FÍSICA E POESIA: POSSIBILIDADES ATRAVÉS DA RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS
Alysson Ramos Artuso
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 27/10/2010
- Linha de pesquisa
- - Ensino / Aprentizagem / Avaliação Em Física; Formação E Prática Profissional Do Professor De Física E Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## FÍSICA E POESIA: POSSIBILIDADES ATRAVÉS DA RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS
## PHYSICAL AND POETRY: POSSIBILITIES THROUGH PROBLEMS SOLVING
## Alysson Ramos Artuso 1 ,
1 Fae Centro Universitário/GEPEF , alysson.artuso@gmail.com
## Resumo
O presente artigo busca discutir a conexão entre Ciência e Arte de maneira geral, e entre Física e Poesia de maneira específica, como forma de trabalhar conceitos físicos em sala de aula e ainda relacionar os conceitos científicos à construção sócio-histórica do conhecimento nas diversas áreas de expressão humanas. Baseando -se num levantamento bibliográfico de pesquisas similares já realizadas na área, e a partir dos conceitos principalmente de Snow, Bachelard , Bahktin e Zanetic, propõe-se a aproximação de Física e Poesia através da resolução de problemas.
Num primeiro momento, coube conceituar e debater a Ciência como forma de cultura para, a seguir, explorar as conexões entre Ciência e Arte de um ponto de vista histórico e epistemológico, no qual a Física em conjunto com a Literatura se oferecem como instrumentos de múltiplas visões sobre o mundo.
A seguir, foi explanada a abordagem de resolução de problemas, defendida não como única, mas como uma maneira prática do professor introduzir o tema em sala de aula e estruturando -a a partir das ideias de Bernstein e de outros pesquisadores brasileiros da área.
Por fim, foram trazidos dois exemplos de como se elaborar, estruturar e trabalhar com questões envolvendo Física e Poesia a partir de poemas de José Saramago, Fernando Pessoa e Arnaldo Antunes em atividades próximas ao formato do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).
Com a consciência de que sugestão não é única nem suficiente, busca-se avançar no debate da importância e das maneiras de se introduzir aspectos culturais no processo de ensino-aprendizagem, bem como demonstrar a relevância da Física para a compreensão das formas de expressão humanas.
Palavras -chave: Ciência e Cultura, Ciência e Arte, Física e Poesia, Resolução de Problemas.
## Abstract
This article aims to discuss the general connection between Science and Art. The point between physics and poetry is emphasized, trough how to work physical
concepts in teaching, relating them to the historical and social knowledge to the human expression area. Based on authors already y used in similar researches, like Snow, Bachelard, Bahktin e Zanetic, the article proposes the approximation between Physics and Poetry trough the practice.
In the beginning , Science was conceptualizes and debated as part of the culture, for the connection between it and art could be explored in the following part, through an historical point of view. At this point, Physics and Literature are seen as instruments of multiples sights of the world.
Next, it was explained how to solve activities, believing that it is not the only possible way, but following Bernstein and Brazilians researchers results .
In the end, two examples were given on how to work with activities of physic and poetry using poems of José Saramago, Fernando Pessoa e Arnaldo Antunes, following the model of exercises proposed by the Enem test.
Having the knowledge that only what is proposed in this article is not enough in this aim, this article tries to make part of the discussion on the importance of introducing cultural aspects in the process of learning and teaching, principally in what concerns Physics.
Keywords: Science and Culture, Science and Art, Physics and Poetry, Practice.
## Introdução
Apesar de inúmeras tentativas e propostas, a prática diária da escola não parece se modificar com a mesma velocidade da sociedade. Assim, corre-se o risco de se abrir, ou ampliar, um abismo que separa o conteúdo ensinado, e as abordagens utilizadas, com as necessidades e motivações dos alunos.
Dessa forma, a Física de maneira específica, e a Ciência de maneira geral, podem e devem ser chamadas para provocar reflexões sobre a sociedade, sobre as formas de construção do indivíduo, sobre seu papel e seus objetivos e sobre sua função na escola . Nesse sentido, a Física e a Arte, ambas áreas reflexivas da expressão humana, talvez possam, num caráter amplo , contribuir para a formação individual/cultural/científica do sujeito contemporâneo.
Mas como se dá essa conexão? E como poderia ser utilizada no processo de ensino -aprendizagem? A presente pesquisa teve como meta levantar e coadunar argumentos teóricos que evidenciem e sustentem a integração entre Física e Poesia, de maneira a responder a primeira pergunta , e a propor uma estratégia, entre várias, para a segunda.
Para tal, cabe discutir os aspectos históricos e epistemológicos da interação entre as duas áreas, com suas influências, contemplações e consequências. E, num recorte ainda mais específico, discorrer sobre como essa aproximação pode ser utilizada em uma estratégia de ensino , seja para promover r a leitura, motivar o para o estudo da Física, ou para compreender melhor ambas as áreas. Trazendo, dessa forma , a escola a participar da formação cultural do cidadão contemporâneo,
independente de eventuais diferenças de interesses individuais e das suas mais variadas motivações acadêmicas e/ou profissionais.
Essa interdisciplinaridade entre Ciência e Arte, aqui mais especificamente entre Física e Poesia, pode ser observada na literatura da área presente em vários momentos: em atividades paradidáticas (GOUVEIA, 2004), ao se trabalhar r com projetos (QUEIROZ et al, 2009), ao se lançar questões iniciais e motivadoras (QUEIROZ et al, 2006; BARBOSA-LIMA, 2008), ao se propor atividades de síntese ou debates (LIMA , BARROS; TERRAZAN, 2004; SANTOS; PIASSI; VIEIRA, 2008) , ao se realizar r um levantamento prévio de concepções alternativas dos alunos (QUEIROZ et al, 2009) , através de leituras e produções dos alunos (CARVALHO; ZANETIC, 2005), além de outras possibilidades também levantadas por Moreira (2002) e Zanetic (2005 e 2006) .
A estratégia aqui apresentada, inédita no levantamento feito, é uma alternativa de incluir essa discussão na sala de aula através da elaboração e resolução de problemas que ocupem essas duas áreas e permitam aos alunos fazerem importantes conexões. Dessa maneira , não se exige do professor profundas mudanças estruturais em sua aula, mas se aproveita de um tempo e espaço já existentes para promover uma reflexão que se julga fundamental no processo de ensino -aprendizagem.
A finalidade deste trabalho é, portanto, apresentar, além de argumentos teóricos que possam promover um debate acadêmico, uma proposta de abordagem interdisciplinar para o professor, que seja factível dentro de sua sala de aula e que possa contribuir para a aprendizagem de seus alunos. Longe de se pensar que tal proposta é única e suficiente, busca-se um avanço na discussão da importância e das formas de se trazer outros aspectos culturais para a escola.
## Ciência e Cultura
Aqui, entende-se Física, e a própria Ciência, não como uma descrição objetiva do mundo, mas como uma tentativa de satisfazer as necessidades de compreensão dos homens . Nesse sentido os modelos físicos são apenas aproximações, melhores ou piores, do que pretendem descrever ou interpretar e o processo de sua aprendizagem e desenvolvimento é tão, ou mais, importante do que o conhecimento e o domínio matemático de seus conceitos.
Além disso, compreende-se a Física como elemento cultural importante na vida das pessoas . Fundamental tanto no conhecimento de um engenheiro para projetar uma máquina ou de um músico ao inovar em suas composições como para o usuário que irá ler o manual de instruções ou o ouvinte que busca compreender satisfatoriamente a música.
Portanto, é desejável que os alunos que já passaram pelo Ensino Médio tenham adquirido conhecimento suficiente para que sejam capazes de compreender o que lêem ou o que observam. Obviamente o objetivo primeiro da Física não é o de entender as obras artísticas, mas ela também não pode servir apenas para memorizar equações e procedimentos a fim de resolver r exercícios visando às provas e ao vestibular. Afinal, espera-se que aquilo que foi estudado ofereça instrumentos tanto para a percepção do mundo quanto para a ação sobre ele . No sentido que o conhecimento físico deve permitir que o aluno faça relações entre a
Ciência e suas aplicações, seja na cozinha de sua casa, seja na rua, num filme ou numa poesia. Nas palavras de Zanetic (2005, p. 21),
O ensino de física dominante se restringe à memorização de fórmulas aplicadas na solução de exercícios típicos de exames vestibulares. Para mudar esse quadro o ensino de física não pode prescindir, além de um número mínimo de aulas, da conceituação teórica, da experimentação, da história da física, da filosofia da ciência e de sua ligação com a sociedade e com outras áreas da cultura. Isso favoreceria a construção de uma educação problematizadora, crítica, ativa, engajada na luta pela transformação social.
## Literatura - - Poesia
O texto literário possui um conjunto de atributos que são fundamentais na interação com o leitor, entre eles a possibilidade de identificação, pois nesse tipo de texto as ideias e opiniões transparecem mais facilmente, promovendo um elo que ultrapassa os limites do próprio texto. Ele possui a capacidade de comover com estórias e fatos que não raramente fazem o leitor vivenciar a situação lida, quando não, algumas vezes, fazem-no reviver na obra literária a própria história de vida. Além disso, a descrição e a reconstrução de ambientes e costumes permitem que o leitor se desloque no tempo e no espaço. Aqui cabe a pergunta: será que não é possível se servir de toda essa riqueza também para o ensino da Física?
Partindo do pressuposto, a ser melhor explorado posteriormente, que sim; diferentes tipos de textos literários podem ser usados em aulas de Física, não apenas com uma finalidade estritamente motivadora , mas como meio para gerar nos alunos atitudes cuja formação é encargo de qualquer disciplina - sentimentos e emoções desejáveis, curiosidade científica, consciência crítica. Entre esses textos será dado destaque ao poema. Parte da força dessa forma literária reside na multiplicidade de significados possíveis, na grandeza de suas imagens, na capacidade de, com poucas palavras, dizer muito sobre um tema.
Tanto a Física quanto a Poesia são buscas de aprendizagem através da experiência. Seja de situações materiais cujas propriedades não se conhece integralmente, no caso da primeira, quanto na tentativa de se encontrar um caminho através de situações humanas não compreendidas totalmente, no caso da segunda . Se a Ciência estrutura a experiência em forma de leis nas quais se pode basear as futuras ações, a Poesia é um modo de conhecimento no qual é possível se identificar com o autor e, através de sua obra, se ligar à própria e à toda a experiência humana. (PIETROCOLA, 2004)
A mesma posição é compartilhada por Moreira (2002, p. 17) para quem "ciência e poesia pertencem à mesma busca imaginativa humana, embora ligadas a domínios diferentes de conhecimento e valor". Assim, a aproximação entre essas duas dimensões pode e deve ser valorizada pelos professores, em geral, através de atividades interdisciplinares que envolvam a Arte e a Poesia, já que "a criatividade e a imaginação são o húmus comum de que se nutrem".
Mas não se trata aqui de forçar aproximações entre as áreas, mas somente de identificar ambas como partes de uma mesma cultura e capazes de contribuir mutuamente para a aprendizagem. E, justamente, pelo fato de serem construções humanas, não é possível esquecer que a imaginação tem um papel preponderante nesta tarefa. Assim, a aproximação entre Poesia e Física no Ensino Médio pode ser uma ferramenta de auxílio não só no desenvolvimento e na formação cultural dos
alunos, mas também proporcionar condições de evolução de suas imaginações além de permitir, deste modo, uma forma de estudo interdisciplinar.
Lógico que, se aqui se enfoca a Poesia, essa forma de abordagem é válida para diversas formas de Arte. O foco pela Literatura/Poesia, além da facilidade do autor, também se dá por questões práticas, pois nem sempre é fácil ter uma boa fotografia ou uma boa imagem de pinturas e esculturas para compartilhar com os alunos. Ou nem sempre se dispõe de espaços e equipamentos adequados para interações com o cinema, o teatro, ou a música , ainda que as letras de músicas se encaixem perfeitamente no escopo desse trabalho.
## Conexões Ciência e Arte
Um dos primeiros pensadores a tratar da possibilidade de conexões entre Ciência e Arte foi o inglês Charles P. Snow w (1995). Ele defendia a aproximação entre os dois universos intelectuais como uma maneira essencial de possibilitar um "diálogo inteligente com o mundo" . Sugeria, ainda, que a separação existente entre as comunidades de cientistas naturais e de escritores dificultava a solução de diversos problemas da sociedade de sua época, trazendo implicações de natureza ética, epistemológica e educacional . Ainda que várias de suas premissas precisem ser reavaliadas devido às transformações ocorridas nas últimas quatro décadas, boa parte de suas ideias continuam a ser relevantes para educadores e cientistas.
Impulsionado pelo desejo de desvendar aquilo que chamou de "abismo de incompreensão mútua" no universo dessas duas áreas, Snow estabeleceu um marco na discussão da falta de comunicação entre cientistas e literatos, caracterizando e lamentando as peculiaridades e barreiras evidentes e exageradas entre essas duas polarizações de expressão humana. Essa visão fica clara em suas afirmações:
Num pólo os literatos; no outro os cientistas e, como os mais representativos , os físicos. Entre os dois, um abismo de incompreensão mútua - algumas vezes (particularmente entre os jovens) hostilidade e aversão, mas principalmente falta de compreensão. Cada um tem uma imagem curiosamente distorcida do outro. Suas atitudes são tão diferentes que, mesmo ao nível da emoção, não encontram muito terreno em comum (...) Os não-cientistas têm impressão arraigada de que superficialmente os cientistas são otimistas, inconscientes da condição humana. Por outro lado, os cientistas acreditam que os literatos são totalmente desprovidos de previsão, peculiarmente indiferentes aos seus semelhantes, num sentido profundo anti-intelectuais, ansiosos por restringir a arte e o pensamento ao presente imediato.(...) As razões para a existência das duas culturas são muitas, profundas e complexas, umas arraigadas em histórias sociais, umas em histórias pessoais, e umas na dinâmica interna dos tipos diferentes de atividade mental". (SNOW, 1995, p. 21-41)
Para Snow, a não comunicação entre as áreas impediu que o mundo conhecesse de que forma os componentes da arte estiveram presentes nessa experiência, não a integrando tão naturalmente quanto o restante dos elementos científicos.
Segundo Ribeiro (2004), a integração de conhecimentos científicos e tecnológicos aos conhecimentos artísticos e culturais tem tão largo alcance que tal proposta deve estar r disseminada nos espaços escolares, acadêmicos e culturais, constituindo -se em uma tendência de nosso tempo. Dessa discussão, emergem as
ideias sobre o pensamento criativo, seja no âmbito da Ciência ou da Arte, trazendo possibilidades reais da ação conjunta dessas duas f formas de expressão no ensino.
Kestler (2006), em descrição ao processo intelectual e na reflexão sobre as obras científicas do poeta alemão Johann Wolfgang van Goethe ressalta que sua poética se estendeu, em momentos diferentes, pelas áreas da química, óptica, botânica, geologia, mineralogia, anatomia humana e animal, morfologia e meteorologia.
Na tentativa de lançar pontes entre a Física e a Literatura para melhor leitura de mundo, Zanetic (2006) analisa os perfis epistemológicos em que estão dispostas doutrinas filosóficas que consideram desde o realismo ingênuo ao ultra-racionalismo, refletindo sobre o empirismo determinista da física clássica e sobre a indeterminação da física contemporânea, por meio das representações de romancistas e contistas que não tiveram formação básica na área, e ainda assim experimentaram elementos dessa ciência. Assim, estabelece alguns paralelos entre Ciência e Arte ao longo da história, afinal, como toda e qualquer realização humana, elas estão conectadas com as condições históricas de sua concretização .
Como exemplo, pode-se citar Dante Alighieri, que no seu poema épico A Divina Comédia do século XIII, estrutura tanto o inferno quanto o paraíso numa clara aproximação aos ensinamentos e dogmas da Igreja de então, seguindo de perto uma descrição de Ptolomeu para o universo. A mesma influência aristotélicoptolomaica é encontrada no poema Os lusíadas, de Camões, escrito na segunda metade do século XVI.
Bakhtin, para uma última ilustração, ao analisar a poética de Dostoiévski, identifica entre as influências sobre o pensamento do escritor russo a presença de conceitos e metodologias próprias das Ciências. Dostoiévski expressava, por exemplo em Os Irmãos Karamazov, uma ideia científica que já estava no ar anos antes de sua formulação por Einstein, a de que o espaço absoluto tridimensional não servia mais ao propósito de explicação do mundo físico. Numa passagem em que focaliza esse romance, Bakhtin afirma o seguinte:
É como se diferentes sistemas de cálculo aqui se unificassem na complexa unidade do universo einsteiniano (é evidente que a comparação do universo de Dostoiévski com o universo de Einstein é apenas uma comparação de tipo artístico e não uma analogia científica). (BAKHTIN, 1997, p. 15)
Neste ponto vale a pena introduzir um breve comentário epistemológico/educacional. Bachelard (1996) separa as Ciências e as Artes em duas áreas como a noite do dia, formando dois pólos opostos da atividade intelectual, representados pela imaginação e pela razão.
No aspecto epistemológico, Bachelard promove uma luta contra os preconceitos e barreiras que dificultam o desenvolvimento do conhecimento científico. Para adentrar a " cidade da ciência " o indivíduo tem que superar obstáculos epistemológicos. Assim, a crença de que os objetos mais pesados chegam antes ao solo, a concepção não-inercial dos movimentos, ou a de espaço e tempo como entidades absolutas e até mesmo a ideia de que uma partícula quântica é uma partícula pequena são alguns exemplos desses obstáculos epistemológicos.
Mas evidenciar e superar esses obstáculos epistemológicos pode proporcionar uma rica experiência pedagógica, seja nos exemplos citados de Camões e Dante Alighieri, seja na utilização de obras de ficção científica.
Nessa perspectiva, a sistematização do processo de desenvolvimento do espírito científico feita por Bachelard (1996), constitui-se em uma base teórica importante para quem pretende desenvolver reflexões sobre Ciência e Arte. Bachelard projeta a linguagem como um objeto epistemológico e insiste na percepção de que é ela quem fará com que o aprendiz passe a travar ou não uma relação de diálogo com a Ciência, que abriga também o saber a qual nasce do imaginário e não somente do racional.
Essa vertente traz consigo, segundo o autor, novos estímulos para o pensamento humano, recuperando sua capacidade de encantamento diante dos fatos, sendo, portanto, apropriada para ambientes de aprendizado.
Essas reflexões apontam para a questão central de que os grupos sociais não constroem suas linguagens, seus símbolos, seus signos, enfim, seus sistemas de conhecimento e comunicação de forma inteiramente independente. Outros sistemas do conhecimento humano os precedem, e tal qual revela Bakthin (1988), decorrem de uma incessante elaboração e re-elaboração da linguagem e dessa relação com seus contextos. E, assim, pretende-se abrir r um amplo leque para exploração das conexões entre Ciência e Arte no processo de ensino-aprendizagem , bem como promover o debate entre diferentes pontos de vista teóricos que possam reafirmar, refutar ou fornecer novas ferramentas de análise para os campos científico, artístico e educacional . Em especial, as questões linguísticas e de identificação do jovem com a Arte e a Ciência são assuntos que merecem ser aprofundados .
## Uma proposta através da resolução de problemas
As transformações da sociedade atual trazem à tona o debate sobre a capacidade da escola de promover e democratizar o conhecimento. Mas, além de dominar conceitos, é preciso que os indivíduos adquiram a capacidade de argumentação e de pensamento crítico, requisitos necessários para sua tomada de decisões em sociedade.
Nesse processo de ensinar e aprender, muitas são as variáveis presentes, como as intenções do educador r e do pesquisador, suas ideias-guia, o suporte de conhecimento que apresentam aos aprendizes, o conteúdo de seus discursos , as escolhas metodológicas e as estratégias de ensino utilizadas, seus referenciais teóricos, o caráter das atividades, a avaliação dos resultados etc. Sem querer abarcar todas essas nuances num único trabalho, propõe-se aqui, dentro da estratégia de resolução de problemas, uma forma de se trabalhar conjuntamente Ciência e Arte.
Não obstante às diversas teorias de aprendizagem e de ensino que podem dar suporte à essa estratégia de ensino, visa-se nesse primeiro momento apenas apresentar uma proposta, sem torná-la exclusiva a uma única teoria. Papel esse que cabe ao professor, dado seu conhecimento, experiência e trato diário com os alunos, fazer as escolhas que melhores se adéquem a sua sala de aula.
Porém, acredita-se na importância da escolha de um eixo para aprendizagem e aqui se sugere a escolha de diferentes "ferramentas de pensar", reconhecidas por Bernstein (2001), como essenciais ao desenvolvimento do processo criativo. São elas, a capacidade de: 1) observar, 2) evocar imagens, 3) abstrair, 4) reconhecer padrões, 5) formar padrões, 6) estabelecer analogias, 7)
pensar com o corpo, 8) ter empatia, 9) pensar de modo dimensional, 10) criar modelos, 11) brincar, 12) transformar e 13) sintetizar.
A resolução de problemas não é especificamente um recurso de ensino de Física, mas um recurso didático encontrado em várias abordagens que dão a ele enfoques diferentes. Sobre a sua importância no processo de ensino e aprendizagem Costa e Moreira (2002, p. 61-62) assim se expressam:
- a atividade de resolver problemas é intrínseca ao processo de ensinoaprendizagem, podendo, inclusive, ser concebida como meio e/ou fim do mesmo. Para começar, consideramos um problema como uma situação na qual um indivíduo, uma vez tendo-a reconhecida como tal, necessita utilizar processos envolvendo reflexão, raciocínio e tomadas de decisões para seguir um caminho na busca de solucioná-la. (...) Pois aprender não é tomar conhecimento de alguma coisa, retê-la na memória, tornar-se apto ou capaz de alguma coisa, em consequência de estudo, observação, experiência, discernimento?
Aprender requer uma atitude de confronto com um problema para o qual não se tem, mas busca-se a resposta. Assim, a atividade de resolução de problemas permite o desenvolvimento de três formas de conteúdos: conceituais, procedimentais e atitudinais, na medida em que os problemas:
- · englobam leis, princípios e conceitos (conteúdos conceituais);
- · requerem uma análise da situação problema, elaboração de hipóteses, planos e/ou estratégias de solução, execução do plano, análise do resultado obtido, além da comunicação e explicação do processo de resolução do problema (conteúdos procedimentais);
- · envolvem, durante o próprio processo de resolução, também o trabalho em grupo, o respeito pela opinião e argumentação dos colegas, a motivação para resolver a situação problema e o aprimoramento do gosto pela ciência (conteúdos atitudinais). (CLEMENT; TERRAZZAN, 2003, p. 1163)
Cabe, ainda, ressaltar outro aspecto importante que é o papel da modelagem mental dos enunciados, em especial na resolução de problemas em Física. Esta questão está discutida no trabalho de Costa e Moreira (2002), no qual os pesquisadores identificam dificuldades relativas à interpretação de enunciados de problemas de Física por estudantes como sendo o primeiro obstáculo para a resolução de problemas. Posicionamento confirmado por Fávero e Sousa (2001, p. 154) quando mostram que várias pesquisas apontam como resultado "a incompreensão do enunciado como fator importante [na resolução de problemas] sugerindo que, de alguma forma, a dificuldade do aluno está na incompreensão textual do enunciado e que diagramas ou detalhes da apresentação poderiam facilitar a compreensão".
A conexão entre Ciência e Arte pode inclusive contribuir para esse exercício de interpretação em diversos âmbitos. Em especial em problemas amplos, de respostas discursivas e que possam promover o debate de ideias. Na proposta aqui apresentada, procurou-se seguir um modelo de atividades próximas às cobradas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), dada as preocupações das escolas diante dos novos rumos tomados por esse instrumento de avaliação. Seguem dois exemplos, o primeiro de discussão mais ampla e o segundo mais específico sobre os conceitos físicos de temperatura e calor:
Observe o poema abaixo de José Saramago:
Colho esta luz solar à minha volta, no meu prisma a disperso e recomponho: Rumor de sete cores, silêncio branco. Como flechas disparadas do seu arco, do violeta ao vermelho percorremos o inteiro espaço que aberto no suspiro se remata convulso em grito rouco. Depois todo o rumor se reconverte tornam as cores ao prisma que define à luz solar de ti e ao silêncio .
A leitura deste poema remete a conceitos científicos e à necessidade de conhecer a sua natureza. Considerando isso, avalie as seguintes afirmativas:
I - Fica claro que o texto não fala somente de conceitos físicos, como na passagem: "À luz solar de ti e ao silêncio". Pode -se entender que o eu lírico apropria-se de termos da Física para descrever os desdobramentos de uma relação afetiva.
- II - O que ocorre fisicamente é que o prisma, através da reflexão da luz, é capaz de gerar novas cores além da branca.
- III - O principal fenômeno físico a que se refere o poema é a dispersão da luz, que é a separação do espectro luminoso devido aos diferentes desvios que as frequências da onda podem sofrer ao mudar meio.
- IV - A dispersão da luz nas gotículas de água também é responsável pelo aparecimento do arco-íris com suas diversas cores, essas cores estão destacadas no verso "do violeta ao vermelho percorremos".
- V -A presença das diversas frequências na luz do sol a faz branca aos nossos olhos, efeito utilizado de forma estilística ao combinar luz e som em "rumor de sete cores, silêncio branco".
É correto apenas o que se afirma somente em
A) I, III, IV e V
B) I, II e IV
C) III, IV e V
D) II e IV
E) I e III
Novamente se destaca que o professor não deve ficar preso a alternativas objetivas para discutir um problema, a intenção aqui é tão somente replicar atividades propostas pelo ENEM.
Cabe agora comentar cada uma das afirmações feitas:
- I - Apesar do poema conter diversas referências a termos típicos das Física , como "prisma", "dispersão" e "luz solar", algumas passagens deixam evidente que o objetivo não é apenas tratar dos conceitos físicos, mas utilizá-los num sentido metafórico para abordar uma relação amorosa, como em "flechas disparadas do seu arco", "violeta ao vermelho percorremos" e "à luz solar de ti e ao silêncio".
- II - Quando a luz sofre refração ao mudar de meio, no caso do ar para o prisma e depois novamente para o ar. As diferentes frequências da luz solar possuem índices de refração diferentes e, portrtanto, sofrem desvios diferentes. Assim, se observa de maneira distinta o espectro luminoso, sendo que esse efeito recebe o nome de dispersão. Então não se trata nem de reflexão nem "geração" de novas cores como afirma o item, que é falso.
III - Seguindo o conceituado sobre dispersão na afirmativa anterior, o item está correto.
- IV - Também correta, uma vez que o arco-íris é exatamente a decomposição da luz branca nas gotículas de água, que funcionam da mesma maneira que o prisma. Newton classificou esse espectro em sete cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Uma referência a esse fato é feita em "do violeta ao vermelho percorremos" e também no "rumor de sete cores", ambas as passagens permitindo uma interpretação além dos conceitos físicos, sugerindo a presença dos mais variados sentimentos e tons na relação dos amantes, da paz ao transtorno, do afeto à paixão, de um extremo à outro.
Newton também desenvolveu um equipamento bastante simples para ilustrar o espectro luminoso, o disco de Newton, que é dividido em sete partes e pintado com essas sete cores. Quando girado em alta velocidade não mais distinguimos as sete cores e enxergamos o disco apenas branco.
- V - Item correto, conforme o exposto anteriormente sobre o espectro luminoso e o disco de Newton. Cabe notar também o trabalho do autor para tentar tornar o poema uma imagem viva da paixão e seus desdobramentos. Há duas formas de onda, estudadas em Física que foram utilizadas para enriquecem a poesia: a luz (cor) e o som, que nos versos expressam o percurso amoroso que vai do silêncio ao rumor e a ele retorna, assim como as cores que vão do branco ao espectro de sete cores e ao branco retornam.
Observa -se como é possível tratar das três formas de conteúdos: conceituais, ao se tratar das propriedades da luz; procedimentais, através da construção de hipóteses e formulação de explicações para o que ocorre com a luz; e atitudinais, na medida em é preciso uma compreensão, interpretação e respeito inclusive por visões diversas que o poema pode suscitar.
Muitos outros exemplos poderiam ser tratados, devido à dimensão desse trabalho, será mostrada apenas mais uma proposta de atividade:
Leia os dois poemas a seguir:
Parece estar calor, mas nasce Subitamente Contra a minha face Uma brisa fresca que se sente. Assim também - poder comparar É que é poesia - A alma sente - se a esperar, Mas não conhece em que confia.
(Fernando Pessoa)
As coisas têm peso,
massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor,
posição,
textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura , função, aparência, preço, destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.
(Arnaldo Antunes)
A respeito dos termos calor e temperatura (em destaque) , é correto dizer que:
- A) sempre que os escritores recorrem a conceitos científicos em suas obras, o fazem de maneira a seguir o sentido rigoroso que a Ciência atribui a esses termos.
- B) em ambos os poemas, calor e temperatura são descritos como propriedades intrínsecas de um corpo ou sistema, da mesma maneira que a Física os descreve .
- C) a atribuição de calor como um estado ("parece estar calor") é contrário ao sentido físico desse conceito, que se refere à passagem de energia de um corpo para outro.
- D) falar da temperatura como uma característica do corpo é fisicamente incorreto, pois a temperatura se relaciona com a velocidade que um corpo esquenta ou esfria, não com seu estado atual.
- E) O verso "parece estar calor" evoca uma ideia certa e duradoura no primeiro poema, ao passo que "as coisas têm (...) temperatura" pode suscitar dúvida já que essa é um conceito relacionado com o grau de agitação médio dos corpos .
Alguns dos comentários possíveis sobre os itens dessa questão são:
A) Incorreta . Afinal, por muitas vezes os escritores se utilizam de conceitos científicos bem definidos para enriquecer suas obras e dar a elas outros sentidos, como uma aproximação com a conotação coloquial ou a serviço de um recurso estilístico na produção literária.
- B) Incorreta. Da interpretação do texto, tem-se que ambos os autores tratam calor e temperatura como propriedades que são próprias (intrínsecas) dos corpos , porém essa não é a visão da Física para o calor .
- C) Correta. Calor é energia em trânsito, desta forma não é entendida como uma característica peculiar de um corpo, mas sim uma grandeza que se transfere de um corpo para outro.
- D) Incorreta. Temperatura pode ser entendida como o grau de agitação das moléculas de um corpo, logo, é uma propriedade intrínseca que mede esse grau de agitação.
- E) Incorreta. Tanto a presença do "parece" como a opção do verbo estar, ao invés do ser, no primeiro poema, passam a ideia de dúvida e perenidade da descrição. No segundo poema, apesar de não parecer ser esse o objetivo dos versos, é uma interpretação válida que a Física pode incrementar ao sentido da poesia.
Assim, nota-se também a possibilidade de se trabalhar os aspectos levantados por Bernstein (2001), como a capacidade de observação, de evocação de imagens, de abstração, de estabelecimento de analogias e síntese. E de forma a respeitar a diversidade que um poema costumeiramente apresenta, sem fornecer leituras únicas e possibilidades restritas de interação entre a Ciência e a Arte.
Espera-se, com esses breves exemplos, mostrar como é possível estruturar, diante de um breve eixo teórico, atividades de resolução de problemas concatenando Física e Poesia. Muitos outros poemas são úteis a tal abordagem, inclusive é possível observar diferentes sugestões de poemas a serem trabalhados em Moreira (2002), Gouveia (2004), Carvalho e Zanetic (2005) , Kestler (2006) , Zanetic (2006), Barbosa-Lima (2008), Santos, Piassi e Vieira (2008) e Queiroz et al (2009) para pautar o trabalho do professor.
E já que se optou pela elaboração de atividades nos moldes das utilizadas no ENEM, uma importante sugestão para trabalhos futuros é justamente avaliar como o exame, sua matriz de competência e habilidades e os parâmetros curriculares nacionais que lhe dão embasamento trabalham com a questão de
Ciência e Arte. Também é de interesse da pesquisa da área realizar um levantamento de como os livros didáticos trabalham essa interação não só em seus exercícios mais ao longo de suas explanações.
Ainda são poucos os trabalhos que aplicaram e avaliaram a resposta dos alunos quanto a atividades dessa natureza (BARBOSA-LIMA, 2008; SANTOS; PIASSI; VIEIRA , 2008) . Embora os resultados até então sejam positivos , é preciso de mais investigações sobre as formas de se trabalhar Ciência e Arte em sala de aula, articulando teoria, metodologia e resultados. Nesse sentido, a proposta aqui apresentada se oferece como uma alternativa para o trabalho do professor r e um recurso para futuras investigações acadêmicas dessa natureza.
## Considerações Finais
A busca por um processo de ensino-aprendizagem mais adequado aos objetivos da educação, aqui entendidos como a construção de um cidadão crítico e consciente de seus direitos e deveres, é uma meta a ser sempre perseguida. Diante disso, argumenta-se ser possível trabalhar as conexões entre Ciência e Arte, mais especificamente entre Física e Poesia, afim de facilitar a aprendizagem e contribuir para uma visão mais completa do aluno quanto às formas de expressão humanas.
Os argumentos teóricos explanados se concentraram nos aspectos históricos e epistemológicos das duas áreas e nas implicações daí derivadas. Com isso, visa-se promover o debate entre as conexões existentes entre Ciência e Arte, bem como fornecer subsídios para a elaboração de diversas estratégias de utilização da Ciência e da Arte na sala de aula.
Algumas dessas possíveis estratégias foram citadas, mas, pela natureza do presente trabalho, somente uma foi desenvolvida: a resolução de problemas. A opção pela resolução de problemas se justifica pela sua relativa facilidade de elaboração e realização, uma vez que não exige mais tempo de aula do que a prática comum. Ainda que seja preciso um envolvimento do professor para a elaboração de tais atividades, tentou-se balizar esse trabalho com dois breves exemplos e sugestões de trabalhos que englobam outros poemas. Nesse sentido, questões discursivas podem ser de grande interessante, mesmo que aqui tenha se preferido um formato próximo ao Enem. E, além da discussão de conceitos específicos de Física, cabe explorar questões históricas e epistemológicas na resolução de problemas.
Porém, cabe ao professor conhecer sua sala de aula e avaliar momentos propícios para a realização de cada atividade. Afinal, nem todos gostam de ler poemas. Gostar tem estreita relação com a história de cada um e o conjunto de leituras anteriores e a maneira como elas ocorreram determinam em grande parte como será a interação do sujeito com o texto novo. Por isso também não se negligencia as outras formas de expressão artística como válidas para essa abordagem . Por vezes uma foto, uma música ou um filme pode se mostrar r bastante mais válido que uma poesia para atrair o interesse dos alunos.
Não se deve também tentar restringir, em especial no âmbito das artes, as interpretações dos alunos. Perguntas como "o que o poema quis dizer?", buscando arrancar de cada verso um significado único, numa leitura fria e fragmentada pode acabar r acaba encobrindo a beleza da poesia. Não é esse o objetivo apresentado, justamente porque normalmente não há somente uma leitura possível. E essa é
mais uma contribuição que a Ciência pode dar e receber da Literatura e da Arte em geral: fornecer mais uma forma de se olhar, de se perceber a produção humana.
Entretanto, entende-se que não há fórmulas mágicas ou receitas fáceis, pois cada proposta conta com o conjunto de idiossincrasias que envolvem o já complexo processo de ensino e aprendizagem. Mas se tal processo é resultado da compreensão cognitiva e criativa do que é observado , é possível investir em novas inspirações para, através do desenvolvimento de uma cultura literária e científica, contribuir para a formação de cidadãos com maiores possibilidades de construírem posturas críticas e autônomas diante do mundo que os cerca.
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