ENSINO DE FÍSICA COMO PROJETO DE VIDA PARA MENINAS EM UM CURSO DE EXTENSÃO
Letícia Carvalho, José Alves Da Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 20/07/2021
- Linha de pesquisa
- Formação Inicial E Continuada Do Professor Em Todos Os Níveis De Escolaridade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ENSINO DE FÍSICA COMO PROJETO DE VIDA PARA MENINAS EM UM CURSO DE EXTENSÃO
## Letícia Bernardo Carvalho¹, José Alves da Silva 2
- 1 Universidade Federal de São Paulo, curso de Ciências-Licenciatura, leticia.carvalho12@unifesp.br
- 2 Universidade Federal de São Paulo, Departamento de Ciências Exatas e da Terra, jose.alves@unifesp.br
Palavras-chave : Mulheres na física, gênero, adolescência
## Resumo expandido
Embora haja registros de forte contribuição feminina para a física, observa-se, na literatura, que o papel delas sempre foi periférico e que, a despeito do crescente número de mulheres na área atualmente, ainda se nota a física como uma carreira predominantemente masculina (AGRELLO; GARG, 2009.). A fim de contribuirmos para um aumento da visibilidade sobre esse assunto, este trabalho buscou responder à seguinte pergunta: quais os impactos e os limites de um curso de extensão voltado a meninas adolescentes com o tema 'mulheres na física'?
Para este trabalho, usamos referenciais que discutiam ciência e feminismo (CARTAXO, 2012. GOMES; ROSA, 2015. KELLER), mulheres na física (CARVALHO, 2015; ROSA, 2015.), adolescência (GUTIERRA, 2003) e projeto de vida (NASCIMENTO, 2006). Os instrumentos que utilizamos para responder à nossa pergunta foram os diários de bordos (PORLÁN & MARTIN, 2000.) devolvidos pelas alunas a cada final do encontro, bem como questionários aplicados no grupo antes e depois do curso acerca do tema mulheres na física.
Com 20 horas de carga horária e intitulado 'A Física como projeto de vida para meninas', o curso ocorreu em novembro de 2020, totalmente online, tendo sido frequentado por 17 meninas que cursavam o ensino médio e que moravam em diversos cantos do país. Para a nossa pesquisa, escolhemos apenas as respostas de oito delas, posto que as demais não entregaram os documentos exigidos pelo comitê de ética e pesquisa da instituição 1 . De forma geral, o curso atraiu um grupo de
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19 a 30 de julho de 2021 - Online
estudantes que já se interessava por ciência ou pela física e, a julgar pela sua participação em aula, já demonstravam um olhar favorável ao aumento do papel feminino na sociedade. No quadro a seguir, apresentamos as atividades desenvolvidas no curso.
Quadro 1: Principais atividades do curso de extensão
Fonte: os autores. Ano: 2021
Após a leitura dos diários de bordos e dos questionários inicial e final, observamos que todas as meninas citaram influências positivas do curso, conforme
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podemos ver a seguir na resposta final à questão 'O que o curso agregou na sua vida?'.
Me inspirou (sic) a seguir o caminho da ciência, aprendi sobre novas cientistas ou mulheres que contribuíram positivamente para sociedade. Cursos assim motivam a gente a continuar batalhando para conseguir alguma posição que antes só homens tinha a oportunidade. (Talita (nome fictício). Diário de bordo, 2020.)
Destacamos que poucas delas conheciam a história e a trajetória das pautas feministas e como foram organizados durante séculos. Ademais, notamos uma grande importância dada pelas estudantes à percepção do quanto a física é excludente para as mulheres:
Pude conhecer grandes mulheres inspiradoras na ciência e em outras áreas, além de agregar um maior conhecimento sobre a vida acadêmica de uma mulher e como superar isso de maneira igualitária para todas, sejam elas brancas, negras, trans ou cis, e que devemos continuar lutando por essa superação. (Ester (nome fictício). Diário de Bordo, 2020.)
Ao compararmos as respostas com o segundo questionário, aplicados após o curso, podemos ver que as histórias das mulheres cientistas deixaram algumas marcas, pois as meninas citaram as físicas que lhes foram apresentadas pela ação de extensão. Apareceram menções muito fortes a Marcelle Soares (física capixaba que cresceu no meio da floresta amazônica e que hoje é professora na nos Estados Unidos . Muito provavelmente, a história de Marcelle proporcionou aos olhos das meninas a representatividade não somente de gênero, mas de etnias das mulheres brasileiras. Nesse sentido, o curso trouxe para as meninas uma referência importante para que levem consigo em seus projetos de vida.
O curso também explicitou quais seriam as dificuldades que as meninas deveriam considerar ao escolher a área de física como projeto de vida: o fato de terem que trabalhar com lideranças quase sempre masculinas, em especial nos cargos mais valorizados da carreira, as dificuldades em conciliar as tarefas consideradas social e injustamente femininas com o alto grau de exigência e especialização das ciências, a discriminação na concessão de bolsas a mulheres (escondidas de diversas maneiras; FERNANDES, 2020), a incompreensão por parte dos parceiros para com as obrigações de uma carreira em física, a falta de representatividade, o ambiente machista, dentre outros aspectos.
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Dentre os limites percebidos neste trabalho, observamos a necessidade de haver maior tempo para discutir o assunto, dada a sua complexidade. Entendemos que esse tempo seria ainda maior caso tivéssemos implementado esse conjunto de atividades numa turma regular de ensino médio, com poucas aulas por semana, sem que houvesse meninas já dispostas a conhecer o assunto.
Com toda a leitura realizada e com os questionários lidos, concluímos que inserir a história de mulheres, durante as aulas de física e ciências, fez com que as meninas vissem sua trajetória ser contemplada e começarem a visualizar a possibilidade de colocar a física como parte de seu projeto de vida. Concluímos, também, que a discussão sobre projetos de vida deve ser feita aos estudantes adolescentes e, dentro disso, devem ser colocadas as especificidades inerentes ao gênero, às etnias, à identidade que evidencia eventuais processos de exclusão de grupos a que pertencem, dentre outros.
## Referências
AGRELLO, D.A; GARG, R. Mulheres na física: poder e preconceito nos países em desenvolvimento. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 31, n. 1, 1305 (2009).
CARTAXO, Sandra Maria Carlos. Gênero e ciência : um estudo sobre as mulheres na física. Dissertação apresentada ao instituto de geociências da universidade estadual de Campinas. 2012.
CARVALHO, Raquel Aparecida de; SILVA, André Coelho da; CABRAL, Tairine de Carvalho. Contribuições femininas no desenvolvimento da física: uma pesquisa em periódicos da área de ensino. Ata do Simpósio de ensino de física . Uberlândia - Minas Gerais, 2015
FERNANDES, Rúbia. Mulheres na Física: Representações sociais de licenciatura e docentes em física no Brasil. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de São Paulo. Diadema, São Paulo, 2020.
GOMES, Maria Ruthe; ROSA, Katemari. Feminismo e ensino de ciências: Histórico e implicações para aulas de física. Ata do Simpósio de ensino de física. Uberlândia - Minas Gerais, 2015
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KELLER, Evelyn Fox. Qual foi o impacto do feminismo na ciência?. Cadernos Pagu (27), julho-dezembro de 2006: pp.13-34.
NASCIMENTO, Ivany Pinto. Projeto de vida de adolescentes do ensino médio: um estudo psicossocial sobre suas representações. Imaginário , Jun 2006, vol.12, no.12, p.55-80.
PORLÁN, R.; MARTÍN. R. El diario del Profesor: Um recurso para la investigación em el aula. 224p 8 ed. Sevilla: Díada Editora , 2000.
ROSA, Katemari. A (pouca) presença de minoria étnico-raciais e mulheres na construção da ciência. Ata do Simpósio Nacional de Ensino de Física . Uberlândia - Minas Gerais, 2015.
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