Dinâmica das Órbitas no Filme ''Estrelas Além do Tempo": Concepções de Licenciandos em Física
Lucas Henrique Tavano, Beatriz Salemme Corrêa Cortela
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 20/07/2021
- Linha de pesquisa
- Formação Inicial E Continuada Do Professor Em Todos Os Níveis De Escolaridade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## DINÂMICA DAS ÓRBITAS NO FILME 'ESTRELAS ALÉM DO TEMPO': CONCEPÇÕES DE LICENCIANDOS EM FÍSICA
## Lucas Henrique Tavano 1 , Beatriz Salemme Corrêa Cortela 2
1 Universidade Estadual Paulista (UNESP), câmpus Bauru/Licenciatura em Física, lucas.tavano@unesp.br
Palavras-chave : Recurso didático; Filmes comerciais; Formação inicial de professores.
## Resumo expandido
Este é um excerto de uma pesquisa de iniciação científica, com bolsa, que analisou o potencial formativo dos filmes comerciais na formação inicial de professores de Física, realizada entre 2019-2020. Diversos autores indicam possibilidades diferenciadas para filmes comerciais e ficção (CRUZ; GOMES, 2018; NAPOLITANO, 2009; PIASSI; PIETROCOLA, 2006; REZENDE, 2008) como recurso didático, para tratar questões relevantes na sociedade e do entendimento das Ciências. Entretanto, na formação inicial de professores, os estudos têm se dirigido à aplicação na Educação Básica, sem proporcionar a vivência, efetivamente, de atividades desta natureza pelos licenciandos. Após levantamentos iniciais, que fundamentaram a investigação (TAVANO; CORTELA, 2020), foi elaborada e aplicada uma sequência didática, pautada em filmes, desenvolvida junto a alunos de Licenciatura em Física, na disciplina de Metodologia e Prática de Ensino de Física II, oferecida no segundo semestre de 2020, em uma universidade pública, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Após assistirem ao filme 'Estrelas Além do Tempo' (2016), os 18 participantes elaboraram um relatório orientado, cujas nove perguntas foram enviadas com antecedência, sendo que 14 deles elaboraram o trabalho em duplas (P1 a P14) e quatro individualmente (P15 a P18). As respostas foram discutidas em sala. Optou-se por um estudo de caso, tomando como referencial de análise de dados, a técnica qualiquantitativa do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), proposta por Lefevre e Lefevre (2012). Inicia-se a etapa qualitativa destacando as Expressões-Chave (ECH) dos discursos (trechos de como foi dito) e, em seguida, sintetizando-as e agrupando-as por semelhanças, obtêm-se as Ideias Centrais (IC), que indicam o que o sujeito quis dizer. Na etapa quantitativa, utilizam-se operadores: Intensidade, percentual de participantes que contribuíram com ECHs; e Amplitude, grau de espalhamento das Representações Sociais no campo, com a identificação dos diferentes atores/agentes, na perspectiva de Bourdieu (1996). O grupo participante era homogêneo, a maioria de ingressantes de 2020. Mesmo havendo grande diferença de idade, o padrão das respostas não se alterou. Portanto, a amplitude foi considerada baixa. Este artigo visa responder à seguinte questão: como os filmes podem contribuir na discussão de conteúdos da Física? Para tanto, analisou-se as respostas dadas à pergunta: Em uma cena do
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
filme, Paul Stafford explica que o foguete Atlas pode colocar a cápsula de John Glenn em órbita da Terra, alcançando a velocidade necessária. Esta cápsula, após ser desacoplada, permaneceria se movendo em uma órbita elíptica por tempo indeterminado. Quais são os motivos disso? As respostas foram organizadas, selecionando as ECH, agrupadas por semelhanças em ICs e calculando as respectivas intensidades (I), conforme a Tabela 01. Uma dupla (P5 e P6) não respondeu. Infere-se que, apesar de cursarem o segundo semestre do curso, ainda não tinham domínio de conteúdos necessários, uma vez que responderam outras perguntas.
Tabela 01: Ideias centrais e intensidades.
Para cada IC elaborou-se um DSC, com base nas ECH, editadas a partir das respostas escritas. Dois deles foram considerados de alta Intensidade e baixa Amplitude (Ia) e um de baixa Intensidade e baixa Amplitude (ia), elencados a seguir.
DSC[1] (Ia): O motivo que faria a cápsula ficar em uma órbita elíptica para sempre, gerada pela gravidade da Terra, é que não há nada para desacelerá-la no vácuo do espaço.
DSC[2] (Ia): A cápsula permanece se movendo em uma órbita elíptica por tempo indeterminado porque tem a velocidade de escape necessária. O corpo está em constante queda livre e a velocidade, alta o suficiente, não o deixa cair na Terra.
DSC[3] (ia): Quando a cápsula entra em órbita da Terra, o equilíbrio das forças gravitacional e centrípeta faz ela ficar neste estado eternamente até que algo mude seu curso, assim como descrito na primeira Lei de Newton, a Lei da Inércia, um corpo em movimento tende a ficar em movimento até que algo mude esse estado. Nesse caso não há influência de forças externas que aceleram ou desaceleram a cápsula, exceto a gravitacional.
O DSC[1], muito recorrente, traz explicações para o fenômeno diretamente da cena em questão. Isto é, apesar de os estudantes, terem tido contato com diversos conteúdos da Física, usam argumentos do próprio filme para responder à questão. Isso reforça a necessidade de tratar as discussões trazidas pelo longametragem de forma orientada e crítica. No DSC[2], também aparece uma das explicações de Paul, mas os participantes a associam ao conceito de velocidade de escape, que é a velocidade que um corpo precisa ser lançado para não retornar em queda livre à superfície da Terra, por exemplo, ou de outro corpo com influência gravitacional (HALLIDAY; RESNICK; WALKER, 2014). Este discurso evidencia a possibilidade de relacionar conceitos da Física (como a velocidade de escape) com o abordado em filmes. Em contrapartida, o DSC[3], pouco professado, traz explicações com outros conceitos da Mecânica, alguns equivocados. Por exemplo, o equilíbrio da força gravitacional com a centrípeta. Não há equilíbrio, a força gravitacional atua como centrípeta, considerando órbitas circulares (HALLIDAY; RESNICK; WALKER, 2014). Os participantes poderiam estar referindo-se ao
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equilíbrio da força gravitacional com a centrífuga, uma força fictícia ocasionada pela velocidade do corpo sob a ação de uma força central (THORNTON; MARION, 2012). Constatou-se que é possível discutir temas da Física a partir do filme escolhido. No entanto, é preciso que o professor, primeiramente, analise criteriosamente o longametragem, para conduzir discussões críticas e fundamentadas. Isso é muito importante, visto que o compreendido pelos licenciandos a respeito da questão, a partir do filme, teve grande influência nas respostas. Mesmo tratando-se de estudantes de Física, que supostamente teriam conhecimentos científicos para responder à questão, eles ainda apoiam-se em suas interpretações dos argumentos do próprio filme, sem estabelecer possíveis inconsistências teóricas.
## Referências
BOURDIEU, P. Razões Práticas: Sobre a Teoria da Ação. Tradução: Mariza Corrêa. Campinas, São Paulo: Papirus, 1996.
CRUZ, L. D. L.; GOMES, E. F. Estrelas Além do Tempo: debatendo gênero, raça e ciência em espaços educativos. Revista de Estudos Universitários - REU , v. 44, n. 2, p. 211-226, 2018. Disponível em:
http://periodicos.uniso.br/ojs/index.php/reu/article/view/3397/3138. Acesso em: 16 fev. 2021.
ESTRELAS ALÉM DO TEMPO. Título original: Hidden Figures . Direção: Theodore Melfi. Com Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe. 127 min. 20th Century Fox, 2016.
HALLIDAY, D.; RESNICK, R; WALKER, J. Fundamentos de Física: Mecânica. Rio de Janeiro: LTC, 2014.
LEFEVRE, F.; LEVEFRE, A. M. C. Pesquisa de Representação Social: um enfoque qualiquantitativo. Brasília, DF: Liber Livros, 2ª ed., 224p., 2012.
NAPOLITANO, M. Como usar o cinema na sala de aula . São Paulo: Contexto, 2009.
PIASSI, L. P. C.; PIETROCOLA, M. Possibilidades dos filmes de ficção científica como recurso didático em aulas de física: A construção de um instrumento de análise. In: Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, Londrina, Paraná. Anais [...]. Londrina, 2006.
REZENDE, L. A. História das Ciências no Ensino de Ciências: contribuições dos recursos audiovisuais. Ciência em Tela , v. 1, n. 1, 2008.
TAVANO, L. H.; CORTELA, B. S. C. Filmes comerciais como recurso didático para o ensino de Física: o que indicam as pesquisas brasileiras. In: 15º Simposio de Investigación en Educación en Física (SIEF), 2020, Córdoba, Argentina. Resúmenes [...]. Córdoba: Asociación de Profesores de Física de la Argentina,
2020.
THORNTON, S. T.; MARION, J. B. Dinâmica Clássica de Partículas e Sistemas . 5 ed. São Paulo: Cengage Learning, 2012.
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