EXAMES PISA E ENEM: PERSPECTIVAS ABERTAS PELAS ORIENTAÇÕES CURRICULARES
Anderson Barreto De Souza, Wagner Duarte José
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 28/01/2019
- Linha de pesquisa
- Currículo E Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## EXAMES PISA E ENEM: PERSPECTIVAS ABERTAS PELAS ORIENTAÇÕES CURRICULARES
## Anderson Barreto de Souza 1 , Wagner Duarte José 2
- 1 Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/Departamento de Ciências Exatas e Tecnológicas/Programa de Iniciação Científica, anderson.souza1141516@gmail.com
- 2 Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/Departamento de Ciências Exatas e Tecnológicas/Programa de Iniciação Científica, wagnerjose@uesb.edu.br
## Resumo
O ensino de ciências/física vem sendo alvo de discussões e reflexões pela comunidade científica brasileira, preocupada com os resultados de avaliações de larga escala, mais especificamente, com os exames PISA e ENEM e seus desdobramentos nos currículos escolares e na formação de professores. Neste trabalho, realizamos um estudo exploratório dos documentos de orientação curricular, Base Nacional Curricular Comum e Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio/Orientações Complementares (PCN+), e das matrizes de referência dos exames PISA e Enem. Objetivamos destacar aproximações entre as competências explicitadas nesses documentos como caminho viável possível para inserção da resolução aberta de problemas e questões em sala de aula, considerando a concepção de letramento científico do PISA como base da formação científico-cultural dos estudantes. A análise dos dados é realizada mediante esta conjectura. Acreditamos que os resultados obtidos podem sinalizar ganhos significativos no que diz respeito ao ensino de ciências/física na educação básica no atual contexto educacional.
Palavras-chave : PISA, ENEM, BNCC, PCN+, Resolução de problemas.
## Introdução
O ensino de ciências/física vem sendo alvo de discussões e reflexões pela comunidade científica brasileira preocupada com os resultados de avaliações de larga escala, mais especificamente, dos exames PISA e ENEM. Tem-se notado forte ligação entre esses exames e os currículos da educação básica com possíveis desdobramentos para a formação de professores.
Neste trabalho, realizamos um estudo exploratório dos documentos de orientação curricular, Base Nacional Curricular Comum - BNCC (BRASIL, 2018) e Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio/Orientações Complementares PCN+ (BRASIL, 2002), e de orientação dos exames PISA e Enem, com o objetivo de destacar articulações entre as competências explicitadas nesses documentos como caminho viável possível para a resolução aberta de problemas e questões em sala de aula.
Acreditamos que os resultados obtidos podem sinalizar ganhos significativos no que diz respeito ao ensino de ciências/física na educação básica no atual contexto educacional.
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## Os exames PISA e Enem e as orientações curriculares
Lançado em 1997 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o PISA é um exame de escala mundial aplicado de forma amostral a cada três anos junto a estudantes de 15 anos de idade que, no Brasil, se encontram no final do ensino fundamental ou, em maior parte, no início do médio. O exame avalia o desempenho do estudante em responder questões de três áreas de conhecimento: leitura, matemática e ciências. Os itens de ciências são elaborados considerando a ideia de letramento científico, termo usado para referenciar as relações que exame faz entre a ciência e seu uso nas situações de vida. Conforme destacado na Matriz de Referência do Pisa,
Letramento Científico é a capacidade de se envolver com as questões relacionadas com a ciência e com a ideia da ciência, como um cidadão reflexivo. Uma pessoa letrada cientificamente, portanto, está disposta a participar em discurso fundamentado sobre ciência e tecnologia. (OCDE, 2015, p. 7)
Ser letrado cientificamente exige o domínio de três competências gerais: explicar fenômenos cientificamente, avaliar e planejar investigações científicas; interpretar dados e evidências cientificamente . Segundo o relatório 'Brasil no PISA 2015', o exame, visto em longo prazo, tem por objetivo oferecer/desenvolver um conjunto de informações para o monitoramento de conhecimentos e habilidades dos estudantes em cada país e subconjuntos demográficos destes (OCDE, 2016). Os resultados são apresentados considerando três tipos de indicadores: perfil de conhecimentos e habilidades dos alunos; questionários de análises regionais, socioeconômicas e educacionais; tendências que surgem com o desempenho e monitoram os sistemas educacionais.
Por seu turno, o Enem é um exame de escala nacional que avalia o desempenho do estudante ao final do ensino médio, fornecendo também indicadores sobre a educação brasileira (Portaria/MEC n° 468 de 3 de abril de 2017). Sua aplicação vem ocorrendo desde o ano de 1998, mas o formato atual de quatro provas representando as áreas de conhecimento teve início em 2009 (SILVA e MARTINS, 2013). Nos últimos seis anos, o Enem representa a principal porta de acesso ao ensino superior público, através do Sistema de Seleção Unificada (SiSU), mas também possibilita o ensino superior privado através do Programa universidade para Todos (PROUNI) desde 2005.
A Matriz de Referência do Enem (INEP, 2009) estabelece cinco eixos cognitivos comuns a todas as áreas dominar linguagens, compreender fenômenos, enfrentar situações-problema, construir argumentação e elaborar propostas - a partir dos quais se configuram competências e habilidades específicas para cada área. Estas são avaliadas considerando a interdisciplinaridade e a contextualização como basilares do formato de prova, diretriz questionada por diferentes pesquisadores no ensino de física (HERNANDES e MARTINS, 2013; SILVEIRA, BARBOSA, SILVA, 2015; BARROSO e GONÇALVES, 2014).
Hernandes e Martins (2013), entretanto, consideram que o exame pode vir a elevar a qualidade do ensino e influenciar a formação de professores na medida em que se alinhe aos PCN e PCN+. Esta proximidade pode indicar fortemente a relevância em se pensar na articulação entre currículos e exames, conforme preconizado no Plano Nacional de Educação e na Base Nacional Curricular Comum.
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José et al. (2014) e José, Angotti e Bastos (2016) investigaram os conhecimentos de Ciência e Tecnologia (C&T) relacionados à física, presentes nas questões de ciências do ENEM e do PISA, respectivamente, verificando articulações com os Temas Estruturadores do Ensino de Física (TEEF) e, no caso do PISA, também com os conceitos unificadores. Os autores destacaram a importância que esses exames, em especial o ENEM, têm para o ensino e a formação de professores enquanto referências avaliativas que precisam ser apropriadas, não como um processo de mero treinamento para o exame seletivo, mas trabalhadas em sala de aula como codificações do cotidiano científico-tecnológico que seriam desveladas no desenvolvimento do processo educativo dialógico problematizador.
No ensino médio, os PCN+ sugerem orientações para a organização do currículo e trabalho escolar ao passo que a BNCC apenas articula, num documento sintético, competências gerais e habilidades da área de Ciências da Natureza que o estudante deve adquirir sem destacar os componentes curriculares Física, Química e Biologia que a compõem. Mais precisamente, a BNCC entende essa área do conhecimento como sendo um complemento sistematizador e ampliador das aprendizagens desenvolvidas no 9° ano do ensino fundamental. Desse modo, os estudantes devem desenvolver uma formação que lhes permita interpretar fenômenos naturais e processos tecnológicos, apropriar-se dos diversos campos da ciência e das formas de pensamento da mesma e apropriar-se das três temáticas da área: Matéria e Energia Vida e Evolução , e Terra e Universo .
## Metodologia
Realizamos um estudo exploratório documental dos exames PISA, ENEM e das orientações e diretrizes educacionais BNCC e PCN+ em duas etapas:
- 1- Leitura das matrizes de referência do PISA e ENEM, da BNCC e dos PCN+/Física, identificando como as competências explicitadas que podem consituirse em objetivos do processo ensino-aprendizagem e da sua avaliação (JOSÉ, ANGOTTI, BASTOS, 2016).
- 2- Organização dos dados de pesquisa em quadro dispondo as colunas propositadamente de forma que a leitura da esquerda para a direita das competências tome o PISA como ponto de partida para a análise. Nesta escolha, levamos em conta o fato de que a faixa de estudantes aptos a realizar o PISA se encontra na transição do ensino fundamental para o médio, o que sugere a concepção de letramento científico como base mínima de formação científicocultural dos estudantes. A análise dos dados é realizada mediante esta conjectura.
## Resultados e discussão
- O Quadro 1 apresenta as competências do PISA, ENEM (Ciências da Natureza/Física), BNCC e PCN+/Física, sendo que, para os propósitos deste texto, a descrição das competências do PISA e do PCN+/Física foi obtida do Quadro A do artigo de José, Angotti e Bastos (2016). No caso do ENEM, não apresentamos duas das oito competências porque se referem mais especificamente aos componentes curriculares Química e Biologia.
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## Quadro 1: Competências (C1, C2,...) descritas nos exames e nos documentos curriculares.
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A seguir, destacamos, a partir das competências do PISA, as diversas aproximações entre competências que se desprendem do Quadro 1.
- 1) A primeira competência do PISA, explicar fenômenos cientificamente , pode ser desmembrada em três partes:
- a) Lembrar e aplicar conhecimento científico encontra ressonância com a competência 5 do ENEM, mediante a aplicação dos conhecimentos científicos em diferentes contextos, e com as competências 1 e 3 da BNCC, pois ao analisar fenômenos naturais e tecnológicos, por exemplo, estamos nos lembrando e desenvolvendo as aplicações do conhecimento científico. Nos PCN+/Física, tal relação está expressa na competência 1, por meio da aplicação de conhecimento científico nas mais diversas situações, considerando que verificar regularidades, variações e conservações faz parte da construção do conhecimento.
- b) Identificar, utilizar e gerar modelos explicativos e representações aproxima-se da competência 2 e 6 do Enem, pois requer a compreensão dos conhecimentos de C&T pertinentes à Física no cotidiano científico-tecnológico dos sujeitos educativos necessários para avaliar, interpretar e/ou planejar intervenções em situações-problema. Na BNCC, a competência 3 abarca a questão ressaltando a apropriação das linguagens próprias das ciências naturais para analisar situações-problema e avaliar soluções pautadas no conhecimento veiculado em sala de aula que considerem demandas locais, regionais e/ou globais, assim como 'construir e utilizar interpretações sobre a dinâmica da Vida, da Terra e do Cosmos'. Essas observações estão em sintonia com as competências 1 e 2 dos PCN+/Física.
- c) Oferecer hipóteses explicativas e explicar as implicações potenciais do conhecimento científico para a sociedade são consonantes às competências 1, 4 e 6 do ENEM, 1 e 3 da BNCC, 1 e 3 dos PCN+/Física, todas relacionando a ciência com a sociedade, enfatizando a sua importância nos processos de produção, construção de cidadania e da relação Ciência-Tecnologia-Sociedade. Ainda podemos encontrar respaldo para este item na competência 2 da BNCC, se considerarmos o ensino de práticas científicas escolares como apoio e fundamentação de decisões éticas e responsáveis.
- 2) A segunda competência do PISA, que compreende avaliar e planejar experimentos científicos, pode ser verificada em dois pontos:
- a) Identificar a questão explorada em um dado estudo científico e diferenciar questões possíveis de serem investigadas cientificamente , propor formas de explorar e avaliar cientificamente uma dada questão estão relacionadas às competências 5 e 6 do ENEM, 3 da BNCC, 1 e 2 dos PCN+/Física, todas tratando da identificação e diferenciação do conhecimento científico em determinada situação ou questão.
- b) Descrever e avaliar os vários caminhos que os cientistas usam para assegurar a confiabilidade dos dados e a objetividade e generalização das explicações aproxima-se com a competência 1 do Enem, 3 da BNCC e 3 PCN+/Física. Trata de considerarmos a natureza viva da Ciência e sua historicidade, os tensionamentos próprios da produção de conhecimento científico no contexto em que se inserem.
- 3) A terceira competência do PISA, interpretar dados e evidências cientificamente , compreende:
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- a) Transformar dados de uma representação para outra, analisar e interpretar dados e tirar conclusões apropriadas, identificar as premissas, evidências e argumentos de diferentes fontes relacionados às ciências guarda similaridade com a competência 5 do ENEM, 3 da BNCC, e 2 dos PCN+/Física, no entendimento de métodos e processos próprios da linguagem científica.
- b) Distinguir e avaliar os argumentos baseados em evidência científica e em outras considerações pode ser ensinado considerando a competência 5 do ENEM, 1 da BNCC, 1 e 2 dos PCN+/Física, na análise de fenômenos ou situações, identificando regularidades, transformações e conservações; ou mesmo sabendo interpretar e criticar notícias científicas veiculadas nas várias mídias.
## Considerações finais
A BNCC do Ensino Médio, ora em discussão, apresenta demandas e desafios para a formação de professores e a educação básica. No que se refere ao ensino de ciências/física, estratégias didáticas para a resolução aberta de problemas e questões do PISA e ENEM em sala de aula precisam ser articuladas aos objetivos de ensino a partir de suas matrizes de referência. A via que consideramos pertinente para abordar esses exames na formação de professores inicial e continuada tem sido articular problemas/questões contextualizados e interdisciplinares como forma de romper com o currículo fragmentado que se pratica nas escolas, transformando os seus enunciados em situações-problema do cotidiano científico-tecnológico para, em torno delas, dialogarmos com os estudantes (JOSÉ, BASTOS, 2017).
Precisamos investir didaticamente na problematização da referida situação escolar, criando estratégias que potencializem os envolvidos a dialogarem tematicamente, capacitando-os para resolverem a partir de procedimentos gerais diferenciados problemas (fechados e abertos), ou seja, desenvolver procedimentos e habilidades dialógico-problematizadores de Física. (Souza et. al., 2008, p. 313)
Nossa análise documental sugere considerarmos o desenvolvimento das competências da PISA (explicar fenômenos cientificamente, avaliar e planejar experimentos científicos, interpretar dados e evidências cientificamente), núcleo duro de sua concepção de letramento científico, como sendo a base formativa sobre a qual se estrutura o ensino de CNT. Nessa perspectiva, a BNCC e os PCN+ orientam o currículo e o trabalho pedagógico em direção a competências e habilidades mais gerais, desenvolvidas ao longo do Ensino Médio sem perder de vista esse núcleo. As competências e habilidades avaliadas pelo ENEM caracterizam o horizonte de metas ou resultados esperados de conclusão da escolaridade básica. Afinal, PISA e ENEM contemplam uma dimensão formativa das avaliações?
## Referências Bibliográficas
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