UM HISTORIAR DA ARTECIÊNCIA: O QUE A ANTIGUIDADE TEM A CONTAR?
Letícia Jorge, Luiz O. Q. Peduzzi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 20/07/2021
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2021
Texto completo
## UM HISTORIAR DA ARTECIÊNCIA: O QUE A ANTIGUIDADE TEM A CONTAR?
## Letícia Jorge 1 , Luiz O. Q. Peduzzi 2
- 1 Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica
Universidade Federal de Santa Catarina, leticiajorgeifsc@gmail.com
- 2 Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica Universidade Federal de Santa Catarina, luizpeduzzi@gmail.com
Palavras-chave
: História; Ciência; Arte.
## Resumo expandido
O debater sobre as transformações do conhecimento científico através dos tempos e em multifacetárias civilizações, considerando a história e filosofia da ciência (HFC) como uma vertente viável para a discussão de aspectos epistemológicos relacionados a construção desse saber (FORATO, PIETROCOLA & MARTINS, 2011), torna-se uma maneira de resgatar a 'essência humana' da ciência. O que se ressalta de muitos trabalhos é a frequência com que pesquisadores e historiadores iniciam suas análises pela Grécia (século VI a.C.), considerada como berço da ciência e de tantas discussões filosóficas! Entretanto, é possível, ainda, ter-se uma outra via que pode contribuir com reflexões significativas sobre o tema e que permite deslocar o marco inicial grego da história da ciência para outro período: o pré-histórico.
A escolha pelo tempo tão remoto incide no personificar de uma forma prelúdica, ainda que indefinida, de 'ciência'; um modo prático e utilitário de se usar aquilo que do mundo se via e conhecia. O ser humano primitivo, imbuído em encanto e amedrontamento pelos fenômenos físicos e naturais, pictoricamente registrava a ação a se realizar para, assim, a concretizar. Segundo a historiografia, '[...] desde há séculos que se verificam atividades que podem ser justificadamente descritas como formas primitivas de história da ciência' (KRAGH, 2001, p. 1). Ademais, o contar de sua história arcaica - para além de somente inserir aquela que se inicia quando desperta de maneira inquisitiva (século VI a.C.) ou se torna instrumentalizada (século XVII d.C.) - proporciona evidenciar que '[...] o passado tem valor em si próprio e, por conseguinte, não carece de legitimação relativamente ao presente [...]' (Ibid., p. 5).
De acordo com Taton (1985, p. 11, tradução livre), historiador da ciência, 'a tentativa de expor o estado da ciência nos tempos pré-históricos não é de forma alguma paradoxal [...]'. O ser humano pensava - não crítica ou inquisitivamente, mas misteriosa e magicamente - satisfazer suas necessidades materiais. Para o historiador da arte Gombrich (2018), o ser primitivo considerava os objetos, que no seu mundo experienciava e via, como algo eminentemente utilitário, de uso prático. Portanto, sob a perspectiva de Taton (1985, p. 11-12, tradução livre), essas '[...] primeiras manifestações da observação [...], que expressas ou não graficamente, representam os primeiros balbucios da ciência' sob uma base de aplicação.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
XX a XX de julho de 2021 - Online
Embora se tenham poucos documentos sobre o florescimento dos primeiros rudimentos do espírito científico no curso da pré-história, dado não haver registro escrito desse período, é possível realizar um regresso por meio de produções artísticas e inscrições arcaicas que podem permitir o decifrar do pensamento humano em tempos mais remotos (TATON, 1985). Obras cujos traços sejam confeccionados de certo modo sobre um plano (i.e., representações pictóricas bidimensionais), por exemplo, apresentam menos perda de informações quando comparadas as esculturas de grandes dimensões (GOMBRICH, 2018); ganha-se em cenários, elementos, disposições e composições. Para compreender o significado dessas obras, Panofsky (1955) - historiador da arte - propõe a iconografia; ato no qual há uma decomposição, descrição e breve interpretação do que a imagem tem a contar.
Do enlaçamento entre as informações, até então, postas emerge uma problematização: de que forma e de que modo as representações pictóricas bidimensionais podem contar suas histórias da e sobre a ciência na antiguidade? A partir desta indagação, buscam-se examinar as transformações da ciência nas civilizações (e.g., mesopotâmica, egípcia e chinesa) que antecederam a era cristã e a inquisição investigativa grega do século VI a.C.. Como subsídio para a discussão, visa-se utilizar as retratações de questões, concepções, eventos e incidentes que ocuparam a atenção pública em certos momentos históricos e que se façam expressas em representações pictóricas bidimensionais, tais como aquelas adornadas nas paredes, rochas e pedras de cavernas, ruínas, tumbas ou ilustradas em papiros, ornamentos cilíndricos e em outros espaços remanescentes ao toque do tempo. Para tanto, é possível avaliar essas imagens ou obras à luz da análise iconográfica de Panofsky (1955). Isto, com intuito de (re)humanizar o fazer e o pensar científico, sobretudo no campo da física, por meio do vínculo arteciência.
A história aqui contada em uma veia científica-artística, não linearizada, é ziguezagueada, relativa a culturas; não a todas, mas a algumas. Na pré-história, um período Paleolítico e outro Neolítico; na Mesopotâmia, sumérios e babilônios. Um Egito antigo e uma China remota compõem as estradas por aqui tracejadas. Povos, em momentos e tempos distintos, pouco literários; mas, com objetivos vinculados à expressividade da arte. Era ela quem concretizava o dia a dia e perpetuava a vida. Mítica e nada decorativa, era um meio de fazer acontecer, de sobreviver, de prever e de imortalizar o ser. Uma maneira utilitária de se colocar em prática aquilo que cotidianamente se observava - como uma forma preliminar e rudimentar da base científica, embora muito distante daquela que lança suas raízes no século XVII.
Em termos da ciência, precipuamente da física, as temáticas mais frequentemente exaltadas nas obras dessas culturas relacionavam-se aos aspectos cosmológicos e astronômicos - desprendidos de interesses e de procedimentos analíticos. O objetivo com a observação e a consequente representação gráficapictórica de fenômenos físicos vistos, estava atrelado ao anseio de anteceder o que iria vir a acontecer; o destino humano e o terreno eram subordinados aos comandos do divino e do eterno.
Tal análise foi possível dado ao considerar de que era imprescindível um relacionar de características da história da arte (HA) e da história da ciência (física); sobretudo, em um marco histórico esvaecido de registro escrito.
É, então, com a inclusão da HA na discussão da HFC que se resgata uma forma de essência humana na ciência. A referência é para com as elucubrações, emoções e superstições presentes na produção dos saberes das remotas civilizações.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Características destacadas que perpassam pela base imaginativa do pensar 'ciência'. Quimeras e fantasias que se inclinam para o lado subjetivo e intuitivo do fazer científico; são aspectos epistemológicos da construção do conhecimento que se desenvolve e se refina com o avançar do tempo.
## Referências
FORATO, Thaís Cyrino de Mello; PIETROCOLA, Maurício; MARTINS, Roberto de Andrade. Historiografia e natureza da ciência na sala de aula. Caderno Brasileiro de Ensino de Física , v. 28, n. 1, p. 27-59. 2011. http://dx.doi.org/10.5007/2175-7941.2011v28n1p27.
GOMBRICH, Ernst Hans Josef. A história da arte . 1ª ed. de bolso. Trad. Cristina de Assis Serra. Rio de Janeiro: LTC - Livros Técnicos e Científicos Editora Ltda, 2018.
KRAGH, Helge. Introdução a historiografia da ciência . Trad. Carlos Grifo Babo. Portugal: Porto Editora, 2001.
PANOFSKY, Erwin. Meaning in the visual arts: papers in and on art history . Garden City, NY: Doubleday Anchor Books, 1955.
RONAN, Colin Alistair. The Cambridge illustrated history of the world's science . Cambridge University Press: Newnes Books, 1983.
TATON, René. Historia general de las ciências: la ciência antigua y medieval (de los origens a 1450) . v. 1. Ed.2ª. Barcelona: Edicones Destino, S.A, 1985.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.