HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NOS LIVROS DE FÍSICA: UMA PROPOSTA DE CATEGORIZAÇÃO
Leonardo André Testoni
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 27/10/2010
- Linha de pesquisa
- - Ensino / Aprentizagem / Avaliação Em Física; Formação E Prática Profissional Do Professor De Física E Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NOS LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA: UMA PROPOSTA DE CATEGORIZAÇÃO
## THE COMICS IN SCHOOL PHYSICS BOOKS: A PROPOSE OF CATEGORIZATION
## Leonardo André Testoni 1
1 Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP)/ Colégio Agostiniano Mendel (SP), leotestoni@yahoo.com.br
## Resumo
As Histórias em Quadrinhos (HQ), juntamente com jornais, revistas e internet, representam um dos mais difundidos meios de comunicação de massa, alcançando, através de sua linguagem universal e formatação própria, uma influência considerável na formação cultural de seu público. Tendo em vista este "poder" persuasivo dos Quadrinhos e suas características de montagem , surge a indagação: Por que não utilizá-los como estratégia didática no ensino de Ciências, mais precisamente no ensino de Física? Afinal, estamos falando de um material com o qual o aluno já possui familiaridade, escrito obrigatoriamente de uma forma fácil e acessível (de caráter popular), com padrões lingüísticos que visam a catarse (queda do estresse por parte do leitor), com forte possibilidade de instigação ao desafio durante sua narrativa e ao estabelecimento de forte ligação com o cognitivo do leitor. Diante disso, o presente trabalho, baseado em estudos realizados anteriormente (TESTONI, 2000 , 2004 e 2005), busca, em um primeiro momento, divulgar a análise da inserção das Histórias em Quadrinhos nos principais materiais didáticos de circulação nacional utilizados pelos professores de Física. Em uma segunda etapa, foi realizada uma seleção das formas como as Histórias em Quadrinhos " acoplamse " nestes livros de caráter didático, categorizando-as de acordo com seu objetivo pedagógico, obtendo-se, desta forma, pelo menos quatro "funções didáticas" para as HQ: ilustrativa, motivadora, explicativa e instigadora. Esta classificação é de suma importância para a análise da influência da utilização de uma História em Quadrinhos em sala de aula, bem como o planejamento docente de atividades que envolvam este tipo de material.
Palavras - chave: Histórias em Quadrinhos, Lúdico, Categorização
## Abstract
Comic books (comics), together with newspapers, magazines and the Internet, represent one of the most pervasive means of mass communication, reaching through its universal language and format itself, a considerable influence on the
cultural background of your audience. In view of this "power" of Comics and persuasive characteristics of assembly, the question arises: Why not use them as teaching strategy in science teaching, specifically in the teaching of physics? We are talking of a material with which the student already has familiarity, necessarily written in an easy and accessible (popular character), with linguistic patterns that aim at catharsis (a decrease of stress by the reader) with a strong possibility instigation of the challenge during his narrative and to establish strong links with the cognitive reader. Thus, the present study, based on previous studies (TESTONI, 2000, 2004 and 2005), search, at first, consider the insertion of comics in the main materials in national circulation used by teachers of physics. In a second step, we performed a selection of shapes like the comic "mate" in these books, didactic, categorizing them according to their educational goal, obtaining in this way, at least four "to train students "for the HQ: illustrative, motivating, explaining and instigator. This classification is very important to analyze the influence of the use of a Comics in the classroom and the teacher in planning activities involving such materials.
Keywords: Comics, Playing, Categorization
## Introdução
O panorama geral do ensino de ciências no mundo parece estar seguindo para um crescente distanciamento entre o que o professor pretende ensinar e aquilo que, efetivamente, é assimilado pelo aluno. Segundo Carvrvalho (2009), poucos são os estudantes que realmente aprenderam em suas aulas de Física, Química ou Biologia; quando muito, conseguem uma vaga lembrança de um ou outro conceito visto, porém, sem conseguir aplicá-lo ou explicá-lo. Ainda segundo outras revisões já realizadas na literatura específica (CARVALHO, 2000, por exemplo), constata-se que a Física continua sendo ensinada de forma compartimentada e isolada, sem articulação com as demais áreas do conhecimento e ainda fortemente ligada ao método expositivo aliado ao mecanicismo matemático (CARMO, 2009), esquecendose da exploração dos fenômenos e levantamento das hipóteses, atividades tão importantes na construção dos conhecimentos científicos.
Diante deste quadro, a utilização de novas estratégias no ensino de ciências (atividades experimentais, vídeos, música, entre outros) vem se tornando um dos meios de se contornar a situação citada anteriormente, surgindo a questão: por que não utilizar a História em Quadrinho como estratégia no ensino de Física? Ou de um ponto de vista mais restrito: por que não utilizar o Quadrinho como meio de instigar o aluno a compreender um fenômeno físico? As HQ surgiram há milênios, desde quando as primeiras pinturas rupestres foram confeccionadas (PIZARRO, 2009) e posteriormente evoluíram com o surgimento do alfabeto fonético e o advento da imprensa, fato este que faz com que elas venham se tornando parte do cotidiano de várias gerações. Além deste caráter popular do Quadrinho, não podemos esquecer que, do ponto de vista pedagógico as Histórias em Quadrinhos apresentam uma série de fatores coerentes com seu uso didático (TESTONI, 2005) : a ludicidade, os fatores psico-linguísticos e, finalmente, seu aspecto cognitivo.
No tocante à vertente lúdica, a leitura de uma HQ se assemelha a um grande jogo (RAMOS, 1990 e 1997), possuindo suas duas principais características: a catarse e o desafio (neste caso, entendido como a vontade do leitor de chegar ao final da narrativa). Quanto ao aspecto psico-linguístico, Como é em grande parte humorística, com sistemas linguísticos próprios e apresenta regras pré-definidas
para sua leitura, ele não se priva de jogar com seus personagens, códigos e leitores, na busca de um equilíbrio entre arte e ludicidade (QUELLA-GUYOT, 1994). Ainda segundo QUELLA-GUYOT (op. cit.) e GUIMARÃES (2003) , a HQ é classificada como um sistema narrativo formado por códigos icônicos (imagens) e escritos (textos nos balões, por exemplo). Os dois sistemas envolvidos atuam em relação de complementaridade e, quando unidos de forma coerente, transformam o texto e a imagem, independentemente estáticos, em um sistema dinâmico e representativo da realidade, conseguindo, desta forma, uma inserção do leitor em sua narrativa. Juntamente com as características lúdicas e linguísticas, não menos importante é o conjunto de processos cognitivos que sua leitura permite ao leitor. A interpretação dos códigos mistos que permeiam a HQ exige, além da atenção, uma capacidade de análise, síntese, classificação, decisão e, é claro, imaginação. Assim, identificação e relação dinâmica do aluno com o enredo proposto pode ser uma das estratégias fundamentais deste instrumento, utilizando o Quadrinho como desencadeador de um processo de levantamento de hipóteses e argumentações acerca de um fenômeno natural.
Nesta perspectiva, a História em Quadrinhos tem o papel fundamental de inserir o leitor/aluno em situações similares àquelas enfrentadas pelos cientistas na análise de uma nova situação, o que nos leva a inferir que a HQ desempenha, também, forte função na inserção do discente na cultura científica, ou seja, causando a sua enculturação, termo que, segundo CARVALHO (2009), em sentido mais amplo , significa a apropriação de uma nova cultura, sem, entretanto, deixar de lado a cultura original; ele vêm em sentido contrário à aculturação, onde ocorreria a troca de uma cultura pela outra, não havendo resquícios da anterior quando do domínio da nova geração .
Diante deste quadro, este trabalho busca enfatizar, além da importância da aplicação de Histórias em Quadrinhos no ambiente escolar, esclarecer que estas podem apresentar objetivos pedagógicos diversos de acordo com sua narrativa e contexto de aplicação, culminando com a apresentação de uma proposta de categorização das HQ com conteúdo físico que permeiam os materiais didáticos, buscando organizar sua busca por parte do docente .
## A Análise das Obras
Como já inferido anteriormente, os Quadrinhos apresentam características lúdicas, lingüísticas e cognitivas que impulsionam sua utilização como estratégia no ensino de Física e Ciências (TESTONI, 2005), sendo freqüentes suas aparições nos livros didáticos desta área (PIZARRO, 2009) .
Ao analisar os principais materiais didáticos disponíveis no mercado atual, verifica -se que a grande maioria está buscando alternativas gráficas na abordagem de seus conteúdos -as arcaicas explanações teóricas são tomadas por ilustrações coloridas, humorísticas, modernas, que tentam chamar a atenção do leitor, buscando uma forma diferenciada de tratamento do conteúdo (LINSINGEN, 2007) .
Ao lermos um livro -texto de Física, por mais tradicional que seja, encontraremos ilustrações dos mais diversos tipos permeando suas páginas . Vale ressaltar que estes desenhos podem vir com os mais diversos objetivos, não sendo necessariamente Histórias em Quadrinhos.
Para se efetuar tal levantamento, foram analisados um conhecido livro didático de circulação nacional (Os Fundamentos da Física de Ramalho, Nicolau e Toledo), Os cadernos de Física elaborados pelo Grupo de Reelaboração do Ensino de Física da Universidade de São Paulo, uma obra paradidática denominada Introdução Ilustrada à Física (onde os conteúdos são abordados inteiramente na forma de Quadrinhos), além de HQ comercializadas no país ( A Turma da Mônica,de autoria de Maurício de Sousa), procurando, desta forma, abranger diferentes materiais produzidos na área, sendo listadas as quantidades de ilustrações do tipo "HQ propriamente dita com conteúdo físico", totalizando 95 narrativas encontradas, para então, dividi-las de acordo com as categorias pedagógicas. Apesar do lapso temporal existente entre a edição das obras analisadas e o momento atual, não se constataram alterações significativas em obras recentes no tocante à utilização ou criação de novas classificações das Histórias em Quadrinhos inseridas no material.
## A Categorização dos Quadrinhos
Um primeiro tipo de ilustração que é vista na maioria dos materiais didáticos, por mais tradicional que seja, é uma desenho puramente técnico, onde é elaborado um esquema artístico para representar o fenômeno previamente tratado.
Figura 1 - Ilustração puramente técnica (Ramalho, 1995)
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É possível também que uma ilustração técnica consiga retratar o mesmo fenômeno com uma pitada de humor, que apesar de semelhante, não é uma HQ propriamente dita, visto que não possui um enredo explicitamente elaborado e não utiliza recursos caracterizadores de um Quadrinho (sucessão de quadros e balões, por exemplo). Alguns autores (como QUELLA-GUYOTT, 1994, por exemplo) chamam este tipo de recurso de cartum.
Figura 2 - Ilustração Técnica com humor (GREF, 1998)
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Por fim, existem nos livros didáticos as Histórias em Quadrinhos propriamente ditas. Elas são caracterizadas, na sua maioria, pela existência do enredo humorístico explícito contado em quadros adjacentes e balões com as falas das personagens.
Figura 3 - HQ propriamente dita (GREF, 1998)
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Este trabalho restringe-se à análise deste último tipo de ilustração - as Histórias em Quadrinhos com enredos explícitos, nas quais são encontradas as famosas "tiras" e as HQ desenhadas em uma ou mais páginas. Para que fosse realizado este intuito, seria necessária uma leitura prévia de HQ que tratassem conteúdos físicos, para que assim fossem encontradas categorias classificatórias onde estes Quadrinhos seriam incorporados. Esta categorização das HQ tem como pano de fundo a verificação de seu objetivo pedagógico, ou seja, a forma com a qual o tratamento da Física é feito.
Vale enfatizar que a classificação de uma História em Quadrinho em uma das categorias a serem descritas abaixo deve levar em consideração a contextualização da mesma, ou seja, o uso que o autor previu para o Quadrinho. Assim, uma HQ que a priori i possua uma função de representar graficamente um fenômeno pode transformar -se em objeto de motivação ao aluno, de acordo com o tratamento e a posição cronológica em aula, onde ela for inserida .
## Caráter Ilustrativo
Neste tipo de categoria dos Quadrinhos, percebemos que sua principal função é representar de forma gráfica um fenômeno previamente estudado, tendo um objetivo puramente voltado ao papel de catarse das HQ, ou seja, após o tratamento de um determinado assunto, a História buscará representar a situação analisada com pitadas de bom humor, tentando dessa forma, descontrair o aluno e fazê -lo refletir sobre o tema abordado.
Este formato de Quadrinho é encontrado freqüentemente em livros didáticos tradicionais, nos quais o desenho sempre aparece depois de uma pesada discussão fenomenológica e matemática, sempre nos finais dos capítulos ou tópicos. Resumese a um preenchimento gráfico do espaço reservado ao fenômeno em questão, não possuindo, portanto, função pedagógica relevante.
Figura 4 - Caráter Ilustrativo (Ramalho, 1995)
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## Caráter Explicativo
A função explicativa busca representar um conjunto de Histórias em Quadrinhos que, através de um enredo, tentam explicar um fenômeno físico, abordando -o na forma de Quadrinho. Por tentar chegar a uma explanação didática a respeito do assunto, este tipo de HQ ocupa um espaço bem maior que as tiras e Quadrinhos pedagógicos tradicionais, o que faz com que seja pouco encontrada em livros -texto de Física.
A História em Quadrinhos, com cunho explicativo, é muito utilizada em campanhas publicitárias que almejam a conscientização de grandes massas em um curto intervalo de tempo. Como exemplo pode-se citar as edições que buscam informar a população (principalmente crianças e adolescentes) sobre temas vitais, tais como efeito estufa, economia de energia elétrica, a destruição da camada de ozônio, combate à dengue, entre outros.
No campo mais voltado ao ensino de Física, verifica-se uma não utilização deste tipo de HQ por parte do professor e no material didático de circulação nacional, devido ao trabalho que envolve a confecção deste formato de Quadrinho e sua não reciprocidade com os interesses das grandes editoras, que não vêem a
possibilidade da Física ser explicada através de desenhos bem-humorados, fugindo totalmente da diagramação padrão de um livro didático.
A riqueza deste formato de Quadrinho pode ser vista ainda dentro de uma sala de aula, fazendo com que os próprios alunos montem suas Histórias em Quadrinhos. Esta atividade exige, além de um desenvolvimento artístico e espacial por parte do discente, a necessidade de conhecimento do conteúdo abordado, para que este possa ser colocado no nível semiótico exigido por uma HQ.
Figura 5 - - Caráter Explicativo (Huffffman & Gonick, 1994)
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## Caráter Motivador
Neste formato classificatório, o Quadrinho é visto como um instrumento que, através de seu enredo, consegue motivar o aluno a se interessar e pesquisar sobre o tema tratado.
A temática deste tipo de HQ busca a utilização do próprio fenômeno físico no decorrer das ações das personagens, sem uma explicação prévia do mesmo (o que caracterizaria a categoria explicativa). Ao ler uma História em Quadrinho, já existe
uma pressuposição de tiradas humorísticas; ao se deparar com uma HQ que utiliza em seu enredo teorias ou termos específicos da Física, o leitor (se realmente quiser entender o sentido da História) virá a aprender ou pesquisar o fenômeno físico tratado, para assim compreender a situação humorística relatada no Quadrinho.
Devido ao seu formato e usos pedagógicos, esta categoria de Quadrinho costuma ser disposta no início do texto ou aula, visando desta forma, buscar uma maior motivação e envolvimento do aluno no estudo do assunto.
Figura 6 - Caráter Motivador (Jim Davis, 1994)
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## Caráter Instigador
Nesta categoria, a principal função do Quadrinho, no contexto didático é elaborar dentro do enredo, uma situação que instigue o aluno a pensar a respeito do assunto tratado.
- O processo de instigação ao aluno dar-se-ia através de uma questão elaborada claramente no decorrer da leitura da HQ relativa à discussão estabelecida pelo roteiro da mesma, fato, aliás, que diferencia este tipo de Quadrinho do caráter motivador.
Esta categoria tem sua posição deslocada para o início do tópico a ser tratado, tentando desta forma instigar o aluno com uma questão, que servirá de base para a discussão posterior do tema.
Figura 7 - Caráter Instigador (GREF, 1998)
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## Considerações Finais
O Quadrinho, devido ao seu sistema próprio de diagramação e formatação, apresenta peculiaridades psicolingüísticas pouco exploradas pelos outros meios de comunicação de massa. Ao unirmos de forma coerente um sistema icônico (desenhos) com um sistema de textos, ambos isoladamente estáticos, consegue-se obter um sistema dinâmico (QUELLA-GUYOT, 1994), no qual o leitor insere-se no enredo e no perfil das personagens, estabelecendo uma conexão positiva entre o indivíduo e o material lido, fator de fundamental importância para a utilização deste tipo de arte em um ambiente educacional.
Em uma vertente cognitivista, a História em Quadrinhos propicia em sua leitura o desenvolvimento de uma série de ações do sistema cognitivo - análise, interpretação, classificação, imaginação, entre outras. Por outro lado, tomando-se como base os Quadrinhos de caráter instigador, a proposição de um desafio no decorrer do enredo faz -nos remeter a uma proposta construtivista de ensino, na qual a colocação de uma situação-problema como fator desencadeador de uma discussão é fundamental (TESTONI, 2005).
Histórias em Quadrinhos, ainda devido as suas especificidades formativas , apresentam seu texto fácil, popular e dinâmico, permeado de ilustrações de fácil identificação e interpretação, o que não significa, necessariamente, que sua utilização, como estratégia didática, siga a mesma facilidade.
Conforme enfatiza, Kamel (2006) ,
(...) [se] evidenciou que, nas coleções de Ciências
Naturais, muito embora a linguagem dos quadrinhos esteja presente como estratégia de articulação entre atividade e conteúdo, essa articulação é fraca ou simplesmente não ocorre. Isso nos levou a pensar que, com freqüência, as estratégias e procedimentos de ensino que parecem provir da suposição ingênua sobre o que nós mesmos percebemos e inferimos das nossas percepções pode ser facilmente transmitido e compreendido pelos estudantes desconsidera a própria concepção construtivista de que, qualquer que seja o conhecimento, ele não é uma cópia da realidade .
.
Ainda na mesma linha, Pizarro (2009) esclarece que em todos os estudos apontados nesta comunicação, o papel do professor no trabalho de análise, triagem e uso desse material é fundamental para que os equívocos nele presentes não passem despercebidos pelos olhos atentos dos alunos e não tornem a visão da Ciência estereotipada e equivocada .
As categorias aqui estabelecidas (ilustrativa, explicativa, motivadora e instigadora) apontam para uma possibilidade de divisão dos objetivos educacionais que cada História em Quadrinhos pode carregar junto consigo ao ser utilizada no contexto escolar. Seja para representar comicamente um fenômeno físico, explanar ou divulgá-lo, inseri-lo em uma narrativa desenhada para motivar os leitores a buscar os elementos faltantes a sua compreensão ou propor um questionamento permeado no enredo, este trabalho busca transparecer a necessidade desta categorização pedagógica dos Quadrinhos que permeiam os livros didáticos de Física.
A divisão das HQ em categorias pedagógicas torna-se ponto fundamental (e inicial). Não se pode, no entanto, esquecer que a classificação de uma História em Quadrinhos de acordo com suas "funções didáticas" pode variar de acordo com o contexto de aplicação. Desta forma, este trabalho procura contribuir, através da classificação exposta, para que as possíveis atividades e articulações sejam cuidadosamente planejadas pelos docentes, afinal, deve-se lembrar que a facilidade de leitura que uma HQ propicia não significa ser esta, necessariamente, uma estratégia pedagógica tranqüila e de aplicação automática - enfatiza-se a necessidade de formação específica do professor - diante deste quadro, é sugerido que a utilização das Histórias em Quadrinhos seja trabalhada nos campos das formações inicial e continuada dos professores de Física e Ciências, procurando deixar -lhes claros os elementos das montagens dos Quadrinhos, bem como todos os seus potenciais elementos didáticos , intrínsecos a este meio de comunicação.
## Referências Bibliográficas
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KAMEL, C. R. L; LA ROCQUE, L. As histórias em quadrinhos como linguagem fomentadora de reflexões - - uma análise de coleções de livros didáticos de Ciências Naturais do Ensino Fundamental . Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências. Belo Horizonte -MG, v.6, n3, p. 59-76, 2006.
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RAMOS,E.M.F., Brinquedos e Jogos no Ensino de Física . 1990. Dissertação (Mestrado), IF, Universidade de. São Paulo, 1990.
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