O ESTUDO DAS LEIS DA TERMODINÂMICA POR MEIO DO TEATRO HUMORÍSTICO
Elisangela De Andrade Santos, Adalcy Costa Dos Santos, Anuska Torres Moraes De Paiva., Jaciara Santos Menezes
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 28/01/2019
- Linha de pesquisa
- Materiais, Métodos E Estratégias De Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## O ESTUDO DAS LEIS DA TERMODINÂMICA POR MEIO DO TEATRO HUMORÍSTICO
## * Elisângela de Andrade Santos 1 , Adalcy Costa dos Santos 2 , Jaciara Santos Menezes 3 , Anuska Torres Moraes de Paiva 4
- 1 Secretaria do Estado de Educação/Colégio Estadual Nelson Mandela, zanzandrade@gmail.com
- 2 Secretaria do Estado de Educação/Colégio Estadual Nelson Mandela, adaartes@yahoo.com.br
- 3 Universidade Federal de Sergipe/Departamento de Química, jaciara.sts88@gmail.com
- 4 Secretaria do Estado de Educação/Colégio Estadual Ministro Marco Maciel, anusmoraes@hotmail.com
## Resumo
O presente trabalho trata-se de uma proposta envolvendo o teatro científico, cujo objetivo é atrair a atenção dos estudantes para os conceitos e aplicações da termodinâmica. Os estudantes de uma turma do segundo ano do Ensino Médio em Tempo Integral construíram uma peça, cenários, confeccionaram figurinos, realizaram ensaio e apresentaram a peça para a comunidade escolar. Foram organizados grupos de pesquisa; fundamentaram a socialização nos quadros cênicos do personagem Chaves e sua Turma. Os resultados foram satisfatórios, pois os estudantes conseguiram concluir o trabalho com a participação de toda a turma, abordaram corretamente os conceitos da termodinâmica de forma divertida e relacionaram com o cotidiano. Durante a apresentação final, a comunidade escolar transpareceu aceitação, externando com aplausos pela ousada irreverência dos personagens em relação ao conteúdo. Concluímos que a experiência foi benevolente para ambos os grupos, de um lado a interação e buscas por respostas concludentes dos alunos atores e por outro a aceitação e entendimento do público presente.
Palavras-chave : Aprendizagem, Teatro científico, Termodinâmica, Arte cênica.
## Introdução
Ensinar Física é uma tarefa difícil para muitos professores, devido a vários fatores, mas principalmente à falta de interesse dos alunos, tornando muito complicado conseguir um processo de ensino-aprendizagem eficaz, no qual o aluno seja ativo. O teatro cientifico é uma importante ferramenta para motivar os educandos a aprenderem conteúdos da ciência (MOURA, 2008).
Para Silva (2004) um estudante desmotivado possivelmente não terá um bom rendimento escolar. É preciso incentivar os alunos, evidenciando a importância da Física, encorajando-os no processo de aprendizagem.
Segundo Charlot (2000, p.55) a motivação é provocada por algo ou alguém, enquanto que a mobilização é intrínseco, ou seja, parte do indivíduo que se mobiliza; 'É verdade que, no fim da análise, esses conceitos convergem: poder-se-ia dizer que eu me mobilizo para alcançar um objetivo que me motiva e que sou motivado
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por algo que pode mobilizar-me'.
A interpretação teatral sempre se mostrou como um instrumento interdisciplinar indispensável na educação de jovens, porque atinge tanto os estudantes atores como o público em sua plenitude de sentidos. Considerando que a vida em si já é uma representação pura e que ainda assim, sem ensaios, nos permite uma melhor interpretação da convivência humana. Despertando para observação de si mesmo e do outro, revendo histórias de vida e desenvolvendo capacidades de expressar seus sentimentos de forma positiva com colaboração e respeito (GRANERO, 2011).
Segundo Charlot et al (2013, p.48) quando a Arte dialoga com a Educação por meio do teatro, percebe-se o sensível e o criativo tentando dialogar com o imaginário, com o que é curioso. 'Dessa forma, o mundo simbólico caminha em direção à vida. A vida que dá vida! A curiosidade possibilitando a criatividade'. A parceria da disciplina Arte com outras disciplinas permite que os estudantes vençam suas dificuldades e possibilitem colocar em prática o que estiver no imaginário.
Muitos creditam que a comédia sempre esteve presente no cotidiano dos seres humanos em todas as faixas etárias independente do credo religioso ou social e apresentavam um grande atributo, a improvisação, referencial este que facilita e muito o trabalho do grupo (FRENDA, 2013).
Para Charlot et al (2013, p. 185 e 186) a escola deveria considerar 'a história e o projeto pessoal e coletivo do aluno, unindo saberes e experiências. Sozinhos não avançamos, construímos nossas individualidades pela mediação do social'.
A investigação do processo de desenvolvimento de conceitos, bem como a busca da melhor forma de favorecer o processo de ensino e aprendizagem, tem sido uma constante nos estudos de orientação construtivista. Observa-se uma prática pedagógica que evidencia um modelo reproducionista de ensino, negando ao aluno a possibilidade de construir o seu próprio conhecimento, quando deve dar oportunidade ao aluno fazer uso de suas concepções espontâneas, se colocar e errar, e a partir daí construir um saber reflexivo e crítico. Tal fato evidencia a importância de um trabalho junto ao professor, no sentido de que, através de sua inserção num processo de avaliação, reflexão, crítica e aperfeiçoamento de seu trabalho, possam superar algumas de suas dificuldades e atingir uma mudança qualitativa.
Para Allessandrini (2003), o incentivo à criatividade é um fator muito relevante para o desenvolvimento intelectual do indivíduo, pois permite organizar estratégias para vencer os desafios que se apresentam no contexto social deste. O contexto social de uma pessoa é determinado pelas condições de vida e de trabalho, pelo nível de escolarização, bem como pelas comunidades a que ela está integrada. As disparidades existentes entre os vários contextos sociais dos indivíduos podem ser responsáveis por diferenças significativas nos níveis intelectuais destes.
Ainda segundo a autora, o desenvolvimento das habilidades deve ser sempre seguido de encorajamento, à medida que vão recebendo elogios por terem avançado no entendimento dos processos relacionados a uma atividade, por exemplo, tornam-se mais capazes de executar a etapa seguinte e, por isso, passam a perceber as assimilações e sucessos como mérito próprio, sentindo-se, dessa forma, possuidores de habilidades que possibilitam estabelecer metas, planejar
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ações, avaliar seus progressos e reconhecer acertos e dificuldades. Para ensinar o aluno a inventar, é bom mostrar-lhe primeiro que ele pode descobrir.
A colaboração da professora de Artes do colégio proporcionou um melhor desenvolvimento da ação, porque apresentou movimentos rítmicos, e auxiliou os estudantes na confecção dos trajes.
Mendonça (2011) informa sobre o ensino tradicional e seu surgimento na Europa no século XVIII onde a avaliação é padronizada e a mente é vista como um espaço vazio cujos conteúdos devem ser inseridos de forma rígida, valorizando o acúmulo de conhecimento. Podem-se perceber nas escolas que o ensino tradicional tem atraído pouco os discentes que demonstram insatisfação e desinteresse pelo estudo.
Atualmente, esse método não satisfaz as expectativas da escola e o aprendizado dos estudantes, obtendo como resultados um aumento na evasão escolar, repetências, falta de interesse pelas disciplinas e não condiz com o contexto familiar e econômico.
A arte cênica, aqui descrita, é vinculada ao envolvimento de temas científicos com a arte sendo essa união vista de maneira complexa, pois o pensamento das pessoas é que são distintos não havendo possibilidade de estabelecer uma união concreta principalmente por se tratar de ciências.
De acordo com Carvalho et al (2004), para muitos o fato de entender a beleza da ciência é difícil e a primeira barreira é o tipo de linguagem. Sendo assim, a visão da população sobre um artista é de um ser criativo que utiliza de certas ferramentas para expor sua arte, sua criação. Um ator utiliza-se da dramaturgia, da interpretação e incorporação de uma personagem real ou imaginária. Ainda segundo esses autores, a visão de um cientista, é uma figura, geralmente do sexo masculino, alheio ao mundo comum e com capacidades intelectuais que permitem uma compreensão e visão de mundo além das demais pessoas e, designado a observar fatos e fenômenos descrevendo e provando com fórmulas matemáticas ou experiências feitas em laboratórios.
Para Cachapuz (2005), os cientistas são vistos como gênios, indivíduos especiais e solitários fazendo uso de uma linguagem lógica e abstrata, restrita e de difícil acesso, enfatizando a visão descontextualizada com concepções individualistas e elitistas da ciência.
Portanto, para quebrar o mito dessa visão, fizemos o uso do teatro humorístico como recurso pedagógico de uma forma estimulante e divertida, focando os conceitos da termodinâmica. No entanto, suas contribuições para o meio escolar e acadêmico ocorrerá pelos resultados que poderão ser obtidos das observações, estudos e análises.
A Física não devem ser ensinadas somente à custa da memorização de fórmulas e resolução de exercícios acadêmicos, mas potenciando a compreensão e a ligação ao mundo real. Nem todas as atividades têm de ser apenas de caráter laboratorial: as atividades de sala de aula têm uma grande importância no desenvolvimento de conceitos. Portanto se unirmos a aula teórica as atividades lúdicas acreditamos que se consiga um bom entendimento dos conteúdos.
Pensando nessa perspectiva foi desenvolvido esse trabalho com o objetivo de atrair a atenção dos estudantes para a aprendizagem de conteúdos da
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termodinâmica.
## Metodologia
Foi solicitado que uma turma da segunda série do Ensino Médio em Tempo Integral pesquisasse e construísse uma peça teatral com o tema físico: Termodinâmica. Foram disponibilizadas cinco aulas da disciplina Física para desenvolvimento da atividade, uma aula por semana. A primeira aula foi destinada à apropriação do conteúdo, por meio de leituras e discussões. Na segunda aula, ficou decidido o estilo teatral e escrita da peça, que foi o programa humorístico: 'Chaves'. Na terceira aula, a turma foi dividida em dois grupos: o primeiro grupo composto por onze alunos que representariam os personagens e o segundo grupo composto por dezoito estudantes que se encarregariam de confeccionar as vestimentas e cenário. Nessa aula, os alunos definiram quem representaria cada personagem, começaram a ensaiar e o outro grupo planejou o cenário e vestimentas. A quarta aula foi destinada a montagem do cenário e ensaio da peça. E na quinta aula ocorreu a apresentação para a comunidade escolar.
É importante informar que esse trabalho teve a colaboração das professoras de Artes e Química e que a escola dispõe de uma sala contendo máquina de costura e material de apoio para confecção de cenário e vestimentas.
Por ser uma escola em tempo integral, os estudantes também utilizavam horários de almoço para ensaios e confecção de materiais, nesse caso, sem a supervisão do professor.
## Resultados e Discussões
A peça inicia com um carro quebrado na porta da Vila do Chaves, e um dos personagens sugere brincar de Oficina Mecânica. Para solucionar a possível causa do carro quebrado, começam a debater sobre os conceitos da termodinâmica. As falas dos alunos estão representadas pela letra A seguida de um número. Eis uma parte da peça:
A1-Chaves- Porque o carro quebra?
A2-Kiko- Porque ele deve ter ficado doente
A3-Professor Girafales - Não, não... deve tá quebrado por motivos técnicos, como a bateria, ignição ou motor. A termodinâmica explica
A4-Seu madruga- Termo... o que?
A3-Professor Girafales - Termodinâmica... Que nada mais é que a parte da física que estuda principalmente a transformação de energia térmica em trabalho.
[...]
A5-Inhonho- O desenvolvimento da termodinâmica surgiu da necessidade de criar máquinas existentes, naquela época, as máquinas de vapor. Mas o início de tudo foi em 1650, com Otto Von Guericke que criou a primeira bomba a vácuo do mundo.
A1-Chaves- (Rir) que burro! Dá zero pra ele professor.
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A3-Professor Girafales- Chaves, não estamos na escola. E ele respondeu corretamente.
A6-Dona Florinda- (Entra) Professor Girafales!
A3-Professor Girafales- Dona termodinâmica!
A6-Dona Florinda- Hãn?
A3-Professor Girafales- Dona Florinda, vim te trazer esse humilde Motor, oh! Buquê de flores.
[...]
A2-Kiko- Por que o carro funciona?
A5-Nhonho-Graças ao movimento do motor, que em um automóvel ocorre a mistura de ar e combustível, o processo isométrico, adiabático, isocórico ou isovolumétrico [...]
A1 e A2-Chaves e Kiko-Olha a Bruxa do 71!
A9-Dona Clotilde-Quê? Já disse que não sou bruxa!
A7-Chiquinha-Oh... meninos, que falta de respeito com Dona Clotilde.
A9-Dona Clotilde-Estão falando de que?
A4-Seu Madruga- da termiônica.
A9-Dona Clotilde-Não seria termodinâmica? Já estudei sobre isso.
A1-Chaves-E ainda lembra?
A9-Dona Clotilde-Ora, claro! Principalmente sobre as leis.
A7-Chiquinha-Leis? Quais leis?
A9-Dona Clotilde-Primeira lei: É a da conservação de energia, nela observamos a equivalência entre trabalho e calor. Esse sistema é igual à variação de sua energia interna. Segunda: Para que um sistema realize conversões de calor em trabalho, ele deve realizar ciclos entre uma fonte quente e fria, isso de forma contínua.
Os estudantes trabalharam os conteúdos da termodinâmica, como: transformação de energia em trabalho, conservação de energia, energia interna, equivalência de calor e trabalho, surgimento de máquinas térmicas, também citaram operações em ciclos contínuos entre fontes quentes e frias. Foi mencionado o funcionamento de um motor de automóvel, que precisa da mistura de ar e combustível e os processos de transformações termodinâmicas.
Eles desenvolveram a peça enfatizando as características físicas e humorísticas de cada personagem. O cenário foi construído com materiais de baixo custo, como: TNT, EVA, cartolina, fita adesiva, sobras de tintas de outros trabalhos desenvolvidos na escola e utilizaram várias caixas de papelão para confeccionar o carro, como pode ser observado na Figura 01 .
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Figura 01: Cenário confeccionado pelos estudantes.
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A construção da peça teve a orientação das professoras de física, química e artes, como também estudantes universitários integrantes do Pibid.
Além dos estudantes explorarem o tema proposto e relacionar com o cotidiano, também aprenderam a socialização e concentração através de jogos teatrais, construção e montagem da peça, trabalhos de coordenação motora e corpórea, confecção de figurino e adereços, dinâmicas de ocupação de espaços cênicos, jogos de improvisação teatral e a importância da necessidade da unidade do grupo, uma das maiores dificuldades em escolas públicas. Observa-se que os estudantes enfatizaram os gestos de cada personagens, como observado na Figura 02.
Figura 02: Aluno (Chaves) com a perna elevada reproduzindo o gesto do personagem.
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## Considerações finais
A aprendizagem foi percebida nas discussões para a escrita do texto teatral, quando os estudantes relacionaram a termodinâmica com o funcionamento de um carro; desde a partida, que ocorre a mistura de ar e combustível, ao funcionamento, por meio das transformações termodinâmicas. Eles também realizaram leituras e discussões sobre o surgimento da primeira máquina a vapor e a importância para a sociedade.
Os estudantes mostraram-se bastante motivados e receptivos na execução do trabalho, conseguiram apresentar uma peça que abordasse um conceito da física
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de forma divertida e com informações importantes da termodinâmica. Que foi abordada de forma lúdica e estimulante, conseguindo a participação de toda a turma e aceitação da comunidade escolar, que deixou transparecer com aplausos pela ousada irreverência dos personagens em relação ao conteúdo.
## Referências
ALLESSANDRINI, C. D. A Microgênese na Oficina Criativa. Revista Psicopedagogia, 20(63): 270-291. 2003.
CACHAPUZ, A., GIL-PEREZ, D., CARVALHO, A. M. P., J., VILCHES, A. (organizadores), A Necessária Renovação do Ensino de Ciências , São Paulo: Cortez, 2005.
CARVALHO, A. M. P. (org.), AZEVEDO, M. C. P. S., NASCIMENTO, V. B., CAPPECHI, M. C. M., VANNUCCHI, A. I., CASTRO, R. S., PIETROCOLA, M., VIANNA, D. M., ARAÚJO, R. S. Ensino de Ciências: Unindo a Pesquisa e a Prática . Editora Thomson, São Paulo, 2004.
CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Tradução de Bruno Magne. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.
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FRENDA, Perla. GUSMÃO, Tatiane Cristina. BOZZANO, Hugo Luis Barbosa. Arte em interação . 1ªed. São Paulo: IBEP, 2013.
GRANERO, Vic Vieira. Como usar o teatro na sala de aula . São Paulo: Contexto, 2011.
MOURA, D. A; TEIXEIRA, R. R. P. O teatro científico e o ensino de física. Revista Ciência e Tecnologia . V. 11, n. 18. Unisal. 2008.
MENDONÇA, M. Ensino Tradicional: O Ponto Fraco do Ensino Forte. Revista Época, 01 de agosto de 2011.
SILVA, Elifas Levi da. Aspectos motivacionais em operação nas aulas de Física do Ensino Médio, nas escolas estaduais de São Paulo. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação e Instituto de Física da Universidade de São Paulo, 2004
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