Um panorama da utilização do conto no ensino de física
Silvana S. Lima, Emerson Ferreira Gomes
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 29/01/2019
- Linha de pesquisa
- Cultura E Arte No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## Um panorama da utilização do conto no ensino de física
## Silvana S. Lima 1 , Emerson Ferreira Gomes 2
1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia São Paulo/Mestrado Profissional em Ensino de Ciências e Matemática, siluminista@gmail.com
2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia São Paulo - Campos Boituva, emersonfg@ifsp.edu.br
## Resumo
Este trabalho tem como objetivo obter um panorama da utilização do conto como recurso para o ensino de física, abordando as metodologias utilizadas demonstrando que não há dicotomia entre os campos conceituas. A contribuição da utilização de contos nas aulas, despertam o interesse do aluno, aproximando o das aulas e contribuindo para seu imaginário o que resulta em uma aprendizagem significativa e sociocultural. Desmitificando a concepção errônea de uma ciência linear e feita por 'gênios'. Os contos geralmente podem ser abordados em até duas aulas o que torna o recurso de sua utilização para aulas de física eficiente, onde atualmente a aula se dispõe de um tempo de 50 minutos. Por fim, a importância do ato de ler e interpretar o mundo esbarra justamente nas analogias e modelos científicos que passaram por imaginário de cientistas e que mostram a importância da leitura. Sendo assim este trabalho abordará as contribuições e desafios metodológicos desta didática que conversa com a proposta de Snyders, sobre a alegria na escola e a importância do ato de ler, que ultrapassa as atribuições somente de uma disciplina. E pode proporcionar um desdobramento de uma sequência didática utilizando um conto do autor Lima Barreto para aulas de astronomia futuramente.
Palavras-chave : Conto, Literatura, Física, Ensino
## Introdução
É possível ensinar ciências com literatura, ou ainda com poesia e arte? Esta problematização permeia algumas pesquisas e contribuições sobre didáticas nas aulas de ciências. Uma vez que se tenta aproximar os alunos das aulas de ciência e tenta desmitificar que 'não devemos reforçar uma visão de mundo que supervalorize o pensamento científico em detrimento de outras formas de saber e conhecer' (ZANETIC, 2006, p.56).
Na tese de dissertação de João Ramos o autor mostra que há uma polarização e distanciamento entre ciências e artes (neste caso a literatura). E que o ensino pode ter pontes e interfaces entre ambas as áreas, pois 'as relações entre as ciências naturais e as artes, em especial a literatura, têm sido frequentemente consideradas sob o viés da educação em ciências' (RAMOS, 2017, p.165). Sendo assim sua pesquisa indica as potencialidades que a literatura (conto fantástica) pode ser utilizada em aulas para abordagem e conceitos do ensino de Física (RAMOS, 2017, p,176).
Mas os trabalhos vão além de contos, temos a utilização do uso de romance do gênero ficção científica para o ensino da Teoria Especial da Relatividade nas
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aulas de física. Sendo os Romances escolhidos pelo pesquisador Emerson Gomes são: Tau Zero - Poul Anderson, O Tempo e o Espaço do Tio Albert - Russell Stannard, Sonhos de Einstein - Alan Lightman, todos os autores dos romances são físicos de formação. Este autor ainda enfatiza a 'necessidade de uma metodologia de análise que contribuísse para que a interação entre o texto e o sujeito' (GOMES, 2011, p.76).
Mas trabalhos entre literatura e ciência podem ainda ser identificados em atividades extracurricular, nesse caso uma tentativa de abordar diálogo entre dois contos, um de Machado de Assis e outro do Guimarães Rosa.
Esta atividade foi aplicada com alunos do Ensino Médio 'os alunos foram convidados a participar desse exercício em período fora do horário normal de aula, como atividade extracurricular. Participaram, aproximadamente, 85% de todos os alunos convidados' (WATANABE; HOSOKAWA, 2016, p.5). Em relato as pesquisadoras citam que 'os alunos começaram a fazer as conexões e perceber que poderia haver dimensões ainda inexploradas até pelas docentes [...] como o sentido do espelho para os autores ou os motivos do uso dos conhecimentos da ótica por Guimarães Rosa em seu texto. (WATANABE, HOSOKAWA, 2016, p.7).
Podemos identificar neste trabalho 'que considere os estudantes como produtores de sentido, indivíduos que, dentro e fora das aulas de física, estabelecem conexões com a cultura, científica e tecnológica, mas também com outras culturas' (ALMEIDA, SILVA, MACHADO, 2001, p. 4).
Estes trabalhos demonstra a importância da 'compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo' (FREIRE,1989, p.9). Pois o conhecimento científico não deve ser meramente reproduzido, decorado, o aluno tem que ser tornar sujeito de ação. Este conhecimento deve ser algo que perdure mesmo após os muros da escola. Neste sentido Paulo Freire diz que 'podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo, mas por uma certa forma de 'escrevê-lo' ou de 'reescreve-lo', quer dizer, de transformá -lo através de nossa prática consciente (FREIRE,1989, p.13). E esta prática tem que passar pelo docente que entende seu papel como mediador e o aluno o sujeito de ação.
Portanto verificando as possibilidades de trabalhar arte e ciência e a importância do ato de ler, com o objetivo fazer um levantamento da utilização de contos nas aulas de física, para contribuição futura da utilização do uso de contos do Autor Lima Barreto nas aulas de astronomia.
## A leitura e o ato de ler
A leitura muitas vezes fica somente vinculada a escola, e seu conhecimentos curriculares, não levando em consideração seu contexto sociocultural e a leitura de mundo individual. Paulo Freire cita como relato pessoal que começou a ler, não com a leitura de palavras do seu mundo, diz que foi 'alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-neqro; gravetos, o meu giz (FREIRE,1989, p.11).
Ao ler o sujeito traz seu mundo palavras e significados e aprende outros, sendo importante sempre ir além do contexto, pois 'linguagem e realidade se
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prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto' (FREIRE,1989, p.9). A importância de ir além do ato de decodificar as palavras, mas entender quem escreveu o texto, que transposição posso fazer e ainda, torna o sujeito que senta para uma leitura, outro ao terminar.
Esta leitura pensando nas aulas de ciência deve ser aquela que alcance 'o maior número possível de indivíduos e que possa ter cada vez mais acesso à cultura científica, entendida como compreensão da própria ciência, seus modos de produção e suas relações com a sociedade e a tecnologia' (ALMEIDA, SILVA, MACHADO, 2001, p. 3). Esta relação citada por Freire é a que 'Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto' (FREIRE,1989, p.9). Se as aulas de ciências tiverem por finalidade reprodução de palavras, e se os textos utilizados ainda que para auxiliar na transposição didática não o ajudem nesta compreensão. Esta leitura não está sendo para esta decodificação e somente memorização.
Neste contexto é importante refletir o papel do professor mediador pois, 'o fato de ele necessitar da ajuda do educador, como ocorre em qualquer relação pedagógica, não significa dever a ajuda do educador anular a sua criatividade e a sua responsabilidade na construção de sua linguagem escrita e na leitura desta linguagem (FREIRE,1989, p.13). Pensando na literatura a 'propostas é a necessidade de facilitar a voz dos alunos [...] considere os estudantes como produtores de sentido, indivíduos que, dentro e fora das aulas de física, estabelecem conexões com a cultura, científica e tecnológica, mas também com outras culturas' (ALMEIDA, SILVA, MACHADO, 2001, p. 4).
Estabelecer conexões entre culturas é algo que podemos encontrar no livro A alegria na escola de Snyders, o autor traz a concepção que o aluno traz sua cultura primeira e a escola que vai ajudar na elaboração da cultura elaborada. E este movimento podendo ser feito com alegria. Na perspectiva de o professor ser o mediador a 'uma forma dialética, a cultura escolar, representada pelo professor, encontra-se em continuidade com a cultura primeira, que é a cultura do aluno' (CARVALHO,1999, p.163). Ao trabalhar um conto em sala de aula, a cultura primeira do aluno é o ato de ler, e a cultura elaborada é a escolha do conto pelo mediador que é o professor. E 'ao realizar este movimento o aluno tem alegria presente, alegria que o forma e transforma, pois possibilita a compreensão da realidade e lhe dá impulso para agir' (CARVALHO,1999, p.163).
## Leitura do mundo
O ensino de física dominante se restringe à memorização de fórmulas aplicadas nas soluções de exercícios típicos de vestibulares (ZANETIC, 2005, p.21). Assim metodologias que despertem o interesse do aluno e não o distancie da disciplina devido ao formalismo matemático, tem sido desenvolvido por professores pesquisadores, desde sequência didática há utilização de outros campos do conhecimento. Neste trabalho vamos abordar a utilização de contos para ensinar física.
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Charles Percy Snow (1995), proferiu a palestra intitulada 'As Duas Culturas', em que reflete sobre o afastamento entre as ciências naturais e as ciências humanas no Reino Unido. Aqui no Brasil os estudos tiveram uma ruptura com o trabalho do Zanetic (1989) que em sua tese de doutorado 'Física também é Cultura' demostra o quanto a literatura e física possuem conexões entre si. E 'a arte, a música, o teatro e a literatura, associadas à física, podem contribuir para uma melhor assimilação de ideias e conceitos' (RAMOS, PIASSI, 2011, p.1).
Assim, nos últimos anos tentando fugir deste formalismo matemático, 'o papel do professor de Física em sala de aula é mediar um processo em que o aluno encontre o prazer do saber pela ciência, auxiliando assim na construção de uma vida intelectual crítica e reflexiva (GOMES, AMARAL, PIASSI 2010, p. 153). A literatura em especial os contos tiveram um papel muito importante tanto quanto a motivação e interesse do aluno e ao papel do aluno leitor.
Quanto ao papel de leitor Paulo Freire (1989) cita que 'linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre texto e o contexto' (FREIRE, 1989, p. 9). Sendo assim a utilização do conto nas aulas de física mostra um trabalho sociocultural, aproxima os alunos e desmitifica a visão de uma ciência linear.
## O conto nas aulas de física
Em trabalhos que utilizam o conto em sala de aula, identificamos em trabalhos como de João Eduardo Ramos que a literatura (conto fantástica) pode ser utilizada em aulas para abordagem e conceitos do ensino de Física (RAMOS, 2017, p,176). Como procedimento para utilização do conto nas aulas de física, foi utilizado a metodologia semiótica para a análise dos contos, onde 'a semiótica tem como objetivo a exploração do sentido , a partir da análise dos mecanismos sintáticos e semânticos do texto' (RAMOS, 2017, p.171). Em cada etapa foi destacado elementos da física, fazendo a interface entre física e literatura (conto fantástico).
Se tratando de física moderna temos; teoria dos muitos mundos, da mecânica quântica (RAMOS, 2017, p.171) no conto Jardim de veredas que se bifurcam - Jorge Luis Borges. Já no 'conto de Murilo Rubião em relação à questão do gato de Schrödinger' (RAMOS, 2017, p.172). E a relação do espaço, tempo (RAMOS, 2017, p.168) no conto A milésima segunda estória de Xerazade - Edgar Allan Poe.
É importante entender que nesta utilização os contos são empregados para desenvolver não apenas conceitos, 'mas também para proporcionar discussões no âmbito do processo de produção do conhecimento científico e das relações sóciopolíticas da ciência e da tecnologia' (PIASSI, PIETROCOLA, 2007, p.1). E somente com um parceiro mais capaz neste caso o professor o aluno vai conseguir fazer esta associação.
Encontramos exemplos desta associação em trabalho como do PIASSI e PIETROCOLA (2007) em que utiliza contos de ficção científica como Para os Pássaros de Isaac ASIMOV, que aborda conceitos de força centrífuga e a força Coriolis; O segredo de Arthur CLARKE que discute a prolongação de vida na Lua. Os autores citam os debates com a participação efetiva da classe. E ao final solicitam uma redação que 'além de exigir um passo além na capacidade analítica
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dos estudantes, constituía-se em um significativo instrumento de avaliação' (PIASSI, PIETROCOLA, 2007, p.9). Neste trabalho os autores citam que além da disposição para debates e aprofundar os conceitos científicos, apareceram reflexões quanto a ética e a consequência dos avanços científicos.
Com isso eles afirmam que o 'conto a ser escolhido deve ser, acima de tudo, um conto muito bom, do ponto de vista literário, de prender a atenção do leitor e de fazê-lo pensar depois' (PIASSI, PIETROCOLA, 2007, p.10).
Para abordar conceitos de massa, aceleração e gravidade temos o mesmo conto O Segredo' de Artur C. Clarke, onde foi aplicado por um grupo de estudantes que participava do programa PIBID e que teve contato com o material acima citado.
Sua aplicação cita que a escolha do conto deve ser apoiada justamente nas possibilidades do enredo, ou seja, o tema que se vai trabalhar e se o conto apresenta estes elementos. Uma ótima observação é que eles citam a importância do professor de qualquer disciplina para o incentivo à leitura dizendo que 'o incentivo à leitura não recaia somete sobre a responsabilidade dos professores das disciplinas de Linguagens e Códigos, mas que todo educador assuma este compromisso' (FERNANDES; FERREIRA, 2015, p.10).
## Exploração dos Contos
Entender que não a dicotomia entre ciência e arte e que 'o pensamento científico e a sensibilidade artística desenvolvem, por muitas vezes, caminhos paralelos que se interceptam em pontos convergentes de ousadia, crítica e imaginação' (GOMES; AMARAL; PIASSI 2010, p. 145). E exatamente esta convergência que pode ser explorada em sala de aula, pois um conto curto até dez páginas podem ser trabalhadas em leitura em conjunto durante as aulas, ou em casa. E que 'através do imaginário, o processo de construção do pensamento cientifico, numa relação do imaginário e o real' (SILVA et al, 2016, p. 3).
Assim aproveitado o tempo de 50 minutos de aula, pois um filme hoje não tem menos que duas horas. Os filmes contam ainda com recursos visuais e com imagens prontas, e não estimulam tanto a imaginação dos alunos.
Claro que os alunos podem enfrentar algumas dificuldades por conta do vocabulário de primeiro contato como citado no trabalho de Taciana da Silva, em que 'a maioria da turma mostrou interesse e entendimento referente a física envolvida no conto, mas não entendia algumas palavras, pelo fato de não saberem o verdadeiro significado de tal palavra' (SILVA et al, 2016, p. 6). Neste caso cabe o mediador uma estratégia, isso não pode ser impedimento para o abandono deste recurso.
- O estudo do conto antes de ser trabalhado em sala de aula deve ser estudado pelo professor para que abordagem em sala de aula não seja feita de maneira rasa pois em RAMOS (2011) justifica o resultado da aplicação do conto ressaltando 'a importância de uma análise mais sistemática do material proposto para leitura em sala de aula, uma vez que a mesma possibilitou discussões que vão além do enunciado de conceitos e temas relacionados à Física e a Astronomia' (RAMOS, PIASSI, 2011, p.3).
## Considerações Finais
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Esta pesquisa proporcionou entender que prática docente progressista traz uma reflexão crítica que possa criar e incentivar os meios para a construção do conhecimento do aluno, sem que este perca o estimulo e a curiosidade (FREIRE, 1996, p.39). E o conto é um aliado fundamental para uma prática sociocultural e que aproxima o aluno das aulas de ciência. ' E que escola é um espaço de liberdade, transformações e satisfação. Onde a possibilidade de interagir com a cultura primeira do estudante com uma cultura mais elaborada que permite ampliar a visão de mundo do estudante' (SNYDERS, 1998, p.51). A literatura possui esse potencial de ensino que privilegiem uma prática pedagógica que ofereça condições interdisciplinares em que os estudantes reflitam sobre a ciência e seu contexto social e epistemológico . E 'a grande vantagem do conto não está no fato de ele ser simplesmente mais prático ou viável em sala de aula do que o filme, mas nas características que são próprias dessa forma literária' ( PIASSI, PIETROCOLA, 2007, p.3).
Este trabalho proporcionou entender as potencialidades desta metodologia e isso irá contribuir para o desenvolvimento de uma sequência didática com o uso do conto Congresso Pan-Planetário do autor Lima Barreto para aulas de astronomia.
## Referências
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