ROCK NO ESPAÇO: A PRESENÇA DE TEMAS RELACIONADOS À ASTRONOMIA EM CANÇÕES CONTEMPORÂNEAS
Emerson Ferreira Gomes, Dayane Santos De Gois, Carlos Eduardo Quintiliano, Luís Paulo De Carvalho Piassi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XXIII
- Ano
- 2019
- Data
- 29/01/2019
- Linha de pesquisa
- Cultura E Arte No Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ROCK NO ESPAÇO: A PRESENÇA DE TEMAS RELACIONADOS À ASTRONOMIA EM CANÇÕES CONTEMPORÂNEAS
## Emerson Ferreira Gomes , Dayane Santos de Gois , Carlos Eduardo 1 2 Quintiliano , Luís Paulo de Carvalho Piassi 3 4
- 1 Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de São Paulo/Câmpus Boituva, emersonfg@ifsp.edu.br
- 2 Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de São Paulo/Câmpus Boituva, dayanesantos2002@hotmail.com
- 3 Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de São Paulo/Câmpus Boituva, ce.quintiliano@gmail.com
- 4 Universidade de São Paulo/Escola de Artes, Ciências e Humanidades, lppiassi@usp.br
## Resumo
A canção, em seus diferentes gêneros musicais, é um assunto que alguns trabalhos da área de ensino e divulgação de ciências têm abordado em suas publicações há algum tempo. Nesta pesquisa, apresentamos algumas hipóteses teóricas para o uso de canções do rock contemporâneas em processos educacionais e de divulgação científica. Para isto, nos valemos teoria sociocultural de Georges Snyders (1988), que defende a presença de elementos da cultura primeira dos estudantes na escola. Para o pedagogo francês, a incorporação de elementos da cultura primeira dos estudantes permite aspirar temas relacionados à cultura elaborada, relacionada aos conceitos e temas verificados na educação formal. A conexão da cultura primeira com a cultura elaborada através de produtos culturais cotidianos aos estudantes permitem um processo de satisfação cultural na escola. Selecionamos canções de artistas e bandas contemporâneas, a partir do ano de 2006 de diferentes países. As canções foram analisadas a partir de referenciais da Análise de Discurso e categorizadas a partir das Esferas do Conhecimento Sistematizado. Identificamos que as canções trazem aspectos conceituais, históricoepistemológicos e sociais acerca da exploração espacial. Nesse sentido permitem atividades de ensino na educação formal e em processos de divulgação científica e em educação não-formal. Salientamos ainda o potencial de alfabetização científica e tecnológica desses produtos culturais por conta da presença no cotidiano dos estudantes.
Palavras-chave Rock.
: Arte e Ciência, Ensino de Física, Educação Não-Formal,
## Introdução
A canção, em seus diferentes gêneros musicais, é um assunto que alguns trabalhos da área de ensino e divulgação de ciências têm abordado em suas publicações há algum tempo (MOREIRA e MASSARANI, 2006; FRAKNOI, 2007; SILVEIRA e KIOURANIS, 2008). Em trabalhos anteriores, temos analisado diferentes estilos musicais, como o pop e o rock, em atividades de educação formal e informal (GOMES e PIASSI, 2018; PUPO et al, 2017). Nesta pesquisa, apresentamos algumas hipóteses teóricas para o uso de canções do rock contemporâneas em processos educacionais e de divulgação científica. Para isto, nos valeremos teoria sociocultural de Georges Snyders (1988), que defende a
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presença de elementos da cultura primeira dos estudantes na escola. As canções serão analisadas a partir de referenciais da Análise de Discurso e categorizadas a partir das Esferas do Conhecimento Sistematizado.
## Cultura Primeira, Cultura Elaborada e o Rock
Georges Snyders foi um pedagogo francês, que produziu diversas obras acerca da pedagogia progressista nas décadas de 1960 e 1970. Para Snyders a escola deveria se apropriar de uma educação que valorizasse as experiências que o estudante tenha atravessado e que seja um espaço de liberdade (VIEIRA, 2016). Em em sua obra 'A Alegria na Escola', o pedagogo francês que o espaço escolar é um ambiente onde a 'cultura primeira' trazida pelo estudante - sendo esta decorrente de sua 'experiência direta da vida' ou a partir da recepção dos produtos da cultura de massa (SNYDERS, 1988, p. 30) - deve ser incorporada ao processo educacional, no sentido que traz a satisfação ao educando (SNYDERS, 1988, p. 36).
- O pensador francês associa a cultura primeira à denominada 'alegria simples' (1988, p. 24), que são aquelas satisfações decorrentes das atividades cotidianas dos estudantes, sejam suas brincadeiras, seus jogos, e os seus interesses culturais como a música, o cinema e, particularmente em nossos tempos, suas séries de televisão e os jogos de videogame. Essa alegria, num primeiro momento, permite ao jovem ambicionar e se aprofundar em suas satisfações culturais.
Além da cultura primeira, Snyders aponta também para a presença da 'cultura elaborada', que, segundo Carvalho (1999, p. 64), visa 'abrir o mundo', que é dirigida a todos. A cultura elaborada pode ser verificada nas grandes obras de arte, no conhecimento científico e nos conteúdos escolares:
A alegria da cultura elaborada é a alegria de ampliar minhas aquisições sem as trair: adquirir uma visão junto dos problemas e das tarefas; fazer aparecer elos entre o que vejo, o que penso viver - e os acontecimentos que atravessam o mundo. E assim, apreendo mais dados e os apreendo com mais acuidade, pois eles iluminam-se uns pelos outros. E ao mesmo tempo, sou concernido por mais, participo mais, é assim que posso esperar compreender meu lugar, encontrar e tomar meu lugar (SNYDERS, 1988, p. 51).
Para Snyders a música é uma possibilidade dos estudantes aspirarem à cultura elaborada. Em sua obra 'A escola pode ensinar as alegrias da música?', o autor reflete sobre as possibilidades de canções do rock permitirem esse processo de interface entre a cultura primeira e a cultura elaborada:
- [...] o rock não se reduz de forma alguma ao prazer de agitar o corpo e bater as mãos em cadência com um fundo sonoro, não se restringe a uma função recreativa; não se limita a ser uma música que ouvimos de vez em quando; ambiciona chegar a ser, em todas as áreas, uma maneira de vida; um estilo de vida [...] Em resumo, o rock visa a valores essenciais, através do que se liga às aspirações da cultura elaborada; eu ousaria dizer que por seus objetivos que ele se diferencia da cultura escolar, pelo menos de uma cultura escolar que vá até o fim em suas exigências próprias de ajudar os jovens a encontrar a própria alegria, o próprio caminho. Ele rompe, desta forma, com as músicas ligeiras e fáceis, e também com muitas músicas medíocres (SNYDERS, 2008, p. 148).
Entendemos, portanto, com base nas afirmações de Snyders (2008), que o rock supera a contestação ingênua, percorrendo um caminho que busca respostas em âmbitos que garantam a satisfação cultural ao educando.
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## O Rock no Espaço e suas Possíveis Categorizações
O rock surgiu como uma manifestação cultural, vinculada à cultura adolescente da década de 1950, que incorporaria diferentes estilos musicais como o folk, o blues, o jazz, o country e o gospel (FRIEDLANDER, 2010). Para Florent Mazzoleni (2012, p. 136), a canção 'Rocket 88', escrita por Ike Turner e gravada por Jackie Brenston & His Delta Cats , em 1951, é tida como o primeiro sucesso do rock n' roll. A canção fazia referência ao automóvel V8 Oldsmobile 88, que na época era o 'carro mais rápido das estradas americanas'. O termo rocket da canção é um exemplo da relação entre a mídia, ciência e tecnologia, pois era retirado da propaganda do automóvel, que associava o veículo a um foguete espacial.
No decorrer da década seguinte, diversos conjuntos e artistas, influenciados por movimentos de contracultura, se despem da ingenuidade em suas letras para assumirem posições críticas e profundas acerca da sociedade. Conforme nos aponta Rodrigo Merheb (2012), a partir de 1965, artistas como Bob Dylan, The Beatles e The Beach Boys , buscariam novas sonoridades e trariam um espírito de contestação. É nesse espírito que muitos desses artistas refletiriam sobre a exploração espacial. Podemos identificar o fetiche pela exploração do espaço em canções como 'CTA-102', do The Byrds em 1967, 'Astronomy Dominé', do Pink Floyd em 1967 e em 'Space Oddity', de David Bowie em 1969.
Conforme investigamos anteriormente (GOMES, 2016), na década seguinte, diversos artistas do rock progressivo, como Van der Graaf Generator, Genesis, Hawkwind, Yes e Rush , extrapolariam, construindo longas canções com epopeias espaciais. Mas isso não seria exclusividade do rock progressivo, bandas como Black Sabbath e Queen também demonstrariam essa influência da corrida espacial em suas músicas.
No entanto, é importante ressaltar que, não apenas nesse período, a astronomia, a ciência e a tecnologia estão presentes nas letras do rock. Diferentes grupos como bandas de heavy metal Iron Maiden e Mastodon , bandas que reiteram o rock progressivo e o psicodélico como a estadunidense The Flaming Lips e a inglesa Muse , bandas alternativas como a inglesa Arctic Monkeys e a estadunidense Red Hot Chilli Peppers e o rock brasileiro como My Magical Glowing Lens e Cidadão Instigado são exemplos contemporâneos de conjuntos de rock que reiteram um discurso sobre espaço sideral em suas canções.
Por conta da necessidade de sistematizar as canções e propor atividades que estabelecessem uma relação entre os temas científicos das canções e o seu contexto epistemológico, histórico e social nos valemos das categorias estabelecidas por Piassi (2007), em suas 'Esferas do Conhecimento Sistematizado":
I)Conceitual-fenomenológica (Esfera C): relacionada aos produtos da ciência, como os conceitos, fenômenos e leis que categorizam esse processo. No caso de nossa pesquisa, podemos associá-la às questões conceituais e fenomenológicas relacionadas à exploração espacial, seja por conta da energia e interação entre os corpos celestes, às consequências espaço-temporais verificadas pela Teoria da Relativiade e às propriedades físico-química-biológicas dos corpos celestes.
II) Histórico-metodológica (Esfera H): relacionada aos processos que tangem a ciência, como sua história, filosofia e metodologia. Neste caso, podemos associar os temas às questões internalistas de História da Ciência, seja por conta dos
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cientistas envolvidos no processo de exploração do espaço ou nos protagonistas dessas missões. Além disso, é válido ressaltar nesse item as questões Epistemológicas e da Natureza da Ciência, envolvidas na exploração do espaço.
III) Sociopolítica (Esfera S): relacionada aos aspectos externos à ciência, fruto das 'inter-relações entre sociedade e ciência', conforme define Piassi (2007, p. 76). Conforme verificamos anteriormente, a exploração espacial contemporânea tem sua origem no conflito ideológico, a 'Corrida Espacial' entre os Estados Unidos da América e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviética. Neste caso, podemos identificar, nas canções, discursos ideológicos e as descobertas científicas desse período que foram aplicadas em tecnologias na sociedade.
No caso desta pesquisa, a partir das esferas mencionadas, identificamos temas comuns à exploração espacial e estabelecemos um modelo geral, conforme na tabela a seguir:
Tabela 01: Esferas do Conhecimento Sistematizado em Exploração Espacial
A partir dessas categorias, fizemos um levantamento de canções da cena contemporânea do rock, e através de referenciais discursivos fizemos uma análise desses produtos culturais. A análise de discurso, conforme afirmação de Maingueneau (2008, pág. 153) sugere uma prática interdisciplinar que integra a 'natureza da linguagem e da comunicação humana' com a sua 'dimensão cognitiva', inscrita em atividades sociais. Utilizando referenciais da análise de discurso, podemos identificar de que forma esses produtos culturais dialogam com o contexto histórico de produção. Para isto, nos recorremos a estudo do processo de enunciação dessas canções. Para Maingueneau (2004), a cenografia está vinculada à narrativa, ou seja, a narrativa da letra da canção e a forma como os temas são abordados. No caso de todas as canções, se valem de narrativas que envolvem situações de exploração do espaço, seja através de viagem espacial ou de observações da natureza. A cena genérica, entendemos o produto como resultado de uma situação discursiva de interação social em que a relação entre enunciação e enunciado deve ser considerada. Neste caso, analisamos a relação entre o artista e o seu público alvo. Já a cena englobante está relacionada à instância de produção, ou seja, as condições em que o produto cultural foi produzido. Tais análises podem ser observadas na tabela a seguir
Tabela 02: Álbuns Analisados
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É válido notar que, excetuando as bandas brasileiras, todos os outros conjuntos analisados estão presentes na indústria cultural e possuem uma inserção entre os jovens. O quadro abaixo representa os temas a partir das esferas do conhecimento sistematizado (descritos na tabela 01), sendo identificados a partir da análise discursiva das canções, do ano e da região em que cada uma delas foi produzida.
Tabela 03: Canções Selecionadas
É possível observar no trabalho desses artistas a presença de diversos fenômenos, aspectos históricos e sociais acerca da exploração do espaço. Apesar
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da presença midiática da exploração espacial não possuir a mesma popularidade do período da guerra fria e da corrida espacial, temos observado a presença da mesma em produtos da cultura primeira dos estudantes.
## Mídia, Exploração Espacial e os Estudantes
Nos últimos anos, ações como os vídeos do astronauta canadense Chris Hadfield 1 demonstrando o cotidiano na Estação Espacial Internacional no ano de 2013, o lançamento de uma nova temporada da série Cosmos pelo astrônomo Neil deGrasse Tyson em 2014, originalmente e o lançamento da foguete 2 Falcon Heavy 3 pela empresa SpaceX em fevereiro de 2018, popularizaram novamente a exploração do espaço. Nesse sentido essas canções dialogam com esse momento histórico de popularização da exploração espacial.
Entendemos que o uso crítico de produtos culturais como essas canções de rock, permitem um processo de alfabetização científico-tecnológica. Nesse sentido, podemos nos apoiar em Auler (2008, p. 70), que argumenta que a alfabetização científico tecnológica propicia uma "leitura critica do mundo contemporâneo, cuja dinâmica está crescentemente relacionada ao desenvolvimento científicotecnológico, potencializando para uma ação no sentido de sua transformação'.
Os estudantes da educação básica estão habituados a presenciar temas relacionados à exploração espacial em diversos produtos da cultura pop: canções, desenhos animados, animes, histórias em quadrinhos, filmes de ficção científica, entre outros. Esses produtos vinculados à cultura primeira dos mesmos, tornam-se meios de divulgação científica em situações não-formais de ensino. Por conta desse aspecto, a presença de tais produtos culturais em atividades de ensino é relevante em processos de ensino e de divulgação científica.
## Considerações Finais
Em atividades de ensino e de divulgação científica anteriores (GOMES, 2016), identificamos que o uso de canções do rock permite um estranhamento cognitivo com os jovens. Esse estranhamento se dá por conta de não identificarem a associação imediata de conceitos científicos em canções e reconhece-los a partir de um processo de mediação. Mesmo quando o jovem não tem o hábito de ouvir rock, estabelece uma conexão com a canção e atinge processos de satisfação cultural, pois se reconhece nesse estilo musical como uma cultura jovem. Temos verificado esses aspectos em atividades que envolvem o uso de canções em atividades de ensino, para estudantes de Ensino Médio, na disciplina de Física e em projetos de divulgação científica em escolas de ensino fundamental.
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## Referências
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FRIEDLANDER, Paul. Rock and Roll: uma história social. Rio de Janeiro: Record, 2010.
GOMES, Emerson Ferreira. Astros no rock: uma perspectiva sociocultural no uso da canção na educação em ciências . Tese (Doutorado) Instituto de Física, Instituto de Química, Instituto de Biociências e Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2016.
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MAZZOLENI, Florent. As raízes do Rock . São Paulo: Cia. Editora Nacional, 2012.
MAINGUENEAU, Dominique. Análise de Textos de Comunicação. São Paulo: Cortez, 1994.
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MOREIRA, Ildeu de Castro; MASSARANI, Luísa. (En)canto científico: temas de ciência em letras da música popular brasileira. In: História, Ciências, Saúde Manguinhos , v. 13 (suplemento), p. 291-307, outubro 2006.
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PUPO, Stella Cêntola et al. Cantoras Pop e Super Heroínas: debatendo ciência e gênero por meio de videoclipe. PARADOXOS, v. 2, p. 8-19, 2017.
SILVEIRA, Marcelo P; KIOURANIS, Neide Maria N. A Música e o Ensino de Química. In: Química nova na escola , São Paulo, n. 28, p. 28-31, maio 2008.
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VIEIRA, Renata de Almeida. Georges Snyders: por uma pedagogia da alegria e do antipreconceito: subsídios para a formação de professores . Maringá: Eduem, 2016.
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