RELAÇÕES ENTRE CIÊNCIA E RELIGIÃO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: ESTUDO DE CASO SOBRE UMA CONTROVÉRSIA COSMOLÓGICA
Alexandre Bagdonas Henrique, Cibelle Celestino Silva
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 25/10/2010
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## RELAÇÕES ENTRE CIÊNCIA E RELIGIÃO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: ESTUDO DE CASO SOBRE UMA CONTROVÉRSIA COSMOLÓGICA
## RELATIONS BETWEEN SCIENCE AND RELIGION IN TEACHER TRAINING: A CASE STUDY ABOUT A COSMOLOGICAL CONTROVERSY
Alexandre Bagdonas Henrique, Cibelle Celestino Silva
Universidade de São Paulo, Instituto de Física, alebagdonas@gmail.com , Universidade de São Paulo, Instituto de Física de São Carlos, cibelle@ifsc.usp.br
## Resumo
Neste trabalho argumentamos sobre a importância de se discutir a relação entre ciência e religião nas aulas de física, utilizando episódios da história da cosmologia como tema motivador. Entre as décadas de 1940 e 1970, havia duas teorias cosmológicas rivais: a teoria do Big Bang, segundo a qual o universo teve um começo e a teoria do Estado Estacionário, cujos criadores defendiam que o universo sempre existiu. Apresentamos alguns posicionamentos típicos de autores que escreveram sobre a relação entre ciência e religião, exemplificando-as com os discursos de três personagens envolvidos nesta controvérsia cosmológica da década de 1950: 1) A integração, exemplificada pela postura do Papa Pio XII, que em 1951 fez um discurso sobre provas da existência de Deus a partir dos resultados da cosmologia contemporânea; 2) O conflito, exemplificado pela postura de Fred Hoyle, autor da teoria do Estado Estacionário, que se tornou uma figura pública polêmica após comentar sobre sua visão antirreligiosa em uma série de palestras no canal de televisão britânico BBC; 3) O diálogo e a independência , que podem ser identificados nas falas de Lemaître, um padre cosmólogo, considerado um dos criadores da teoria do Big Bang. Ele acreditava que não havia conflitos entre sua fé e seu trabalho como cosmólogo, mas reprovou a postura do Papa Pio XII e interveio para que ele mudasse de atitude. Portanto, são apresentados três personagens históricos cujos discursos serão utilizados em aulas de formação inicial de professores de ciências da Universidade de São Paulo, com o objetivo de instrumentalizar o futuro professor para lidar com questões envolvendo ciência e religião nas aulas de ciências.
Palavras-chave: ciência e religião, cosmologia, natureza da ciência
## Abstract
In this paper we argue about the importance of discussing the relationship between science and religion in physics classes, using episodes of the history of cosmology as a motivating theme Between the 1940s and 1970s, there were two rival cosmological theories: the Big Bang theory which stated that the universe had a beginning and the Steady State theory, which supposes that the universe has always existed. We present some typical arguments of
authors who wrote about the relationship between science and religion, illustrating them with the speeches of three person involved in the cosmological controversy of the 1950s:The positions presented are: 1) Integration , exemplified by a speech delivered by the Pope Pius XII in 1951, about evidences of the existence of God based on the results of contemporary cosmology 2) Conflict, exemplified by Fred Hoyle, author of the steady state theory, who became a controversial public person when he talked about his opinion on religion in a series of lectures for BBC, which had a great audience in the beginning of the 1950s; 3) Dialogue and Independence, this position can be found in Lemaître's discourse about the relation between science and religion. He was a cosmologist and a priest, who is considered one of the creators of the Big Bang theory and believed that there was no conflict between his faith and his work as a cosmologist. He did not agree with the content of the Pope Pius XII's discourse and intervened for him to change his attitude. Thus, we present three historical characters whose discourses will be used in a science teachers training course at University of São Paulo, in order to prepare future science teachers to conduct situations involving the relation between science and religion in science classes.
Keywords: history and philosophy of science, nature of science, cosmology, science and religion
## Introdução
Este trabalho é parte de uma pesquisa de mestrado que estuda aspectos da história da cosmologia no século XX, buscando questões sobre a natureza da ciência que possam ser discutidas na formação inicial de professores de ciências. Pretendemos fazer uso da história e filosofia das ciências de uma maneira integrada, pois concordamos com a afirmação de El Hani (2006, p. 12): cursos de filosofia da ciência que utilizam a história da ciência apenas como forma de exemplificar as teses epistemológicas, ou cursos de história da ciência em que não se questiona os aspectos epistemológicos, podem levar os alunos a aceitar as interpretações dos autores sem crítica, recebendo respostas para questões que ainda não tinham sido apresentadas. Dessa forma, pretendemos utilizar o estudo de episódios da história da cosmologia como forma de apresentar a contextualização sóciocultural do conhecimento científico, promovendo tanto a compreensão de conteúdos científicos, quanto o aprendizado de noções sobre as ciências 1 .
## Cosmologia no ensino médio
- O estudo da astronomia e da cosmologia é sugerido no tema estruturador dos PCN+ "Universo, Terra e Vida" (Brasil, 2002, p.32). A proposta de refletir a respeito da origem da vida e do universo nas aulas de ciências não pode ser justificada com argumentos utilitaristas, como a utilização prática no dia a dia, ou como forma de preparar r o indivíduo para o mercado de trabalho.
No entanto, a cosmologia é um tema que contribui para inserção da física moderna e contemporânea no currículo de física (Oliveira 2006, p.16; Arthury, 2009, p.51) e pode ser fascinante, permitindo a inserção de discussões a respeito da natureza da ciência no ensino de forma natural. A cosmologia nos força a examinar nossas crenças mais profundas, por isso, um de seus papéis no ensino é propiciar aos jovens o contato com a visão de mundo científica, que envolve conhecer um conjunto de descrições e explicações a respeito do universo e da posição do homem no mesmo. É importante reconhecer as diferenças entre as abordagens científica e religiosa para explicar e os fenômenos naturais e o mundo que vivemos de forma geral, assim como os limites de cada uma delas.
Este tema é raramente abordado em sala de aula, por várias razões. Dentre as "pedras no caminho" (Martins A., 2007) está a falta de preparo dos professores tanto sobre conteúdos e formas de ensinar utilizando a história e filosofia da ciência, quanto sobre conteúdos de cosmologia, uma vez que são poucas as licenciaturas com disciplinas obrigatórias sobre astronomia (Langhi 2009, p.16). Além disso, a maior parte dos trabalhos de divulgação científica sobre a cosmologia é escrita por astrônomos, físicos e jornalistas científicos sem formação em história da ciência. Por isso, tais trabalhos costumam enfatizar apenas os desenvolvimentos mais recentes, apresentando pouca perspectiva histórica. Mesmo quando se apresenta a história da ciência, esta é muitas vezes distorcida, não confiável ou vista como algo secundário, de pouca importância (Kragh, 1996, p.ix). Além das dificuldades relacionadas aos conteúdos científicos, históricos e filosóficos necessários para o ensino de cosmologia, também são raras as oportunidades na formação dos professores em que eles são preparados para conduzir atividades envolvendo temas críticos ou controversos, como a relação entre ciência e religião.
Em um trabalho anterior, Henrique e Silva (2009), apresentaram brevemente a controvérsia entre a teoria do Big Bang e a teoria do Estado Estacionário, envolvendo explicações opostas para a questão: "o universo teve um começo ou sempre existiu?". Foram identificados alguns aspectos sobre a natureza da ciência que poderiam ser discutidos a partir do estudo deste episódio, tais como o papel dos modelos e concepções filosóficas na ciência, além do caráter provisório do conhecimento científico. O presente trabalho enfatiza a relação entre fatores religiosos e as teorias cosmológicas, uma vez que esse tema permite abordar questões muito importantes para o ensino de ciências relacionadas à formação da visão de mundo dos alunos e da relação entre a visão de mundo científica e religiosa. Neste trabalho, vamos apresentar quatro categorias possíveis de posicionamentos sobre a relação entre a cosmologia e a religião, exemplificando-as com três posturas presentes na controvérsia cosmológica das décadas de 1950 a 1960: o astrônomo inglês Fred Hoyle (1915-2001), o padre e cosmólogo belga Georges Lemaître (19941966) e o Papa Pio XII (1876-1958).
## Categorias de posições no debate sobre ciência e religião
Há um número crescente de trabalhos sobre o ensino de ciências que abordam aspectos do antigo, e ainda presente, debate sobre a relação entre ciência e religião (Cobern, 2000; Shipman et al., 2002; Sepúlveda e El Hani,
2004; Hansson e Redfors, 2007; Forato et al., 2007; Oliveira e Bizzo, 2009; Reiss 2009, entre outros). A reflexão sobre este tema pode ser benéfica para a formação de professores, não só pela possibilidade de dialogar r com as crenças dos alunos e professores nas aulas, mas também para promover um maior entendimento sobre a visão de mundo científica, sobre suas diferenças e semelhanças em relação a outros tipos de visão de mundo, além da possibilidade de refletir sobre a própria natureza da ciência.
Alguns desses trabalhos sistematizaram categorias de argumentos em resposta a esta questão. Neste trabalho partimos das quatro categorias discutidas 2 por Barbour (1990), Shipman et al. (2002), Sepúlveda e El Hani (2004), Kragh (2004) e Reiss (2009): Conflito, Integração, Independência e Diálogo para classificar as posições presentes na controvérsia cosmológica da década de 1950.
Definimos dois critérios para diferenciar estas categorias, que formam os eixos do esquema abaixo:
- - A ênfase sobre semelhanças ou diferenças entre ciência e religião;
- - A postura em relação à necessidade (ou não) de conflito entre teorias científicas e teses religiosas.
Figura 1: Categorias de posições sobre a relação entre ciência e religião
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O esquema acima ilustra as quatro categorias, que ocupam quadrantes diferentes formados pelos eixos da compatibilidade ou incompatibilidade e da ênfase em semelhanças ou diferenças entre ciência e religião. Seu desenho foi inspirado no Political Compass, questionário destinado a investigar posições políticas Vale ressaltar que não são categorias completamente excludentes, mas sim tendências gerais, sendo perfeitamente possível que um indivíduo apresente elementos das quatro categorias em seu discurso.
## A postura do Conflito entre ciência e religião
Esta postura é caracterizada pela ênfase nas diferenças s entre ciência e religião e pela proposta de que a educação religiosa é incompatível e
conflitante com a educação científica. Dois defensores desta postura são Martin Mahner e Mario Bunge, professores de filosofia da McGil University, em Montreal, Canadá. Em um controverso artigo sobre o ensino de ciências (Mahner e Bunge, 1996) afirmaram que existe uma série de diferenças entre ciência e religião. A partir destas diferenças defendem a existência de incompatibilidades metafísicas, doutrinárias, metodológicas e atitudinais entre religião e ciência. Assim, a educação religiosa, principalmente para crianças, constituiria em um obstáculo para a formação de uma visão de mundo científica.
## Fred Hoyle: A natureza do universo
Na história da cosmologia, esta categoria é exemplificada pela postura do físico e astrônomo inglês Fred Hoyle (1915-2001), que, junto com os astrofísicos austríacos Hermann Bondi (1919-2005) e Thomas Gold (19202004), desenvolveu um novo modelo de universo que ficou conhecido como teoria do Estado Estacionário.
Na primavera (no hemisfério norte) de 1949, Hoyle fez uma série de palestras sobre cosmologia para a BBC de Londres, que foram posteriormente transcritas e publicadas na forma de um livro intitulado The Nature of the Universe (Hoyle 1950). Tanto o livro quanto as palestras fizeram bastante sucesso entre o público geral ao longo dos anos seguintes. Os cinco primeiros capítulos constituíram um bom livro de divulgação de astronomia básica, sobre a origem e o futuro da Terra, do Sol, das Estrelas e dos Planetas. Já os dois últimos capítulos eram um pouco mais controversos. Hoyle deixou claro que seu objetivo não era dar uma visão objetiva e imparcial sobre a cosmologia da época, mas sim sua visão pessoal sobre o assunto (Kragh, 1996, p. 191).
Agora eu vou considerar algumas crenças religiosas contemporâneas. Há muita cosmologia na Bíblia. Minha impressão disso é que se trata de uma obra impressionante, levando em conta a época em que foi escrita. Mas eu acho que dificilmente se pode negar que a cosmologia dos hebreus antigos é apenas uma mera mancha de tinta quando comparada com o belíssimo quadro revelado pela ciência moderna. Isso me levou a fazer a pergunta: é razoável supor que os hebreus pudessem compreender mistérios mais profundos do que os que nós já pudemos compreender, quando está bem claro que eles eram completamente ignorantes sobre muitos assuntos que parecem senso comum para nós? (...) Não, me parece que a religião é apenas uma tentativa de encontrar uma fuga de uma situação verdadeiramente ruim em que nos encontramos. Aqui nós estamos neste fantástico Universo com quase nenhuma pista sobre a existência de qualquer significado real . Não importa que muitas pessoas sintam a necessidade de alguma crença que lhes forneça alguma forma de segurança e não importa que eles fiquem zangados com pessoas como eu, que dizem que essa segurança é ilusória. No entanto eu não gosto mais dessa situação do que eles. A diferença é que eu não posso ver nenhuma vantagem em enganar a mim mesmo (Hoyle 1950, p.137138. Tradução e grifos nossos).
Em outros livros populares, Hoyle fez afirmações ainda mais radicais contra as visões de mundo religiosas, como por exemplo, afirmando que a ideia de um começo no tempo seria uma noção típica de pessoas primitivas, que postulam a criação de deuses para explicar o mundo físico (Kragh 1996, p.
253) . Os ataques de Hoyle à religião certamente causaram reações intensas em muitas pessoas, o que fez com que ele se tornasse uma figura controversa não só na comunidade cientifica, mas também como figura pública. A comunidade religiosa inglesa ficou preocupada com a repercussão das palestras de Hoyle, já que na prática seus livros e palestras devem ter influenciado muitas pessoas (Davidson 1955 apud Kragh 1996, p. 192). Conforme será descrito na próxima seção, na mesma época o Papa Pio XII fez um discurso comentando os resultados da cosmologia moderna mostrando-se favorável a teoria do Big Bang e ignorou a existência das teorias de Hoyle.
## A Integração entre ciência e religião
Nesta categoria as semelhanças entre ciência e religião são enfatizadas e o conflito é evitado . Esta postura, comum entre cientistas religiosos 3 , consiste na busca por um sentido na existência, integrando aspectos científicos e religiosos. É a postura típica dos adeptos da teologia natural, que consiste na busca por mostrar a existência de Deus a partir do estudo da natureza, ao invés de partir da revelação ou experiências religiosas. Segundo estes autores, seria possível criar um campo interdisciplinar reunindo teologia e ciência (Sepúlveda e El Hani, 2004, p. 142).
## O Papa Pio XII: provas da existência de Deus à luz da cosmologia
A categoria da Integração é exemplificada pela postura do Papa Pio XII (1876-1958). Na mesma época que Hoyle falava sobre Cosmologia, Ciência e Religião em seu programa na BBC, o Papa Pio XII estava bastante interessado em ciência em geral, particularmente em cosmologia, sendo bastante influenciado pelas teorias cosmológicas de Lemaître e outros cosmólogos cristãos. Em 1950 já havia publicado uma carta em que afirmava que a biologia evolutiva era um campo de investigação científica legítimo e que não necessariamente levava a conclusões contrárias à doutrina católica (Kragh, 1996, p. 256).
Em 1951 ele proferiu um discurso para a Pontifical Academy of Sciences, intitulado "As provas da existência de Deus à luz das ciências naturais modernas" (Pio XII, 1951), em que discutia resultados da cosmologia científica e sua relação com a doutrina católica. Sua tese principal era mostrar que não havia conflitos entre os astrônomos e a igreja, além de afirmar que os resultados da ciência moderna mostram sólidas evidências da existência de um criador.
Tudo parece indicar que o conteúdo material do universo teve um grande começo no tempo, sendo preenchido em seu nascimento por vastas reservas de energia, em virtude das quais, a princípio rapidamente, mas de modo cada vez mais lento, ele evoluiu para atingir o estado atual [...]. Esta imagem não envolve nenhuma novidade para o mais simples dos indivíduos que têm fé. Eles não introduzem nada além do que está nas palavras da abertura do Genesis, "No princípio criou Deus os céus e a terra..."ou seja, o
começo das coisas e do tempo. Qual era a natureza e a condição da primeira matéria do universo? As respostas fornecidas diferem consideravelmente entre as diferentes teorias. Contudo, há um certo consenso de que a densidade, a pressão e a temperatura da matéria primordial devem ter atingido valores muito altos [...]. Portanto, com aquela concretude que é característica das provas físicas, foi confirmada a contingência do universo e também a bem fundamentada dedução da época em que o mundo saiu das mãos do Criador. Por isso, a criação existiu. Nós dizemos: portanto há um Criador. Portanto, Deus existe!"(Pio XII, 1951. Tradução nossa).
A ideia racionalista de que teorias científicas podem dar suporte ao conceito da criação de mundo (característica da postura de Integração), não foi bem vista pela maioria dos teólogos. Lemaître, cuja teoria cosmológica era a base do argumento do Papa, não gostou do tom da carta, pois considerava a teoria do Big Bang apenas uma hipótese, reprovando o modo assertivo com que ela foi apresentada. Ele e outras pessoas ligadas ao Papa o convenceram a mudar seu discurso, argumentando que essa associação próxima entre ciência e religião seria prejudicial para ambas (Kragh, 1996, p. 257-258). Na assembléia geral da International Astronomical Union em 1952, em Roma, o Papa fez um discurso bem mais moderado, evitando referências específicas a questões metafísicas ou implicações religiosas da teoria do Big Bang (Kragh, 2004, p.151). Na década de 1980, quando o Big Bang já era amplamente aceito, o papa João Paulo II disse que o Cristianismo possui uma fonte própria de justificação e, portanto, não espera ser apoiado por argumentos científicos (Kragh, 1996, p. 259).
## A Independência entre ciência e religião
Nesta categoria são enfatizadas as diferenças entre ciência e religião, de forma que a educação religiosa e a educação científica são vistas como independentes e complementares, já que respondem a distintas questões e necessidades humanas, sendo utilizadas em diferentes contextos. Assim, não há necessidade de investigar a compatibilidade entre ciência e religião, nem pode haver conflito entre ambas, pois seriam incomensuráveis.
José Goldfarb descreve essa visão de independência entre ciência e religião como a opinião mais comum na atualidade:
"Interessa o diálogo ciência e religião? Para muitos a questão é simples e nem requer muita reflexão: ciência lida com o mundo objetivo, utiliza a razão e a experimentação; religião lida com o mundo espiritual, utiliza a fé e a ritualística. Ponto final. Distintas formas de ação do ser humano com características próprias e independentes. As fronteiras são claras, não há em verdade a necessidade de disputas, pois os domínios da ciência e da religião não se encontram nem se desencontram: simplesmente não se comunicam (Goldfarb, 2004).
Segundo essa visão, o mundo pode ser visto ou com lentes científicas, ou com lentes religiosas. Cada uma tem um domínio definido, de forma que não há necessidade de conflito. Muitos dos adeptos dessa visão de independência entre e ciência e religião têm pouca motivação para aprender sobre a relação entre ambas. Esta falta de engajamento nas discussões é uma postura que merece ser problematizada na formação inicial de professores, tanto que Shipman e colaboradores (2002) criaram uma categoria especial
para este tipo de postura, chamando-a de "Distintos". Por outro lado, há muitos autores que são adeptos da postura bastante engajados nesta discussão que defendem essa posição, como o biólogo Stephen J. Gould. Ele propõe que os métodos, a função da linguagem, a natureza das perguntas feitas pela ciência e pela religião são diferentes (Gould apud Reiss, 2009, p.785, Gould 2002).
## O Diálogo entre ciência e religião
A diferença entre as categorias do Diálogo e da Independência é sutil, tanto que alguns autores, como Sepúlveda e El Hani (2004), as agrupam na mesma categoria. Na categoria do Diálogo, admite-se a integridade e independência relativa entre ciência e religião, mas há ênfase em certas semelhanças. Propõe-se que diálogos enriquecedores tanto para as ciências quanto para as religiões podem ser travados entre estes dois domínios do conhecimento humano (Kragh, 2004, p. 79). Sendo assim, o conflito não é evitado, pois o diálogo permite que ocorram tensões construtivas. Uma diferença importante entre os que defendem o diálogo e os que defendem a integração, é que os primeiros consideram que a síntese entre estas duas formas de conhecimento pode conduzir a distorções de ambas e à construção de estruturas de conhecimento fundadas sobre alicerces inconsistentes (Sepúlveda e El Hani, 2004, p. 142). Esta postura parece extremamente interessante para um professor de ciências, sendo semelhante ao chamado "contexto da coexistência" defendido por El Hani e Mortimer r (2007, p.668), em que os diálogos podem ser conduzidos de forma a valorizar o confronto de argumentos na busca de possíveis soluções, num esforço de conviver com as diferenças e promover o entendimento dos conceitos científicos.
Na próxima seção, descreveremos com mais detalhes a postura de Lemaître sobre a relação entre ciência e religião, que envolve aspectos característicos tanto da Independência quanto do Diálogo.
## Lemaître: um padre cosmólogo
Em 1931, o cosmólogo belga Georges Lemaître (1994-1966) introduziu na cosmologia a ideia audaciosa de um começo do universo numa perspectiva realista. Em um texto curto publicado na revista Nature, ele escreveu:
Eu estou inclinado a pensar que o estado atual da teoria quântica sugere um começo do mundo bem diferente da atual ordem da Natureza. (...) podemos conceber o começo do universo na forma de um único átomo, cujo peso atômico é dado pela massa total do universo. Este átomo altamente instável, teria começado a se dividir, fragmentando em pedaços cada vez menores numa espécie de super processo radioativo (Lemaître 1931).
Este modelo ficou conhecido como "o modelo do átomo primordial" e pode ser visto como um dos precursores do modelo do Big Bang. Como Lemaître era padre, é tentador ver a sua teoria do átomo primordial como uma projeção de sua visão religiosa sobre a criação do universo, já que sua teoria estaria de acordo com o Genesis . No início de sua carreira, na década de 1920, Lemaître se interessava pelo estudo da Bíblia à luz dos conceitos da física moderna, postura semelhante a do Papa Pio XII, que classificamos como típica da Integração. Em 1921, estudou como certas passagens do Genesis
poderiam ser mais bem compreendidas utilizando conceitos da física moderna, escrevendo um manuscrito chamado "As três primeiras declarações de Deus". Interessou-se especialmente por um problema antigo da teologia: como poderia haver luz em um universo que ainda não existia? (Kragh, 2004, p. 141).
Contudo, com o passar dos anos, Lemaître foi alterando sua postura. Passou a defender algo semelhante à tese de Tomas de Aquino, sobre a existência de "duas estradas" para chegar à verdade: a religiosa e a científica. Estas seriam completamente separadas, expressas em linguagens diferentes, vias paralelas que levariam ao mesmo caminho final.
Eu não tenho conflitos para reconciliar. A ciência nunca abalou minha fé na religião e a religião nunca me fez questionar as conclusões a que eu cheguei utilizando métodos científicos (Lemaître, 1933 apud Kragh, 2004, p. 143).
Sendo assim, ele apresentava características típicas do que classificamos como Independência: a ênfase nas diferenças entre ciência e religião evitando conflitos. Dessa forma, o historiador Helge Kragh considera que a ideia de que Lemaître tenha criado seus modelos cosmológicos para conciliar suas crenças religiosas é um mito 4 , propagado por muitos autores que escrevem sobre a história da cosmologia, como o filósofo britânico Stephen Toulmin (1922-2009) e o cosmólogo sueco Hannes Alfvén (1908 - 1995) (Kragh 2004, p. 148).
A postura de Lemaître sobre a relação entre ciência e religião também envolvia elementos típicos da categoria do Diálogo. Ele acreditava que a fé cristã poderia, às vezes, afetar o modo como o cientista pensa sobre o mundo físico. Poderia ser uma vantagem (como acreditava ser o seu próprio caso), uma fonte de otimismo por crer que Deus deu ao homem faculdades intelectuais, de forma que seja possível descobrir todos os aspectos do universo (Kragh, 2004, p. 146).
## Considerações finais e implicações para o ensino
As relações entre ciência e religião e as posições possíveis sobre o tema ilustradas pelo episódio histórico escolhido embasaram um conjunto de atividades desenvolvidas com o intuito de introduzir o tema de forma explícita em cursos de formação de professores de ciências. As atividades foram aplicadas na disciplina História da Ciência de uma licenciatura em ciências em uma universidade pública.
As atividades envolveram a leitura de textos sobre a história da cosmologia, descrevendo as posturas de Hoyle, do Papa Pio XII e de Lemaître sobre a relação entre ciência e religião, além da discussão sobre semelhanças e diferenças entre ciência e religião a partir da proposta de Mahner e Bunge (1996), levando em conta também as críticas feitas ao seu artigo 5 . Os
licenciandos discutiram em classe tanto sua impressão pessoal sobre a postura descrita nos textos, quanto sua opinião sobre a adoção dessa postura como professor nas aulas de ciências.
Como esta discussão tem atravessado vários séculos de debates e continua aberta, apresentamos aos estudantes as diversas opções possíveis, de forma a permitir que eles façam escolhas bem embasadas. O engajamento deles na discussão foi mais enfatizado do que a busca de uma resposta para as questões levantadas. Ainda que nenhuma postura específica seja defendida, problematizamos as posturas mais radicais quando levadas para o ensino. Uma posição muito agressiva do professor é bastante problemática, já que caso ele tente persuadir o aluno a escolher entre a ciência e a religião, os alunos religiosos provavelmente abandonarão qualquer tentativa de compreender os conceitos científicos (Shipman et al. 2002). Por outro lado, quando se usa o termo "religião" num sentido suficientemente abrangente, de modo a confundi-lo com a ideia de "visão de mundo", é possível deturpar algumas teorias científicas e teses religiosas de modo a forçar uma convergência entre ciência e religião. Isto ocorre com as tentativas de conciliar algumas teorias científicas com interpretações literais da Bíblia, ou a associação de quaisquer pressupostos adotados pelos cientistas (como a inexistência de entidades sobrenaturais, por exemplo) com a fé religiosa. Sendo assim, tanto o Conflito quanto a Integração radicais não nos parecem adequados para o ensino de ciências.
Muitas vezes, discussões abertas, envolvendo temas polêmicos como a relação entre ciência e religião são evitadas, porque normalmente, no final da discussão, não há conclusões definitivas, "não se chega a lugar algum". A ideia de que "cada um tem sua opinião a respeito" e que discussões não vão nunca alterá-las nos parece um obstáculo para o aprofundamento da reflexão sobre questões controversas. Utilizando a controvérsia entre as teorias do Big Bang e do Estado Estacionário para contextualizar r a discussão, os licenciandos foram estimulados a refletir sobre a sua própria visão a respeito da relação entre ciência e religião, a partir de pontos de vista bastante diferentes. Este tipo de atividade pode contribuir r para o aumento de uma posição crítica dos alunos sobre assuntos controversos, sem que o professor precise defender explicitamente uma determinada posição, nem agir violentamente contra as tradições culturais de certos alunos (Venezuela 2008, p. 71). Com isso foi possível discutir sobre o que são e quais os papéis de evidências, fontes de confiabilidade, formas de validar argumentos e vontade de ouvir opiniões conflitantes. Assim, os estudantes estariam exercitando a razão, aprendendo a ser razoáveis (Matthews, 1994, p.8).
Os autores agradecem o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, processo 2008/07928-0.
## Referências
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