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Abordagem do Aquecimento Global em Livros Didáticos de Física do Ensino Médio

Almir Guedes Dos Santos, Fernando De Souza Barros

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XII
Ano
2010
Data
26/10/2010
Linha de pesquisa
Tecnologia Da Informação E Comunicação E O Ensino De Física / Ciências, Tecnologia, Sociedade E Ambiente E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## ABORDAGEM DO AQUECIMENTO GLOBAL EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA DO ENSINO MÉDIO

## ADRESSING GLOBAL WARMING IN HIGH-SCHOOL TEXTBOOKS OF PHYSICS

Almir Guedes dos Santos ¹, Fernando de Souza Barros ²

¹ UFRJ / Instituto de Física / Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física / Colégio Estadual Marechal João Baptista de Mattos, almirgds\_if @ yahoo.com.br

² UFRJ / Instituto de Física, fsbarros @ if.ufrj.br

## Resumo

Há 20 anos, o texto Global Warming - The Greenpeace Report foi reconhecido como uma das melhores análises do relatório da comissão IPCC Intergovernmental Panel on Climate Change, evidenciando a ausência de comentários críticos nos documentos de especialistas do clima convocados pelas nações unidas. Entre as omissões, estaria a não explicitação de medidas necessárias para mitigar possíveis ocorrências catastróficas, previstas por ambientalistas mundialmente respeitados. Em 2007, uma nova análise da comissão IPCC atualizou as previsões de 1990, sendo dada atenção especial às análises das tendências climáticas divulgadas pelas nações unidas. No presente trabalho, fizemos uma análise comparativa das abordagens realizadas em livros didáticos de física do ensino médio sobre a questão do aquecimento global. Pesquisamos se a abordagem tinha um caráter opinativo ou factual e se os autores evidenciaram uma preocupação sobre os efeitos ambientais, conseqüências previstas nas projeções atuais de um aquecimento global. Identificamos entre os principais resultados desta análise: o caráter acessório deste fenômeno; um tratamento superficial dos conceitos físicos relevantes para a compreensão do fenômeno; uma indiferença às previsões apontadas por comissões de especialistas climáticos; e a ausência de propostas práticas para comunidades que habitam zonas de risco nos grandes centros urbanos brasileiros. Salientamos nesta pesquisa a relevância do livro didático como fonte de informações sobre assuntos multidisciplinares e seu papel como recurso para formação continuada de professores. Entendemos que o desconhecimento das questões climáticas explica, em parte, a ausência de iniciativas práticas por governantes e das próprias comunidades, que contribuiriam para atenuar os efeitos das flutuações climáticas previstas para a primeira metade do século XXI. Neste contexto, o aquecimento global e suas conseqüências deveriam representar assuntos fundamentais na educação formal.

Palavras-chave: ensino de Física, aquecimento global, livro didático, CTS.

## Abstract

For 20 years, the text Global Warming - The Greenpeace Report was recognized as one of the best reviews the committee's report - IPCC Intergovernmental Panel on Climate Change, showing the absence of critical comments on the documents of climate experts convened by the United Nations. Among the omissions, would be no explicit measures to mitigate potential catastrophic events, provided by respected environmentalists worldwide. In 2007, a new analysis of the IPCC committee updated forecasts of 1990, with special attention to analysis of climate trends released by the united nations. In this study, we did a comparative analysis of approaches employed in physics textbooks high school on the issue of global warming. Researched whether the approach had a particular viewpoint or factual and if the authors demonstrated a concern about the environmental effects predicted consequences on current projections of f global warming. Identified among the main results of this analysis: the accessory character of this phenomenon, a superficial treatment of the physical concepts relevant to understanding the phenomenon, an indifference to the estimates appointed by committee of weather experts and the absence of practical suggestions for communities living in areas at risk in large Brazilian cities. We emphasize in this research the relevance of textbook as a source of information on multidisciplinaries matters and its role as a resource for continuing education of teachers. We understand that ignorance of the climate issues partly explains the lack of practical initiatives by governments and communities themselves, which would help mitigate the effects of climate fluctuations planned for first half of the century. In this context, global warming and its consequences should represent key issues in formal education.

Keywords: physics education, global warming, textbook, STS.

## Introdução

Há 20 anos, o texto "Global Warming - The Greenpeace Report" foi reconhecido como uma das melhores análises do relatório da comissão IPCC Intergovernmental Panel on Climate Change (LEGGETT, 1990), evidenciando a ausência de comentários críticos no documento do IPCC. Entre as omissões, estaria a não explicitação de medidas necessárias para mitigar possíveis ocorrências catastróficas, previstas por ambientalistas mundialmente respeitados. Em 2007, uma nova análise da comissão IPCC atualizou as previsões de 1990 (IPCC, 2007). As comissões IPCC são formadas por ambientalistas, representantes governamentais e cientistas. Esta composição reflete uma diretriz das Nações Unidas de que seus documentos devam conter posicionamentos que sejam os mais universais possíveis. De acordo com as análises críticas do primeiro relatório do IPCC (Leggett, 1990, p.1), "...o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC) falhou na sua responsabilidade do que foi o mais importante processo de consulta sobre o futuro climático do nosso planeta. [nossa tradução livre]".

A análise do Greenpeace explicitou os diversos aspectos necessários para mitigar as previsões catastróficas da mudança climática: uma preferência por matrizes energéticas mais limpas; a regulamentação do uso das florestas; a reformulação do paradigma industrial em sua relação com o meio ambiente; e

uma ação educativa para mudar o comportamento de comunidades carentes, atualmente de indiferença, face aos efeitos colaterais do aquecimento global sobre zonas urbanas de risco.

Após 20 anos da publicação do relatório Greenpeace sobre aquecimento global, complementado pelo último relatório IPCC, a população brasileira já convive com algumas das conseqüências previstas nestes documentos. A população de baixa renda que habita as zonas de risco além de ser a que mais sofre com tais conseqüências, é a que menos possui conhecimentos sobre as questões climáticas. Os lamentáveis acontecimentos sócio-ambientais poderiam ter sido amenizados se estas populações tivessem a oportunidade de compreender a importância do respeito ao meio ambiente, face aos agravamentos das presentes flutuações climáticas. Os representantes políticos diretos destas populações precisariam igualmente mobilizar-se mais sobre as conseqüências destes eventos naturais, exigindo do estado medidas organizadas e preventivas em relação às mesmas.

Neste sentido, considerando que as crianças e jovens têm sido os principais personagens na divulgação e implementação de campanhas de mobilização nacional, como contra o fumo e a favor das vacinações (por exemplo, H1N1), defendemos a apresentação da dependência do homem a natureza desde o ensino fundamental, aprofundando a abordagem no ensino médio. O levantamento estatístico internacional PISA (OECD, 2006) demonstra que o Brasil ainda não implementou programas nacionais no ensino de ciências da natureza, os quais necessitam maior atenção dos governos, professores e organizações não-governamentais.

Ao considerarem a necessidade de abordagem das questões ambientais na educação formal, Sousa e Kawamura (2006, p.1) destacam que:

...enfrentar esse problema tem sido a preocupação central da educação ambiental, ainda que existam muitos e diferentes significados sob essa denominação geral. E como a questão do ambiente é necessariamente interdisciplinar, encontrar o espaço para a participação do ensino de física nesse contexto parece indispensável.

Na verdade, a centralidade das diversas questões ambientais é tão relevante que deveria ser uma meta do processo educacional formal. Segundo Ross (1991, p.175), "dado o aumento atual de preocupação pública sobre problemas ambientais, professores de todas as disciplinas e em todos os níveis de ensino podem esperar que tais questões aumentem em suas aulas... [tradução nossa]".

Nesse cenário, diversos trabalhos buscam aproximar o ensino de física das inúmeras questões ambientais inerentes ao nosso cotidiano, tal como fizeram Monin e Yu A Shishkov (2000) e Ross (1991) com o aquecimento global. Tentativas de associação entre poluição do meio ambiente e atividade industrial já foram propostas na literatura nacional, como destaca Landulfo (2005, p.59): "...com a Revolução Industrial, a geração de energia a partir da queima de carvão tornou-se a fonte primordial, e não demorou muito para que

as preocupações com o meio ambiente e saúde pública se fizessem presentes.[...]"

Neste contexto, a presente pesquisa surge da percepção de que o livro didático, um dos mais importantes materiais de formação continuada dos professores do ensino médio, precisa ser estudado e analisado no intuito de estabelecer aproximações entre o ensino de física e os problemas ambientais contemporâneos. Dessa forma, será pesquisada e sistematizada a abordagem do fenômeno aquecimento global nos livros didáticos de física do ensino médio.

## Trabalhos com Ênfase Teórica

Apple (apud HOSOUME, MARTINS e JUNIOR, 2007, p.2) aponta que "são os livros didáticos que estabelecem grande parte das condições materiais para o ensino e a aprendizagem nas salas de aulas de muitos países do mundo". De acordo com Lajolo (ibid), a relevância deste recurso didático "aumenta ainda mais em países como Brasil, onde uma precaríssima situação educacional faz com que ele acabe determinando conteúdos e condicionando estratégias de ensino, marcando, pois, de forma decisiva, o que se ensina e como se ensina o que se ensina".

Moreira e Axt (1986, p.34) destacam que "o livro como recurso didático adquire importância crescente em um sistema de ensino massificado para o qual é preciso assegurar um mínimo de qualidade". Já segundo Lobato et al. (2009, p.1), "pela disponibilidade e/ou facilidade de acesso ao livro didático, percebe-se que os conteúdos selecionados pelos autores acabam sendo, em muitos casos, os mesmos conteúdos que o professor desenvolve em sala de aula. [...]".

Embora existam meios eletrônicos para o acesso aos conteúdos escolares, o livro didático deve continuar a ter um papel relevante na educação formal. Trata-se de um recurso didático muito valioso para uma parcela significativa dos professores. Ademais, outro aspecto de relevância no tocante aos livros didáticos é o seu caráter de instrumento de formação continuada dos docentes, tal como salienta Moreira e Axt (1986, p.34): "[...] com freqüência, o livro tem servido também para complementar, fora da universidade, a formação deficiente do próprio professor e mantê-lo atualizado[...]".

Aliando o papel dos livros didáticos à necessidade de formação de cidadãos capazes de lidar r com questões futuras, envolvendo as temáticas ambientais, decidimos analisar comparativamente a abordagem do aquecimento global de uma amostra de livros didáticos do ensino médio. Esta opção nos remete à Gouvêa (2008, p.12), que afirma que

O livro didático como objeto cultural é a expressão da enunciação dos autores, social e historicamente datada e é apropriado por professores e estudantes nas práticas das aulas de física, nesse sentido, torna-se o documento de uma época e da história da disciplina escolar física, constituindo-se em um objeto cultural do seu tempo.

Neste contexto, os livros didáticos deveriam ser planejados em consonância com as questões inerentes à época e ao ambiente social no qual se situam, transformando-se em um instrumento didático relevante no processo educacional que abarcam múltiplos e variados elementos sócio-científicos. No contexto da sociedade contemporânea, que vivencia problemáticas ambientais significativas, há necessidade de aprimorar essa compreensão científica através dos livros didáticos - particularmente os das ciências naturais.

Identificamos na literatura autores que analisaram materiais disponíveis sobre o aquecimento global, como, Xavier e Kerr (2004), cujos objetos de estudo de sua pesquisa incluíram textos para-didáticos e periódicos jornalísticos, nos quais buscou identificar r e analisar o tratamento dado ao efeito estufa. Lobato et al. (2009) desenvolveram no contexto do ensino de química um estudo que se alinha com a proposta da presente pesquisa, já que também buscou identificar e sistematizar o tratamento e o aprofundamento dado ao tema do efeito estufa.

Neste contexto, pretendemos no presente pesquisa apresentar os resultados de uma análise comparativa da abordagem do aquecimento global de livros didáticos de física do ensino médio, que envolve tanto o caráter do enfoque - opinativo ou analítico - quanto as preocupações sócio-ambientais sobre as projeções das conseqüências do fenômeno. Dessa forma, esperamos contribuir não somente com o avanço das pesquisas em educação em ciências sobre as temáticas ambientais, mas também fornecer subsídios aos professores de física para desenvolverem atividades com tais questões.

## Aspectos da Legislação Educacional

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece no seu artigo 2º que

A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL, 2003, p.27).

Entendemos que o pleno desenvolvimento do educando presente na LDB somente ocorrerá se forem estudados, discutidos e compreendidos aspectos relacionados às problemáticas que afetam diretamente a vida das pessoas, que no contexto deste trabalho envolve as temáticas ambientais, em particular, o Aquecimento Global. Desse modo, os educandos poderão tomar parte nas discussões e reflexões promovidas pelas pessoas, na televisão, nos jornais, entre outros, e atuar concreta e conscientemente frente a essas questões, independente de qual seja a sua escolha, exercendo, então, a cidadania.

Os PCN's concebem os conhecimentos de física como fundamentais na formação da cidadania dos indivíduos na contemporaneidade, no intuito de tornar estes saberes inerentes à cultura das pessoas, permitindo-as perceberem-se como partes integrantes e responsáveis da natureza. Neste sentido, Lemke (2006, p.6) ressalta que "...as metas de educação científica

devem ser formuladas dentro do contexto de nossas metas mais amplas para a educação em geral e de nossa definição daquilo que contribui para uma melhor sociedade e uma vida melhor para todas as pessoas..." [tradução nossa].

- O documento das orientações educacionais complementares aos parâmetros curriculares nacionais apresenta a necessidade de ser deslocado o foco do processo educacional de "o que ensinar de Física" para "para que ensinar Física", de modo que (BRASIL, 2002, p.61)

...quando se toma como referência o "para que" ensinar Física, supõe-se que se esteja preparando o jovem para ser capaz de lidar com situações reais, crises de energia, problemas ambientais, manuais de aparelhos, concepções de universo, exames médicos, notícias de jornal, e assim por diante.

- O documento aponta que a preparação dos estudantes requer que sejam desenvolvidas na educação formal, particularmente no ensino médio, competências que os permitam saber lidar no seu cotidiano, com situações que requerem formação com objetividade científica. Considerando a temática do presente trabalho, as competências relacionadas à investigação e compreensão em física no tocante à ciência e tecnologia, ética e cidadania merecem destaque, já que apontam como competências (BRASIL, 2002, p.68)

Promover situações que contribuam para a melhoria das condições de vida da cidade onde vive ou da preservação responsável do ambiente [...]; e reconhecer que, se de um lado a tecnologia melhora a qualidade de vida do homem, do outro ela pode trazer efeitos que precisam ser ponderados quanto a um posicionamento responsável [...]; e reconhecer, em situações concretas, a relação entre Física e ética [...].

As temáticas ambientais se alinham, no contexto da pesquisa em educação em ciências (PEC), com a proposta de ensino CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade). Trata-se da conscientização dos estudantes para analisarem e tratarem criticamente os vários desafios presentes numa sociedade moderna, pretendendo desmistificar os aspectos subjacentes às relações entre ciência, tecnologia e sociedade, incluindo-se como parte desta sociedade o próprio meio ambiente (AULER e DELIZOICOV, 2001).

Quanto aos documentos da atual legislação educacional brasileira do ponto de vista da PEC, Santos e Mortimer (2002, p.5) destacam que "...a atual reforma curricular do ensino médio incorpora, em seus objetivos e fundamentos, elementos dos currículos com ênfase em CTS." Tal aspecto pode ser verificado, por exemplo, considerando que as competências sugeridas para serem desenvolvidas ou ampliadas no ensino médio em física (BRASIL, 2002) estão alinhadas com a proposta de ensino do enfoque CTS, tendo em vista que uma das preocupações centrais seria justamente a compreensão das possíveis relações entre ciência, tecnologia, sociedade e meio ambiente. Neste cenário, as temáticas ambientais - aquecimento global, fontes de energia renovável, água, entre outros - podem desempenhar eixos norteadores de discussões e

reflexões de extrema relevância na educação formal, dada a gama variada de aspectos envolvidos com tais questões.

Embora tenhamos expectativas promissoras no que diz respeito à inserção das temáticas ambientais nas aulas de física do ensino médio, devemos levar em conta diversos fatores pertinentes e que podem dificultar tal proposta de abordagem de ensino, a saber: a realidade social dos estudantes, a formação deficiente dos professores e o interesse de professores e estudantes pela preservação ambiental.

## Metodologia e Resultados

As principais fontes de livros didáticos de física do ensino médio para desenvolver a etapa inicial da presente pesquisa foram as obras do programa nacional do livro para o ensino médio - PNLEM - presentes na portaria nº 366, de 31 de janeiro de 2006, publicada na edição número 23 do diário oficial de união, em 01/02/2006 pelo diário oficial de união, além de livros de uso pessoal de um dos autores e de alguns colegas de profissão do mesmo. A seqüência deste trabalho consistirá na consulta a obras diversas encontradas em bibliotecas públicas e livrarias, tornando-o mais abrangente e fidedigno.

Dessa forma, a análise atual envolveu 14 livros didáticos de física do ensino médio adotados em escolas públicas e privadas do estado do Rio de Janeiro. Trata-se de uma amostragem que demonstrou ser suficiente para a elaboração da presente pesquisa.

A análise deste conjunto de livros didáticos de física do ensino médio está resumida na tabela abaixo. Os livros consultados são identificados por letras: A, B, C, etc. Destacamos que a classificação da tabela foi feita aproveitando os conhecimentos conceituais mais rigorosos dos autores sobre o fenômeno em estudo, como decorrência de suas atividades profissionais cotidianas e do envolvimento dos mesmos em um projeto de pesquisa de pósgraduação vinculado ao tema.

Tabela 1: Informações levantadas dos livros consultados.

Legenda: Caracterizamos esta apreciação em quatro categorias: enfoques opinativo ou analítico; e ausência ou presença das questões sócio-ambientais. A categoria analítico engloba os textos que abordam aspectos objetivos ou quantitativos do fenômeno. Por opinativo é entendido a * ausência de evidências que apóiam as afirmativas dos textos. * A contagem de páginas abrange todos os volumes das séries, quando for o caso.

Na análise de estimativa, verificamos que um parágrafo corresponde a algo da ordem de 12,5% de uma página, de modo que os valores obtidos (ver tabela 1) não forneceriam uma média representativa da pesquisa. Logo, devido à grande dispersão em tamanho dos textos encontrados nos livros didáticos do ensino médio, consideramos mais expressivo montar uma tabela.

As características mais evidentes desta análise preliminar foram as seguintes:

- 1. A grande maioria dos textos (71%) aborda a questão das mudanças climáticas diretamente ou apenas mencionam o efeito estufa (dois fenômenos distintos);
- 2. Deste primeiro conjunto, 90% deles têm uma abordagem superficial¹ ; por exemplo, não se referem ao fato de que são apenas previsões com base em tendências climáticas, como aponta o relatório do IPCC;
- 3. Apenas 30% desta amostragem realizam uma análise compreensível do tema numa linguagem apropriada para os alunos do ensino médio;
- 4. Nenhum dos livros apresenta uma análise quantitativa sobre as previsões do IPCC;
- 5. Verificamos que uma pequena fração (20%) preocupa-se em fornecer subsídios aos professores para preparação de suas aulas.

Considerando que o aquecimento global é um assunto muito vasto, e que, por isso, uma análise comparativa dos livros didáticos do ensino médio com os documentos de referência deste trabalho (LEGGET, 1990; IPCC, 2007) exigiria uma pesquisa significativamente mais extensa, optamos por escolher apenas dois fatores pertinentes que são discutidos em IPCC (2007): a umidade do ar e as grandes inundações e secas prolongadas.

Ambos possuem relação com as conseqüências do fenômeno do aquecimento global e tendo sido noticiados nos meios de comunicação. As grandes inundações são apenas mencionadas brevemente em seis livros e a umidade relativa do ar é um assunto completamente ausente. Neste sentido, acreditamos que estas duas constatações ocorreram, por um lado, porque os autores dos livros ainda não estavam tão alertas como nós estamos atualmente e, por outro, pela demanda comercial dos livros didáticos em função das provas

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dos vestibulares.

Um aspecto preocupante que foi evidenciado neste trabalho é que não se diferencia o aquecimento global - um fenômeno cíclico da natureza - do efeito estufa, o qual tem contribuição humana, principalmente nos micro-climas dos grandes centros urbanos. Neste contexto, deveria ser enfatizado que o Brasil é atualmente um dos maiores poluidores do mundo devido às práticas de queimadas relacionadas com as atividades agrícolas (LEGGETT, 1990). Existe atualmente uma preocupação mundial para a redução desta fonte de poluição atmosférica. O Brasil está consciente desta questão como tendo sido evidenciado em ações apoiadas pelo governo. Entretanto, há uma forte resistência de mudança destas práticas agrícolas devido à grande representação política do agronegócio no sistema legislativo brasileiro.

Os livros didáticos analisados apresentam a problemática do aquecimento global como um assunto acessório ao currículo. O tratamento físico é geralmente discursivo, carecendo de evidências ou fatos comprobatórios dos processos físicos presentes no fenômeno. Por exemplo, seria compreensível para um aluno do ensino médio o fato de que o degelo do pólo norte que provoca o afundamento de águas e o conseqüente afloramento de águas quentes no Atlântico Sul é a causa das intensas chuvas no litoral brasileiro.

As questões sócio-ambientais são geralmente tratadas de modo simplista, contribuindo para descaracterizar a relevância das questões subjacentes inerentes a esta problemática. Não foram encontrados livros nos quais os autores discutem o papel dos cidadãos, no sentido participarem de mobilizações sociais para reverterem as conseqüências do aquecimento global.

De modo geral, os livros refletem certa dificuldade de articular com coerência e rigor científico as temáticas ambientais dentro do contexto de ensino de física. Considerando a existência de um quadro semelhante quando pensamos nas práticas docentes de física que buscam atrelar os conteúdos físicos às questões ambientais, entendemos que essas dificuldades devem ser contempladas como desafios tanto para os professores quanto os autores de livros didáticos.

Tratando das propostas de ensino com enfoque CTS, Silva e Carvalho (2009, p.137) apontam que "[...] dentre esses obstáculos, segundo nossa opinião, os mais significativos estão relacionados com a pouca aceitação e o baixo envolvimento dos professores e dos professores em formação que reconhecem."

No tocante à problemática envolvendo a implementação de currículos CTS, Auler e Delizoicov (1999, p.2) destacam:

Quanto aos problemas e dificuldades encontradas, destacou-se: as concepções dos professores (também dos alunos) sobre as interações entre CTS [...]; e os constrangimentos a favor da preparação para os exames de admissão, os quais geralmente não contemplam interações entre CTS; a formação disciplinar dos professores tem comprometido o caráter interdisciplinar presente na perspectiva CTS.

Por último, podemos apontar a carência de textos de divulgação cientifica das mudanças climáticas de qualidade satisfatória, tais como Meio Ambiente & Física de Landulfo (2005) e O Aquecimento Global de Fagan (2009), como outro elemento que dificulta o planejamento de aulas de física vinculadas às temáticas ambientais. Existem revistas de divulgação científica que abordam o problema como a revista Ciência Hoje e artigos em periódicos de ensino de ciências, como a revista A Física na Escola.

## Conclusões

A presente pesquisa revela que a aproximação entre o ensino de física e as questões ambientais ainda é deficiente. A abordagem do aquecimento global nos livros didáticos de física do ensino médio continua sendo um dos principais recursos didáticos com os quais os professores deveriam contar.

Embora com resultados ainda preliminares, este trabalho já nos permite sinalizar alguns aspectos preponderantes nos livros didáticos de física do ensino médio sobre a abordagem do aquecimento global: o caráter acessório da temática; o tratamento superficial de aspectos científicos envolvidos, omitindo conceitos físicos relevantes para a compreensão do fenômeno; o descrédito dado às previsões sócio-ambientais apontadas pelo IPCC; e a ausência de perspectivas práticas para que os cidadãos possam atenuar tais previsões .

Tais conclusões apontam para a demanda pela melhoria na articulação entre os pesquisadores em ensino de física e os autores dos livros didáticos, pois as produções acadêmicas não refletem nos conteúdos dos livros. Neste sentido, entendemos que a mudança deste cenário demanda alterações nos vestibulares e nos processos de formação dos professores, sobretudo, na compreensão destes sobre os papéis sociais da educação na atualidade.

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- Fundamentos da Física (3 volumes), 9ª ed., São Paulo: Ed. Moderna, 2007.
- 9 SAMPAIO, J.L. e CALÇADA, C.S. Física: Ensino Médio Atual (volume único), 2ª ed., São Paulo: Ed. Atual, 2005.
- 9 SAMPAIO, J.L. e CALÇADA, C.S. Universo da Física (3 volumes), 2ª ed., São Paulo: Ed. Atual, 2005.
- 9 TORRES, C.M.A., PENTEADO, P.C.M., FERRARO, N.G. e SOARES, P.A.T. Física: Ciência e Tecnologia (volume único), São Paulo: Ed. Moderna, 2001.

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