo uma considerada de cunho científico (Parallaxe do Sol e as passagens de Vênus -1878) e a outra mais histórica (Da França ao Japão: Narração de viagem e descrição histórica, usos e costumes dos habitantes da China, do Japão e de outros países da Ásia -1879) .

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Em a 'Parallaxe do Sol e as passagens de Vênus' (1878), d'Almeida faz uma descrição científica da observação do trânsito, com ênfase nos estudos da paralaxe solar. Para Almeida (1878 apud PINTO, 2017, p. 2) 'a palavra paralaxe (do grego paralaxis, diferença, mudança) enquanto termo astronômico indica alteração na situação aparente do astro a que se refere; em outras palavras, a diferença que existe entre o lugar onde se observa (por exemplo, o Sol) e o lugar que pareceria ocupar se o víssemos do centro da Terra'.

Figura 04: Frontispício do livro 'Parallaxe do Sol e as passagens de Vênus' (1878).

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Portanto, na missão francesa o interesse da comitiva era obter dados a respeito da paralaxe do sol (medida de distância entre o Sol e a Terra). Sendo assim, por meio de instrumentos como o 'revólver fotográfico de Jansen', mensurações levando em conta distâncias, alterações aparentes, diferenças entre pontos distintos, etc. foram realizadas (PINTO, 2017). Em 1874 várias expedições foram enviadas para observar o fenômeno, segundo Mourão (2004) o valor encontrado para a Unidade Astronômica (UA) 4 por várias comissões foi de 148 900 000 ± 2 000 000 km.

No seu livro 'Da França ao Japão: Narração de viagem e descrição histórica, usos e costumes dos habitantes da China, do Japão e de outros países da Ásia' (1879), d'Almeida situa-se no padrão dos livros de viagem publicados na época: o relato é permeado por descrições etnográficas, análises históricas e narrações sobre o contato com diferentes sociedades nos continentes europeu, africano e asiático no final do século XIX (PINTO, 2016).

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Figura 05: Imagem do Livro - Da França ao Japão: Narração de viagem e descrição histórica, usos e costumes dos habitantes da China, do Japão e de outros países da Ásia (1879).

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Por fim, é importante destacar que nosso estudo se encontra em andamento e faz parte de uma pesquisa maior no que se refere às práticas científicas dos astrônomos no século XIX que fizeram uso de dispositivos produzidos para fotografias e cinematografia, bem como, instrumentos científicos que foram pensados por astrônomos que tiveram sua utilização aproveitada por fotógrafos e cineastas, ressaltando uma parceria significativa entre essas duas áreas (Ciência e Arte).

## Referências

LAUNAY, Françoise; HINGLEY, Peter D. Jules Janssen's 'Revolver Photographique' and its British derivative, 'The Janssen Slide'. Journal for the History of Astronomy, Newbury Park , v. 36, n. 1, pp. 57-79. 2005.

LAUNAY, Françoise. The Astronomer Jules Janssen: A Globetrotter of Celestial Physics . New York, Dorcrecht, Heidelberg and London: Springer, 2012. p. 73-87.

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. 2. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

\_\_\_\_\_\_. The Brazilian contribution to the observation of the transit of Venus. In: KURTZ, D. W. (ed.). Transit of Venus: new views of the solar system and galaxy, Reino Unido: Cambridge University Press, p.154-160, 2004.

NADER, Rundsthen Vasques de. Eclipses e trânsitos planetários no século XIX : a modernização da Astronomia observacional no Brasil de 1850 ao final do Segundo Império . Rio de Janeiro, 2015. Tese (Doutorado em História das Ciências)

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-Programa de Pós-Graduação em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.

PINTO, Jacques Ferreira. 'Da França ao Japão' de Francisco Antonio Almeida: viagem, narrativa e produção de conhecimento na segunda metade do século XIX. In: XV ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA DA ANPUH-PR, 2016, Curitiba. Anais eletrônicos do XV Encontro Regional de História da ANPUH-PR . Curitiba, 2016.

PINTO, Jacques Ferreira. A paralaxe promovida pelo outro: explorando a porosidade entre História e Astronomia por meio de um relato de viagem oitocentista . Boletim Eletrônico da Sociedade Brasileira de História da Ciência, v.13, 2017.

SILVA, Maria Romênia; CAMINO, Néstor. El transito de Venus hacia el final del siglo XIX y el surgimiento del septimo arte. Góndola, Enseñanza y Aprendizaje de las Ciencias , 15 (1), 46-64, 2020. DOI: http://doi.org/10.14483/23464712.14246

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.