MULTICULTURALISMO E FÍSICA: UM CURSO DE ASTRONOMIA CULTURAL PARA PROFESSORES
Clístines Mariano Danieli Merlucci, Gustavo Isaac Killner, José Tomaz De Oliveira Junior
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIV
- Ano
- 2021
- Data
- 20/07/2021
- Linha de pesquisa
- Formação Inicial E Continuada Do Professor Em Todos Os Níveis De Escolaridade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## MULTICULTURALISMO E FÍSICA: UM CURSO DE ASTRONOMIA CULTURAL PARA PROFESSORES
## Clístines Mariano Danieli Merlucci 1 , Gustavo Isaac Killner 2 , José Tomaz de Oliveira Junior 3
1 Instituto Federal de São Paulo, clistines.merlucci@gmail.com
2
Instituto Federal de São Paulo, gisaack@usp.br
3 Instituto Federal de São Paulo, jtjtoj@gmail.com
Palavras-chave : Astronomia Cultural; Multiculturalismo; Etnoastronomia
## Resumo expandido
A lei 11.645/08 surge como resultado das lutas pela igualdade de gênero e o respeito pela diversidade cultural oriundas de diversos setores da sociedade. Essa lei torna obrigatório o ensino das culturas de raízes afro e indígena brasileira, mediado por todas as disciplinas escolares. Se o ensino de Física quer tomar sua parte de responsabilidade no cumprimento da lei, e colaborar com a luta pela igualdade social, reflexões para novas realidades curriculares que incluam práticas multiculturais se fazem essenciais. Neste sentido, assumindo que a educação pode ser um instrumento crítico de compreensão do mundo e das relações humanas, e não apenas um espaço destinado a visão eurocêntrica do conhecimento, desenvolvemos e aplicamos um curso para formação inicial ou continuada de professores de Física baseados nos preceitos do multiculturalismo crítico e na abordagem da Astronomia Cultural, de forma a indicar possibilidades para o ensino de Física e Astronomia que esteja ligado a uma prática social intercultural, na tentativa de influenciar futuras práticas educacionais. O curso foi aplicado no SNEF de 2019, na Bahia, para 20 participantes, atingindo principalmente alunos de graduação. O curso foi estruturado em três etapas, nas quais separamos em: 1- Exposição de referencial teórico; 2- Aplicação de atividades; e 3-Sugestões de atividades encontradas na literatura e discussão sobre possibilidades do tema. O curso, programado para 6 horas e divididos em três dias. A primeira parte do curso foi reservado não só para a exposição sobre as áreas da teoria de currículo e da astronomia cultural, mas também para um debate sobre o conceito de conhecimento, uma vez que entendemos que ao expor outras formas de conhecimento estamos questionando a forma tida como verdadeira predominantemente (no caso a científica). No segundo e terceiro dia, propusemos duas atividades com os participantes que podem ser adaptadas para a sala de aula em turmas do ensino médio ou fundamental, que tratam sobre a astronomia indígena e africana.
A primeira atividade, se inicial com um problematização, em que 3 mitos que explicam o início do universo que contrapuseram um texto científico que explicava o modelo científico. Os mitos selecionados foram da nação indígena Pataxó (VALLE, 2001) - residentes do sul do estado baiano e do norte de Minas Gerais - um mito
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oriundo da cultura Candomblé (PRANDINI, 2000), além do tradicional mito bíblico judaico-cristão. Estes mitos foram escolhidos por serem oriundos das culturas que de certa forma formam o estado da Bahia. Estes foram lidos em voz alta por algum participante além do texto do modelo científico (STEINER, 2006), e em um momento posterior debatemos as semelhanças e diferenças entre os modelos de explicação.
Após o momento introdutório, fomos para a etapa em que pretendíamos estabelecer uma ordem nas semelhanças e diferenças entre os mitos e o modelo científico. Porém, antes disto, usamos o recurso da aula expositiva para falar da cultura candomblé e dos índios pataxós, cumprindo desta forma a lei 11.645. Também utilizando o Power Point, separamos em temas os conhecimentos que podem ser relacionados e comparados entre si.
O intuito da discussão foi de trazer os preceitos multiculturalistas de fomentar nos alunos o respeito real a outras culturas que fazem parte do Brasil e que no fundo influenciam também a cultura tida por oficial. Mostrando que, da mesma forma que os mito bíblico e o científico, dominantes no imaginário popular, outras culturas também tentam chegar a mesma resposta de formas nem sempre muito distantes, podemos trazer o aluno para uma reflexão mais profunda sobre o respeito as outras culturas brasileiras.
A segunda atividade desenvolvida foi a respeito das constelações. Para tal, desenvolvemos uma aula expositiva sobre constelações indígenas brasileiras e as lendas que dão origem a elas. Aproveitamos o tema para debater que, da mesma forma que os mitos apresentados na atividade anterior, as constelações surgiram em diversas culturas pelas mesmas necessidades sociais. No caso das constelações, além de forma a manter suas lendas vivas, elas são uma forma de marcar o tempo e assim ordenar o caos aparente no universo.
Após a aula expositiva, aplicamos uma atividade avaliativa sobre o tema, com questões a serem respondidas em grupo pelos participantes. Em direção ao fechamento do curso, apresentamos slides com atividades encontradas na literatura e abrimos para o debate de fechamento em que os alunos se mostraram satisfeitos com o curso de maneira geral, relataram grandes aprendizados e interesses em se aprofundar no tema.
Aplicamos ao final do curso um questionário avaliativo. Neste questionário percebemos que, apesar de a frequência média do curso ter atingido as 20 vagas abertas inicialmente, obtivemos 12 questionários respondidos. Através deles, entendemos que o perfil do curso foi formado por alunos de graduação (80%), mas que apesar disto, 45% já eram professores. Destes 12 participantes, apenas 2 relataram já terem trabalhado com o tema da astronomia cultural. Uma das questões abertas que fizemos perguntava sobre a motivação dos alunos a fazerem parte do curso e identificamos que a maioria dos alunos que ali estavam era por afinidade com o tema e que desejavam aplicar futuramente o tema em suas aulas.
Colocando em termos quantitativos, pedimos uma avaliação do curso de zero a dez a respeito de diversos aspectos do curso. O quadro abaixo mostra os resultados da avaliação
Quadro 1 : Notas do curso
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Além do que pode ser visto pelas notas, a conversa estabelecida ao final do curso mostra que o curso foi bem aceito e que este tem o potencial de ser ampliado e aplicado em outras oportunidades. Como ressalva negativa, tivemos comentários negativos sobre a atividade proposta sobre as constelações, que ficou mais no âmbito da astronomia científica do que no da astronomia cultural.
## Referências
BRASIL, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. LDB: Lei das Diretrizes e Bases da Educação nacional. Brasília, DF, 1996. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil\_03/leis/L9394.htm> Acesso em 8 mar. 2018.
STEINER, J. E. A (2006) Origem do universo. Estudos Avançados, 20 (58), 233-248.
VALLE, C. N. (2001) Txopai Itohã: mito fundador pataxó. Acta Scientiarum, 23(1), 6168.
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