LICENCIANDOS EM FÍSICA: CARACTERIZANDO O PERFIL DOS INGRESSANTES
Carla Alves De Souza, Maria Regina D. Kawamura
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XII
- Ano
- 2010
- Data
- 25/10/2010
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional Do Professor De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## LICENCIANDOS EM FÍSICA: CARACTERIZANDO O PERFIL DOS INGRESSANTES
## CHARACTERIZATION OF STUDENS PROFILE IN A PHYSICS TEACHER COURSE
Carla Alves de Souza 1 , Maria Regina D. Kawamura 2
1 Universidade de São Paulo/Instituto de Física , carla.souza@usp.br
2 Universidade de São Paulo/Instituto de Física , kawamura@if.usp.br
## Resumo
Recentemente alguns trabalhos têm buscado discutir o que se considera a identidade profissional do professor. Há quem aponte que as características de sua prática são construídas ao longo de sua formação, outros consideram que elas se estabelecem em seu exercício profissional. É certo que jovens optam - - seja qual for a razão - - por ingressarem em cursos de licenciatura e, ao longo de sua formação a identidade que atribuem à profissão professor e suas representações evoluem e dão significado às suas escolhas, seja para concluir ou não o curso, optar ou não pela carreira docente. O presente trabalho traz uma discussão acerca das características de ingressantes do Curso de Licenciatura em Física da USP, sob duas abordagens complementares - o perfil sócio-econômico e as perspectivas profissionais. Essa investigação visa contribuir para uma maior compreensão da identidade desses alunos , buscando elementos que possam vir a subsidiar os formadores em suas reflexões sobre a melhoria desses cursos. Para a caracterização do perfil sócioeconômico e educacional dos ingressantes, foram analisados três aspectos: a mobilidade intergeracional em educação, a renda familiar e o tipo de estudo realizado em nível médio. Para além dos valores observados, o interesse principal foi de avaliar o quanto esses parâmetros diferem entre carreiras que correspondem a status sociais diferenciados. No que diz respeito às perspectivas profissionais dos ingressantes, procurou-se identificar diferentes categorias e possíveis representações. Os resultados obtidos indicam uma nítida influência cultural-social nas escolhas pela profissão docente, ainda que aproximadamente metade dos ingressantes não pretenda ser professor . Isso sugere a necessidade de, para além da grade curricular, promover a construção da identidade docente ao longo do curso.
Palavras -chave: Licenciatura em física, Formação inicial, Perfil profissional, Profissão professor
## Abstract
Recent researches have been developed in the direction of considering the professional identity of being a teacher. Some results indicate that the characteristics of the teacher professional are developed along their course formation and others argue that this may occur only in professional practice. In this same direction, the central aim of this paper is to investigate the profile of students that make their option for physics teacher courses. We analyze the social and economic data of students that opted to follow the Physics Teacher Course of the University of São Paulo. We
also tried to investigate their professional perspectives as explicit manifested by them. To characterize the social and economic profile we used three parameters: the educational intergeneration mobility, their familiar income declared data and the kind of basic education previously followed (public or private). Beyond the particular results, our interest was to evaluate these parameters in comparison among careers with different social status. To investigate their professional perspectives we analyzed answers to an oriented questionnaire proposed in the moment of admission. In this case, our interest was to identify different representations they constructed for their future professional occupation. Our results indicated that there is a very well defined social and cultural influence in the choices for physics teacher courses, although almost a half of them do not want to follow this professional. Considering their professional perspectives our results also indicated the need to promote the construction of an identity for teaching and being a teacher along the whole course.
Keywords: Physics teacher course, teacher professional identity, professional representation, student profile.
## 1. Introdução
A questão da formação de professores vem, nas últimas décadas, representando um grande desafio, sendo objeto de diversos estudos, sob diferentes perspectivas (André, 2000) . Mais recentemente alguns trabalhos têm buscado discutir o que se considera a identidade profissional do professor r (Lawn, 2001). Há quem aponte que as características de sua prática são construídas ao longo de sua formação, outros consideram que elas se estabelecem em seu exercício profissional (Gohier, 2001). Além disso, histórias de vida sinalizam a importância de elementos culturais e sociais para a construção do ser professor r (Oliveira, 2004). É certo que jovens optam - seja qual for a razão - por ingressarem em cursos de licenciatura e, ao longo de sua formação a identidade que atribuem à profissão professor r e suas representações evoluem e dão significado às suas escolhas, seja para concluir ou não o curso, optar ou não pela carreira docente.
- O presente trabalho procura investigar as características de jovens ingressantes em um Curso de Licenciatura em Física, enquanto potenciais futuros profissionais . Visa contribuir para uma maior compreensão da identidade desses alunos , que optaram por um curso de formação de professores , buscando elementos que possam vir a subsidiar os formadores , em suas reflexões sobre a melhoria desses cursos.
Trabalhos semelhantes vêm sendo realizados em relação aos cursos de pedagogia (Louzano, 2008 e Leme, 2009) ou, também, se debruçaram sobre essa questão em outras realidades culturais (Hanushek, 1995). No que diz respeito à formação de professores de Física, foi também desenvolvido um estudo buscando correlacionar a motivação dos professores e sua formação inicial (Silva et al., 2008) , envolvendo professores em serviço.
- O presente trabalho toma como objeto de investigação especificamente as características de ingressantes do curso de Licenciatura em Física da USP, com a preocupação de contemplá-las em sua dimensão social . A preocupação com indicadores sócio -culturais expressa a intenção de situar as expectativas desses
ingressantes em um contexto social mais amplo, entendendo que esse é um campo importante das escolhas profissionais dos jovens, nessa fase de suas trajetórias.
O papel das condições sócio-econômicas e culturais sobre o desempenho escolar foi largamente investigado por r Pierre Bourdieu, nas décadas de 70 e 80. Inicialmente, ele buscou relacionar as razões de sucesso ou fracasso escolar com características sociais e culturais, rompendo com explicações fundadas seja em dons naturais, seja apenas em esforços individuais. Desses estudos, emergiu o conceito, por ele seguidamente reconsiderado , de capital cultural. Para ele, por meio dessa forma de capital (ou conjunto de bens de herança cultural) é possível colocar a questão das funções sociais do sistema de ensino e de melhor compreender suas relações com o sistema econômico. O capital cultural representa o conjunto de conhecimentos, leituras e formas de acesso a diferentes aspectos da cultura que um determinado segmento social detém, influenciando e condicionando fortemente sua atuação social.
As atitudes dos membros de diferentes classes sociais, pais ou crianças e, muito particularmente, as atitudes a respeito da escola, da cultura escolar e do futuro ro oferecido pelos estudos são, em grande parte, a expressão do sisistema de vavaloreres implícitos ou explícitos que eles devem à sua posição social. (Bourdieu,2003a, p.46)
Embora sem um aprofundamento teórico maior, essas idéias perpassam as hipóteses desse trabalho, ainda que consciente das dificuldades de se investigar diretamente características de uma herança de capital cultural. Por isso mesmo, essas idéias constituem apenas um pano de fundo sobre o qual desenvolvemos nossa investigação.
Com essa preocupação, buscamos caracterizar os ingressantes através de dois conjuntos de aspectos diferentes, qual sejam, por um lado, seus perfis sócioeconômicos e, por outro, suas perspectivas profissionais na ocasião do ingresso (e antes do contato com o curso), sem desconsiderar possíveis articulações entre ambos esses conjuntos.
Discutiremos, a seguir, separadamente essas duas abordagens, para, em seguida considerar as contribuições que nos sinalizam em conjunto .
## 2. Perfil sócio -econômico de ingressantes USP
Com o objetivo de caracterizar os alunos ingressantes no Curso de Licenciatura em Física do IFUSP, do ponto de vista de seu perfil sócio econômico e educacional, consideramos duas turmas distintas de ingressantes (2009 e 2000). Optamos por analisar a mobilidade intergeracional em educação que o ingresso desses alunos em um curso superior vem a representar. Esse parâmetro foi complementado pela análise não só da faixa de renda declarada pelos alunos no momento da inscrição, mas, também pela identificação da natureza (pública/particular) da escola em que cursaram a maior parte de seus estudos na escola média. Como parâmetro sinalizador, utilizamos a comparação desses resultados para o conjunto de ingressantes e para os ingressantes em diferentes carreiras.
Embora a discussão quanto ao tipo de estudos feitos em nível médio, bem como das informações sobre renda média mensal das famílias dos ingressantes, se apresente de forma pouco aprofundada, devido à natureza dos dados disponíveis, acreditamos que, ainda assim, esses aspectos podem ser importantes indicativos
para nossa análise, ao permitir a observação de particularidades nos perfis da amostra estudada.
## Mobilidade Intergeracional em Educação
O conceito de mobilidade empregado em estudos dessa natureza pode variar segundo os autores. Para Pastore e co-autores (1999), uma sociedade apresenta maior mobilidade se os filhos têm uma probabilidade maior de pertencer a uma classe social diferente daquela de seus pais (literatura sociológica). Já segundo o conceito empregado por Ferreira e Veloso (2003), uma sociedade apresenta maior mobilidade do que outra se, ao contrário, a classe social dos pais têm uma importância menor na determinação da classe social dos filhos (literatura econômica).
A investigação acerca da mobilidade intergeracional em educação tem, no contexto desse trabalho, a intenção de fornecer indícios sobre as características sócio culturais dos ingressantes. Essa mobilidade indica a porcentagem de filhos que supera ou ultrapassa a escolaridade dos pais ao ingressarem na universidade . Uma mobilidade alta indica, portanto, uma possível ascensão social, enquanto uma mobilidade baixa corresponde à manutenção do status social anterior. Nesse sentido, buscamos analisar como o fator de mobilidade pode diferir entre carreiras que correspondem a status s diferenciados.
Em um estudo de 2001 sobre mobilidade intergeracional de educação na América Latina, Behrman, Gaviria e Székely revelaram que o grau de mobilidade é consideravelmente menor em países latinos-americanos do que em países desenvolvidos e indicaram, no Brasil, um aumento da mobilidade para coortes 1 mais jovens (Ferreira e Veloso, 2003).
Para um recorte específico, direcionando um olhar à mobilidade intergeracional em educação de ingressantes da USP , o interesse está em se comparar sua escolaridade (no momento de ingresso a um curso superior) com a escolaridade de seus pais. Assim, não será necessário utilizar, aqui , métodos tradicionais da literatura (econométrico e/ou análise de matrizes de transição, por exemplo) em que se relacionam diferentes níveis de escolaridade de pais e filhos (Ferreira e Veloso, 2003). A análise inclui apenas o que seria uma "linha" de uma matriz, a partir da qual seja possível observar qual a porcentagem de filhos que supera ou ultrapassa a escolaridade dos pais ao ingressarem na universidade. No entanto, para além dos valores observados, o interesse principal será de avaliar o quanto o fator de mobilidade pode diferir entre carreiras que correspondem a status diferenciados.
Essa análise foi desenvolvida a partir das informações disponíveis no site da Fuvest 2 . Em um primeiro momento , restringimos nossa atenção às indicações do 3 grau de instrução mais alto obtido pelos pais g 3 dos alunos ingressantes no vestibular , como indicado pelos ingressantes a diferentes carreiras.
Foram selecionados conjuntos ou blocos de carreiras, que gozam de status sociais específicos. Assim, no primeiro bloco, reunimos carreiras de alta demanda , caracterizadas por uma alta relação candidato/vaga, reconhecidas como de grande apelo pelos ingressantes e prestígio social. No segundo bloco, reunimos carreiras relacionadas à formação de professores, seja especificamente no Curso de Licenciatura em Física (cujo ingresso se dá na carreira de Licenciatura em Física e Matemática), seja em cursos de Pedagogia, ou, ainda, em outras Licenciaturas. Ainda , em um terceiro bloco , para estabelecer uma referência mais ampla, incluímos os resultados para o conjunto de todos os ingressantes na USP através do vestibular, que engloba as anteriores e dezenas de outras carreiras. Com esses critérios, os blocos de carreiras ficaram assim constituídos:
Bloco 1 - Direito, Engenharia, Medicina e Odontologia
Bloco 2 - Lic. Ciências Exatas - - SC, Lic. Matemática/Física e Pedagogia
Bloco 3 - Total Geral
## Ingressantes em 2009
A partir do banco de dados da Fuvest, e considerando a escolaridade dos pais, pode ser construída a Tabela 1, a seguir. O percentual de escolaridade indicado como (I) corresponde a pais com ensino médio incompleto, reunindo nesse grupo as diferentes possibilidades para que isso ocorra . Os percentuais de escolaridade II, III e IV correspondem, respectivamente, a pais com ensino médio completo, pais com ensino superior incompleto e pais com ensino superior completo.
Tabela 1 - Escolaridade do pai, por carreiras e total geral, 2009, com o correspondente percentual de mobilidade intergeracional educacional .
(I) - até Ensino Médio incompleto; (II) - Ensino Médio completo; (III) - Ensino Superior incompleto (IV) - Ensino Superior completo ou mais
Uma vez que , ao matricular -se , o estudante ingressante passa a integrar o grupo daqueles que possuem "ensino superior incompleto", e que nos interessa qual a porcentagem dos filhos que têm escolaridade maior do que a dos pais, a partir desses dados é possível obter a mobilidade. Tal informação nos é fornecida pela porcentagem complementar dos valores correspondentes ao item (IV) da Tabela 1 , já que nela temos a percentagem dos pais com "ensino superior completo ou mais". Ou ainda, podemos entender que isso seria o equivalente a soma dos valores percentuais correspondentes a (I), (II) e (III). E, desse modo, quanto maior r for esse número [(I) + (II) + (III) ou 100 - (IV)], menor r será a mobilidade indicada, e viceversa.
A partir da Tabela, podemos verificar que para as carreiras do Bloco 1, em média, apenas cerca de 30% dos filhos superam a escolaridade de seus pais ao ingressarem no curso superior. Isso significa que cerca de 70% desses alunos pertencem a famílias onde há um alto grau de escolaridade. No Bloco 2 , das Carreiras de Licenciatura e Pedagogia, esse percentual se inverte, e pouco menos de 70% dos ingressantes já superam ou igualam a escolaridade de seus pais . Observando o valor correspondente ao "Total Geral" (Bloco 3) vemos que pouco menos de 50% dos ingressantes ultrapassam a escolaridade de seus pais ao ingressarem na USP.
Esses dados nos indicam, por um lado, que a mobilidade intergeracional em educação para a amostra geral estudada é baixa e , por outro, que, ainda assim, há diferenças relevantes entre os Blocos 1 e 2 .
Repetindo esses procedimentos, de forma equivalente, mas utilizando como parâmetro a escolaridade da mãe, foram obtidos os valores da Tabela 2 abaixo. Esses resultados confirmam - conforme apresentado pela maior r parte da literatura - equivalência entre escolaridade de pai e mãe, para todos os Blocos . A Tabela 2, a seguir, apresenta os valores comparativos, por bloco de carreira, para a mobilidade baseada na escolaridade do pai e da mãe.
Tabela 2 - Comparação entre as médias de índice de mobilidade tal como obtidas a partir da escolaridade do pai ou da mãe, por bloco de carreira (2009) .
## Uma comparação com Ingressantes em 2000
Com o objetivo de verificar o quanto específicos ou gerais poderiam ser esses resultados, sobretudo levando em conta recentes políticas inclusivas promovidas pela Universidade de São Paulo, repetimos os mesmos procedimentos de análise para os ingressantes no Curso de Licenciatura em Física em 2000 . A partir dos dados obtidos, foi possível analisar a mobilidade média por carreira, estando os valores apresentados na Tabela 3.
Tabela 3 - Mobilidade média, segundo os diferentes Blocos de carreiras, para os ingressantes em 2000 e 2009.
Os resultados mostram, portanto, que pouca alteração ocorreu em termos de mobilidade intergeracional de ingressantes na USP, nesse período. Isto é, a baixa mobilidade - justificada, sobretudo, pelo fato de tal amostra pertencer ao topo da distribuição educacional - - se manteve praticamente inalterada nesta evolução temporal aqui discutida. De certa forma, esses dados permitem generalizar os resultados, pelo menos para o período de, aproximadamente, os últimos dez anos.
## Renda Mensal Familiar r e Tipo de Estudo em Nível Médio
Com o intuito de melhor aferir interpretações aos resultados obtidos na análise da mobilidade intergeracional, foram também selecionados e tabulados dados referentes às questões Onde você realizou seus estudos de ensino médio? ? e Qual é a sua faixa de renda familiar mensal em salários mínimos?, apenas para o ano de 2009. Os dados nos revelam a porcentagem de ingressantes oriundos de escola pública e particular, além do percentual segundo a renda média de suas famílias. As Tabelas 4 e 5, abaixo , apresentam esses dados:
Tabela 4 - Dados referentes à renda mensal, por carreira (2009)
Tabela 5 - Dados referentes ao tipo de estudo realizado em nível médio, por carreira (2009)
Assim, é possível verificar que , em média, entre os ingressantes em carreiras do Bloco 1 há um alto percentual (55%) de jovens pertencentes a famílias com renda mensal de dez ou mais salários mínimos , uma percentagem muito superior r a dos jovens ingressantes em carreiras de formação de professor (Bloco 2) . Observamos também que, os ingressantes oriundos de escolas particulares, correspondem a cerca de 80% no Bloco 1 e 50%, no Bloco 2 .
Em síntese, os três indicadores analisados apontam uma caracterização nítida e coerente para o conjunto de ingressantes que optaram pelo curso de licenciatura. Do ponto de vista sócio-cultural, apresentam uma maior mobilidade intergeracional, sinalizando que vêm de extratos sociais menos privilegiados em termos educacionais -culturais, Paralelamente, foi possível verificar que metade deles realizou seus estudos de ensino médio em escolas públicas e, comparativamente com outras carreiras, pertence a famílias com menor renda familiar.
## 3. Representações da profissão professor de ingressantes no Curso de Licenciatura em Física
No sentido de complementar a caracterização do perfil dos ingressantes, para além de indicadores sociais e econômicos, procuramos analisar, também, suas perspectivas profissionais, ou as possíveis representações que estariam envolvidas em suas escolhas pelo curso. Esses aspectos são relevantes , pois outros trabalhos já identificaram que pode haver diferentes razões para a escolha de cursos de pedagogia ou licenciatura, para além da carreira de professor (Gatti, 1996) .
Para isso, analisamos algumas respostas a um questionário, apresentado aos ingressantes no ato da matrícula, restringindo nossa análise apenas a um conjunto de perguntas com foco nas expectativas sobre a opção profissional. Consideramos como hipótese, que essas expectativas podem ser relacionadas à suas representações acerca da profissão professor, embora para um levantamento dessas representações fosse necessário um instrumento mais adequado do que o utilizado.
Foram analisados questionários aplicados aos ingressantes do ano de 2006 (diurno e noturno), em um total de 109 questionários Ainda que estejam sendo analisados e apresentados apenas os dados de 2006, outros trabalhos indicam que não há uma variação significativa dos principais indicadores desses questionários ao longo dos últimos dez anos.
Não há aqui a pretensão de se fazer uma análise estatística ou completa sobre essas primeiras perspectivas profissionais dos ingressantes. Nosso trabalho deve ser interpretado como uma primeira aproximação ao problema, e restringe-se à análise de questões presentes na terceira seção - - - opção profissional:
- -" Por que escolheu fazer Vestibular para Licenciatura em Física?";
- -"Para você, fazer o Bacharelado ou a Licenciatura em Física seriam opções equivalentes?";
- -"Você pretende ser professor de Física? Por quê?"
- -"Quais perspectivas profissionais e pessoais você espera que o curso lhe proporcione?"
A análise das respostas a essas perguntas foi realizada a partir da Análise de Conteúdo (Bardin, 2002), considerando como unidade de análise o conjunto das respostas (e não cada uma individualmente) . Essa escolha foi decorrência de leituras preliminares, em que se pode observar que não há uma coerência estrita entre as respostas, embora, em conjunto, permitam uma identificação mais nítida. Dessa análise resultaram três categorias (de síntese), por nós identificadas como:
- 1) Tornar-se professor de Física
- 2) Aprimorar os conhecimentos na área de Física
- 3) Buscar formas de ascensão profissional.
O grupo 1 - Tornar-se professor de Física - é composto por alunos que manifestaram -se claramente em relação a essa alternativa. Alguns são alunos que já atuaram ou estão atuando na carreira e gostam; outros, que dizem querer (ser importante) transmitir ou socializar conhecimento; outros , que afirmam ter interesse específico em ensino (teoria e prática) e ainda outros, que expressa ser essa sua forma de realização pessoal. Também há alunos que já se mostram interessados em um possível aperfeiçoamento na área de ensino com vistas a, posteriormente, cursos de pós-graduação. Seguem abaixo, exemplos de expressões extraídas do conjunto de respostas dadas pelos ingressantes no questionário de recepção e ato de matrícula:
"Porque já trabalho na área, e acho que será um curso muito interessante."/ "Muito me agrada a oportunidade de desmitificar o estudo da Física, de modo a transmitir um pouco do meu fascínio por fenômenos naturais."/ "Capacitação para lecionar até no ensino médio, e o início de uma carreira como pesquisadora (depois da pós) e posteriormente lecionar em curso superior."/ "Espero exercer a profissão de professor, principalmente como pós-graduado. Na vivida pessoal ter mais auto-estima."
Certamente, as possíveis representações desses alunos correspondem a imagens positivas, confiantes e até entusiasmadas da profissão docente. Os diversos motivos para essa escolha serão tratados mais adiante , com o intuito de identificar/destacar as prováveis representações da profissão professor que podem estar implícitas nessas respostas.
No grupo 2 - Aprimorar r os conhecimentos na área de Física - estão aqueles ingressantes que , de forma mais categórica , dizem ter optado por este curso pela "afinidade", "facilidade" ou por gostarem muito da matéria (do conteúdo estudado em Física); aqueles que cogitam a possibilidade de mudar de curso (bacharelado em física ou outro em área afim); aqueles que pretendem aprofundar seus conhecimentos nesta área, inclusive com pretensões de seguir os estudos em nível de pós-graduação e trabalhar com pesquisas (não em ensino). Nesse grupo, mais da metade declara explicitamente não ter intenção de lecionar para o nível médio. Essas expectativas podem ser exemplificadas por algumas de suas respostas:
"Porque gosto da área de exatas."/ "Sobretudo um maior contato, um aprofundamento na Física em geral, que é o que mais quero. Espero conseguir ainda com o curso capacidades e habilidades para seguir na vida acadêmica, trabalhar com pesquisas." / "Um conhecimento mais amplo e aprofundado e muitas áreas que a física atua."/ "Sim. Pois a maioria dos professores de Física que eu tive eram muito ruins."/ "Sim, sofri influência de alguns professores."/ "Não. Não é uma opção rentável."/ "Não, porque o salário de professor hoje em dia é desestimulante."
É notável que para os ingressantes deste grupo a escolha pelo curso ocorreu muito mais pela área (exatas) e disciplina estudada (Física) , do que pela carreira profissional em si (docência). O que os atrai é particularmente o conteúdo da ciência, possivelmente relacionado à imagem que têm da Física e das ciências como área do conhecimento, suas várias dimensões de aplicação e status - - seja em nível cultural ou social e econômico.
De alguma forma podemos inferir que o fato de optarem por um curso de formação de professores sem, no entanto, terem a intenção primeira de seguir em tal carreira, indica que as representações e imagens da profissão professor para este grupo de ingressantes são, no mínimo, nada atraentes.
Aqueles que compõem o grupo 3 - Buscar formas de ascensão profissional - deixam mais evidentes suas motivações pela facilidade na obtenção de vagas e competitividade no mercado de trabalho; para mudar de carreira (ou ascender no emprego). Neste grupo há os que pretendem e os que não pretendem lecionar Física para o ensino médio, todos com justificativas mais relacionadas a razões financeiras do que interesse pela área de ensino. O que pode ser notado nos exemplos a seguir:
"Espero que o curso me proporcione conhecimentos suficientes para garantir uma boa saúde financeira e progresso dentro do ramo científico."/ "Sim. Porque pelo fato de eu ser militar, ser professor é a única profissão que posso exercer com carteira assinada."/ "Ascensão de cargo no trabalho e maiores oportunidades em conseguir trabalho em outras empresas."/ "Espero que o curso me dê condições de conseguir um bom emprego, seja como professor ou em outras áreas como a de consultoria."
Possivelmente a obtenção do diploma de nível superior na área de ciências exatas seja o atrativo maior para o alcance de tais objetivos, ficando a possibilidade de lecionar em segundo plano ou como conseqüência de facilidade/dificuldade no mercado de trabalho.
Portanto, as representações da profissão professor parecem estar aqui associadas às perspectivas de estabilidade financeira proporcionada, de certa forma, devido à abrangência da carreira em termos de oferecimento de vagas. Assim, a imagem da carreira docente que , por um lado , sofre com a desvalorização e , por outro, ambiguamente, oferece vários meios de acesso, passando por isso a ser atrativa - acaba sendo ainda mais reforçada pela especificidade da área de exatas, no caso da disciplina de física.
Em termos numéricos e numa análise geral, incluindo os alunos do diurno e noturno, a freqüência de comparecimento nessas três categorias está apresentada no quadro a seguir.
Percentual de ingressantes, por categoria representativa de interesse na escolha pelo curso de Licenciatura em FísicaTabela 6 - Expectativas dos ingressantes em relação a suas perspectivas profissionais futuras (2006) .
Surpreende o fato de que uma fração inferior a 50% represente aqueles que ingressam em um curso de licenciatura em física com a clara intenção de se tornarem professores desta disciplina. É bem verdade que este percentual se altera - e aumenta - ao considerarmos mais alguns ingressantes que declaram interesse em lecionar. No entanto, ainda assim, o índice de interessados na carreira docente que ingressam no curso com este objetivo de formação, é inferior ao esperado.
Quando pensamos em outros cursos nos quais a escolha da maioria se dá pelo interesse no prosseguimento da carreira devemos nos perguntar o faz os cursos de licenciatura, como o de física, ser alvo de interesses tão diversos da intenção de seguir a carreira docente. É plausível, neste caso, fazermos referências às representações da profissão professor que têm esses ingressantes.
## Profissão Professor
São, sem dúvida, muito diversas as representações e imagens que podemos associar - - de forma , talvez , arriscada - - aos ingressantes interessados pela formação e atuação docente como professores de física. Procuramos resgatar algumas de suas motivações, mais como exemplares do que como categorias de análise, indicações a serem aprofundadas em trabalhos posteriores.
Os aspectos de caráter positivo com relação a imagens e representações da profissão professor podem ser destacados em separado na evidenciação de particularidades como:
- a) Interesse pela formação e em " como ensinar " (técnicas e práticas), com uma representação de professor como aquele que deve aprender a ensinar bem, talvez numa perspectiva mais de transmissão do conhecimento.
"Espero que o curso me proporcione relacionar a Física teórica (na sala de aula) com o que vemos na nossa vida (Física diária) para passar isso aos meus alunos, criandolhes interesse pela matéria."/ "Aprendizado técnico e aprendizado didático. Na área técnica ter um bom conteúdo, e na didática técnicas de como motivar, organizar aulas."/ "Boa formação em Física; técnicas em educação e nova forma de passar o conteúdo de Física, menos tradicional, que motivem mais os alunos."
- b) Expectativas de mudança de sua visão de mundo, da Física e também dos seus futuros alunos. As representações parecem remeter a um professor mais transformador e crítico do ponto de vista de sua formação e atuação.
- "Pretendo ser um bom profissional e mudar minha forma de ver o mundo."/ "Ampliar visão da realidade e da natureza (...)" / "Quero ser professor de física e ajudar a mudar o país com a educação."/ "Espero ter uma nova visão do mundo. Uma visão ampla, questionadora e encontrar respostas e propor soluções para o mundo."
- c) Perspectivas favoráveis na atuação do mercado de trabalho ou desenvolvimento profissional futuro, com representações que refletem uma preocupação em ser "bom professor" para então ser valorizado no mercado de trabalho ou aperfeiçoar-se em ensino .
- "Acredito que o curso poderá me proporcionar uma ótima formação a fim de concretizar uma experiência, em especial no que diz respeito ao ato de ensino, necessária essencial para o sucesso na execução de meus futuros trabalhos."/ "Espero concluir meu curso, me tornar uma excelente profissional e trabalhar com isso."
"Capacitação para lecionar até no ensino médio, e o início de uma carreira como pesquisadora (depois da pós) e posteriormente lecionar em curso superior."/ "Que eu esteja apto para poder dar aula numa escola, poder seguir estudos posteriores e ser um grande profissional."/ "Ter oportunidade de realizar um mestrado e, após isso, um doutorado. Ter uma visão mais ampla das oportunidades e melhoria da educação do país."
Muitas outras imagens ou representações da profissão professor certamente estão presentes nos inúmeros questionários que compõem a amostra analisada. No entanto, entendemos que as observações acima podem fornecer uma ideia da diversidade de expectativas, podendo sinalizar o campo para pesquisas posteriores. A evidência maior, nesse caso, nos parece ser as impressões positivas que os recém -matriculados têm da carreira pretendida, a despeito de todas as adversidades conhecidas e que permeiam a profissão docente.
## 4. Considerações Preliminares
No presente trabalho procuramos discutir características do perfil de ingressantes do curso de Licenciatura em Física da USP, considerando indicadores sócio -educacionais e suas perspectivas profissionais. Essas características , possivelmente, não devem diferir muito daquelas encontradas em alunos de outras instituições , sobretudo no caso em que o curso de Licenciatura pertença a uma carreira distinta do Bacharelado, como já ocorre em várias instituições . Além disso, entendemos que as análises aqui apresentadas podem contribuir para uma reflexão e repensar de cursos de formação de professores.
Nesse sentido, é preciso considerar como relevante a opção feita pelo ingressante dispensando atenção especial aos indicadores sócio-culturais que situam suas expectativas em um contexto social mais amplo, bem com suas perspectivas e encaminhamentos de ordem profissional .
A busca por caracterizar o licenciando do ponto de vista sócio-econômico, através de um olhar sobre a mobilidade intergeracional em educação de ingressantes USP, nos revelou - - considerando carreiras que correspondem a status diferenciados - que os cursos de formação de professores apresentam status social menos privilegiados em relação a carreiras de medicina ou engenharia, por exemplo.
Isso se expressa por um índice consideravelmente alto de mobilidade intergeracional em educação, associado a percentuais mais baixos de renda familiar e escolarização em nível médio majoritariamente de escola pública .
Tais índices podem ser entendidos como resultado de forte influência do chamado capital cultural, social e simbólico, de que trata o sociólogo francês P. Bourdieu. Para este autor, o ponto central para o entendimento do comportrtamento - de toda ordem - dos indivíduos, está exatamente nas práticas dos agentes e sob influência do social. Segundo esse autor:
"Ora, vê-se nas oportunidades de acesso ao ensino superior o resultado de uma seleção direta ou indireta que, ao longo da escolaridade, pesa com rigor desigual sobre os sujeitos das diferentes classes sociais. (...) Na realidade, cada família transmite a seus filhos, mais por vias indiretas que diretas, um certo capital cultural e um certo ethos, sistemas de valores implícitos e profundamente interiorizados, que contribui para definir, entre coisas, as atitudes face ao capital cultural e à instituição escolar." (Bourdieu, 1966)
Tal influência permite uma melhor compreensão das diferenças entre os Blocos 1 e 2, reiterando as particularidades das carreiras que os compõem.
Numa abordagem que procura caracterizar o ingressante em um curso de licenciatura através da análise de suas expectativas profissionais identificamos aspectos também relevantes. Revela-se uma realidade um tanto controversa, pois mostra que a decisão por ingressar em um curso de licenciatura está desvinculada - em grande parte - - da perspectiva em seguir a carreira docente.
Em parte, esses resultados se complementam, pois muitos deles expressam a intenção de apenas obter capital cultural institucionalizado, como afirma Bourdieu, contemplando a importância de um diploma de nível universitário.
## Da mesma forma, outros autores também sinalizam essa questão
Entre as camadas médias (Foracchi, 1965, Salem, 1980, Romanelli, 1986) há um enorme empenho para que os filhos tenham acesso ao curso superior. Nas representações de pais e de filhos, a escolarização superior é avaliada como recurso que qualifica a força de trabalho, habilitando-a a disputar empregos bem remunerados, revestidos de alto valor simbólico, e a competir por posições hierárquicas elevadas nas empresas (Romanelli, 1995).
Os resultados mostram que menos da metade dos que ingressam no curso de Licenciatura em Física tem a pretensão de serem professores desta disciplina, o que nos permite inferir que são negativas as representações que têm da profissão. Tais representações são múltiplas e decorrentes - entre outros - das mudanças comportamentais, disputas internas e externas de toda ordem, aspectos propriamente simbólicos e determinantes sócio-culturais.
Da análise das perspectivas profissionais daqueles que ingressam no curso com a intenção de serem professores de física, podemos destacar dentre as inúmeras representações, características que remetem tanto a concepções e imagens mais tradicionais, relacionadas ao professor como responsável pela transmissão do conhecimento, como expectativas de mudança na visão de mundo, com indicativos de transformação e criticidade do ponto de vista da formação e atuação .
Assim, entendemos que a busca por uma caracterização do perfil de ingressantes de um curso de Licenciatura em Física contribui de maneira expressiva com indicativo para ponderar os cursos de formação de professores. Evidencia a
necessidade do reconhecimento dessas características na própria organização curricular, deixando de considerar o grupo de alunos idealmente, como equivalente aos que optaram por outras carreiras . Ao mesmo tempo, e sobretudo, aponta para a necessidade de promover um contínuo processo de discussão sobre a construção da identidade profissional do professor. Para muitos autores, essa identidade deve ser objeto ela mesma de atenção, o que nossos resultados vêm a reforçar. Levando em conta suas particularidades seja do ponto de vista social, seja do ponto de vista de suas perspectivas pessoais e profissionais, será necessário buscar formas de promover a construção de uma identidade profissional, para além do trabalho desenvolvido nas disciplinas, particularmente para aqueles cursos em que as disciplinas iniciais privilegiam principalmente conhecimentos de Física.
Dessa forma, consideramos fundamental que cada instituição procure buscar r as formas apropriadas de contemplar esses aspectos nos projetos políticopedagógicos dos cursos que oferecem.
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