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ASPECTOS VISUAIS EM LÍNGUAS DE SINAIS E A PERCEPÇÃO CIENTÍFICA: UM CASO NA ASTRONOMIA

Vanessa Cristina S. Ferreira, Paulo Simeão Carvalho, Jorge Pinto, César Casa Nova, Bruno Mendes, Orquídea Coelho

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XXIII
Ano
2019
Data
28/01/2019
Linha de pesquisa
Tecnologias Da Informação E Comunicação No Ensino De Física
Tipo
Pôster

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Texto completo

## ASPECTOS VISUAIS EM LÍNGUAS DE SINAIS E A PERCEPÇÃO CIENTÍFICA: UM CASO NA ASTRONOMIA

Vanessa Cristina S. Ferreira 1 , Paulo Simeão Carvalho 2 , Jorge Pinto 3 , César Casa Nova 4 , Bruno Mendes 5 , Orquídea Coelho 5

- 1 Departamento de Física, UFRRJ/PET Física, tr.vanessa.ferreira@gmail.com

- 3 Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico do Porto, Portugal, jpinto@ese.ipp.pt

## Resumo

Muitas das dificuldades encontradas no ensino de ciências, em particular quando temos alunos surdos, é agravada com a ausência de sinais em áreas de conhecimento específicas, como por exemplo na Física. Atendendo a esta lacuna, se correlacionarmos ciências e língua de sinais de maneira adequada, a qualidade do ensino pode melhorar de maneira significativa e aumentar o nível de compreensão científica da Física para estes alunos; neste caso em particular analisaremos esta relação num tópico particular da Astronomia.

Para essa correlação ser eficiente, ela deve ser feita de forma consciente e não por necessidade comunicacional, levando em consideração que além de se respeitar os conceitos científicos, não se pode de forma alguma desconsiderar durante este processo a influência da cultura surda na percepção do indivíduo e também a linguística relativa à língua de sinais que se pretende trabalhar. Somente assim será possível garantir a equidade no acesso à informação científica de forma adequada por alunos surdos, garantindo que concepções errôneas não sejam perpetuadas.

Palavras-chave : Astronomia, Línguas de sinais, ensino de física, signo visual.

## Introdução

São inúmeras as dificuldades encontradas atualmente em sala de aula no ensino e aprendizagem das Ciências, sobretudo devido à complexidade dos conceitos específicos. Estas dificuldades podem ser ainda maiores quando se trata de ensino de Física para surdos. Infelizmente, ainda não dispomos atualmente de condições satisfatórias, para que esse processo ocorra com equidade de acesso às informações que são passadas em sala de aula.

Um dos fatores de grande importância no processo de ensino e aprendizagem é a presença de intérprete de língua de sinais em sala de aula, garantindo que o aluno acompanhe as aulas em sua própria língua. Em Portugal, a realidade desta presença em sala de aula é algo diferente da existente no Brasil, pois há escolas com intérpretes e também especializadas na educação de surdos.

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Assim e apesar de ainda não ser o ideal, existe uma mediação da comunicação entre professores e alunos em Portugal, enquanto no Brasil, infelizmente, ainda é uma raridade ter escolas que garantam este direito aos aluno surdos.

Mas para além dessa comunicação, outro fator de extrema importância na aprendizagem são os signos visuais utilizados nessa comunicação. Efetivamente, a presença de um mediador como o intérprete acaba por se tornar insuficiente, tanto pela falta de representações para alguns conceitos científicos quanto pela utilização de sinais inadequados devido à polissemia de algumas palavras.

A Física utiliza palavras que para o senso comum possuem um significado completamente diferente daquele quando utilizadas em um contexto científico, o que pode gerar mais concepções errôneas tanto para os alunos surdos quanto para os ouvintes (FERREIRA, 2016). Sinais jamais devem ser pensados como meros mediadores de comunicação, pois isto caracterizaria tanto um desrespeito à língua de sinais como ao próprio ensino de ciências.

## Visualidade

São vários os elementos que compõem a visualidade das línguas de sinais, quer seja a brasileira, a portuguesa ou tantas outras. Estes elementos caracterizam os sinais pertencentes a estas línguas e são classificados como transferências visuais: - de tamanhos e formas, - espaciais, - de localização, - de movimentos e - de incorporação, que se emaranham nos discursos e representações visuais (CAMPELLO, 2007). Estas representações trazem tipos variados de iconicidades associados aquilo que se deseja representar. Como já nomeadas pelas classificações, podem aproveitar tanto as características físicas de formato como até mesmo a movimentação descrita pelo objeto em situações específicas.

Algumas representações visuais são tão significantes para ouvintes quanto para surdos e acabam por ser facilmente entendidas, independentemente de haver conhecimento de uma língua de sinais ou não. Contudo, há diferenças e ainda que usualmente a comunidade ouvinte destaque certas características dentro de um contexto científico, a percepção diferenciada dos surdos deve ser respeitada e considerada.

## O Signo Visual

A percepção visual do surdo acaba por se diferenciar da do ouvinte, já que a visão se torna o principal canal de obtenção de informação do surdo, e a audição, para a maioria deles, nunca fez parte de sua história. Sua comunicação se dá de forma visuoespacial, 'falando' com as mãos e 'ouvindo' com os olhos, onde muitas das vezes o próprio sinal traz consigo seu significado, algo que não acontece em línguas orais. E é por isso que qualquer erro conceitual em um gesto utilizado por adultos será inserido no vocabulário de crianças surdas muito antes destas começarem a estudar formalmente estes conceitos, originando a perpetuação de erros e dificultando a aprendizagem de ciências no futuro. Estas influências devem ser tomadas em contas pelos professores destes alunos. De acordo com Rosa e

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Luchi em seu estudo sobre 'Semiótica Imagética: A Importância Da Imagem Na Aprendizagem' , uma análise feita sobre a pesquisa realizada permite-lhes afirmar que:

[...] Neste relato pudemos constatar que professores de surdos mais qualificados para atuação docente devem ser surdos ou ouvintes muito bem inseridos na comunidade para compreenderem as diversas interfaces visuais desta língua. (ROSA & LUCHI, 2010)

Sendo assim, ensinar um aluno surdo vai muito além de ter um intérprete em sala de aula e de haver alguns sinais como facilitadores comunicacionais.

Para haver uma harmonia entre significado e significante, tornando o signo visual conceitualmente adequado, é então necessário que estes neologismos científicos sejam pensados em conjunto por profissionais que dominem a área científica de conhecimento e por profissionais que dominem a língua gestual.

## Significado e significante em um caso da Astronomia

Começamos a nossa análise pela área da Astronomia, especificamente pelos planetas de nosso sistema solar. A lista abaixo indicada designa os diferentes planetas e contém uma explicação simplificada de como o sinal era inicialmente feito.

- · Mercúrio 'planeta' + 'ferro'
- · Vênus Não havia
- · Terra 'planeta' + 'terra'
- · Marte 'planeta' + 'vermelho'
- · Júpiter 'planeta' + 'Maior'
- · Saturno 'planeta' + 'anéis ao redor'
- · Urano Não havia
- · Netuno 'planeta' + 'contorno olho', ou, 'planeta' + 'azul'

Seguindo a ordem dos planetas, começamos por analisar a representação escolhida para o planeta Mercúrio (figura 1). Seu sinal fazia referência ao ferro presente em seu núcleo e por isso era referido pela combinação dos sinais de planeta e ferro . Contudo, esta não é uma característica marcante deste planeta, pois aquela percebida como mais forte foi sua proximidade com o Sol, que o torna um planeta extremamente seco. Por essa razão, a sugestão criada para sinalizar Mercúrio foi a combinação de planeta e seco .

Em seguida havia o planeta Vênus, mas este não possuía nenhum sinal catalogado. Analisando suas características mais conhecidas, foi considerado o fato deste ser extremamente brilhante e observável a olho nu, além do fato de visualmente ter uma tonalidade suave e homogénea devido à existência de nuvens densas que rodeiam o planeta (figura 2). Então, a sugestão de sinal criada foi a combinação de planeta e nuvem suave .

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Figura 4: Planeta Marte (fonte: Wikipédia)

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Figura 1: Planeta Mercúrio (fonte: Wikipédia)

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Figura 2: Planeta Vênus (fonte: Wikipédia)

Para o planeta Terra (figura 3), o sinal primitivo fazia referência à terra, porém esta não é uma característica exclusiva ou mais marcante deste planeta. Como é o planeta em que vivemos e também é conhecido como o planeta azul devido à cor observada da atmosfera que o envolve, essas duas características foram tidas em consideração, mas a referência ao azul acabou por gerar um conflito que será explicado posteriormente.

- O sinal do planeta Marte já estava com uma correlação correta, pois usualmente nos referimos ao mesmo como planeta vermelho porque é essa a cor dominante com que ele é observado através dos telescópios (figura 4). Por essa razão, nenhuma modificação foi necessária.

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Figura 3: Planeta Terra (fonte: Wikipédia)

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Usualmente percebemos a tempestade vermelha de Júpiter como algo marcante, tanto por suas dimensões quanto visualmente se destacando do padrão visual dos ventos de Júpiter, mas por exemplo para os surdos Portugueses esta não é a característica mais marcante do planeta. Na verdade, algo que usualmente não notamos tanto, como a tempestade azul de Netuno, destaca-se notoriamente para os surdos devido às características deste planeta: visualmente, é mais marcante o formato da mancha em um planeta Netuno todo azul sem muitas cambiantes de cor, do que a mancha vermelha de Júpiter que se perde no meio de tantas informações coloridas (figuras 5 e 6). Sendo assim manteve-se um dos sinais que já havia para Netuno, a saber, a combinação de planeta e um sinal utilizando o dedo indicador e polegar para desenhar um contorno ao redor do olho direito . Para Júpiter já havia um sinal fazendo referência ao seu tamanho, a combinação de planeta e maior , mas para não descartar a referência da tempestade vermelha foi sugerido um sinal para

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Júpiter fazendo referência à mancha vermelha seguindo o padrão usado, combinando planeta e com a mão esquerda fazendo referência aos ventos e a direita à tempestade .

Figura 5: Júpiter e sua mancha vermelha (fonte: Wikipédia)

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Figura 6: Netuno e a mancha azul (fonte: Wikipédia)

Este exemplo deixa evidente que devemos, então, dar uma atenção especial à forma com que certos conteúdos são transmitidos às classes mais básicas do ensino, pois assim como para alunos ouvintes esta pode gerar muitas concepções errôneas, também no ensino de surdos as concepções errôneas ficam registradas em forma de sinais, gerando confusões difíceis de corrigir.

Em particular, há que evitar designações que ponham em conflito o entendimento que surdos e ouvintes possam ter sobre o mesmo conteúdo. Por exemplo, a expressão 'Planeta azul' não pode significar o planeta Terra (figura 3) para alunos ouvintes e o planeta Netuno (figura 6) para alunos surdos, pois gera um grande conflito conceitual a longo prazo. Por essa razão, foi proposto abandonar o sinal de planeta azul para Netuno.

- O planeta Saturno já fazia, em seu sinal, referência aos seus anéis (figura 7), sua característica mais evidente e por isso, a única sugestão dada foi utilizar as duas mãos com a mesma configuração de mão para designar os anéis ao invés de somente uma ao redor do sinal de planeta.
- O planeta Urano (figura 8) não possuía qualquer sinal catalogado e por isso foi sugerido um sinal que fizesse referência ao fato deste ter um eixo de rotação quase horizontal, bastante diferenciado de todos os outros planetas do sistema solar. A sugestão foi planeta e o sinal de planeta com o eixo de rotação modificado.

Figura 7: Planeta Saturno (fonte: Wikipédia)

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Figura 8: Planeta Urano (fonte: Wikipédia)

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Ao fim da análise realizada com surdos portugueses, com instrução ao nível universitário, as designações propostas para os planetas do sistema solar em LGP, e que serão incorporadas na plataforma Spreadthesign (ESLC, 2018), são:

- · Mercúrio 'planeta' + 'seco'
- · Vênus 'planeta' + 'nuvens suave'
- · Terra 'planeta' + 'onde vivemos', ou, 'planeta' + 'azul'
- · Marte 'planeta' + 'vermelho'
- · Júpiter 'planeta' + 'mancha(d) e ventos (e)', ou, 'planeta' + 'maior'.
- · Saturno 'planeta' + 'anéis ao redor do planeta', ou, 'planeta' + 'anéis (d+e)'
- · Urano 'planeta' + 'rotação inclinada'
- · Netuno 'planeta' + 'contorno olho'

## Conclusão

Na área das ciências físicas e em particular na Física, há ainda um longo trabalho a percorrer no sentido de clarificar uma sinalética para alunos surdos que represente conceitos físicos com o mesmo rigor com que estes são definidos para alunos ouvintes. A problemática que aqui se expôs traduz um trabalho que está a ser feito com surdos portugueses na área da Astronomia, no sentido de unificar o ensino e aprendizagem de surdos e ouvintes, sendo parte de um projeto de criação de sinais para conceitos em Física.

## Referências

CAMPELLO, A. R. Aspectos da visualidade na educação de surdos. 2007. Tese de doutorado. Universidade Federal de São Carlos, Florianópolis. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/91182. Acedido em: 21 de julho de 2018.

ROSA, E.F.; LUCHI, M. Semiótica Imagética: A Importância Da Imagem Na Aprendizagem. Anais do IX Encontro do CELSUL, Palhoça, SC, out. 2010. Universidade do Sul de Santa Catarina. Disponível em: http://docplayer.com.br/22009249-Semiotica-imagetica-a-importancia-da-imagemna-aprendizagem.html. Acedido em: 22 de julho de 2018.

FERREIRA, V. C. S., SANTOS, W. C., CRUZ, F. A. O.. A Libras no ensino de física. III SEF. 2016. Disponível em: https://issuu.com/ndpis/docs/anais-sinais\_em\_foco. Acedido em: 22 de julho de 2018.

ESLC - European Sign Language Centre, Spreadthesign . 2018. Disponível em: https://www.spreadthesign.com/pt.pt/search/ . Acedido em: 22 de julho de 2018.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.