O PLANEJAMENTO DE PROFESSORES DE FÍSICA EM UMA ESCOLA HOSPITALAR
Luciani Bueno Tavares, Cristiano Rodrigues De Mattos
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 25/10/2010
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O PLANEJAMENTO DE PROFESSORES DE FÍSICA EM UMA ESCOLA A HOSPITALAR
## PLANNING FOR TEACHERS OF PHYSICS IN A HOSPITAL SCHOOL
## Luciani Bueno Tavares 1 , Cristiano Rodrigues de Mattos 2
1 Universidade de São Paulo/Programa de pós-graduação em Ensino de Ciências,luciani@if.usp.br
2 Universidade de São Paulo/ Instituto de Física,mattos@if.usp.br
## Resumo
A atuação de profissionais da área de educação em ambientes hospitalares ocorre no Brasil desde a década de cinquenta. Atualmente, várias pesquisas estão sendo desenvolvidas sobre as práticas pedagógicas realizadas nestes ambientes, em especial na área de pedagogia hospitalar. No entanto, constata-se a carência de pesquisas que abarquem o ensino de Ciências nestes espaços, ainda mais quando lançamos o olhar sobre o planejamento de uma aula . Diferentemente do contexto das escolas regulares, o planejamento no contexto das escolas hospitalares deixa de ser rígido e ganha novos significados mediante a demanda dos estudantes que frequentam a escola hospitalar. O planejejamento do professor no contexto da escola hospitalar, não se resume a ação de elaborar planos de aula, mas sim a constante negociação com os estudantes dos conteúdos a serem ministrados . Portanto, o presente trabalho tem por objetivo analisar a organização da atividade educativa no contexto de uma escola hospitalar e suas implicações na redefinição do planejamento de uma aula. Como fundamentação teórica, será utilizada a Teoria da Atividade como instrumento de análise da atividade docente. A escolha e aplicação deste instrumento se justificam pelo enfoque no desenvolvimento humano nos âmbitos sociais, culturais e históricos, nos quais a ação individual adquire significados mediante as relações que se estabelecem coletivamente na atividade. Dessa maneira o presente trabalho se caracteriza por ser um estudo de caso de uma escola hospitalar localizada na cidade de São Paulo . Para subsidiar os dados que realizaram esta pesquisa, foram utilizadas as transcrições de entrevistas realizadas com professores que atuaram e atuam na escola hospitalar.
Palavras - chave: Teoria da Atividade, Planejamento, Escola Hospitalar .
## Abstract
The role of professionals in education occurs in hospital settings in Brazil since the fifties. Currently, many researches are being carried on the pedagogical practices undertaken in these environments, particularly in the area of teaching hospitals. However, there is a lack of research that include the teaching of science in these areas, even when we launched the look on planning a lesson. Unlike the context of mainstream schools, the planning in the context of hospital schools no longer drive and gain new meanings through the
demand of students who attend the hospital school. The teacher's planning in the context of the hospital school, not just the action to prepare lesson plans, but in constant negotiation with the students of the contents to be taught. Therefore, this paper aims to analyze the organization of educational activity in the context of a school, hospital and implications for the redefinition of planning a lesson. As a theoretical basis, will be used Activity Theory as an analytical tool of teaching. The choice and application of this instrument is justified by its focus on human development in the areas social, cultural and historical, in which individual action acquires meaning through the relationships that are established in the collective activity. Thus the present work is characterized as a case study of a school hospital in the city of São Paulo. To support the data that carried out this research, we used the transcripts of interviews with teachers who have worked and work in the hospital school.
Keywords: Activity Theory , Planning , School Hospital.
## Introdução
Em meados do século XX pesquisas desenvolvidas no Canadá, Inglaterra e Estados Unidos passaram a retratar com destaque a preocupação com o desenvolvimento psíquico de crianças hospitalizadas. Os trabalhos de Beverly (1936) e Spitz (1945) apud Fonseca & Ceccim (1999), demonstraram que o período de internação, seja curto ou de longo prazo, acarretava sérios problemas para o crescimento e desenvolvimento cognitivo de crianças internadas na fase da primeira infância.
Posteriormente, no final da década de sessenta foram publicados estudos que contribuíram para modificar a maneira como as crianças eram tratadas durante o período de internação. Mais ainda, geraram propostas e o interesse sobre a humanização do cuidado às crianças hospitalizadas, como o aumento de visitas familiares durante o período de internação, adequação do espaço físico para o atendimento infantil e implementação de atividades didático -educativas (Fonseca & Ceccim, 1999, p. 25).
No âmbito brasileiro, a atuação de profissionais da área educacional em ambientes hospitalares iniciou-se na década de cinquenta. Mais precisamente, a primeira Classe Hospitalar foi instituída no Hospital Municipal Jesus, na cidade do Rio de Janeiro (Fonseca, 1999). Entretanto, somente a partir da década de noventa, a discussão sobre Classes Hospitalares e sua respectiva legislação tomou corpo no Brasil, principalmente em função da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente ? Lei 8.069 de 13 de julho de 1990 ? em que assegura o direito constitucional à educação .
No ano de 2002, o Ministério da Educação e do Desporto, lançou um documento com determinações específicas, intitulado Classe Hospitalar e Atendimento Pedagógico Domiciliar - - Estratégias e Orientações s (BRASIL, 2002). Este documento assegura o acompanhamento educacional do processo de ensino -aprendizagem de crianças, jovens e adultos, que por motivo de doenças estão afastados da escola regular. Assim, cabe às escolas hospitalares a responsabilidade de manter o vínculo do estudante com a escola
regular através de currículo flexibilizado e/ou adaptado, garantindo o ingresso, retorno ou reintegração do estudante (BRASIL, 2002, p.13).
No âmbito das pesquisas desenvolvidas, muitos trabalhos estão sendo realizados sobre esta modalidade de educação especial (Fonseca, 2003; Ortiz & Freitas, 2002; Paula 2004). Dentre estes, o mapeamento de escolas hospitalares existentes no Brasil, a compreensão da prática pedagógica nestes espaços, os ambientes disponíveis para as aulas, políticas e/ou diretrizes que orientam o trabalho desenvolvido pelos profissionais, bem como a reinserção de crianças e adolescentes após o término do tratamento . Por outro lado, constata -se a carência de pesquisas que investiguem a atuação de professores de física nestes espaços. Mais especificamente, quando consideramos como se estabelece o planejamento realizado pelos professores .
De modo geral, quando consideramos o planejamento no âmbito educacional, devemos ter claro que se trata de um processo contínuo de tomada de decisões sobre ações em relação ao futuro. Dessa forma o planejamento torna-se uma atividade essencialmente humana, ou seja, pensar antes de agir, organizar suas ações e adequar meios, fins e valores (Padilha, 2005). Em contrapartida, o planejamento nas escolas hospitalares deixa de ser óbvio e estático , tornando -se objeto de investigação na prática docente. Nesse sentido, a atuação de docentes nestes ambientes evidencia o planejamento online (Tavares et al., 2009), no qual professor e estudante baseiam sua interação em uma percepção mútua no desenrolar das aulas .
Tendo em vista este panorama preliminar, o presente trabalho tem como objetivo identificar os elementos que organizam o planejamento dos professores de física no contexto peculiar da escola hospitalar. Por se tratar de um estudo de caso, foram realizadas entrevistas com professores de Física do projeto Escola Móvel/Aluno Específico (EMAE). Este projeto está instalado desde 2002 no Instituto Oncológico Pediátrico (IOP-GRAACC), na cidade de São Paulo .
Como fundamentação teórica, utilizaremos a Teoria da Atividade desenvolvida por Leontiev (1978), e posteriormente por Engeström (2001) . A escolha destes referenciais se justifica, pois os autores propõem um modelo de atividade humana no qual, a atividade educativa pode ser representada por um conjunto de atividades coletivas, que representam a atividade mais geral e cada um dos seus níveis hierárquicos.
## Teoria da Atividade
A Teoria da Atividade surgiu na antiga União Soviética com os trabalhos de Vygotsky, Luria e Leontiev por uma psicologia sócio-históricacultural , fundamentada na filosofia marxista (Duarte, 2002) . Em seus trabalhos, Leontiev (1988) define o termo atividade da seguinte maneira:
[...] Por este termo designamos apenas aqueles processos que, realizando as relações do homem com o mundo, satisfazem uma necessidade especial correspondente a ele. [...] Por atividade, designamos os processos psicologicamente caracterizados por aquilo
a que o processo, como um todo, se dirige (seu objeto), coincidindo sempre com o objetivo que estimula o sujeito a executar uma atividade, isto é, o motivo . (Leontiev, 1988, p.68)
Diferentemente da atividade animal, na atividade humana a relação entre o objeto e o motivo da sua atividade deixa de existir. Dessa forma, surge uma nova estrutura complexa de atividades, estabelecida quando o homem passou a viver em sociedade, com sua consequente divisão do trabalho. Em seu exemplo clássico de uma atividade de caça coletiva, realizada por um grupo primitivo de seres humanos, Leontiev (1978) exemplifica a complexificação da estrutura da atividade humana por meio da diferenciação entre atividade e ação .
No exemplo, a atividade humana é composta por diversas ações realizadas por diferentes indivíduos do grupo. Entre estas, a produção de artefatos para a utilização durante a caçada, ascender e preservar o fogo para assar a carne do animal abatido e assim por diante. Dessa maneira, o grupo poderia ser dividido em dois. O primeiro seriam os caçadores, que ficariam a espera da caça em um local pré-determinado. O segundo seriam os chamados batedores, responsáveis de espantar a caça para o local previamente combinado com os integrantes do primeiro grupo, de maneira a encurralar o animal e por fim abate-lo. Por sua vez, os meios de execução necessários para que a ação seja realizada são denominados operações e dependem das condições em que é dado o fim de uma ação. Para o caso do batedor, o ato de gritar e correr r o animal são operações que constituem a ação de espantar a caça . Dessa maneira, o que conecta a ação do sujeito (batedor) ao motivo da atividade são as relações socialmente construídas entre ele e o restante do grupo. Isso significa que a ação do sujeito só adquire significado quando este compreende a relação entre o objeto de sua ação e o motivo que permeia a atividade como um todo.
Nesse sentido os estudos iniciados por Vygotsky y e desenvolvidos por Leontiev quanto ao coletivo como unidade de análise, proporciona a expansão da Teoria da Atividade realizada por Engeström a partir da década de setenta . Sua intenção era realizar um exame dos sistemas de atividades no nível macro do coletivo e da comunidade, em preferência a um nível micro da concentração no ator ou agente individual operando com as ferramentas (Daniels, 2003, p.118). Para isso, colocou no cerne da atividade humana as inter-relações entre indivíduo e comunidade por meio da inserção das regras (regras explicitas ou implícitas na comunidade), da comunidade (sujeitos que compartilham o mesmo objeto) e da divisão social do trabalho (forma de organização da comunidade para alcançar um resultado), além dos artefatos mediadores, sujeito e objeto.
- O modelo de Engestrom (2001) ainda se caracteriza pelo conceito de contradições internas como força motriz de interação entre os sistemas de atividades. Estas contradições geram perturbações e conflitos, que mobilizam a transformação da atividade, o que para a atividade educativa na escola hospitalar deve ser considerado, visto que as relações que são estabelecidas entre os sistemas da atividade (família, hospital e escola de origem) são
caracterizadas pelas suas particularidades e diferentes motivos e fins estabelecidos na negociação das interações humanas deste ambiente.
## Metodologia
Para a obtenção dos dados que subsidiaram esta pesquisa, foram realizadas entrevistas semi -estruturadas com professores das áreas de Física, Química e Biologia, 1 que participaram/participam do projeto Escola Móvel/Aluno 1 Específico (EMAE) 1 . A escola móvel está instalada, desde 2002, no Instituto Oncológico Pediátrico (IOP-GRAACC), hospital ligado a Universidade Federal de São Paulo -Escola de Medicina Paulista (UNIFESP - EPM). Por este fato, utilizamos como procedimento formal para a coleta de dados, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) . Este documento tem como objetivo informar aos participantes da pesquisa à qual instituição pertence o pesquisador, o título do trabalho, os objetivos e fins da pesquisa, e demais dados relevantes para o interesse do pesquisado, evidenciando que sua participação seria voluntária e que seus dados pessoais serão mantidos em sigilo.
Como forma de registro dos dados , todas as entrevistas foram gravadas em áudio com o consentimento dos entrevistados. Nessa perspectiva, utilizamos Bakhtin (2006) como referência balizadora da tomada de dados, afinal para o autor signo e a palavra refletem e refratam a realidade objetiva. Isto significa que não podemos falar da consciência humana sem falar na mediação pela palavra. "A consciência só se torna consciência quando se impregna de conteúdo ideológico (semiótico) e, consequentemente, somente no processo de interação social." (Bakhtin 2006, p.34)
A palavra nesse contexto é o conteúdo mais básico da consciência humana. Porém a palavra não é vista como um ato individual, mas sim como fruto das tensões sociais. Não basta colocar dois homo sapiens s juntos para que a palavra surja, eles precisam estar socialmente organizados, compartilhar uma dinâmica social (Bakhtin, 2006). Desta maneira, por meio da mediação se vincula a consciência à linguagem e a linguagem à dinâmica social. Estes vínculos formam o campo fértil para o surgimento e desenvolvimento da Teoria da Atividade.
Para realizar o levantamento dos professores que atuaram/atuam na escola móvel, solicitamos a colaboração da coordenação do projeto. Após nossa solicitação a coordenação elencou informações no banco de dados da escola e disponibilizou para a pesquisa uma lista contendo o contato (endereço de e -mail) dos professores.
A partir deste levantamento inicial elencamos um total de 12 professores das áreas de Física, Química e Biologia. Destes, nove professores de física, dois professores de Biologia e um professor de química. Cabe ressaltar que nesta amostragem final não foram incluídos professores que não
obtivemos retorno após contato (quatro professores) e dois professores em especial, que faleceram posteriormente à atuação na escola móvel .
Dos doze professores elencados, oito professores já foram entrevistados até a elaboração do presente trabalho. Entre os procedimentos utilizados para a realização das entrevistas, estão: leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, esclarecimento acerca das dúvidas elencadas pelo entrevistado e sua respectiva concordância em colaborar com a pesquisa. Com o intuito de preservar a identidade dos professores, utilizaremos pseudônimos durante a análise dos dados.
## Análise e Discussões
Neste trabalho realizaremos um recorte na estrutura da atividade mais geral da escola hospitalar, sendo esta composta por diversas ações, com fins determinados, as quais são compostas por r diferentes operações. Dessa forma, a atividade ensinar r em uma escola la hospitalar r se coordena com outras atividades, como por exemplo, a atividade hospitalar de cuidar o paciente, a atividade familiar de cuidar o filho e a atividade da escola de origem do estudante, cada qual com seu fim específico. Esta coordenação entre diferentes atividades mostra os diversos níveis hierárquicos possíveis de serem representados, além das diversas formas de coordenação de atividades, ações e operações, as quais criam novos níveis hierárquicos.
Evidentemente que considerar todas as ênfases possíveis na análise não é uma tarefa fácil, se não impossível. Por isso, neste trabalho estamos fazendo um recorte neste universo, considerando a parcela que diz respeito à atividade do professor, mais especificamente, do professor de física. Nesse sentido, a atividade do professor se constitui de diversas ações e operações coordenadas entre si, entre elas a ação de planejar.
Assim, a análise constituirá de momentos. Primeiro, destacaremos as características e peculiaridades do contexto da escola hospitalar. A seguir, apresentaremos alguns excertos das entrevistas realizadas, com o objetivo de identificar os elementos que auxiliam no planejamento das aulas dos professores entrevistados.
## Características e peculiaridades do contexto da escola hospitalar
Por r não possuir as características de uma escola convencional, a Escola Móvel/Aluno Específico está imersa em um contexto complexo, pois as atividades de ensino -aprendizagem acontecem num ambiente adaptado às condições adequadas aos alunos-pacientes. Essa complexidade é acentuada pelo fato dos estudantes estarem em tratamento oncológico, o qual é físico e psicologicamente muito agressivo.
Devido ao tratamento ser de longa duração e exigir muito do paciente, vários acabam por faltar em excesso ou mesmo por interromper a vida escolar (MARCHESAN, 2007). Por conta desta realidade, a escola móvel tem como objetivos recuperar habilidades e conteúdos básicos. Nessa atividade procura adequar as crianças à sua série de origem para que mantenham, de modo geral, o vínculo com a rotina e o saber escolar. Aqui se considera a escola como parte do seu universo cotidiano e as relações escolares como o espaço onde ela se desenvolvia (COVIC, 2003).
Ao longo da idealização do projeto, que surgiu da intenção de inserir a atividade educativa no tratamento dos alunos -pacientes de maneira que fosse integrada com as outras áreas que envolvem o tratamento, percebeu-se que o acompanhamento dos alunos deveria ser realizado individualmente. Constatouse que cada criança/adolescente possui suas características individuais e peculiaridades, pois são de diferentes bairros, cidades ou estados, onde cada qual possui seu tempo de vida escolar formal e diferentes experiências fora da escola em função do tratamento (COVIC, 2003).
Portanto, os espaços para a realização das aulas e da possível atuação do educador são os vários. Entre eles as salas de quimioterapia, a brinquedoteca, os quartos de internação, o saguão de espera, o andar da TMO (transplante de medula óssea), ou seja, em quase todos os espaços do hospital.
As aulas realizadas são registradas no banco de dados da escola e também são arquivadas em pastas individualizadas por aluno-paciente. Estas informações servem como referência do andamento do processo de ensinoaprendizado dos participantes da escola (COVIC, 2003), as quais são encaminhadas, após alguns meses, para a escola de origem do alunopaciente. Este processo de registro das aulas no banco de dados é realizado pelos voluntários que trabalham na escola hospitalar. Além desta função os voluntários são responsáveis pela chamada diária dos alunos-pacientes matriculados, matricula de novos alunos e o contato com as escolas de origem dos mesmos (sendo este contato também realizado pela coordenação da escola hospitalar) . A pasta é acompanhada de um relatório sobre o aproveitamento do aluno-paciente, que serve como comprovação das atividades realizadas no hospital e, em muitos casos, auxilia na aprovação do estudante na escola formal que está matriculado.
Diariamente , são realizadas reuniões após o período das aulas com a coordenação da escola. Nestas reuniões os professores comentam e discutem sobre as dificuldades e dúvidas encontradas durante as aulas, os conteúdos trabalhados com os estudantes e repassam informações gerais sobre o andamento das atividades . Além das reuniões diárias, os professores participam do Curso Aprimorandos. Neste curso, os professores participam de palestras e seminários sobre temas que envolvem os profissionais atuantes no hospital - médicos, psicólogos, assistentes sociais - - e profissionais das diversas áreas da educação - professores de pedagogia, matemática, currículo etc.
## A Atividade ensinar r Física na escola hospitalar e a ação de planejar
A partir dos aspectos apresentados, podemos apontar para alguns elementos da estrutura da atividade. A atividade de ensinar física na classe hospitalar é formada por uma grande diversidade de ações, cada qual com seu fim particular que as orientam. Uma delas é a ação de planejar a aula de física, que tem como fim antecipar como se dará a aula. Podemos ainda dizer que esta ação é formada por diversas operações.
Na escola hospitalar , as tarefas e conteúdos a serem desenvolvidos durante as aulas são definidos no início de cada aula. Ou seja, o planejamento
do professor é realizado no transcorrer de cada aula e em constante negociação com o aluno-paciente. Atentemos para o relato:
Com o tempo eu fui conhecendo os alunos, não fui só sendo o professor deles eu acabei tendo uma certa intimidade e conversar como amigo: "oi tudo bem? como é que você está?". ". Fui descobrindo da onde eles eram, o que eles gostavam de fazer, o que eles não gostavam de fazer, o que era legal para eles. Então fui criando um espspaço para eles dizerem, essa aula eu não estou gostando tanto, não estou entendendo. Então meio que tentando dar liberdade para eles criticarem a minha aula, pegar e falar assim "e "eu não estou entendendo nada do que você falou". Aí tentar achar um outro jeito , até eles falarem assim, beleza isso daqui eu acabei entendendo um pouquinho melhor. (Professor Luciano)o)
O conhecer mais intimamente o aluno -paciente é algo característico do contexto da escola hospitalar. Esta conversa informal l com o estudante é uma operação que faz parte da ação planejar r e que por sua vez está inserida na atividade de ensinar física na escola hospitalar. Em outras palavras, o diálogo descontraído com o estudante e o estabelecimento de uma relação mais íntima - obter informações sobre o estudante, sua origem, seus gostos - facilita o planejamento para o próximo encontro com o estudante , e ainda exige do professor a flexibilidade de adaptação para articular os diferentes conteúdos específicos que são enviados pelas escolas de origem dos diversos estados brasileiros.
Outra operação é a verificação da pasta do estudante . Procurar, momentos antes da aula, informações sobre os conteúdos a serem desenvolvidos com o estudante e verificar quais já foram trabalhados por outros professores, é neste caso, uma operação da ação de planejar r do professor.
Quando eu comecei, eu dei uma aula que já tinham dado, eu não consultava sempre [a[as pastas dos estudantes]s], eu chegava e perguntava. Não consultava porque eu achava que era só pegar o livro e tudo bem. Mas aí, í, você sai da reunião e descobre que mais duas pessoas deram aula para ele. Então aí eu comecei a consultar a pastinha. (P(Professor Marcos)s)
Como vemos no relato do professor, buscar informações nas pastinhas sobre os conteúdos já desenvolvidos não fazia parte de seu planejamento inicial, mesmo estando consciente de que poderia recorrer ao arquivo. Ou seja, a verificação das pastas dos estudantes ainda estava no plano das ações que compõem a atividade mais geral de ensinar r na escola hospitalar. Somente após compartilhar informações durante as reuniões diárias , com os outros professores e cordenadores, que o professor conectou o objeto da sua ação com o motivo que permeia a atividade como um todo. Nesse sentido, o professor reorganizou sua atividade de ensinar física, sendo que a verificação das pastas dos estudantes s que antes estava no plano das ações tornou-se uma operação da ação de p planejar. r.
Atentemos um pouco mais, sobre as reuniões diárias que acontecem após o período de funcionamento da escola móvel. De modo geral, os professores entrevistados relatam que estes encontros são fundamentais nos mais diversos aspectos, conforme transcrição abaixo.
As reuniões sempre começavam com os coordenadores conversando , discutindo um pouco do dia , falando de alguma necessidade mais administrativa e depois a gente começava . E aí começava a reunião em si, que era cada professor falar pra quem ele tinha dado aula. Então se tinha um aluno novo e tal. Se fosse paciente novo que tinha chego , aí tinha que falar a situação do rapaz, e a gente tinha uma ficha pra preencher quando o aluno é novo. E aí a gente falava o conteúdo que deu, se algum aluno estava com dificuldade, se tinha acontecido alguma situação que era relevante ser falado. Alguma dificuldade do próprio aluno ou cognitiva ou física, aí a gente sempre discutia. Eu acho que o que era interessante , e o que a gente sempre discutia era se estava tomando [o estudante] algum tratamento , alguma quimioterapia ou alguma medicação que tinha algum efeito colateral ou perdido um pouco da visão. Porque o aluno não fala. Se ele não está conseguindo pegar o lápis ele não fala, se ele não consegue enxergar ele não fala. Então o professor tem que ter essa sensibililidade para perceber isso. Se o professor vai dar aula para algum aluno que está tomando uma medicação ou tem algum efeito colateral, l, se ele perde um pouco da visão e tal, então o professor que vai lá já sabe e ele já vai dar um toque se algum outro professor for. Então já sabe pra não ser indelicado com a situação e já ir preparado também para fazer letras maiores ou uma outra atividade que não deixe o aluno constrangido, por exemplo. Isso eram coisas que geralmente a gente fazia e eu acho que eram fundamentais essas reuniões para o trabalho seguir da forma como a gente queria. No começo eu não entendia muito, mas depois com o passar do tempo. (P(Professora Juliana)a)
Por meio do relato da professora Juliana, podemos destacar alguns aspectos sobre as reuniões diárias na escola móvel - a troca de informações com a coordenação e entre os professores, dificuldades encontradas durante as aulas, e assim por diante . Peguemos um exemplo , o preenchimento da ficha do estudante. Após o término de cada aula, o professor deveria anotar na ficha do estudante os conteúdos desenvolvidos e as observações que considerasse relevantes sobre o comportamento do estudante durante a aula. Este procedimento de registrar a aula na ficha se constitui outra operação da ação de planejar; r; que possui, ao mesmo tempo, o objetivo de registrar a aula ministrada e explicitar informações para os outros professores que futuramente acessaram a pasta do estudante. Neste caso, o professor poderá antecipar e articular estratégias que abarquem as especificidades de cada estudante, por exemplo , a utilização de letras maiores para estudantes que possuem deficiência visual, conforme descrito no relato .
Outro aspecto identificado nas entrevistas, e já comentado anteriormente, são as reuniões e palestras realizadas durante o Curso Aprimorandos. Os professores entrevistados relatam que assistem a palestras realizadas pelos diversos profissionais que atuam no hospital. Entre os temas abordados estão os tipos de câncer, formas de tratamentos e procedimentos médicos . Assim como, participam de palestras com professores da área da educação, em que abordam temas como currículo , metodologia, concepções de ensino, matemática, entre outros .
Em um dado momento da entrevista com o professor Marcos, que atualmente faz parte da equipe de professores da EMAE, o professor destaca a palestra realizada por uma médica do hospital. A palestra tinha como objetivo
discutir a importância da higienização dos materiais utilizados no ambiente hospitalar. Atentemos para a transcrição.
No começo foram muitos professores falando sobre pedagogia, ou então médicos falando sobre o câncer. A gente teve uma aula sobre lavar a mão que eu achei inincrível, sobre higiene que eu fiquei: nossa , puxa vida é mesmo! Ela [palestrante] mostrou sobre higiene, falou sobre contaminação, falou um monte de coisas. [...] E ela falou como deve lavar a mão e isso eu achei importante. Porque na verdade você não tem muito pra quem perguntar, você vai perguntar para a enfermeira e tal. Como é que eu lavo a mão? Às vezes ela não tem tempo para te ensinar. No meu segundo dia de trabalho o coordenador subiu comigo na TMO [Transplante de Medula Óssea], ], e ele falou para mim limpa assim e tal. Ele me deu as instruções, mas você não tem um profissional falando. E ela [p[palestrante] e] foi lá e falou. Às vezes você entra com um lápis e pensa, é só um lápis nem usou direito. Mas é perigoso mesmo. (Professor Marcelo)
O ato de higienizar as mãos e os materiais faz parte da rotina da comunidade que vivencia o ambiente hospitalar, neste caso, médicos, enfermeiros, voluntários, professores, familiares e assim por diante . Pensando na atividade de ensinar física na escola móvel, este procedimento passa a fazer parte do planejamento do professor . Por exemplo, quando o professor ministra aulas nos quartos e no andar da TMO - andar em que estão internados os pacientes que realizam o Transplante de Medula Óssea - realiza determinados procedimentos antes do iniciar a aula . Primeiro, deverá lavar as mãos, limpar os materiais (lápis, borracha, prancheta), utilizar o avental e a touca de cabelo. Somente após estes procedimentos poderá abordar o aluno e ministrar a aula. Entretanto, o professor atribuiu novos significados para a higienização das mãos e dos materiais após a palestra de um dos profissionais do hospital, conforme o relato transcrito acima .
Em outras palavras, o professor atribuiu um novo sentido para a ação de higienizar as mãos e os materiais, tornando-a uma operação da ação de planejar. r. Ao mesmo tempo, explicitou uma regra compartilhada - - higienização das mãos e dos materiais - pelos sujeitos das diversas atividades individuais e coletivas que a escola hospitalar se relaciona.
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com este trabalho podemos evidenciar a complexidade que envolve a atuação de professores em ambientes hospitalares. Mais especificamente, quando lançamos o olhar para o planejamento de uma aula na escola hospitalar. No contexto hospitalar , o planejamento deixa de ser algo estático e previamente organizado através de planos de aula, tornando-se uma das ações da atividade de ensinar r desenvolvida pelos professores . Dessa forma, exige uma flexibilidade do professor para planejar r sua aula momentos antes de iniciala e manter -se em constante negociação com o estudante . Outro ponto evidenciado foi à importância atribuída pelos professores às reuniões após o período de aulas e palestras realizadas pelos profissionais que atuam nos ambientes hospitalares . Além de compartilhar informações sobre o andamento de suas aulas, o professor articula estas informações para auxiliar no seu planejamento diário . Fica evidente, a diversidade de elementos articulados na
atuação de profissionais nestes espaços, sendo um campo de investigação ainda pouco explorado nos cursos de formação de professores.
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